José Saramago

18 Junho, 2013

Saramago: assinalo a sua presença, hoje, três anos depois de ter partido...


"Aceitemos então que estamos sozinhos e, a partir daí, façamos a nova descoberta de que estamos acompanhados – uns pelos outros. Quando pusermos os olhos no céu estrelado, com a furiosa vontade de lá chegar, mesmo que seja para encontrar o que não é para nós, mesmo que tenhamos de resignar-nos à humilde certeza de que, em muitos casos, uma vida não bastará para fazer a viagem – quando pusermos os olhos no céu, repito, não esqueçamos que os pés assentam na terra e que é sobre esta terra que o destino do homem (esse nó misterioso que queremos desatar) tem de cumprir-se. Por uma simples questão de humanidade."  
JOSE SARAMAGO
extraído do faceBook

Gonçalo M. Tavares, também contribuiu para que me decidisse... não me deixei estar

"...Eu, de facto, gostava de querer, simplesmente, não interessa o quê, gostava de ter vontade de algo, mas nada. Entende?
- Entendo, sim senhor.
- Diante do mundo frio ou quente, encolho os ombros. Diante dos baixos e dos altos encolho os ombros, diante dos convites e dos ataques encolho os ombros. Enfim, começo a ter dores musculares.
- Onde?
- Nos ombros.
- Entendo. Mas sabe, o meu problema é diferente do problema de Vossa Excelência. Vossa Excelência, diante de um caminho que vira para a direita e um caminho que vira para a esquerda... não vira para lado nenhum. É isso? Senta-se, por assim dizer, a meio do cruzamento. É assim?
- Mais ou menos.
- Pois, comigo é o inverso: quero ir ao mesmo tempo para os dois lados; tenho duas vontades exactamente opostas exactamente ao mesmo tempo.
- Como? Como?
- Vou repetir: tenho duas vontades exactamente opostas exactamente ao mesmo tempo.
- Agora entendi. Vossa Excelência fala muito rápido.
- Mas é isso. Bem que facilitaria ter agora uma vontade e dois minutos depois a vontade oposta. Se fosse assim, apesar de tudo, resolver-se-ia. Mas assim: ter duas vontades exactamente opostas exactamente ao mesmo tempo... assim, é impossível viver.
- Impossível.
- É que eu viro os meus olhos para um lado e os meus pés para o outro. Tropeço, claro, e acabo por não ir para lado nenhum. No fundo, acabo como Vossa Excelência: no meio do cruzamento, imóvel.
- Eu diria que ter duas vontades opostas ao mesmo tempo é o mesmo que não ter vontade nenhuma. Acaba sempre na imobilidade.
- É isso, excelência. É uma questão de matemática: duas acções com sinal contrário igual a... zero. Mais sete menos sete igual a zero.
- Portanto, como o final é o mesmo eu diria que a minha não acção é mais sensata: não faço força nem para um lado nem para outro, deixo-me estar.
- E está bem assim."
Gonçalo M. Tavares (aqui)

16 Junho, 2013

Carta aberta, dirigida aos meus vizinhos e aos meus amigos, explicando (algumas) razões porque aceitei ser candidato.

Tudo começou nesta foto (Comissão de Moradores da Medrosa, 1975). Depois continuou quando os filhos destes, e seus amigos, a editaram e comentaram (no facebook, em Janeiro de 2010). Ontem aceitei ser candidato, mas as razões são fáceis de entender. Os que se surpreendem também terão razão, mas os tempos que vão correndo.exigem que à generosidade do movimento voluntário de solidariedade social a que assistimos se junte a solidariedade cívica de que a comunidade também carece. 
Caros vizinhos, 
Dirijo-me a vós em primeiro lugar por serem a extensão da minha própria família: Foi entre vós que vivi e vi o tempo e a vida irem correndo; foi entre vós que as minhas filhas se foram educando, alargando laços e crescendo; foi no logradouro à frente das nossas janelas que, com a vossa ajuda, plantei uma árvore, entre terras nuas e ervas num bairro que, então, era considerado clandestino;  foi perto do nosso bairro que um livro escrito por mim, foi apresentado. 
Ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro é o que basta, dizem, para um homem se sentir feliz e realizado, mas não é verdade. Uma família, um bairro, uma comunidade e os tempos que vamos vivendo, exigem de mim, mais que isso. E é por isso que aceitei figurar na lista de candidatos à autarquia que se espera poder continuar a estar perto de nós. Os bairros são seres vivos. O ciclo da vida de um bairro é mais longo que a vida de qualquer de nós, abrange muitas gerações e eu quero e desejo que o meu bairro seja feliz para todas as gerações que o venham habitar. Que o bairro seja mais que a memória do que foi.  
E a história do bairro começa naquela fotografia, com alguns dos rostos (e só alguns, dos muitos) que deram ao bairro aquilo que ele hoje consegue, apesar de tudo, ainda ser. E é a minha expressão  "apesar de tudo" que me move. É que o bairro corre o risco de se descaracterizar se não mantiver os traços da sua comunidade. Existe o risco que dele apenas fique, em alguns, a saudade daquilo que foi. Se for eleito bater-me-ei pelo meu bairro, podem crer! 
Caros amigos, 
Falei do meu bairro como primeira razão da minha decisão, mas existem mais. A freguesia também corre o risco de deixar de ser o que era. Oeiras e São Julião da Barra vai ter de se juntar a Paço de Arcos e Caxias. Talvez uns se limitem a entender que é mero arranjo administrativo, sem ver outros riscos nem perigos. Num concelho desigual (muito desigual) poucos se apercebem de como esta alteração pode ter implicações. Implicações na prestação de serviços de proximidade. Pode-se, por egoísmo, pensar que Oeiras será sempre uma ilha de bem-estar... mas será? Quem garante que determinados serviços só passarão a estar garantidos noutras localidades? E como garantir a qualidade desses serviços? E como melhorar a nossa forma de viver e de estar, nestes tempos de pressão a caminho de um empobrecimento já por muitos sentido e ao qual a própria Câmara não escapa? É também por isso, e para que ao movimento de solidariedade social e ao indispensável e generoso voluntariado se junte a solidariedade cívica, que eu aceitei ser candidato.
Caros vizinhos, amigos e conhecidos, esta carta já vai longa falarei de tudo isto e de outros aspectos na próxima quarta-feira às 18,30h, na sessão da CDU, no Auditório Municipal do alto da Barra.  
Se quiserem aparecer...


Rogério Pereira 

15 Junho, 2013

Poesia (uma por dia) - 43


Rastejar é sua sina (*) 
Esvoaçam com belas plumagens
Esses pássaros de rapina
Pensando que ganham asas
Rastejar é sua sina

Suplicam por atenção
Nem se suportam de vaidosos
Por fora é só beleza
Por dentro são rancorosos

É de inveja que se alimentam
Quando outras aves ousam voar
A vida só pode girar num sentido
Aquele em que se julgam brilhar

Faço versos e não sendo poeta
Vejo a vida como ela é
É que embora sendo diferentes
Nenhum de nós morre de pé

Preste amigo bem atenção
Porque é com razão que lhe digo
Para muitos sendo o que são
Tão pequenos, são só umbigo. 
Maria João (Pequenos Detalhes)
(*) Poema que a Maria João me 
deixou num comentário a um poema 
meu: "Saudação aos umbigos da nação"