28 junho, 2015

A Independência Nacional, a Moeda, o Poeta (e, como pano de fundo, a Grécia)



Hoje, com todo o dramatismo, falou-se da Grécia. Houve, há pouco, quem dissesse que a saída do Euro nunca deveria ser um acto único mas um processo. Há que ligar o hoje ouvido a outras coisas ditas. E até ditas por poetas, com as palavras justas contra gestos desajustados... Oiçamos!


RESGATE
 
Entre nós e o futuro há arame farpado
levaram o que se via além de nós
não resta mais que a ponta do nariz
como esperar agora o inesperado?
Somos do Sul e o saldo somos nós
contra o bezerro de oiro o teu quadrado
o poema tem que ser o teu país.
 
Entre nós e amanhã há uma taxa de juro
uma empresa de rating Bruxelas Berlim
entre hoje e o futuro há outra vez um muro
resgate é a palavra que nos diz
tens de explodir o não dentro do sim
não te feches em torres de marfim
o poema tem de ser o teu país.
 
Toutinegras virão cantar contigo
e os melros que se escondem entre vogais
e o morse aflito e rouco da perdiz
nas sílabas que avisam do perigo
e as lanças das consoantes e os sinais
por dentro das palavras que mais
do que palavras são o teu país.
 
Oiço dizer Europa mas Europa
é uma nau a chegar ao nunca visto
Flor de la Mar: e o Mundo em tua boca.
Navegação: madre das cousas. Isto
é Europa. País no mar. E vento à popa.
Não este não arrisco logo existo
de cócoras à espera de uma sopa.
 
Um cheiro de jasmim a brisa nos salgueiros
entre nós e o futuro um silêncio nos diz.
O saldo somos nós: trinta dinheiros.
Pátria minha quem foi que te não quis?
Entre nós e o futuro a terra e a raiz
e a Flor de la Mar e os velhos marinheiros
e o poema onde respira o teu país."

27 junho, 2015

Um texto de Gonçalo M. Tavares publicado na imprensa Grega

texto em Maio de 2012, parece de hoje
.
Queixei-me de que os intelectuais se auto-demitiam de um espaço de intervenção.
Publico o Gonçalo M. Tavares, e com prazer reconheço que vou perdendo razão.
  .

1. Sobre a Europa (Os anos Pavlov e outras considerações imaginárias)
(...)
Um homem que tem uma dor na Europa deve ser tratado, parece-me. Claro que há órgãos que podem ser extraídos, porém aqui talvez não. Será que podes extrair e deitar fora um órgão da Europa? Há algo que substitua as suas funções?
 
2. Diálogo sobre a Europa
- Posso fazer-lhe uma entrevista?
Ok.
-Falemos de Europa?
Sim.
- E de Pavlov.
Ok. Tudo bem.
Na experiência de Pavlov os cães salivavam, primeiro só com o prato mesmo vazio, depois bastava o som dos sapatos de quem trazia a comida, depois com apenas a campainha. Enfim, uma longa aprendizagem. Não havia comida, mas o organismo e a fisiologia do cão reagiam como se houvesse.
- Portanto, a questão é esta: se substituirmos um cão por um continente o que acontece?
Se os procedimentos forem proporcionalmente idênticos aos procedimentos levados a cabo por Pavlov e pela sua equipa, a Europa também salivará, mesmo sem alimento à sua frente. Salivará só com o som que anuncia a entrada do alimento.
E claro que podemos sempre substituir a saliva pelo medo. A Europa, quando escuta certas palavras que anunciam desgraças, começa logo a tremer, a ter medo, a assustar-se, a pôr-se debaixo da mesa da cozinha ou debaixo dos lençóis da mamã. Eis uma síntese.
- Estamos portanto diante de uma experiência de Pavlov, a grande escala?
Exacto. Não é necessária a desgraça em si, basta o seu anúncio. Tem os mesmos efeitos.
O importante não é um acontecimento, mas sim os seus efeitos
Compreendo.
Por exemplo, um tremor de terra. Mesmo que não exista um tremor de terra, se nós partirmos as casas ao meio, se abrirmos buracos na rua, etc., obteremos os mesmos efeitos.
Portanto, se virmos casas partidas ao meio, tectos caídos, buracos na rua, podemos concluir: houve um terramoto. Mesmo que não seja verdade.
Eu diria, em suma: os efeitos são a verdade.
- Os efeitos são a verdade.
- O cão saliva. A Europa assusta-se e põe-se debaixo da mesa.
Exacto.
Poderemos designar este período como Os Anos Pavlov da Europa.
É um belíssimo nome.
Ou talvez melhor A DÉCADA PAVLOV da EUROPA.
A questão é esta: em vez de colocares um único cão a salivar sem alimento à sua frente, só por causa do toque da campainha… condicionamento clássico…colocas milhões com medo também só com o toque da campainha.
- Mas pode um continente comportar-se como um cão?
- Pode.

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