25 janeiro, 2015

Geração sentada, conversando na esplanada - 81 (Depois de Clístenes, foi Sólon a aderir ao KKE)

(ler conversa anterior)
«Poderemos designar este período como Os Anos Pavlov da Europa.
É um belíssimo nome.
Ou talvez melhor A DÉCADA PAVLOV da EUROPA.
A questão é esta: em vez de colocares um único cão a salivar sem alimento à sua frente, só por causa do toque da campainha… condicionamento clássico…colocas milhões com medo também só com o toque da campainha.
- Mas pode um continente comportar-se como um cão?
- Pode.»
Gonçalo M. Tavares, de um texto editado na imprensa grega

«Clístenes, um aristocrata da época, liderou várias reformas em Atenas, e ao invés de ficar ao lado dos tiranos, preferiu ficar ao lado do “povo” e se tornou soberano, precisamente no ano 507 a.C., sendo sensível com a pressão social que reivindicava participação nas decisões públicas e no poder. Não foi fácil Clístenes tomar o poder, a população teve que o tomar pela força...»
Luciano Baptista, in "A Democracia Ateniense Clássica"

Soalheira, a manhã trouxera à esplanada uma frequência rara. Do outro lado, as professoras mantinham uma conversa agitada, sem que conseguisse perceber o tema da desavença. "Estão assim há tempo", dizia-me o velho engenheiro desfiando o bolo que ia dando ao rafeiro, que pela gulodice abanava a cauda e passeava a língua pelo focinho inteiro. "Com que então voltou a editar o Gonçalo, pensava que o tinha arrumado!" disse  para me picar e iniciar a tertúlia. "Quem o arrumou foi o jornal, meu velho. Foi o jornal. Não sei se reparou, mas um redator batido ocupou-lhe o espaço. Veja..." e estendi-lhe o Noticias Magazine.
- Não posso crer... mas voltando ao que hoje escreveu, acho que nunca falou da Grécia!
- Até me assumi grego. Já fui Clístenes. Já fui Sólon... a eles se deve a Democracia. Hoje seriam militantes do KKE...
- KKE?
- É um partido. Se não o sabe localizar, deite-se lá a adivinhar: Clístenes, instituiu que o poder deve pertencer a um colectivo e que quem ameaça a Democracia deve ser condenado ao ostracismo, Sólon produziu lei que além de perdoar dívidas e as hipotecas que pesavam sobre os pequenos agricultores, aboliu a escravatura por motivos de dívida. Que tipo de partido defende hoje mais ou menos isso?
- Pois, entendi!, o Syriza tem a vitória assegurada? irá coligar-se com o Partido Comunista?, se for maioria absoluta, não precisa!
- Se o Syriza começa com essa aritmética... quem prescinde hoje de um Clístenes, de um Sólon?
- E ficam milhões com medo!
- Pode ser, vamos ver... a década de Pavlov na Europa está posta à prova.
- Basta uma pequena campainha, e a Europa ensaliva!
- Baba-se, não sei se de medo se de raiva!

24 janeiro, 2015

Violetta? Quem é?

A Maria, já vossa conhecida, passa imune e ao lado modas e pragas. A loucura da Violetta é o que se vê. Mas ela não liga. Com a personalidade própria de quem se julga (e é) senhora de todos os exércitos, não perde tempo nem dispersa o gosto com o formato nem o considera festivo. Prova-o na escolha do vestido. Foi uma escolha demorada, e depois as meias, das quentinhas, pois de manhã cai geada e a tarde vai esfriar. Os adereços são escolhidos a combinar...
(não sei se de manhã terá escolhido outra roupa)

22 janeiro, 2015

Natália Correia - vida com sentido: "Não há revolta no homem que se revolta calçado..."



Ainda estava com os comentários deixados ontem ao meu escrito sobre o ALA a pairarem-me na incerteza de se a escrita não coloca responsabilidades maiores a quem lida magicamente com ela, quando leio um texto a introduzir um evento. "Natália Correia - vida com sentido", era o título da página "Tribuna Literatura". O evento era (foi) promovido pela Fundação Mário Soares. Leio tudo e desisto de me insurgir perante grosseiras omissões. Apenas me ocorrem versos daquele belo poema "Do sentimento trágico da vida" que há tempos inseri num daqueles momentos de endeusamento aos deuses, que o foram na escrita e na vida. Descreveu o colunista, que também terá participado na homenagem, o itinerário dessa "presença vigorosa na sociedade portuguesa". Infelizmente Natália Correia só está no coração e na memória de quem a respeita, pois se estivesse entre nós irromperia pela sala e com a frontalidade que lhe era característica, cobraria aos presentes a responsabilidade pela concretização da premonição:
«A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista.»
Natália Correia, in "O Botequim da Liberdade"
É pouco provável que alguém da assistência se tenha erguido e lembrado isso...
Que falta nos faz a Natália!

20 janeiro, 2015

António, o cordeiro (e um Lobo chamado Antunes) - II


Ainda a pergunta não estava totalmente formulada e já antevia a resposta. Adivinhava-lhe o conteúdo, pois a forma surpreende, e muito. É (continua a ser) um deus no estar e na encenação da palavra. O rosto brinca com ela como se fosse a sua própria escrita. A voz pausada insinua uma profundidade ao que vai dizendo. Essa insinuação de profundidade é mais forte que a própria resposta. Dir-se-á que em televisão o tempo é estreito para se espraiar o pensamento, mas também é um excelente álibi para se poder concluir que ainda não foi desta vez que o Lobo devorou o António. O homem continua igual e é preciso ser muito crente para esperar que mude. Se Deus existisse segredar-lhe-ia ao ouvido, não o que ele esperaria ouvir, mas o pedido divino que gostasse um pouco menos dele próprio e um pouco mais de todos nós...

nota: suponho que a entrevista emitida na RTP1 é apenas parte da que mais tarde será editada. Esperemos.