15 agosto, 2018

Serviço Militar Obrigatório, a outra face da mesma questão!

Diz o meu Partido
«A política de Defesa Nacional e as Forças Armadas mantém as amarras ao projecto de militarização da UE e aos interesses estratégicos da NATO, subalternizando a missão constitucional das Forças Armadas, de defesa da soberania e da independência nacionais, privilegiando as missões internacionais e de participação em forças multinacionais, num processo em que o aumento da nossa inserção e participação externa aumenta o nível de degradação das capacidades e condições no plano nacional, nomeadamente ao nível do pessoal, do armamento e equipamento, e da resultante operacional.
No fundo, trata-se de uma inversão de prioridades, em que as necessidades de financiamento decorrentes do envolvimento externo do País e das Forças Armadas têm prioridade face à necessidade de investimento na capacidade militar nacional, ao nível dos meios humanos e materiais, para o exercício da soberania em todo o território nacional.»

14 agosto, 2018

Serviço Militar Obrigatório? Só o PCP? Vejamos porquê!


Nos últimos tempos, o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, segundo li aqui, tem lançado para debate uma possível reintrodução do serviço militar obrigatório (SMO), mas nenhum partido com assento parlamentar parece estar disposto a apoiar a iniciativa – a não ser o PCP. Vejamos porquê:
Miguel Tiago* - Por vezes não se trata de escolher o que julgamos perfeito. O que está em causa não é "queremos smo ou nada militar nem obrigatório", o que está em causa é se queremos smo ou um regime de "voluntariado" pago. O que está em causa é se queremos que a tarefa de defesa nacional seja de todos ou se queremos que seja apenas uma tarefa dos que, por falta de opções ou por vocação, escolheram a via militar.
Queremos que pobres, ricos, rapazes, raparigas, brancos e pretos tenham a tarefa ou preferimos deixar a guerra para os pobres que procuraram emprego nas ffaa ou para os que sentem vocação militar? Eu quero que as ffaa sejam o povo. Não mercenários com vocação nem pobres sem opção.
O único caminho para a desmilitarização é pôr as armas na mão do povo. Exigir forças armadas profissionais, mercenárias ou similares, é abdicar do direito à defesa e do direito à revolta. Se o 25A tivesse sido tentado num contexto de serviço militar pago e profissionalizado, não apenas não teríamos as ffaa na vanguarda como as teríamos tido a matar o povo que se rebelou.
*retirado do FaceBook

13 agosto, 2018

Há quem pense que a FESTA cai do céu...

Domingo. Pela manhã, antes da hora aprazada, paro no sítio onde costumo, para beber um cafezinho e peço, a pessoa amiga, para me sentar.  Os cumprimentos do costume e depois, entre um sorvo e outro, falamos do tempo e de mais algo de que não me lembro, até que interrompo.
- "Desculpe lá, mas tenho de ir!"
- "Já?"
- "Sim, vou até à Atalaia!"
- "Mas a Festa não é só lá para Setembro!"
- "É se a formos, jornada a jornada, construindo!
Vi-lhe espelhada no rosto a surpresa, não por eu ir, mas por a FESTA não cair do céu...


"Rogério, estás enganado!
A serralharia mecânica é ali ao lado "

12 agosto, 2018

Um conto ao Domingo - XXI ("UMA NOVA HUMANIDADE")



 O primeiro sintoma – Levantou-se mais cedo de que era seu costume e sentiu-se como há muito não se sentia, sem contudo se dar bem conta de como de facto era o seu sentir. 
Lavou-se, barbeou-se e, como sempre, encaminhou-se para a cozinha onde preparou o frugal pequeno-almoço. Bebeu a caneca de leite olhando através da janela. Deu um primeiro olhar em volta e depois um outro, detendo-se em todos os pormenores do que se avistava dela: a praceta, os logradouros, o carro do vizinho da frente que saía, a rua transversal onde o trânsito ainda era raro. 
Fixou-se nos pombos que sempre por ali esvoaçavam e depois no Tejo, ao fundo. Encheu os pulmões do ar fresco da manhã. Ia estar um maravilhoso dia de fins de Junho, pensou. Bebeu o resto do leite e foi-se vestir. 
A mãe, que se cruzou com ele no corredor, deu-lhe o sorriso matinal, “tão cedo?”, comentou como quem cumprimenta. Respondeu com uma piada a que ele próprio achou graça e sorriu, por dois motivos, pela própria graça dita e como resposta ao cumprimento. Poucos minutos depois saía. 
No caminho cruzou-se com o vizinho, que vivia no terceiro andar do prédio ao lado do seu. Cumprimentou-o sorridente com “bom dia, passou bem” que nunca antes acontecera, em tantos anos de vizinhança indiferente. Mal pronunciou um “Bom dia, tudo bem?” e continuou o caminho com destino à esplanada, onde contava ler o jornal e planear como preencher o dia. 
Ao passar junto ao logradouro, o da palmeira grande, no canteiro que lhe desenhava o limite com o empedrado, deu-se conta daquilo que, se antes existia, lhe passara totalmente despercebido. As plantas, não muitas, mas todas as que havia e que rodeavam os agapantos roxos e brancos, apresentavam hastes novas e viçosas. Hastes novas, viçosas e de cores diferenciadas das hastes velhas ou se não velhas, das que já existiam antes destas e que pareciam ser rebentos novos. Novos e estranhamente mais belos. Pareciam enxertos a partir dos quais a planta primitiva deixaria ser o que até ali tinha sido. Calhando a natureza era assim que procedia sempre que qualquer planta crescia. Ele é que estaria diferente e hoje, por qualquer inexplicável razão, é que de tal se dera conta. Curvou-se e estendendo a mão, partiu uma das hastes novas. A seiva projetou-se como se dentro dela uma força inusitada a expelisse em jorro. Estranhou, sem ter a certeza de ter razão em estranhar.
Tirou um cigarro e prosseguiu, esquecendo aquele pequeno reparo mas culpando-se de nunca reparar nas coisas belas e de nem sempre saber desfrutar delas. Ia a meio do seu primeiro cigarro e sentiu-se ligeiramente agoniado como se o seu organismo pela primeira vez, em já muitos anos de vício, invertesse o sentido do apelo, quase exigência, de tão longa dependência. Deitou fora o meio cigarro, pensado que lhe saberia melhor o que fumaria depois de bebido o café. 
Entrou no centro comercial e comprou o jornal. Desceu ao piso de baixo, onde ficava a cafetaria e no balcão, fez o cumprimento habitual e o habitual pedido: “Pago dois e levo um”. A empregada, mil vezes o ouvira pedir assim o seu primeiro café, antecipando o pagamento de outro que beberia cerca de uma hora depois, mas comentava sempre aquilo que considerava ser um pedido com espírito engraçado. Saiu com a chávena na mão. A saída naquele piso dava acesso a uma pequena esplanada. Pousou o café e o jornal e sentou-se no seu canto. Antes mesmo de passar os olhos pelos títulos do dia, tomou a decisão de passar à procura mais ativa de emprego. Desacreditara que o envio do curriculum poderia dar qualquer resultado prático. Nem bebeu o costumado segundo café, que ficara pago, fez-se à vida. Tudo indicava que aquele dia ia ser diferente, e foi com essa certeza que dali partiu

Mais sintomas – Contrariamente ao sentimento que nela se tinha instalado, de medo e insegurança, naquela manhã sentia-se diferente. Não, não era o retorno da confiança nem o instalar de qualquer ideia nova quanto ao futuro. Não sabia explicar. Não havia razões para ter outro sentimento do que aquele que há mais de um mês a tomara. Da sede já tinham chegado ordens para antecipar o fecho dos projetos de investigação em curso, e os dois estagiários tinham sido já dispensados e cortadas as bolsas para financiar mais ocupações de recém-licenciados.
Tinha falado com o namorado há minutos e ambos tinham comentado esse bem-estar inexplicável. “Vem da alma”, disse ele e ambos riram. Tinham em comum a certeza de que compete às almas tarefas menores na procura da sobrevivência do corpo, entregue às vicissitudes de um tempo pouco favorável ao que todos designam por futuro. Combinaram encontrarem-se ao fim da tarde e desligaram com a brincadeira do costume: “Desliga tu”, “Não, tu primeiro”, para de seguida desligarem ambos ao mesmo tempo.  
De momento estava a redigir o parecer da instituição sobre o último relatório referindo alterações quanto às previsões do aumento de mais uns centímetros do nível da água do mar. Fazia-o com o desagrado de quem pratica uma rotina que nada tem a ver com trabalho científico. Até os jornais do dia já referiam, em antecipação, a notícia sobre aquilo a que pomposamente chamavam parecer. Importante seria, isso sim, dar continuidade aos estudos de impacto sobre os ecossistemas marítimos e sobre a fauna costeira, quer do aumento desse nível, quer em consequência do aquecimento dos mares.
A Marília, funcionária administrativa, veio interromper-lhe os pensamentos e o trabalho. “Doutora, o professor pede, para quando puder, passar lá no gabinete”. Não tinha mais dúvidas, era chegada a temida mas esperada altura. Por educação e espírito metódico tinha aprendido e desenvolvido a espontaneidade de associar às observações sistemáticas de uma tendência os efeitos inevitáveis sobre a forma de consequência: o professor iria anunciar-lhe que o seu trabalho ali tinha terminado. Que iria deixar de ter verba para poder ser continuado. 
Alisou o cabelo com ambas as mãos. Tinha o consolo daquele inexplicável bem-estar interior e quis colocar na apresentação alguns retoques para que o seu parecer estivesse ao nível do seu sentir. Ensaiou algumas palavras de circunstância e que seriam de manifestar compreensão. Rejeitou liminarmente a ideia, que chegou a passar-lhe pela mente, de se insurgir contra a atual situação. De resto não saberia exatamente que palavras usar nesse cenário de reação.
“Posso?”, perguntou ao entrar no amplo gabinete do professor. “Senta-te aí, e espera só um pouco.” Sentou-se e esperou, procurando não pensar em nada. Não pensado não corria o risco de se afastar do discurso de resignação que tinha preparado. Enquanto esperava olhou em redor para perceber a possível origem daquele odor ligeiramente florado, embora ténue, que sentira até mesmo antes de entrar. O professor não usava flores no gabinete e nem tinha por hábito usar qualquer perfume. Suspendeu a procura percebendo que o professor a olhava fixamente.
O ar dele era carregado, a testa ligeiramente franzida e enquanto reconduzia os óculos à posição certa, num tique comum a todos os que usam óculos, iniciou a conversa com uma voz pouco condizente com o seu ar sério, pois era como se estivesse na sala de aula, a transmitir em tom didático uma teoria. “Doutora, temos aqui matéria de elevada preocupação”. Pareceram-lhe aquelas palavras um tanto deslocadas para iniciar o discurso esperado, mas admitia que o professor estaria a passar, tal como ela, por uma experiência nova e que, para ele também dolorosa, carecia de rodeios. 
“Desde ontem que estão a chegar, por via diplomática e com classificação de reservado, relatórios que têm origem em vários centros da comunidade científica.” 
Estendeu-lhe uma pasta “Tem tudo aí, leia e prepare-se para uma reunião que está a ser coordenada pelo Porto, mas que se vai realizar aqui com gente de todo o lado. A ministra da tutela já está inteirada e virá assistir ao final da reunião para participar nas conclusões. Os diretores das diferentes instituições e centros estão já a trabalhar sobre esta mesma informação” à medida que o professor ia falando as feições iam-se descontraindo como se aquela simples transmissão lhe aliviasse a tensão provocada pelo segredo que estava a ser partilhado. 
O mesmo se passava com ela que, à medida que o ia ouvindo, se iam dissipando os receios para no lugar deles se instalar a curiosidade e a perceção de estar perante questão de grande gravidade: “E de que se trata, professor?”, “Todos esses documentos, oriundos das mais diversas partes do mundo, referem baixas impressionantes na salinidade da água do mar. Há dados, como os do golfo de Omã, onde a água é praticamente a de um rio… e nem uma única espécie marinha a ser atingida a ponto de essa alteração lhe causar a morte. Há no meio dessa papelada relatórios de especialistas de biologia genética e biologistas moleculares que dão conta de mudanças inexplicáveis em todas as espécies analisadas. Por enquanto apenas foram detetadas modificações morfológicas visíveis em dois pontos muito distantes, um no Chile outro na África do Sul… a comunidade piscatória desses países ainda não reagiu e a imprensa até há duas horas atrás não sabia de nada.” 
Interrompeu e olhou o relógio para depois propor “Vá doutora, já passa um pouco das 11, se achar bem mandamos vir alguma coisa para comer e ficamos por aqui. Acha que 2 horas lhe bastam para ler tudo isso e falarmos de seguida? “ A resposta foi um sorriso, ambos sabiam bem quanto gostavam, uma e outro, trabalhar sob pressão…

Como se fosse a primeira noite – Ele e ela encontraram-se à nova hora aprazada, depois de ela lhe ter ligado a dizer que iria chegar só à hora do jantar e que jantariam no mesmo restaurante onde dois anos antes o fizeram juntos pela primeira vez. Durante a espera do que escolheram para comer e durante o tempo em que comiam não falaram de outra coisa para além do que tinha mudado as suas vidas. Ela falou, vagamente, do projeto e da reunião convocada de emergência. Ele falou, sem detalhes, do conteúdo do seu novo trabalho. Falaram deles e dos planos de vida que imaginaram passar a poder ter. Saíram da cidade. 
Para onde foram prolongaram a noite, trocando gestos de afetos, alongando beijos e caricias até os corpos se darem uma e outra vez, sob o olhar conivente das flores cujas pétalas se ruborizavam contrastando com as cores daquele leito de erva refrescada pela brisa da noite e pelo humos de uma terra que se agitava, ela também, sob a volúpia dos amantes. Amaram-se como se fosse a sua primeira noite.  

Três meses depois – A médica ia dando pequenas instruções e olhava atentamente o monitor por onde ia seguindo os pequenos movimentos do feto, sempre que premia a barriga. Parecia não estar tudo bem mas como não conseguia interpretar o que via, para além do que considerava normal, comentou “está aqui um rapagão” e ia pensando se iria recomendar ou não a antecipação da próxima ecografia.
Ele olhava embevecido ora o rosto dela ora o monitor, onde se percebia que a médica ia fazendo pequenas operações e registos. Depois fez uma impressão cuidada e guardou o máximo de imagens em arquivo, muito para além do recomendado pela direção clínica.
Passou receita de exames ao sangue, sem explicar o motivo, nem ser questionada por isso e despediu-se entregando as receitas, papeis e a cópia da ecografia. “Daqui a um mês, quero voltar a vê-la.” O casal olhava com o olhar com que olham os casais que tomam a consciência de irem ser pais. As mãos entrelaçaram-se e saíram conversando, felizes e se questionando sobre o nome a dar ao menino. Fechada a porta, a médica mandou avisar que não estava em condições de ver as duas grávidas que aguardavam a consulta, alegando razões da sua própria saúde. Passados curtos minutos entrou no gabinete a diretora clínica, que entretanto chamara. “Então, que se passa?”, “Veja isto, é de uma parturiente com 11 semanas e meia e que acaba de sair…” Passaram as duas a ver, repetida e demoradamente a sequência de imagens sem chegar a qualquer conclusão. “Parece normal e nesta primeira “eco” nem sempre, para todos os casos, é possível ter a mesma nitidez”. A doutora apenas questionava: “Mas os olhos? Os olhos?” A resposta obtida manteve-se inconclusiva.

Quatro meses depois – As notícias sucediam-se vertiginosamente. A cada novo alarme ou simples referência a mais um fenómeno inexplicável, correspondiam quase sempre notícias credíveis e tranquilizadoras asseguradas por instituições competentes e oficiais que sustentavam não estar em risco a saúde pública, nem os equilíbrios ecológicos e outros. Nem sequer havia a registar que a extinção de elementos considerados fundamentais não tivessem sido substituídos por outros, alternativos, para a sustentabilidade dos sistemas necessários à vida. Foi assim com a mudança radical ocorrida nos mares, em que se contavam apenas alguns raros locais onde subsistia a água salgada. A maior parte de todos os oceanos passara a ser constituída por água doce sem que as espécies marinhas, peixes, crustáceos, bivalves, algas e corais não se tivessem adaptado com a mesma rapidez com que a mutação evoluía.
Em todo o mundo a comunidade científica mantinha-se em atividade, 24 horas por dia, e em ligação permanente, com milhares de fóruns ocorrendo em simultâneo, na sua maior parte com recurso à vídeo-conferência. Se dias antes o mundo científico tinha sido abalado pela confirmação de estarem a aparecer diariamente mais elementos químicos antes não conhecidos e em risco de conflituar com a lógica da tabela de Mendeleev, vinha agora a União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) dar conta de se estar a encontrar uma nova harmonia para todos os elementos da natureza. Sobre o que se passava com a cadeia alimentar tinha a Organização Mundial de Saúde dado extensa lista de alimentos que podiam ser consumidos apesar de se verificar a existência, em todos eles, de mudanças em consequência da deteção de novos ingredientes na sua composição organológica.
Em anexo, informava estarem em curso investigações aturadas sobre a composição da estranha erva rasteira, semelhante a beldroegas, e que começara há cerca de dois meses a aparecer em certas zonas de diferentes desertos, dos existentes em todos os continentes. Os primeiros testes, uns conduzidos por cientistas, outros resultantes da observação posterior às consequências de comportamentos incontrolados de animais e populações locais que ingeriam aquela estranha erva, apontavam para a quase certa possibilidade de, sem qualquer risco, poder ser comestível sem qualquer efeito de toxicidade ou outro, adverso. Parecia, e cada nova descoberta confirmava o que parecia, que um ser sobrenatural corrigia a natureza. Dando-lhe um odor, um dispor e novos equilíbrios no mundo. Em poucos meses a água deixou de ser um bem escasso, o ar passou a revitalizar os organismos e a alimentar sem reservas todos os seres vivos, passou a haver sustento onde a mingua há muito se instalara.
Tudo isto, ele ia pensando, passando ao lado da notícia do dia: “As reservas de petróleo na Arábia Saudita foram consideradas ineptas para todo e qualquer uso. O rei saudita, contudo, resiste em autorizar a paragem dos trabalhos de extração, esperando que um milagre altere esta nova realidade. Entretanto os países da OPEP reuniram de emergência, para analisar a situação. ”

Sete meses depois – Ela ainda não tinha chegado. Solicitada a todo o momento e porque a gravidez evoluía sem quase se dar conta que portava no ventre um novo ser, ela aceitava todas as pequenas e grandes tarefas, desde as de laboratório às de discussão ou divulgação dos processos de investigação dos projetos que liderava. Ele, para encurtar a espera, ligou a televisão num canal de cabo, para as últimas notícias. Parte das que iam dando não lhes ligava e o pensamento ia-se dispersando por outras coisas. Não lhe saía do sentido a consulta de semanas atrás nem a imagem a três dimensões da última ecografia do filho, dos comentários e recomendações da equipa clinica e dos relatórios que lhe tinham apresentado…
Para desviar a atenção desses pensamentos esforçou-se por recordar os impactos dos últimos acontecimentos e a desordem que ia pelo mundo: o colapso do sistema financeiro, a suspensão de toda a atividade bolsista em todas as praças e as primeiras reações dos governos dos países ricos, céleres a imputar a responsabilidade de alterações tão profundas a nível planetário associando-as a atos terroristas e ao pretenso uso de armas químicas. Lembrou como tais explicações se voltaram contra os países que as deram, pois o mundo assim se encaminhava para ser perfeito.
Suspendeu os pensamentos para fixar a atenção numa reportagem: grandes nomes de reputados políticos, grandes empresários, banqueiros e titulares de grandes fortunas, mais de cem personalidades conhecidas por pertencerem ao Clube Bilderberg, permaneciam reunidos pelo quinto dia consecutivo. Os donos do mundo não sabiam que fazer dele.

Nove meses depois - Entraram no hospital sob escolta e elevado número de agentes afastavam a multidão de repórteres de agências internacionais, jornais e cadeias de televisão de todo o mundo. Lisboa tinha atraído mais de dois milhões de pessoas não sabendo elas próprias ao que iam.
Estava acordado com todas as autoridades, que nada passaria para o exterior. Até a conferência de imprensa da equipa médica não estava confirmada. Dentro do hospital universitário, na ala que tinha sido a escolhida para o esperado parto, tudo parecia seguir um guião pré-estabelecido dada a certeza e calma com que os preparativos decorriam. Não fossem as quatro câmaras de filmar e os múltiplos cabos espalhados e tudo estaria como costumava estar uma sala de partos. Nos dois anfiteatros, situados no piso inferior, repletos de médicos e outros especialistas, conversava-se em várias línguas, como se sussurrassem orações a um deus que todos consideravam ter reconhecido que se enganara ao ter produzido o primitivo universo. Outros, poucos, davam-lhe o protagonismo dos milagres ocorridos, depois de terem inicialmente apontado que o que estava a acontecer ao mundo era obra do diabo. Sustentaram essa ideia até se perceber que as profundas e radicais mutações vinham em auxílio da humanidade e de novos equilíbrios no mundo.
Ela, que sempre fora bela, tinha, na serenidade do rosto, confirmada essa beleza que a gravidez acentuara. Ele segurava-lhe a mão com o carinho de sempre. O chefe da equipa clínica veio avisá-los que tinham mais uns minutos e depois teria início o parto, a que ele não podia assistir. Quase em simultâneo, os altifalantes dos dois anfiteatros faziam o mesmo aviso. Assim, poucos minutos decorridos, era-lhe aplicada a epidural e uma ténue sedação. O protocolo dos procedimentos cirúrgicos da cesariana foi seguido meticulosamente pela equipa experiente. O que ia acontecer era, de todos, conhecido. Naquele momento, para aquela equipa não se tratava de enfrentar surpresas mas de usufruírem o privilégio de serem os primeiros a contactar com um novo ser. Um ser diferente de toda a gente. O primeiro de uma geração que deixaria para trás a forma conhecida até então como normal.
O bebé chorou, mas os olhitos pequenos pestanudos e bem desenhados permaneciam fechados. Pela primeira vez aconteceria que quando eles se abrissem para o mundo, o mundo se espantaria por estar a ver assim: Dois olhos iguais aos demais e, dentro de cada um, duas pupilas brilhantes e pequeninas, para alcançarem mais do que se lhe quisesse mostrar.

Um ano depois - Dos mais de 17 milhões de nascimentos registados, nem um só registava os olhos como os tinham os pais dos novos nascidos. Estudo realizado dava a evidência científica, podendo-se ler no relatório distribuído à imprensa: «Das duas pupilas dos novos seres, a mais pequenina, apresenta uma espécie de nervo óptico que liga o olho ao coração. Assim, é provável que estejamos em presença de uma nova humanidade, e esta possa estar mais apetrechada para lidar com adversidade ou até a anular. Só nos resta esperar».
Ele e ela sorriram orgulhosos, tinham sido os primeiros pais de um Novo Mundo

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Nota final - Na versão original publicada o conto não termina exactamente assim, alterei depois de ter lido isto