22 abril, 2017

O administrador do condomínio


O condomínio é um condomínio de prestigio, ainda que haja, entre os muitos que aí residem, quem passe por dificuldades na vida.  
O condomínio teve tempos em que o  condómino administrante se repetia de eleição em eleição. Era um homem de presença forte, humor que baste, de ironia fina e se alguém com ele se zangasse, desarmante, sorria. 
Ninguém sabia, até se saber, que o condómino do quinto frente, teve ferragens renovadas, à conta do arranjo da fechadura da porta da entrada. 
Favor do administrador que, prestável, estendeu o serviço do rés-do-chão ao quinto.
Ninguém sabia, até se saber, que o condómino do último piso recuperou o terraço por conta da reparação do piso da garagem. Favor do administrador, prestável, que estende a obra do terraço à garagem.
Ninguém sabia, até se saber, que o sexto esquerdo, o vigésimo quarto direito, e outros quantos condóminos foram servidos por amáveis serviços. 
Quando era chegada a hora da prestação de contas, na reunião de condóminos, havia quem comentasse que o condomínio era caro mas, de pronto, se elevavam as vozes referindo o prestígio de se viver em tal condomínio, que em todo o país não havia vida mais feliz.
Perante o plano de obras e o correspondente orçamento o administrador voltava a ser reeleito. E foi assim, durante muito tempo.
Hoje, depois de ausência forçada, o ex-administrador está de volta. 
E diz o condómino da cave esquerda, em casa onde o sol mal entra.
«O homem "onera"! Mas qu´importa, se faz obra...»
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NOTA DO AUTOR: O referido condomínio é ficção e o dito administrador é personagem inventada, qualquer  semelhança com a realidade é mera coincidência.

20 abril, 2017

Poesia (uma por dia) - 92


INACABADA FLOR DE ABRIL
Hoje vi com os meus olhos
uma santa mulher
asfixiar um pássaro
nas mãos
só para desenhar no chão
a dor que sentimos

chamei-a
para deixar nas areias
um beijo côncavo
até a memória arder
os últimos barcos
e as algas discernirem
de olhos abertos
todos os ritmos das marés

chamei-a
para esgrimir contra
a invenção dos destinos
erguer o seu corpo
recolher todos os grânulos disponíveis

Hoje vi uma mulher amada
esculpida na praia
a despontar nas areias

inacabada flor de Abril

Eufrázio Filipe
(poema a incluir na próxima colectânea)

19 abril, 2017

Poesia (uma por dia) - 91


MINHA LOUCURA

Depois de muito andar, muito perder, muito lutar,
dizem-me: «Para quê?»
Eu digo simplesmente: «Para viver melhor.»
Dizem-me: «Como assim,
se tu vives bem? Que queres mais, diz?»
Eu respondo sem jeito: «Não sei.»
É o que desejo para todos,
e digo para comigo: «Claro que estamos bem!»
E continuo a trabalhar o mais que posso
para uma glória total,
com inocência
e às vezes com tanta claridade
que essa luz quase me agride.

Gabriel Celaya
“El hilo rojo”