14 fevereiro, 2010

Alqueva. Afinal já mexe. (pouco, mas mexe) – IV

Reclama um dos meus amigos que o Expresso tem todo o direito em promover Alqueva. Diz ainda que, fazê-lo nos termos em que o faz, só tem a ver com as opções dos jornalistas. Ele diz que não tem visto, nos meus posts anteriores sobre o tema, onde é que eu vejo a informação golpista.

Vou ao Expresso (papel) com a fúria de lhe responder. Preparo o texto para montar este post e vou ao Expresso (na net) para o documentar. Não consigo. No Expresso on-line o dossier sobre o Alqueva, perdeu a valência agrícola. Não acreditam? Vão lá ver. Está aqui. O Expresso diz uma coisa de um lado e esconde do outro. Não tem razão o meu amigo. Graças ao PiG, a água vai toda para turista ver e usar e, subsidiariamente, para produzir energia.

Num caderno de Economia de um jornal de referência, estar-se a fazer promoção de venda de imagem (publicidade paga?) é aceitável, diz ele. No estado que está a imprensa, e pensando bem, mal não faz. No estado em que está a economia, pensando bem, faz muito mal.
Porquê faz mal?
O Expresso passou a ignorar a valência agricultura, e as culturas de regadio, eu não:
  • Mais olival, como comenta o Expresso. Sim senhor. Cultura mediterrânica com impacto relevante na verdade. Aquela que acabará por vir ao de cima. Venha olival, preciso que o nosso azeite seja reconhecido. Nessa altura deixarei de avinagrar estas conversas.
  • Mais tomates. Sim senhor. Os alentejanos não têm tomates. Só não sei se esse cultivo não acabará concorrendo com os ribatejanos, deixando-os sem tomates. A Bayer diz "O tomate constitui uma cultura agro-industrial extremamente importante para Portugal. Existem cerca de 16.000 hectares para indústria, sobretudo para a produção de concentrado, da qual cerca de 90% são exportados". Há esse risco? Não sabemos, o Expresso não disse. O risco é para os espanhóis? Espantem-se, investimento estrangeiro visa concorrer, no Alentejo, com o tomate espanhol. Ontem no Pingo Doce, o tomate espanhol tinha o monopólio (todas as qualidades, todas: Cherry, em ramo, alongado e redondo), daqui a uns anos lá estarão. Vindos de onde? Não sabemos, o Expresso não disse. Quanto a mim, o meu amigo pode ficar descansado. Os tomates que os alentejanos vão passar a ter, destinam-se a exportação. Irão animar “La tomatina”.
  • Mais morangos. Sim senhor. Os alentejanos que venham cá ao meu bairro, compram hoje na loja Pingo Doce morangos, em caixa-coração, para o Dia dos Namorados vindos de Espanha. Quem não gosta desta ideia é o Miguel Araújo, um reputado fundamentalista das culturas mediterrânicas, que abomina os morangos e outras coisas “made in Alqueva” (ver esse texto medonho, aqui) . Liguei-lhe para o descansar: “É pá, tem calma. Aquilo é para concorrer com os “Morangos com Açúcar”, a ver se aquela praga vai de vez” (espero não estar a ser escutado…).
  • Mais regantes: Sim senhor. O Sr. Ministro da Agricultura diz que vai haver “mais regantes de grande dimensão e que muitos pequenos se irão associar para ganharem massa crítica”. Vai é faltar massa para os pequenos pagarem a água de Alqueva. Isso o Expresso não disse. Também não tinha de dizer. O Expresso limitou-se a fazer um artigo promocional para a venda de terrenos naquele território. O resto virá depois…

Voltarei ao assunto Alqueva em data próxima. Talvez dia 18, vá lá saber-se porquê.