24 abril, 2010

Escolas da minha vida: Escola Preparatória Nuno Gonçalves

O painel na entrada parecia avisar-me: Nesta escola aprenderás grandes coisas...
Entrei confiante na escola e no primeiro dia de aulas marquei pontos. Um matulão tomou conta de mim e não passei por torturas tremendas de “calduços”, “roda muda” e “amostras”. Nada como entrar com o pé direito numa dimensão até aí desconhecida. A imponência do edifício, tantos professores, imensos espaços de aula e recreios e muitos, muitos e barulhentos miúdos… Depois, depois foi bom.
O mestre de Trabalhos Manuais, na sua bata azul, lá batia de vez em quando, com uma régua vigorosa, na primeira bancada. O som soava com ressonâncias mil. Era assim que ciclicamente a turma silenciava, temendo que atrás do trovão surgisse alguma faísca disciplinar. No 2º ano, com o mesmo mestre, fiz um bonito candeeiro. Uma ancora de madeira com grossa corda entrelaçada e que o próprio professor electrificou.
As aulas de português eram vivas. Frequentemente teatralizávamos textos. Por certo entusiasmado, o professor resolveu fazer algo de mais criativo com o tema da revolução de 1640. Roupas e cenários a sério, com a colaboração dos pais. Textos adaptado por um grupo. Fiquei magoado com o meu papel de traidor. Mas eu era o mais pequeno Miguel de Vasconcelos da turma, era o único que cabia no armário…
Em Canto Coral, fui cooptado para o orfeão. Em Desenho, fui cooptado para um grupo restrito de criadores e pintar tudo e mais alguma coisa, Recordo o deslumbramento quando vi a minha obra, depois de passar pela mufla da Cerâmica Viúva Lamego. Era um prato decorativo com as imagens de uma cegonha e uma raposa com dizeres que já não recordo, mas que seriam certamente alusivos à fábula de La Fontaine.
Estes grupos funcionavam às 5ªs feiras, mas acabaram. Em sua substituição passamos a ter uma outra preparação para a vida. Fardados, mas já não de bata branca.. Passei a ter de marchar, fazer continência…
Isto, não só estragou o resto desse meu ano lectivo de 1957, como me marcou para o resto da minha vida...