27 abril, 2010

Que fazia eu em Angola (1969/71) com uma arma na mão? (2)

Continuação

De armas e bagagens rumo ao Andulo/Nhareia – Terras de domínio de Savimbi, foi-nos concedido aí merecido descanso. Com outro comandante (o primeiro foi castigado por um sem número de zombarias em Maquela do Zombo) a vida afigurava-se pacata e calma. Contudo, as “baixas militares” continuaram. Sem qualquer violência, as prostitutas lá foram propagando doenças venéreas à velocidade da ignorância dos “amantes” no que respeita a preceitos básicos de prevenção mínima. Continuou-se aí a difusão de leituras e discos, agora sem a exuberância revolucionária que a anterior “Universidade Livre” tinha patrocinado. Ainda eu, mal tinha passeado o meu bastão (oferta do soba lá do norte) e mal saboreado frutas-pinha (anonas), mangas, abacates e outras iguarias que Lisboa desconhecia, quando dois acontecimentos viriam a reforçar a minha impressão que a guerra colonial estaria por um fio: o novo comandante, também este castigado, iria ser substituído; Andulo/Nhareia foi sol de pouca dura e desta vez teríamos que voltar a pegar em armas e bagagens, rumo ao Umpulo. Três capitães em pouco mais de um ano era uma média preocupante...

Na vila de Nhareia, à paisana para me dessimular de mim mesmo, armado do bordão que o soba me tinha oferecido

De Nhareia ao Umpulo vai um pulo – Umpulo era terra também de domínio da UNITA, situa-se a umas poucas dezenas de quilómetros de General Machado e à beira do Rio Cuanza. Fomos para aí chamados para ocupar o lugar de uma unidade de recrutamento angolano. O efectivo (soldados negros) tinha-se sublevado contra o comando (oficiais brancos) e, pelo que corria, teria havido cenas horrivelmente chocantes. Depois de um inicio calmo, regressaram as operações. O MPLA estava a implantar-se na região tradicionalmente da UNITA. As nossas tropas não hostilizavam Savimbi. Savimbi e nós guerreávamos a UNITA. O MPLA punha-nos minas a centenas de metros do aquartelamento. Uma complicação, quer para entender quer para sobreviver. Com o passar do tempo e o agravar da situação foi então desencadeada uma operação de grande dimensão com tropas provenientes de várias regiões militares, reforços da Força Aérea e uma unidade de Cavalaria com …cavalos. Pela primeira vez tive enquadramento da competência realmente competente: os médicos. A estes devo o que se passaria depois. Depois. Depois de ter entrado nos copos, aí pelos primeiros dias de Dezembro de 1970, até sem ter saído deles dois meses depois. Por recomendação médica fui enviado, em missão sem objectivo, para Nova Lisboa. Sozinho. Sozinho e sóbrio!
Dos riscos de alcoolismo para outros riscos, na cidade do Planalto – Nova Lisboa. Cidade pequena e airosa que podia ser percorrida a pé em pouco mais de uma hora. Tinha três poisos esta ave que aqui escreve: a Biblioteca; o bar do Rádio Clube do Huambo; a esplanada do Ruacaná. Triangulando por aqui, cedo fiz amizades. Arrepio-me só de pensar a facilidade com que penetrei em determinados meios da burguesia local e entre alunos da Faculdades de Veterinária e Agronomia. Se fosse agente da PIDE teria feito grandes estragos no MPLA. Se alguém dessa polícia se tivesse infiltrado, teria eu algumas complicações. Pequenas, mas teria… O tempo esse passei-o a fazer coisas interessantes: criar um movimento de artistas. Jovens pintores e escultores locais propunham-se organizar-se em atelier-escola com o objectivo de trocar conhecimentos e permutar técnicas, promover a exposições de trabalhos individuais e colectivos. O projecto acabaria por ser abortado por medo. Medo não infundado perante notícias provenientes de Luanda: uma exposição de artistas de vários países africanos tinha sido proibida, algumas obras retidas e várias pessoas acusadas de que o certame estaria relacionado com pretensa recolha de fundos destinada a financiar a guerrilha. Com este desfecho só me restava aguardar pelo regresso, com passagem por Luanda.
Enfim em Luanda, protinho para o regresso - Não, não falo de 3 semanas passadas em Luanda. Merece outro post. Fica para um dia destes…

Epílogo: Só poderia terminar este texto com a resposta à pergunta que dá título ao post “Que fazia eu em Angola (1969/71) com uma arma na mão?" Resposta: Recolher indícios e provas que o destino não se adia por força das armas e que o povo angolano tem mais a ver com 25 de Abril do que este tem a ver com a libertação dos povos africanos. O gráfico abaixo ajuda a compreender isso mesmo, ilustrando que o crescente esforço imposto pelos movimentos de libertação não seria sustentável pelo regime.
Evolução dos efectivos deslocados nas três frentes da guerra colonial

Fonte: Guerra Colonial