22 junho, 2010

Vá para fora cá dentro, que ainda vai a tempo...

"Pelos caminhos de Portugal / Eu vi tantas coisas lindas vi o mundo sem igual", canta o cancioneiro popular, e assim faz Saramago, com a diferença essencial que a qualidade da sua escrita está bastantes furos acima. Uma viagem, se não pelo Portugal profundo, pelo menos por uma forma profunda de ver Portugal.» Pode ler-se isto no DN de 9 de Outubro de 1998, sobre o livro de José Saramago, cuja primeira edição é de 1981 (no decurso do governo de Pinto Balsemão).


A ORIGEM DE UM SLOGAN - É sabido que um numero significativo de mulheres facilmente se rendem à beleza da natureza a qual lhes provoca mornas contemplações e lhes desperta rimas de vento com lamento, rumor com amor e outras despidas de gente, pois só contam os passarinhos, os riachos e as suaves brisas agitando as copas das árvores.
A mulher de Cavaco Silva, que não é excepção, leu-lhe em voz alta algumas passagens daquele inesperado livro de Saramago, tais como: o passeio pela "grande e ardente terra de Alentejo"; "a noite em que o mundo começou"; o fascínio de "uma flor da rosa"e a passagem de lá, onde"é proibido destruir os ninhos"... Cavaco, aparentemente distraído a congeminar ideias-força para a sua campanha, exclama excitado: "Grande ideia, minha!" e de pronto explica como poderá agregar, em torno da sua candidatura, mais uns milhares de votos cavando eleitorado da esquerda. Diz-lhe a mulher, ligando-o à terra: "Olha lá, não estás a pensar referir este livro, pois não?". Ele responde, a medo "Por acaso estou!". "Não precisas, basta o slogan. Em período de crise ficarás bem visto sem ter de te meteres em pacificações que a direita não iria entender..." Sentencia ela, com o bom senso que ele sempre lhe reconheceu...

UM AVISO, OMISSO POR IGNORÂNCIA - Do diálogo do casal Silva, resultou um discurso conhecido mas sem aviso prévio. Com tal aviso Cavaco deveria ter dito "Vá para fora cá dentro, mas vá depressa". A tendência para a reduzida oferta interna e o facto de as rotas e os lugares de Saramago deixarem de existir a muito curto prazo, são uma realidade. Realidade desconhecida não só por eles, como também desconhecida (ou deliberadamente ignorada) por milhares de portugueses...

Claro que não me refiro ao fecho de unidades de saúde, ao encerramento de farmácias, à deslocalização de escolas ou à transferência de serviços públicos dos correios, para centros urbanos de maior dimensão. Claro que não estou a lembrar as consequências pela fusão de alguns municípios, hoje por razões de dimensão, amanhã por não terem população. Claro que não falo do facto de Portugal continuar a ser o litoral e o resto ser paisagem. Claro que não dou voz às visões catastrofistas do geógrafo Álvaro Domingues, quando diz que "O centralismo quase genético ganhou novo alento com a União Europeia e globalização"(...)"É uma combinação explosiva", diz ele "Pequena escala misturada com pouca diversidade funcional, se falhar um sector, pode ser o caos, em cidades como Bragança, Portalegre ou Beja." (...) "Estas capitais de distrito podem vir a desaparecer".

Claro que não falo de cada uma dessas coisas, mas da sua mistura ameaçadora e do facto do livro de Saramago já não reproduzir viagens possíveis de realizar com a esperança que ele punha nessas passagens. Portugal mudou...

Mudou, mas ainda não está maduro para a regionalização. À espera disso ficam o Governo e o PSD. Segundo o DN de hoje "Ainda não será nesta legislatura que a regionalização sai do fundo da gaveta. José Sócrates prometeu colocar o tema na agenda depois das presidenciais. Mas agora, com o País encalhado na crise, o Governo admite adiar esse projecto à espera de melhor oportunidade". A MELHOR OPORTUNIDADE SERÁ AQUELA ONDE SEJA POSSÍVEL OPTAR PELA SOLUÇÃO DO MAPA AO LADO (devidamente avinagrado).