26 dezembro, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 21

"Parece-me completamente impossível ler num ecrã de computador. Lamento. Sou do tempo do livro, do papel. Uma pessoa pode deixar cair uma lágrima sobre um livro. É mais difícil deixar cair uma lágrima sobre um computador. Creio que o livro, apesar de tudo, perdurará." Ao ler estas palavras de José Saramago redobro a motivação. Terei que (re)escrever o "...Meu Navegar" nesse formato. Contudo, não tenho a visão que não seja possível entrar com expectativa teclando um "ctrl+alt*Del" ou experimentar emoção sobre um teclado trocando o virar de página por um "enter" ou por um toque de "rato" sobre uma palavra mágica que vos leva ao texto certo ... Querem tentar? Cliquem aqui e vão parar lá a todo o conto de Natal que vos fará o coração saltar (os corações saltam, sabiam?)

HOMILIA DOMINICAL (extratos de um conto de Natal)

(...) Porque o Menino, a Criança é um menino, levanta-se da mesa, abre a porta, separa-se da Família e desce os três degraus de pedra que conduzem ao mundo. Ali adiante há um muro caiado, baixo, com uma varanda dando para terras ignotas. A Criança vai debruçar-se sobre o muro, deixa cair a cabeça sobre os braços cruzados, e o terrível nó das lágrimas desata-se dentro de si. Da casa vêm risos e vozes, alguém fala muito alto, e depois ressoam gargalhadas. Ninguém está pensando na Criança
(...) Mas ela tem os olhos fixos, está confusa, perturbada: o desenho mostra a invariável manjedoura, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena já sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
“Porquê?”, pergunta a Professora à Menina que fez o desenho. A Menina não responde. Talvez mais nervosa do que quereria mostrar, a Professora insiste. Há na sala os risos cruéis e os murmúrios de troça que sempre aparecem em ocasiões destas. A Menina está de pé, muito séria, um pouco trémula. E responde, por fim: “Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu”. Fez-se silêncio e a Professora pensou, assim o veio a contar mais tarde: “À Lua já chegámos, mas quando e como conseguiremos chegar ao espírito duma criança que pintou a neve preta porque a mãe lhe morreu?”.

Muitos anos depois destas histórias terem acontecido, contei-as a uma outra Menina, que me perguntou: “E eles ainda estão tristes?”. Nessa altura disse-lhe que sim, que há tristezas que o tempo não consegue apagar, mas hoje conforta-me a ideia de que talvez o Menino do Muro Branco e a Menina da Neve Negra se tenham encontrado na vida, e que talvez por causa deles o mundo já esteja a mudar sem que nós tenhamos dado por isso."

Um Conto de Natal de José Saramago

10 comentários:

  1. Passei aqui lendo. Vim lhe desejar um Tempo agradável, Harmonioso e com Sabedoria. Nenhuma pessoa indicou-me ou chamou-me aqui. Gostei do que vi e li. Por isso, estou lhe convidando a visitar o meu blog. Muito Simplório por sinal. Mas, dinâmico e autêntico. E se possivel, seguirmos juntos por eles. Estarei lá, muito grato esperando por você. Um abraço e fique com DEUS.

    http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

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  2. Caro Rogério
    Como já deve ter dado para perceber, não sou lá grande devoto do menino Jesus. Penso que ainda não é da idade que vai avançando.
    Mas este este Natal estive muito mais atento do que é costume. Senti especiamente que este Natal está a ser menos esperançoso do que é costume. Mas eu acredito que é possível alterar este (mau) estado de espírito. Sim acredito que os homens de boa vontade (se o quizerem )podem fazer isso. Impresionou-me a criança que pintou a neve de preta.
    Abraço

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  3. Meu amigo:
    Desconhecia este belo conto de Saramago.
    "“À Lua já chegámos, mas quando e como conseguiremos chegar ao espírito duma criança que pintou a neve preta porque a mãe lhe morreu?”.
    Só quem tem um sensibilidade ímpar consegue escrever assim.
    Boas Festas !

    beijinhos

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  4. De facto escrever no papel
    para que as palavras respirem
    é um momento único
    Até o nosso Saramago
    mais me surpreendia
    antes de se tentar pelo computador

    Para ti amigo
    que nunca te doam as mãos
    de preferência
    Tudo pelo melhor com um grande abraço

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  5. Caro Rogério
    Como diz em "estas palavras" de Jose Saramago, também eu, hoje ainda escrevo muito mais em papel do que no computador. Sensivilizou-me o facto de uma criança pintar a neve de preto. E eu ainda penso que o Universo é o mesmo, os homens é que mudaram.

    Beijinho

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  6. A tecnologia muda, evolui, mas os sentimentos são os mesmos.Terá sempre uma criança triste e um adulto com saudades de outros tempos... isso é ser humano!

    Querido, o natal já passou, agora que venha 2011 e o meu desejo é que seja um ano muito especial para vc, porque vc é especial e mora no meu coração.

    Bjs

    Salete

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  7. No licas-ontemehoje.blogspot.com está a partir de hoje outro desafio como despedida de 2010 e para darmos as Boas-Vindas a 2011
    Espero que apareçam por lá.
    Não é concurso, mas exige a presença e o empenho de todos.

    APAREÇAM E PASSEM PALAVRA.
    Beijinhos

    Licas

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  8. Rogério,

    Partilho com Saramago também este apego natural pelos livros, pelo papel, o seu cheiro, o próprio prazer físico do toque, o saber que estão ali à mão, amigos sempre disponíveis,incólumes a qualquer espécie de vírus, que os façam desaparecer.
    “Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu”.
    Como se pode ler numa tela esta frase dita por uma criança?

    Gostei muito de entrar neste blog.




    ps: Ao fazer aquele rodriguinho do bold das pipocas devo ter apagado o comentário principal...!

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