13 fevereiro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 27

No Fórum Social Mundial de 2003, foi lida uma carta de José Saramago. Li-a há 27 semanas atrás e decidi, na altura, fazer um post salientando passagens dela citadas. Desde essa data me tornei apóstolo de suas palavras e, todas as semanas, faço como o camponês sineiro da cidade de Florença que tocou pela morte de “Ninguém que tivesse nome e figura de gente” pois as Homilias, que escrevo desde então, são “toques a finados pela Justiça, porque a Justiça está morta.
Hoje, se Saramago fosse vivo em corpo, voz e mão, escreveria outra carta ao Fórum Social Mundial que encerrou na passada sexta-feira. Diria provavelmente palavras semelhantes, mas sublinharia que o sino de Florença e o aí acontecido há quatrocentos anos foi, no Cairo, substituído por outra tecnologia fazendo como que um tocar a rebate mobilizando a multidão à praça de Tahrir fazendo também ressuscitar a Justiça e com ela a Democracia. Escreveria ele palavras que Lula da Silva terá escutado, mesmo sem as escrever. Por ainda ecoarem as que escreveu em 2003, Lula terá dito isso que disse e o que anunciou fazer:

HOMILIA DE HOJE

"Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.
Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor."

Carta de José Saramago para o 3º Fórum Social Mundial - (texto integral)