27 julho, 2011

Poemas na praia (escritos para mim) - VII

I
O corpo
dengoso ia desenvolvendo
um andar, quase sem caminhar, lento,
voluptuoso,
ao encontro do que parecia ser seu destino
Tirou os olhos do chão
sem os colocar no ar
Virou para dentro de si
esse seu olhar
Parecia não ter visto outra coisa,
enquanto a densa teia a envolvia,
do que a asa que lhe nascia,
e também a outra, em síncrono movimento
Feliz, nesse encantamento,
falava com outras, suas iguais...
Falava da cor das asas,
da beleza dos locais
para onde iria voar
e das flores todas em que iria pousar,
do céu para onde nunca olhara antes...

Dissertava sobre seus amantes,
com a alma em cio
ouvindo das demais
conversas tão parecidas, quase iguais
em palavras gargalhadas
pois só estas, e não as graves,
passavam as paredes aveludadas
do casulo, sem entraves

Chegado o momento,
a parede se rompeu e saiu
Exercitou o bater de asas,
segura como nunca se viu
Voou na direcção do éden
sem lá chegar, mergulhando antes
em nunca experimentada escuridão.
II
Abri o livro disposto a ler
uma página qualquer
Entre a página aberta e a outra,
ali estava ela
a mais bela borboleta
parecendo ainda sorrir
num sorriso pueril

(borboletas-mulher, vieram comentar)

III
Confesso o meu insucesso
como poeta e comunicador...
Então um ser
que não olha o céu,
que não tem assunto
que não liga ao mundo
que virada a cada momento
só para dentro
que viveu suspirando a sua própria beleza
e a natureza
que não chega a cumprir sua missão
e acaba espalmada
a fim de ser só olhada
é coisa de tanta admiração?

Ah, mulheres
temos que um dia falar
olhos nos olhos...

NOTA: Há meses, sem pensar no destino escolhido pela Amy ("Amy Winehouse estava feliz como não ficava há anos", diz o pai")publiquei o poema
"Metamorfose IV" que aqui reproduzo parcialmente e ao qual junto um comentário, (meio triste, meio zangado) sobre o que pensam as mulheres perante uma borboleta vistosa, mas morta...
(a imagem, foto de J.Ferreira, foi tirada
daqui, com autorização da minha querida amiga FerNanda).