20 agosto, 2011

20 de Agosto de 1970

107 – “será a selectividade da memória a forma do corpo assegurar a sobrevivência da alma?” – Diz-se que a memória é selectiva e que guarda apenas emoções desde que elas não abalem a mente da gente. A mente, a minha, não é mais do que o Meu Contrário e ele não se sente hoje minimamente abalado. Segredo? Não se lembra de nada, nem dos primeiros beijos de chegada, nem o sentir dos corpos, nem o risos nem os sorrisos, nem os dizeres. Não se lembra. A Minha Alma, essa, também não. E julgo que o faz para se auto-proteger e, desse modo, proteger-me a mim próprio. Os esquecimentos da alma ocorrem quase sempre por instinto de sobrevivência, por necessidade fisiológica e, nalguns casos, pela própria incapacidade das almas guardarem sentimentos em confuso turbilhão. Assim, este episódio, que durou mais de um mês mas é centrado em vinte e quatro horas passadas, não o escrevo à custa das memórias mas dos factos, e dos indícios indiscutíveis, que provam que eles aconteceram. O primeiro facto é a própria data, 20 de Agosto de 1970, quarto aniversário do meu casamento festejado nas férias, interregno da minha comissão militar (não da guerra, que continuava e havia de lá estar ao regressar). Segundo facto, as fotos mostram-me uma alegria (antes e logo de seguida a esse dia), que não podia ser inventada, nem por mim, nem por minhas filhas, nem por ela, minha mulher. Há sorrisos, gestos e expressões que não mascaram o sentir dos corações. Terceiro facto, o dia foi passado a dois como testemunham as cartas, posteriormente trocadas, comentando o dia. Inventando um pouco sobre essas férias, diria que elas aconteceram sob a pressão do medo do regresso a Angola e da longa separação que se ia seguir... Longe da vista, longe da afeição?


Foto, com a Teresa e nossas filhas, João e Sandra - Agosto de 1970
NOTA: Este texto faz parte do livro que estou a escrever