14 agosto, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 44

Levantei-me cedo. Não tão cedo quanto queria. Mas mesmo apressado, não me dispensei de beber o copo de leite gelado, em sorvos lentos, à janela vendo o Tejo, como sempre fazia, olhando o destino fixado para aquele dia. Esse não era visível, pois para a margem esquerda, os olhos apenas chegam ao Cristo Rei. "Vou chegar atrasado", pensei julgando que a travessia da ponte seria lenta. Não foi. Parecia um domingo de outono ameno, nas nuvens e no transito. No percurso até à Quinta da Atalaia ia ouvindo a missa na Antena 1, primeiro apenas para não mudar de posto, depois na esperança, vã, de escutar palavras necessárias. Foi inconclusiva a audição pois a homilia proferida era tão redonda que não lhe descobri qualquer ponta, e ainda menos uma ponta útil à razão ou à alma. Já me acontecera ir à missa, mas com esse único desígnio, e também não fora bem sucedido. Chegado, distribuíram-me trabalho que nunca tinha feito antes, o mesmo acontecendo a mais outros dois da equipa de quatro em que me integrei. Talvez fosse essa a média nas centenas que por ali apareceram: apenas um em cada quatro tinha habilitação competente e artes de dirigir, ensinando para o que tinha de ser feito. Enchi-me de brio e de bem fazer um trabalho de carpinteiro. As primeiras tábuas serradas, em serra mecânica, foram-no a ritmo lento para não errar as medidas dadas, e ficaram certas após algumas pequenas afinações. As outras foram mais rápidas. Os três íamos progredindo no trabalho, como todos os outros, dispersos pela "cidade em construção". Pode gente assim ter fim? Acredito que não passaremos a mito, nem desapareceremos, a não ser o que o homem desapareça enquanto ser perdendo a parte racional retomando a figura do Centauro, mas sem ter assegurado que sua meia parte seja a de um cavalo...

HOMILIA DE HOJE

"(...) Há milhares de anos que percorria a terra. Durante muito tempo, enquanto o mundo se conservou também ele misterioso, pôde andar à luz do Sol. Quando passava, as pessoas vinham ao caminho e lançavam-lhe flores entrançadas por cima do seu lombo de cavalo, ou faziam com elas coroas que ele punha na cabeça. Havia mães que lhe davam os filhos para que os levantasse no ar e assim perdessem o medo das alturas. E em todos os lugares havia uma cerimónia secreta: no meio de um círculo de árvores que representavam os deuses, os homens impotentes e as mulheres estéreis passavam por baixo do ventre do cavalo: era crença de toda a gente que assim floria a fertilidade e se renovava a virilidade. Em certas épocas, levavam uma égua ao centauro e retiravam-se para o interior das casas: mas um dia, alguém que por esse sacrilégio veio a cegar, viu que o centauro cobria a égua como um cavalo e que depois chorava como um homem. Dessas uniões nunca houve fruto.
Então chegou o tempo da recusa. O mundo transformado perseguiu o centauro, obrigou-o a esconder-se. E outros seres tiveram de fazer o mesmo: foi o caso do unicórnio, das quimeras, dos lobisomens, dos homens de pés de cabra, daquelas formigas que eram maiores que raposas, embora mais pequenas que cães. Durante dez gerações humanas, este povo diverso viveu reunido em regiões desertas. Mas, com o passar do tempo, também ali a vida se tornou impossível para eles, e todos dispersaram (...)"

José Saramago - Extraído do conto "Centauro" (ler aqui na integra)