23 outubro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 54

Um livro que ainda não li, mas sei que fala de vivências que também vivi

Pode um homem procurar identidades com outro, até lhe assumir os tiques e procurar imitar-lhe palavras e ir até a um limite que a outros poderá parecer ridícula manifestação de perda da sua própria personalidade? Claro que pode. Pode e não surpreende. Acontece não só entre pessoas, mas entre pessoas e animais. Quem não se deu já por descobrir no rosto de gente, traços do cachorro que leva ao colo? É deslocada a comparação? Até pode ser... Mas não valorizo isso mais do que o valor em si mesmo, dos comportamentos que nos deveriam levar a identificar e a copiar quem admiramos. Em criança, garanto-vos que já fui "Tarzan", "Capitão Fantasma", "Pincipe Valente", "Tom Sawyer" e até "Mandrake. Juro-vos que nunca quis ser "Tin-Tin" ou o "Homem de Borracha". A humanidade estaria melhor se procurasse seguir os seus heróis, sabendo-os escolher. A humanidade estaria melhor se todos copiássemos humanos que valorizaram a marcha humana, ou pior se os modelos fossem déspotas, ditadores ou outros seres degenerados da raça. Tudo isto porque descubro a sobrevivência em mim dessa tendência de criança e "brinco" a sentir, para já, identidades com o meu herói. Saramago. Dou comigo a sentir a grata satisfação de ter frequentado a mesma escola. Dou comigo a ter o prazer de também ter, como ele, curiosidade por sinaleiros... Na sua autobiografia pode ler-se "Já eu tinha 13 ou 14 anos quando passámos, enfim, a viver numa casa (pequeníssima) só para nós: até aí sempre tínhamos habitado em partes de casa, com outras famílias."

A mim também me aconteceu viver assim... Porque julgam ter prometido à Jussara vir a falar da minha rua Morais Soares? Não me admirarei se em "Claraboia" vier a encontrar a dona Alice, o ti Zé Soeiro, o sr. Neto, a Geménia-a-russa, a Beta, o Wilson, a dona Perpétua... Se assim for não vale a pena eu escrever sobre o nº 27. Ele já terá escrito.

HOMILIA DE HOJE

Amanhã, não sei o que serei. Talvez desempregado. Não seria a primeira vez… Ignoro se sabe o que é estar sem trabalho, sem dinheiro e sem casa. Eu sei.
in “Claraboia” XVI - Por Fundação José Saramago
Quando a fita acabou, seguiu uma mulher. Na rua, perdeu-a de vista e não se importou. Ficou parado no passeio, a sorrir para o monumento aos Restauradores. Pensou que com um simples pulo ficaria em cima da pirâmide, mas não deu o pulo. Esteve mais de dez minutos a olhar o sinaleiro e a ouvir o apito. Achava tudo divertido, e via as pessoas e as coisas como se as estivesse vendo pela primeira vez, como se tivesse recuperado a vista após muitos anos de cegueira.
in “Claraboia” XVIII - Por Fundação José Saramago