28 novembro, 2011

Discutir o que somos e como nos expressamos, independentemente de se gostamos...

Há coisas que, inevitavelmente, fazem parte de nós... 
Rejeitá-las porque nos desgostam?, mas então o que é que ficaria?
I - Poucos anos depois de minha mãe ter deixado de ser uma das meninas da "loja nova" de Ermidas/Sado e de meu pai ter desistido de ser o rapaz da camioneta verde, que era fretado para tudo o que era transporte de carga, eu nascia e de pronto vínhamos para Lisboa, à procura de nosso destino. E porque o destino foi uma eterna procura dentro dos limites que o poder de então detinha, fomos andando de casa em casa e meu pai de emprego em emprego. Foram anos que não sei contar a não ser pelo que minha mãe cantava. Era de Amália o seu lamento. Se eu gostava? Pode-se lá gostar desse viver, desse cantar... 
II - Anos mais tarde, talvez uns quinze, outra a relação com a canção. No café Chaimite reunia-se, entre café e fumo, amizades feitas da proximidade de residência, à volta de livros de estudo e sebentas. Aos fins de tarde, a tertúlia era alargada a quem se chegava. No interregno da procura de um destino mais habilitado, aconteciam coisas que me alimentavam a alma. Foi nesse grupo - que também me deu janelas de compreensão do mundo - que ouvi pela primeira vez o "Embuçado". Já não me lembro o significado e o porquê de um grupo lembrar o Rei assassinado para, logo de seguida, cantarolar "Os Vampiros", tendo entretanto lido poesia dos livros idos e únicos, da instrução primária ("quem quer ver a barca bela/ que se vai deitar ao mar"). Coisas por certo ditas assim para distrair vizinhos suspeitos de poderem fazer denúncias...
III - Por essa altura, eram frequentes os encontros, os convívios e as jornadas de luta nos meios académicos por onde aparecia. Em quase todas se cantava. Sentados no chão (fosse qual fosse o chão) ouvíamos irmanados, as vozes, o trinar das guitarras, os fados, as baladas e as trovas. A pouco e pouco o fado foi sendo afastado. José Afonso diria, alguns anos mais tarde"Quando fui fazendo canções que me afastavam do fado de Coimbra nunca tive a atitude condenatória de dizer que o fado de Coimbra é uma grande merda, por isso acabou, ponto final. Naquela altura vivia-se um intenso período de actividade antifascista e tudo o que fosse tradição tinha de ser rejeitado. Foi uma atitude absolutista, de certo modo despótica, que foi necessário corrigir com o tempo e hoje está a ser corrigida."
IV - Convenci a Teresa e aquela que viria a ser minha sogra a ir ao concerto de Carlos Paredes, nas "Belas Artes". A sala estava apinhada e o concerto ia correndo como eu previa e Minha Alma esperava. Tinham sido ainda poucas as pautas tocadas, quando um coro de vozes berraram: "czardas, carzadas, czardas". As palavras gritadas eram acompanhadas por palmas. Digno, o mestre levantou-se e silencioso abandonou a sala. Num rápido momento a sala tomou-se de arrependimento e silenciosamente abandonou também o salão. Aquela que viria a ser minha sogra  ainda me perguntou o que se tinha passado. Acho que lhe terei respondido...
V - Passaram muitos anos (cerca de 40) e passei a escrever neste blogue.  A dada altura quis responder a mim próprio porque me sentia português. Encontrei várias respostas que acrescentam ao que atrás escrevi, isto, isto e ainda isto. Se gostei de escrever o que escrevi? Se gostei de viver o que vivi? Que importa gostar ou não, ficou-me na alma e hoje pertence ao mundo. (*)
VI - E o destino, pá? O destino vai sendo construído pelo poder, até isso assim deixar de ser.
 (*) Pena a exclusão do fado de Coimbra. 
A imagem foi roubada a um amigo recente