31 agosto, 2011

Faz hoje os anos que eu tenho e vai festejá-los connosco, na Festa (aquela, a que não há outra como ela)



"Às Vezes o Amor", na Festa do Àvante

(...)
E se um dia a razão
Fria e negra do destino
Deitar mão
À porta, à luz aberta
Que te deixe liberta
E do pássaro se ouça o trino

Por te querer
Vou abrir em mim dois espaços
P'ra te dar
Enredo ao folhetim
A flor ao teu jardim
As pernas e com elas braços

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
É cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo
(...)

------------------- Sérgio Godinho

30 agosto, 2011

Escolas da Minha Vida - Escola Industrial Afonso Domingues - 2

O Google Earth faz a "maravilha"
de me colocar a "escola da minha vida"
como se fosse uma encantada ilha

Somos a memória que temos e também aquilo que aprendemos, mesmo se neste último domínio a memória agora nos trai. Em certa medida, todas as escolas da minha vida concorreram para aquilo que sou. E porque não quero dar a parte fraca de mim, resolvi falar mais delas do que de mim próprio. A decisão de o fazer foi tomada há largos meses divulgando e elogiando coisas que se estão fazendo hoje. Depois falei da "quintinha dos meus avós" que não sendo escolinha no sentido literal do termo o foi efectivamente. Recordo de ter escrito que meu avô em poucos anos me ensinou tudo na vida (o resto que aprendi, foram meros aperfeiçoamentos desses muitos ensinamentos). Falei, de forma dispersa, da minha escola primária (um dia ainda lhe dedicarei um post). Falei, mais demoradamente do ciclo preparatório até chegar ao que estou a falar: a minha escola industrial. Escolho dois nomes para o fazer: José Saramago (aluno) e José Pedro Machado (professor)  
JOSÉ SARAMAGO (o aluno)

As oficinas onde decorriam as aulas de serralharia eram frias. Frias como aço, gelado, que tinha sido cortado para os alunos operarem. O ano lectivo, com tempos semanais abundantes para ali serem passados, compreendia um realização comum a todos os alunos: fazer uma cruzeta, duas peças bem limadas, encaixadas sem folga, e bem dentro de uma esquadria exigente. A ligá-la um perno roscado. Sucederam-se as aulas e  as sucessivas operações. As primeiras, de preparação do material, implicou a aprendizagem de máquinas diferentes, sua regulação e operação: a serra de corte, o limador, o engenho de furar e a fresa. As operações mais delicadas eram manuais. Delicadas e demoradas. O mestre, passeava-se de bancada em bancada vigiando o avanço e a esquadria. Horas a fio ou entremeadas com outras aulas, limando o aço, conferindo a esquadria antes que o mestre viesse corrigir o que estivesse mal. Era o tempo em que o pensamento se deixasse de concentrar na tarefa poderia por em causa horas do trabalho anterior. Por vezes tal acontecia pois não se consegue, sem treino, interromper a mente a quem tem 14, 15 ou 16 anos. Mais do que aprender a limar, a aprendizagem era a da concentração. A do domínio da mão sobre a alma, colocando esta quieta e calma. As vestes de operário, "fato-de-macaco", cumpriam, mais que o papel de proteger a roupa contra as manchas de óleo ou da limalha, a função da aprendizagem do significado do trabalho. Parece demagogia. Seria, se esse tempo passado tivesse ocorrido num só dia. Foi a maior lição de humildade por que passei. Como se sentiria Saramago a andar por ali e passar por tal? Teria certamente um sentir igual...
Continua

29 agosto, 2011

Escolas da Minha Vida - Escola Industrial Afonso Domingues - 1

Tempos difíceis, uma nova escola e a primeira relação com o dinheiro....

O primeiro dia de aulas foi vivido com o orgulho e a curiosidade de ter iniciado mais uma etapa da vida escolar. Nem por um momento sequer me lamentava de não ter enveredado pelo ensino liceal. Meus país também não, a impossibilidade de levar longe os estudos retirava do seu pensar outra hipótese que não fosse aquela. A escola, pela distancia, obrigava a transportes. Eléctrico ou autocarro, sendo este, embora mais caro, mais recomendável pois a carreira era de porta a porta. O uso do eléctrico, não só era mais demorado, como obrigava a caminhada, não longa mas considerada por minha mãe penosa, de subida da calçada, da Rua do Grilo até à Estrada de Marvila. Minha mãe queixava-se, naquele ano, serem as despesas com a escola mais do dobro do que fora no ano anterior não aumentado o magro salário de meu pai na mesma porporção, nem eram maiores as gorjetas recebidas, por cada "freguês" transportado no taxi que não era seu . O senhor Cunha, que partilhava o espaço da sua loja com a mulher, florista, sendo o seu negócio o aluguer de todo o tipo de livros de histórias e romances, aproveitava esse período para vender livros e material escolar, explicava que era  o facto de haver menor número de alunos naquele tipo de ensino - o industrial - o que encarecia  o preço dos livros. Mas minha mãe não se referia apenas a isso, mas ao custo dos transportes e a outros. É que, se não era necessária a bata, passou a ser exigido um fato, um fato-de-macaco, para usar nas oficinas de serralharia mecânica, disciplina considerada nuclear tal como o desenho de máquinas, a física e a matemática. Foi na agora quase arruinada Rua dos Fanqueiros, no  "armazém dos mal encarados" , assim alcunhado o estabelecimento por minha avô, sua grande cliente, por todos os que atendiam os clientes o fazerem sem dizer mais do que o estritamente necessário à compra e sem um sorriso, mas com muita paciência na escolha do tipo de tecido ou no padrão da fazenda. A compreensão de ter agravado o orçamento tornou-me mais responsável, mas, ainda assim, disponível para a prática de algumas, pequenas, intrujices como inventar um horário para possibilitar a deslocação a pé embolsando o dinheiro dos transportes para ser gasto em práticas poucos recomendáveis. A atracção era  o do "jogo do virinhas" e outros, de regras inventadas por sabidos para sacarem as poupanças dos caloiros e os viciarem na batota. Não prolonguei por muito tempo tal prática, valendo-me a auto-censura e outros atractivos onde gastar algumas poucas moedas por mim poupadas. Se minha mãe me dava o dinheiro para os transportes e eu o gastava noutras coisas, só mais tarde veio a ser questão, até por sentir que trair a confiança depositada em mim, tornava me incomoda a mentira. Antes de me questionar sobre isso surgiu a necessidade de o gastar mais bem gasto...  Assim, a minha primeira (e tardia) relação com o dinheiro, teria catorze anos, não é grande motivo de orgulho, mas sinto que faz sentido recordar isso...
Continua

27 agosto, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 46

Ser anti "Ars Gratia Artis" não é incompatível
com os meus "interregnos para coisas belas".
Seria bom se fazer tal, para coisas sérias...

Cedo, não tinha ainda 20 anos, quando recebi o meu cartão de cine-clubista. Frequentava regularmente sessões de ciclos criteriosamente planeados e acompanhava as então chamadas "criticas reflexas". Lembro-me de várias discussões, disputas e lutas. Mas tendo presente o mais marcante, recordo as reflexões proporcionadas. Delas, recordo a questão abordada, frequentemente, sobre o papel da arte, fazendo-se um quase consenso, entre os que participavam na discussão, que esta o devia ter. Costumo dizer, parece-me desde então, que a arte é a coisa mais importante, logo a seguir ao pão. Mantenho, no essencial, a ideia que tinha, apesar da evolução impressionante do cinema - já deslocado da primitiva definição de sétima arte, por serem inúmeras as artes e tecnologias que comporta. A arte deve questionar. A arte do cinema e as outras. Se o não fizer deixa de ser arte? Até pode ser uma questão importante, mas não a quero (voltar a) discutir. Aceitem, se quiserem, a teimosia da minha afirmação de ser absolutamente desnecessário um filme, uma canção, uma pintura, um texto, se dele não resultar um susto, um arrepio, uma raiva, uma dúvida ou, um pensamento novo ou uma reflexão sobre um velho. Mas, susto, arrepio, raiva, dúvida, pensamento ou reflexão, expressos com verdade (ou uma verdade). Ah, a homilia... tem a ver (só) com isto. Ia a falar da coerência entre a obra e o artista , mas falarei disso numa outra homilia. Ficará para outro dia...

HOMILIA DE HOJE
"Se o escritor tem algum papel é o de intranquilizar."
"O escritor, se é uma pessoa do seu tempo, supõe-se que conhece os problemas do seu tempo. E quais são esses problemas? Que não estamos num mundo bom, que está mal e que não serve. Mas atenção: não há que confundir o que eu peço com uma literatura moralista, uma literatura que diga às pessoas como devem comportar-se. Do que estou a falar é da necessidade de um conteúdo ético, que não se separa daquilo a que chamo um ponto de vista crítico."
-----------------------------------------------------------In José Saramago nas Suas Palavras
Alargo eu este pensamento a toda a produção artística. Se a obra humana não interroga, até pode ser bela, mas para que me serve ela?

Poemas do Rogérito - 1

O Rogérito treina correctamente corretamente
o novo acordo "ortográfico". Palavra "reto"


Recto Reto é o juiz
Recto Reto é o caminho
Recto Reto é o ângulo
Recto Reto é o cone
Existem mais rectos retos
que netos
Eu já escolhi ser recto reto
Agora escolhes tu
sem te confundirem
com um cara de cu
------------------------Rogérito

Sábado... Foi assim, a semana que hoje finda (8)

A semana pareceu ser o que costuma ser, falando-se de muita coisa. Mas não sabemos ao certo o que terá sido. Se o que nos foi dado, foi o acontecido. De qualquer forma, nesta semana, os acontecimentos mais visíveis (e terríveis) aconteceram na Líbia. Como as coisas estão? Parecem ter chegado a um ponto acabado, para outro começar que ninguém sabe onde vai dar. Uma reunião por mim esperada resultou em conclusões que, não sabendo eu avaliar, espero que alguém o vá fazer. E, se o fizer, que fique(mos) a saber...


União Africana pede inclusão na Líbia, mas evita reconhecer a oposição como governo provisório

Renata Giraldi/Repórter da Agência Brasil
Brasília - A União Africana – que reúne 52 países – apelou hoje (26) que o próximo governo na Líbia seja inclusivo. O bloco não reconheceu o Conselho Nacional de Transição (CNT), controlado pela oposição ao líder líbio, Muammar Khadafi, como a autoridade única e legítima do país.
Depois de uma reunião na Etiópia, o comissário da União Africana, Ramtane Lamamra, disse hoje que o grupo quer ver um processo de reconciliação nacional na Líbia e um projecto para a "transformação democrática" do país. (continuar a ler aqui)

26 agosto, 2011

O ricos que paguem PELA crise...

Hoje copio os ricos. Uso trabalho alheio para "vender", sem custo relevante, o meu post de hoje. O titulo foi trabalho do "cantigueiro" e a imagem de um outro amigo (dou-me bem com felinos) a quem nem salário pago. Não me arrependo, estou tranquilo e pronto para outras jogadas. Sendo país de justiças brandas, só espero ser taxado. Brandamente. 

Agora (um pouco mais) a sério: A coisa que mais incomoda um rico é que se faça tremer o sistema que lhe permite enriquecer. Nem uma greve de fome de um qualquer luso Anna Hazare (que a Nossa Candeia tão justamente admira) para impor qualquer "pacote Cravinho" lhes perturbaria a digestão. A Assembleia da República sempre teve uma maioria que a tal pressão não responderia. Rico corruptor? Ninguém conhece. Conhece é rico trabalhador e, como é sabido, vivemos numa democracia que protege (tal) trabalho...

25 agosto, 2011

A Líbia, uma história recente que mais parece o resultado de um filme de hollywood mal contado

1. Como estava, antes de tudo estar como está

 A nacionalização do petróleo da Líbia permitiu o desenvolvimento da sua economia e às condições de vida do povo distanciar-se, significativamente, dos restantes países da região. Como alguém ontem me dizia nos comentários: a Líbia regista o maior Indice de Desenvolvimento Humano (IDH) da África e até hoje é maior que o do Brasil. Em 2011, A Líbia tinha um IDH de 0.840, Portugal 0.900, Espanha 0.949, EUA 0.950, Brasil 0.807. Contudo, alguma coisa vinha mudando...

2. Como passou a estar, ainda antes de a este ponto chegar

As "rogériografias" destas lideranças apresentam preocupantes semelhanças


"A partir da II Guerra do Golfo, Kadhafi deu uma guinada de 180 graus. Submeteu-se a exigências do FMI, privatizou dezenas de empresas e abriu o país às grandes petrolíferas internacionais. A corrupção e o nepotismo criaram raízes na Líbia.

Washington passou a ver em Kadhafi um dirigente dialogante. Foi recebido na Europa com honras especiais; assinou contratos fabulosos com os governos de Sarkozy, Berlusconi e Brown. Mas quando o aumento de preços nas grandes cidades líbias provocou uma vaga de descontentamento, o imperialismo aproveitou a oportunidade. Concluiu que chegara o momento..."Ler na integra
aqui
3. A dado momento foi iniciado o tormento

(...) No caso da Líbia, a situação é complexa mas as pessoas progressistas terão certamente simpatia com o que entendem ser um movimento popular. Podemos estar solidários com tal movimento, principalmente pelo apoio às suas exigências justas mas rejeitando uma intervenção externa que conduza à situação anterior a 1969. É o povo da Líbia que deve decidir o seu futuro. Entretanto, há quem admita vários cenários (ver aqui).


4. Agitar a ideia de ditador era o melhor caminho para esconder o motivo maior-
-

A situação agrava-se na Líbia, quarto produtor africano de petróleo. A BP já fêz evaquar parcialmente os seus funcionários e é muito provável que o preço do petróleo dispare e se mantenha nos tais três digitos por tempo indeterminado...
5. Agora a situação ninguém sabe, ao certo, como está
-
...Mas mais dia menos dia, pode muito bem acontecer isto...  no Mundo
Vejamos se amanhã há notícias. A não haver isto vai acabar muito mal. Pode crer.

NOTA - Este post foi construído com (quase) tudo o que tenho escrito sobre o tema. Não acredita? Coloque a palavra "Líbia" no meu motor de busca e verá lá toda essa escrita....

24 agosto, 2011

Líbia, apenas uma parte de uma realidade que mais parece um filme de terror (produzido em Hollywood?)

Ontem nem a vizinha do rés-do-chão, nem a dª Esmeralda, nem o Rogérito, nem os amigos que vieram ouvir a conversa, se deram conta do inusitado caso de o link que lá estava ir dar a nada. Népia, zero, branquinho como a cal da parede estava o lugar onde onde o link ia parar. Pela importância da noticia repito-a, até para poder partilhar convosco a esperança de na próxima sexta-feira poderem sair noticias desta reunião que traga algo de novo à situação. Mas trago outras, não são boas e dizem assim:
"... O principal equívoco é tomar a liberdade como uma espécie de estado natural do homem, o que conduz à ideia peregrina de que, derrubado o tirano, a democracia se derrama sobre os cidadãos. A democracia só existe sobre instituições. É este o novo problema da Líbia, país sem Estado, sem sociedade civil, sem partidos e sindicatos. As ameaças são o vazio e o caos. Não há forças com legitimidade e capacidade para governar. Por isso a vitória sobre Khadafi foi ironicamente qualificada de "sucesso catastrófico". Recusar o caos é começar por procurar um consenso entre tribos e regiões e um tipo de poder que a generalidade dos cidadãos aceitem. Não há democracia de dominós."
-----------------------------------------------------------------------------Artigo do "Público", editado no  Suco, Suquinho, Sucodinho
Uma "guerra humanitária" à Síria? Escalada militar. Rumo a uma guerra mais vasta no Médio Oriente-Ásia Central? "Quando retornei ao Pentágono em Novembro de 2001, um dos oficiais militares superiores teve tempo para uma conversa. Sim, ainda estamos em vias de ir contra o Iraque, disse ele. Mas havia mais. Isto estava a ser discutido como parte de um plano de campanha de cinco anos, disse ele, e havia um total de sete países, a principiar pelo Iraque e então a Síria, Líbano, Líbia, Irão, Somália e Sudão". (General Wesley Clark)
--------------------------------------------------------------------------------------------Artigo de Michel Chossudovsky, editado aqui

NOTA: Recomenda-se em particular a leitura deste último documento. Talvez fique a perceber o que se está a passar e, também, a antecipar o que irá acontecer...

23 agosto, 2011

A Dª Esmeralda e a vizinha do 4º andar, a conversar (5)

As vizinhas do prédio do Rogérito falam sobre qualquer assunto, saibam pouco, nada ou muito

Dª Esmeralda – Ó vizinha, o Kadafi não é nenhum jogador de futebol. É um ditador. É um homem de meter medo. Não me diga que não ouviu falar da guerra na Líbia? Eu acho que são as tropas da NATO a invadir aquilo tudo...
Vizinha do 4º andar – Bom, ouvir falar em invasão ouvi. O meu homem é que disse, mas em NATO não falou. Diz que é uma invasão de estrangeiros, que se dana para saber os nomes todos e que no Benfica não há um português sequer...
Dª Esmeralda – Ó vizinha, mas há mais vida para além do futebol. Há uma guerra. Há mortes...
Vizinha do 4º andar - Tem razão mas o que é que quer. O meu homem diz que as noticias são uma mentira pegada... .
Rogérito (gritando do 3º andar) – É! É! E ele não se engana em nada! 

22 agosto, 2011

Quem me lê gosta de poemas fortes - (3)

Foi há 25 anos, que nos deixou...Surrealista? Surreal ? Surreal é ter-me dado "A Gaivota", "Amigo"  depois de me ter dado "Portugal". Escolho "A Gaivota", mas sem esquecer que quando fui à procura de respostas para a pergunta "Porque me sinto português", O´Neil respondeu-me com "Portugal". Mas a "gaivota"... é uma bela ilha num mar de contradições...


Gaivota (*)
-
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
----------------------------------------------------------------Alexandre O´Neill

(*) O poema foi escrito para a vóz de Amália, outras interpretações muito dignas: Carlos do Carmo; Dulce Pontes; Ana Moura: The Gift (haverá outras...)

21 agosto, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 45

Entre as pálpebras semicerradas, semiabertas
aranhas tecem invisíveis teias
Dos lábios ainda brotam sorrisos antigos
e os ninhos se aglomeram escondidos
por detrás das orelhas
O musgo invade-lhes as partes imersas dos corpos
Estarão mortos?, ou simplesmente há muito adormecidos?
------------------------------------------Rogério Pereira

HOMILIA DE HOJE
"A Terra rebentará, podemos tê-lo por seguro, mas não será para amanhã. Do que estamos a necessitar é de um bom susto. Talvez despertássemos para a acção salvadora."
-----------------------------------------------------José Saramago, in "Outros Cadernos..."
Imagem tirada daqui

20 agosto, 2011

20 de Agosto de 1970

107 – “será a selectividade da memória a forma do corpo assegurar a sobrevivência da alma?” – Diz-se que a memória é selectiva e que guarda apenas emoções desde que elas não abalem a mente da gente. A mente, a minha, não é mais do que o Meu Contrário e ele não se sente hoje minimamente abalado. Segredo? Não se lembra de nada, nem dos primeiros beijos de chegada, nem o sentir dos corpos, nem o risos nem os sorrisos, nem os dizeres. Não se lembra. A Minha Alma, essa, também não. E julgo que o faz para se auto-proteger e, desse modo, proteger-me a mim próprio. Os esquecimentos da alma ocorrem quase sempre por instinto de sobrevivência, por necessidade fisiológica e, nalguns casos, pela própria incapacidade das almas guardarem sentimentos em confuso turbilhão. Assim, este episódio, que durou mais de um mês mas é centrado em vinte e quatro horas passadas, não o escrevo à custa das memórias mas dos factos, e dos indícios indiscutíveis, que provam que eles aconteceram. O primeiro facto é a própria data, 20 de Agosto de 1970, quarto aniversário do meu casamento festejado nas férias, interregno da minha comissão militar (não da guerra, que continuava e havia de lá estar ao regressar). Segundo facto, as fotos mostram-me uma alegria (antes e logo de seguida a esse dia), que não podia ser inventada, nem por mim, nem por minhas filhas, nem por ela, minha mulher. Há sorrisos, gestos e expressões que não mascaram o sentir dos corações. Terceiro facto, o dia foi passado a dois como testemunham as cartas, posteriormente trocadas, comentando o dia. Inventando um pouco sobre essas férias, diria que elas aconteceram sob a pressão do medo do regresso a Angola e da longa separação que se ia seguir... Longe da vista, longe da afeição?


Foto, com a Teresa e nossas filhas, João e Sandra - Agosto de 1970
NOTA: Este texto faz parte do livro que estou a escrever

19 agosto, 2011

Lembrando Garcia Lorca, 75 anos depois: dois versos seus, uma imagem e um grito, que lhes corresponde...

"(...A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!...)"

A 19(?) de Agosto de 1936, sem julgamento, o grande poeta foi executado com um tiro na nuca pelos franquistas.
O seu poema "LA COGIDA Y LA MUERTE" (de onde extraí os versos acima, e que nada tem a ver com a Guerra Civil Espanhola) parecem antecipar, pelo dramatismo, o bombardeamento de Guernica, em 26 de Abril de 1937 e imortalizado no célebre quadro de Picasso.
A música dos Pink Floyd, cujo vídeo enquadra um poema de Garcia Lorca(em italiano), integra voz e coros, numa extraordinária colocação dramática que mais parece relacionada com a barbárie do fascismo espanhol.

"Caminhos do Meu Navegar" passou a ter acesso privado e até o estacionamento é proibido...


Pois é. Algum dia tinha que ser. Ainda sem data de publicação, o livro passou a ser escrito no recato do word, sem mirones. O que mais dói à Minha Alma é não ter os comentários carinhosos de quem, pacientemente, me ia lá ler. Serão recompensados por isso. Mais tarde direi como... De vez em quando, neste local, mostrarei uma página ou outra...

18 agosto, 2011

Quem me lê gosta de poemas fortes - (2)



Um rio...
Um rio é um rio, e parece estar tudo dito
Acrescentar que tem de ter
uma nascente e margens, para entre elas correr ,
parece pura perda de tempo,
coisa de quem não tem onde ocupar o pensamento
Não é verdade
Falava um poeta sobre o comportamento das águas
quando esmagadas pela pressão violenta das margens
Então falemos nós dos diques de palavras ponteagudas
escolhidas a dedo de entre as que metem medo
para suster o livre curso das águas
nada mais fazendo que retardar o destino
do rio, ainda fraco, ainda menino
Venham as primeiras chuvas que o façam crescer
e o poema, sabemo-lo todos nós,
percorrerá o sentido inevitável da foz
------------------------------------------------------------------Rogério Pereira

Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento.
Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.
------------------------------------------------------------------Bertold Brecht
Imagem retirada daqui

17 agosto, 2011

Quem me lê gosta de poemas fortes - (1)

o portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

16 agosto, 2011

Texto inapropriado (2)

Os meus textos continuam, como o tempo, inapropriados à época estival tão propicia ao usofruto do sol, do mar e do que eles nos podem dar. Estou contra a corrente e, por isso, não espero ser lido por muita gente. Escrevo e guardo. Escrevendo penso. Guardando, ficam memórias, talvez úteis num futuro próximo...

Ontem escrevi que um filósofo recomendava que se expurgasse, pela raiz, o capital. Esta proposta mantém-se actual, apesar de agora outro pensador vir dizer que Karl Marx estava certo: "o capitalismo pode destruir-se a si próprio, porque não se pode continuar a transferir rendimentos dos salários para os lucros sem ter menor capacidade de trabalho e uma menor procura". É que se não houver outra estrutura para um novo sistema, o capital encontrará outra forma de sobrevivência, na mesma base: "A exploração do homem pelo homem"

Entretanto, "alheio" ao que esses pensadores vão dizendo, o governo prepara-se para fazer o que os seus anteriores fizeram, retirar a discussão da concertação economica do espaço institucional criado para tal. O que será agendado será reduzindo à componente social com o objectivo, encapotado, de procurar a aceitação pacifica dos impactos sociais das medidas já tomadas. A verdadeira concertação já foi feita... com a troika. Agora trata-se de mais uma vez encenar... e progredir no circulo vicioso já por mim desenhado, como se vê abaixo:

No desenho, editado há mais de um ano, se mudar a palavra PEC por TROIKA ficará actual (bem como o texto que lá está escrito)

15 agosto, 2011

Texto inapropriado (1)

Começo esta minha nova rubrica de textos inapropriados ao dia-a-dia (neste, por nada ter a ver com férias) para citar e transcrever parte de um artigo, publicado em dois lados, que costumo seguir. (aqui e aqui) Reporta-se à conferência, na sua passagem pelo Brasil, do filósofo húngaro István Mészáros, “Crise estrutural necessita de mudança estrutural”, realizada na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e enquadrada nas comemorações dos 70 anos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA. O Salão Nobre da Reitoria foi tomado por uma maioria jovem que recebeu Mészáros com entusiasmo e sonoras palmas. O texto merece leitura integral, bem como os oportunos comentários colocados neste site. Eis algumas passagens:


“(...) Existe e deve existir esperança”, diz o filósofo. Apesar do retrato de destruição apresentado por Mészáros e vivenciado quotidianamente dentro da própria estrutura capitalista da sociedade, faz-se o esforço de pensar o futuro, não apenas como um desejo sonhador, mas sim como uma tarefa necessária para mudar o sistema.

(...)Mészáros (...) aponta como soluções já tentadas na história: a saída social democrata, socialismo evolutivo, o Estado de Bem Estar Social e a promessa da fase mais elevada do socialismo. “O denominador comum de todas essas tentativas fracassadas – a despeito de suas diferenças principais – é que todas elas tentaram atingir seus objectivos dentro da base estrutural da ordem sociometabólica estabelecida”. Pensar a mudança sem erradicar o capital, portanto, seria deixar latente a possibilidade do capital voltar, ser “restaurado”. A mudança, para Mészáros, precisa ser estrutural e radical, como ele bem especificou para a plateia, extirpando o capital pela raiz (...)

14 agosto, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 44

Levantei-me cedo. Não tão cedo quanto queria. Mas mesmo apressado, não me dispensei de beber o copo de leite gelado, em sorvos lentos, à janela vendo o Tejo, como sempre fazia, olhando o destino fixado para aquele dia. Esse não era visível, pois para a margem esquerda, os olhos apenas chegam ao Cristo Rei. "Vou chegar atrasado", pensei julgando que a travessia da ponte seria lenta. Não foi. Parecia um domingo de outono ameno, nas nuvens e no transito. No percurso até à Quinta da Atalaia ia ouvindo a missa na Antena 1, primeiro apenas para não mudar de posto, depois na esperança, vã, de escutar palavras necessárias. Foi inconclusiva a audição pois a homilia proferida era tão redonda que não lhe descobri qualquer ponta, e ainda menos uma ponta útil à razão ou à alma. Já me acontecera ir à missa, mas com esse único desígnio, e também não fora bem sucedido. Chegado, distribuíram-me trabalho que nunca tinha feito antes, o mesmo acontecendo a mais outros dois da equipa de quatro em que me integrei. Talvez fosse essa a média nas centenas que por ali apareceram: apenas um em cada quatro tinha habilitação competente e artes de dirigir, ensinando para o que tinha de ser feito. Enchi-me de brio e de bem fazer um trabalho de carpinteiro. As primeiras tábuas serradas, em serra mecânica, foram-no a ritmo lento para não errar as medidas dadas, e ficaram certas após algumas pequenas afinações. As outras foram mais rápidas. Os três íamos progredindo no trabalho, como todos os outros, dispersos pela "cidade em construção". Pode gente assim ter fim? Acredito que não passaremos a mito, nem desapareceremos, a não ser o que o homem desapareça enquanto ser perdendo a parte racional retomando a figura do Centauro, mas sem ter assegurado que sua meia parte seja a de um cavalo...

HOMILIA DE HOJE

"(...) Há milhares de anos que percorria a terra. Durante muito tempo, enquanto o mundo se conservou também ele misterioso, pôde andar à luz do Sol. Quando passava, as pessoas vinham ao caminho e lançavam-lhe flores entrançadas por cima do seu lombo de cavalo, ou faziam com elas coroas que ele punha na cabeça. Havia mães que lhe davam os filhos para que os levantasse no ar e assim perdessem o medo das alturas. E em todos os lugares havia uma cerimónia secreta: no meio de um círculo de árvores que representavam os deuses, os homens impotentes e as mulheres estéreis passavam por baixo do ventre do cavalo: era crença de toda a gente que assim floria a fertilidade e se renovava a virilidade. Em certas épocas, levavam uma égua ao centauro e retiravam-se para o interior das casas: mas um dia, alguém que por esse sacrilégio veio a cegar, viu que o centauro cobria a égua como um cavalo e que depois chorava como um homem. Dessas uniões nunca houve fruto.
Então chegou o tempo da recusa. O mundo transformado perseguiu o centauro, obrigou-o a esconder-se. E outros seres tiveram de fazer o mesmo: foi o caso do unicórnio, das quimeras, dos lobisomens, dos homens de pés de cabra, daquelas formigas que eram maiores que raposas, embora mais pequenas que cães. Durante dez gerações humanas, este povo diverso viveu reunido em regiões desertas. Mas, com o passar do tempo, também ali a vida se tornou impossível para eles, e todos dispersaram (...)"

José Saramago - Extraído do conto "Centauro" (ler aqui na integra)

13 agosto, 2011

Sábado... Foi assim, a semana que hoje finda (7)

Nada do que se passou arrasta grande novidade, apesar do esforço em nos fazer crer no contrário. Prova a eloquente avaliação da troika. O dedo apontado pelos arreados do poder são estertores sem sentido. Assinaram o acordo, apenas não são eles a executar e a receber os elogios e os ais. Também o que se passou em Inglaterra só foi inesperado por até aqui se ter olhado para o lado. Para o lado, que é um bom lado para se olhar em alternativa ao olhar-se para dentro. De quando em quando, mas mais insistentes, repetem-se lamentos já antes ouvidos...

Fim da esperança? Nem pensar, basta olhar os olhos de uma criança.


O Diogo faz 2 anitos hoje. Já conhecem como ele é inteligente e esperto.
Ele é a esperança. Certo?

12 agosto, 2011

A Praia da Minha Vida

Há temas que nos são propostos que nos parecem inócuos, vazios de outro sentido que não seja o porem-nos a falar de coisas boas que tenhamos vivido e que, esquecendo outras, não forçosamente más, acabam por não mais oferecer do que a oportunidade de escrever sobre meras reminiscências pejadas de saudosismo. Foi o caso de me ser sugerido escrever sobre "A praia da minha vida". Confesso que inicialmente pensei em não pegar na sugestão do Carlos (Crónicas do Rochedo). Mas ontem ao serão, numa tertúlia de verão, um amigo me convenceu que os lugares guardam a imagem do que somos e fazemos, guardam os vestígios da nossa vida. Enquanto ele ia falando sobre coisas fora deste tema eu ia pensando nele. Com espírito de contradição: Não escreva eu sobre os lugares por onde passei e eles não falarão de mim. As pedras só falam se falarmos delas. Hoje resolvi falar sobre isso, sobre uma praia. A praia da Areia Branca. Até a conhecer, a minha vida tinha sido vivida sem grandes estadias de mar e sol. As idas eram furtivas. Em pequeno, frequentei Caxias por mão de minha mãe. Eram idas de obrigação médica, não por doença mas para a prevenir. Contenho a custo a vontade de falar desse tempo, desse período que, de tão pequeno, parecer ser um breve momento, que ainda lembro. Areia Branca? Ah pois, Areia Branca. A praia onde a minha Teresa perdeu a aliança de noivado que Minha Alma lhe tinha dado. A praia onde prolongámos a Lua de Mel. A praia onde minha primeira filha disse a primeira palavra, a segunda teve a primeira doença e a terceira fez como a primeira. A praia onde os meus quatro netos, com diferenças de quinze anos, foram por lá passando. Ano a ano, fazendo crescer os talheres na mesa, diferentemente posta num qualquer quintal, debaixo de tantas árvores conhecidas, mas sempre diferentes...

Mas não foi só a família que foi marcando nas ondas, nas rochas, coisas que elas não contam. Por lá fica a memória dos livros que li - da obra de Jorge Amado, os romances mais emocionantes. Por lá ficam (parte) dos meus actos clandestinos, de conspiração e subversão. Por lá ficam os registos da minha mudança de vida, num recrutamento entre o vento e o banho de mar, conhecimentos de verão para entrada numa outra empresa onde viria a trabalhar cerca de dezoito anos.


Este ano, por lá andei (como já contei)... lendo poemas escritos para mim... Quando nos despedimos da dona da casa alugada, demos conta de vários incidentes: Um prato e dois copos partidos e uma lâmpada fundida. Tudo substituído com excepção da lâmpada, por não haver igual. Diz a senhora: "não faz mal, vamos substituir todas pelas económicas. A electricidade vai aumentar e temos que poupar..." Mal sabia ela qual viria a ser a nova tabela...

11 agosto, 2011

Contra a ociosidade, a mãe de todos os vícios...


(...) "Ali, nada fazia mais do que ocupar o corpo para distrair Minha Alma, arrumando e voltando a arrumar coisas que não tinha chegado a desarrumar. Caiando o posto de socorros, pintando móveis, pintando janelas e portas, para uns tempos depois voltar a caiar e pintar, mudando tons e cores para sentir, também, que alguma coisa mudava e era diferente naquele quase inútil ambiente. Era como se mudando as coisas as pudesse achar atraentes. Naquele dia, a acção da UNITA e os comentários à volta desse acontecimento foram o alento para a escrita. A carta seguiu ..."



(Pode aqui ler mais mais um episódio do livro que estou a escrever)

Na foto: Eu entretendo Minha Alma ( Angola-Nharea, Abril de 1970)

10 agosto, 2011

Mas será que a "cegueira" que por aí anda deixa ver?...

O titulo é parte do comentário que me deixou uma querida amiga, ontem, na "Redacção do Rogérito" sobre o que aí deixei escrito a propósito dos acontecimentos violentos de Inglaterra, quase em guerra : "Mas será que a "cegueira" que por aí anda deixa ver?" Respondo-lhe que só não vê quem não quer saber. Quem desvia o olhar, quem não ouve porque não quer escutar. Quem (ainda) tem um orçamento certo é-lhe conveniente olhar para o lado, enquanto o fenómeno se espalha sob diversas formas. Até no canto, que muitos ouvem, sem ligar a este cantar:


Não sabe inglês? Será que precisa? (ver tradução)
Letras-contributo para a compreensão do que se está a passar (e vai continuar)

“Jesus perdoou demais, morreu
Lampião confiou demais, morreu
Sou tipo um general que lidera uma tropa vinda do breu
E eu não confio, nem perdoo, por isso mandaram eu! “

“Pretos amontoados por um racismo brutal
Não tem justiça, quero vingança, foda-se, agora é pessoal !”

Aí, todo maloqueiro tem em si
Motivação pra ser Adolf Hitler ou Gandhi!
E se a maioria de nóis partisse pro arrebento?
A porra do congresso tava em chama faz tempo!”

---------------------------------------------------------------(textos retirados daqui)

A VIOLÊNCIA É UM SUB-PRODUTO, UMA SEQUELA, DESTA CULTURA... HÁ QUE ENTENDE-LA?

NOTA IMPORTANTE: Este post é um anexo à Redacção do Rogérito (6) e não deve ser entendido como um texto isolado

09 agosto, 2011

Redacções do Rogérito (6)

Tema de hoje: "Sobre os incidentes de Londres"

A Dª Esmeralda anda muito confusa com o que se passa em Inglaterra com a gente miúda e outra que já não é a pôr tudo a arder e a roubar o que as lojas tinham e já não têm porque os miúdos e os que já não são tudo levaram e o que não levaram partiram e até voltam carros e autocarros não sei se fazem isso porque ou não os podem roubar ou se os roubassem não tinham onde os meter e acham melhor mete-los a arder e a Dª Esmeralda até disse que no tempo dela de criança não havia coisas assim pois os miúdos desse tempo andavam às vezes à púrria (que quer dizer porrada) e até se aleijavam mas não era uma coisa assim tão violenta porque também não havia tantas coisas para cobiçar de ter nem tantas coisas a vender para uns comprarem outros não mas a minha opinião não é haver muitas coisas bonitas a valer mas por os miúdos quererem ter o que a televisão está sempre a anunciar que vai haver mais e as que há e que vão ficar em promoção e que só é inteligente quem souber de aproveitar a ocasião que só os outros aproveitam e eles não por outro lado os miúdos que são de Inglaterra mas os pais deles não são só foram para lá para trabalhar e estão sem fazer nada e eles não percebem para é que foram nascer ali se os pais e os tios mais os vizinhos do lado e também os de cima não falam a língua inglesa só às vezes e eles são obrigados não só a ler como a também escrever a língua que os pais só falam quando vão ao supermercado e dizem não ter o dinheiro por aquilo que querem trazer e quando e agora que eles já sabem bem Inglês as escolas onde estavam a fazer não sei o quê fecharam e eles que ficaram sem fazer não sei bem o quê lembram-se que podia muito bem ter que fazer bastava o governo querer e a Dª Esmeralda pensa que tudo acontecia por tudo o que disse e mais por os miúdos em vez de andarem ocupados adarem galderice mas que tudo vai acabar na cadeia até recomeçar outras vêz para o ano que vem ou já no fim do mês lá ou em qualquer outro lado onde as coisas forem parecidas ou até mesmo iguais...

08 agosto, 2011

A regressão... dos direitos sociais e sua transformação em caridade organizada? Se não, que é então? Deus terá assinado o memorando com a troika?

A separação entre a Igreja e o Estado. É uma exigência da laicidade e pôs termo à mistura de esferas, frequente no estatuto de Estado confessional. «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus», ensinou Jesus (Mt 22,21).Excerto da Carta Pastoral à Igreja de Lisboa, do Cardeal Patriarca D. José da Cruz Policarpo (18-V-08).

«O XIX Governo tomou posse e apresentou o seu Programa… Com um compromisso claro: vencer a crise e mudar o País em quatro anos. Não pode falhar ! Há uma convocação geral para a celebração de um Pacto de Confiança...»
(Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade – CNIS, padre Lino Maia, Julho de 2011)

(...) o Governo prepara activamente a transferência para as unidades da sociedade civil dos equipamentos que constituem o parque da Segurança Social do Estado (creches, lares para idosos, cantinas, centros de dia, escolas, infantários, etc.). Notícia já confirmada pelo actual ministro do CDS, Pedro Mota Soares. (...) Isto permitirá prolongar indefinidamente o financiamento das ONG, IPSS, Misericórdias, Mutualidades e demais organizações caritativas pelo contribuinte comum, tal como agora acontece. O Estado pagará menos, a Igreja receberá mais e o cidadão terá de suportar um fardo cada vez mais pesado. Enfaticamente, o padre Lino Maia chama a atenção para o facto de que o novo esquema assistencial envolverá a curto prazo multidões de idosos, deficientes, desempregados, famílias, associais, crianças, jovens, estudantes, pequenos comerciantes, etc., num universo sempre crescente. Implicará, evidentemente, para a Igreja católica, a conquista de uma grossa fatia das competências que a lei geral da nação reconhece ao Estado.
Um «pacto de confiança», por Jorge Messias, in jornal "Avante"

Imagem retirada daqui

07 agosto, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 43

O muro caiu? (Não este, que Israel construiu). Quantos se ergueram e erguerão, desde então?

Não venho falar de um muro em particular, mas de todos os muros. Dos que se erguem e daqueles que, sem se verem, estão lá. Venho lembrar aqueles que tiveram (e continuam tendo) uma leitura errada sobre tais construções e quedas. Como pensam corrigir rumos, com visões tão distorcidas dos actos dos homens?

HOMILIA DE HOJE


"Tão certo como termos todos de morrer, um dia o muro teria de cair. Ninguém (falo dos governos e dos poderes de aquém e de além-mar) queria que ele caísse, mas ele caiu. Por efeito do que eu chamaria, retomando uma conhecida expressão que tem dado para tudo, a aplicação da democracia direta. De repente, o mundo (pelo menos esta gentilíssima Europa) parece disposto a mudar: basta que saiam uns tantos centos de milhares de cidadãos à rua, e logo os governos começam a tremer, a ranger, a estalar, e aí estão eles, feitos em cacos, arrastando consigo os próprios regimes que, simultaneamente, justificavam e os justificavam. Se a prática continua, vou ter muita pena de ir-me desta vida: agora é que a felicidade coletiva ia começar.
A lição que pessoalmente extraio do admirável acontecimento (mais do que uma lição será um voto) é que, a partir de agora, nenhum muro mais seja levantado antes de se buscarem, incansavelmente, as soluções que o possam evitar. Isto é, que se trabalhe e eduque para a paz e não para a guerra. Só espero que as mesmas multidões que derrubaram o Muro de Berlim não se lembrem um dia de voltar à rua para aplaudir, num contexto político diferente, outros muros e outras fortalezas: como sabemos, a espécie humana não é muito de fiar...
E como agora estão em moda os concursos de idéias, permito-me apresentar, fazendo uma variação sobre o tema, três ou quatro sugestões para o avanço da humanidade: que se deite abaixo o muro do apartheid, que se deite abaixo o muro entre o Norte e o Sul, que se deite abaixo o muro que protege a droga, que se deite abaixo (mas isto é pedir o impossível) o muro que divide os ricos dos pobres...
Finalmente (é bem certo que palavra puxa palavra), os partidos comunistas não deveriam considerar agora o seu nome de comunistas como se também ele fosse um muro a derrubar: há algo de confrangedor e de patético nessa agitação onomástica. Se não está em causa, disfarçadamente, mudar de objetivos (os do socialismo e os do comunismo) então direi que mudar de nome não servirá de nada se não, mudarem os processos, os métodos, os caminhos: não foi o nome que errou, foram, sim, os que se serviram dele para, na prática, o negarem. Ter razão tarde de mais não chega para ressuscitar os mortos e pode não ser suficiente para recuperar os que ainda estiverem vivos."
Saramago in “Sobre o derrube do Muro de Berlim/Folhas Politicas”, – pág. 166

Imagem retirada do video que está ao lado

06 agosto, 2011

Sábado... Foi assim, a semana que hoje finda (6)


O pensamento único e as cabeças que o sustentam entraram em desvario, sem saberem o que fazer... Semana Negra, já se diz por essa Europa, enquanto em Portugal o Estado Social vai dando lugar à caridade organizada e ao assistencialismo, perante a passividade de uns, a piedosa adesão de outros e a revolta de muitos. As ratas de sacristia exultam e as missas engordam de crentes. O Estado, tratado como um proscrito, tende a ser mera abstracção... Uma minoria privilegiada queixa-se deste Agosto frio e ventoso e comentam, consternados, os desmandos de um São Pedro tão pouco colaborante. As férias vão continuar para esses. Para outros perfilam-se incertezas, raivas e desejos de um outro pensamento único: Derrotar este...

Imagem retirada daqui

04 agosto, 2011

A minha neta faz 15 anitos... às vezes sofisticados, às vezes simples... mas sempre bonitos

Entre mim e ela parece haver
um qualquer quê
que não se vê
Um dia vai acontecer
falarmos sem ser entre
----------------sorrisos
Não faço a mínima ideia
do que poderá ser
essa nossa conversa
--------------------séria
Talvez sobre a vida
Talvez sobre a sorte
Talvez sobre a morte
Talvez apenas (e só) sobre os pássaros
------------------------e os seus filhos
e os filhos dos filhos, os passaritos
Ou sobre este mundo
--------- de que fazemos parte
(Espero que nesse dia
um de nós
não tenha a cabeça em Marte)

Um beijo para ti Marta, e... não te estragues!

03 agosto, 2011

Intervalando, para falar de ânsias actuais... 1

É sabido que ando noutro lado, ocupado.
Contudo, não esqueço, nem por nada, as ânsias actuais.
Poupo o meu tempo, colocando palavras de quem confio...

Baptista-Bastos, com José Saramago

"Tenho para mim que o desfecho desta governação vai desembocar em algo de muito mau (...)

(...)as crispações neofascistas não são aparições momentâneas. A perseverança com que o Estado-previdência é atacado e minado, os termos com que o comunismo, o trabalhismo, a social-democracia e o socialismo democrático são execrados e embrulhados no mesmo saco leva a considerar que o plano visa mais longe.

Os termos político-económicos com que hoje somos instados a pensar obedecem a uma estratégia global, a qual contribui para agudizar a situação de extrema vulnerabilidade em que nos encontramos. Acresce o facto de, depois da queda do Muro de Berlim e da implosão das sociedades do Leste, o que sobrou da esquerda foram caricaturas mal-amanhadas, de que são exemplos funestos o sr. Tony Blair e a "terceira via". Em Portugal, esta extensão particular do assassínio da ideia socialista foi perpetrada não só por António Guterres e José Sócrates mas por outros mais. A bom entendedor...

Passos Coelho resulta dessas contradições, e a canonização dos banqueiros e dos "empresários", a que procede, com ilimitada subserviência e admiração, não é maior do que aquela, precedida por Sócrates, e, embora mais moderada, por Guterres. A capitulação de uns e a argúcia ascensional de outros; a abdicação da ideologia e das convicções e a sua substituição pelo "pragmatismo" permitiram e facilitaram a fé cega e suicida no "mercado", no qual o Estado tem uma interferência mínima.

(...) O fosso entre nós e os outros é cada vez mais sangrento. Creio que Passos Coelho abriu a caixa de Pandora, sem se aperceber muito bem da natureza e das consequências dos seus actos."

Baptista-bastos, no DN de hoje (ler integralm. aqui)

02 agosto, 2011

Lá no outro lado, fora da ânsia destes dias... vivendo outras - 2

Porqui tu, com esperto nus cabeça, bebe cigarro?”. A princípio, a estranha expressão levou-me a corrigir o que entendi ser confusão do seu mau português, sem atender à censura implícita na pergunta. “Não se diz bebe cigarro. Bebe, é beber bebida e cigarro é de fumar, não de beber” disse reforçando o que tinha dito acompanhando com os gestos de beber e de fumar, pois estava fazendo ambas as coisas. “Tu fazes os dois ao meismo tempo e eu dizer eras misturadas”.
(...)No dia seguinte o “Meia-Cuca” apareceu acompanhado de outro miúdo, mais pequeno e com ar assustado. Com o seu, sempre igual, interrogou-me se me importaria que ele ficasse por ali, adiantando ser aquele mais sossegado que ele próprio, e que até podia ajudar (...)


Para ler tudo, vá ao outro lado



Meia Cuca e seu amigo - Foto tirada e revelado por mim

01 agosto, 2011

Lá no outro lado, fora da ânsia destes dias... vivendo outras - 1



O “Meia-Cuca” veio buscar o que lhe era devido pelos recados, tantos, que me fizera nesse dia. Ele não fazia nunca o preço. Eu também não. Dava-lhe os trocos que tinha à mão e ele não regateava, talvez até por mal saber o valor do dinheiro. Acho que prezava mais os valores do trabalho remunerado e da sua digna ocupação de "recadista" - como gostava de ser tratado - na esperança de, quando crescer, talvez passar a haver condições para exigir o real valor do trabalho


Para ler tudo, vá ao outro lado