31 outubro, 2011

Dia D. Dia de Drummond. Dia Bom

Poema da Necessidade

É preciso casar João,
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Sentimento do Mundo'

(veja aqui)

30 outubro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 55

A capa do meu livro* - obra da minha filha mais nova (Andreia Couñago Pereira)

HOMILIA DE HOJE
"A pergunta é duvidosa, não porque sejam duvidosas, uma por uma, as palavras que a compõem, mas porque não se pode saber, exactamente, o que tinha na cabeça o perguntador quando a formulou. Tomá-la à letra, seria demasiado simples: todos contamos histórias. Contam-nas os romancistas, contam-nas os dramaturgos, contam-nas os poetas, contam-nas também aqueles que não são, nem hão-de ser, poetas, dramaturgos ou romancistas. Todo o falar é uma história, as palavras ditas entre o levantar da cama, pela manhã, e o regresso a ela, chegada a noite, incluindo as do sonho, ou as que o sonho descreveriam, representam uma história, contínua ou fragmentada, e podem, como tal e em qualquer momento, ser organizadas em história escrita.p> Mas a pergunta, tal como é feita em francês, e o seria em português também, transporta consigo um outro significado, irónico, talvez pejorativo, que consiste em insinuar que o escritor é um malicioso veiculador de enganos, de ilusões, de falsidades, enfim, de mentiras, para tudo dizer numa só palavra. Isso são histórias, respondemos nós a um interlocutor que, intencionalmente ou não, abusa da nossa credulidade. A diferença, neste caso, está em que o escritor, tudo quanto escreve, escreve-o com intenção, umas vezes clara, outras vezes oculta, óbvia e visível para as necessidades duma história que tem de ser «reconhecida» passo a passo, mas também escondida atrás da imediatidade consciente para que mais profundos possam vir a ser os efeitos de ressonância subsequentes. Digamos, então, que o escritor é um mistificador impenitente e sem desculpa: conta histórias e sabe que as suas histórias não são mais do que isso, umas quantas palavras suspensas em equilíbrio instável, frágeis, assustadas pela vertigem do não-sentido que as empurra, soltas ou organizadas, para o caos dos códigos cuja chave se perdeu.
Mas, não o esqueçamos, assim como as verdades puras não existem, também não existem as puras falsidades. Porque se toda a verdade leva consigo, inevitavelmente, uma parte de falsidade, nenhuma falsidade o é tanto qua não veicule uma parte de verdade. A falsidade contém, portanto, duas verdades: a sua verdade própria («Se eu sou falso e digo que o sou, digo uma verdade»), e a verdade outra de que acaba por ser veículo, voluntário ou involuntário, e leve ela, ou não leve, por sua vez, uma parte de falsidade. Convenho que a clareza, tanto a do pensamento como a da expressão, não abunda no que acabei de escrever, mas a culpa não a tenho eu, a vida é que não é clara.
Se me perguntais, pois, se ando por aí a contar histórias, responderei que sim, que tudo quanto conto são histórias, de umas e das outras, fingimento de verdades, ou verdades do fingimento, mas a história que, em minha opinião, mais deverá importar ao leitor, contra a própria evidência material, não é a que parece ser-lhe proposta na obra escrita. Um livro não é constituído apenas por personagens, situações, peripécias, lances, surpresas, efeitos de estilo, exibições de técnica narrativa, um livro é, sobretudo, o que, nele, puder ser encontrado e identificado com o seu autor. Isto não significa que o leitor tenha de entregar-se a um trabalho de detective ou de geólogo, procurando pistas ou pesquisando camadas tectónicas, ao fim das quais, como um culpado ou uma vítima, ou como um fóssil, estaria o autor. Pelo contrário: o autor está no livro, o autor é todo o livro, mesmo que o livro não seja o autor todo. Não foi para chocar a sociedade do tempo que Flaubert declarou que Madame Bovary era ele próprio. Aliás, pode dizer-se que a afirmação não peca por excesso, mas por defeito: Flaubert foi também o marido e o amante de Ema, foi a casa e a rua, foi a cidade e aqueles quantos, de todas as condições, que nela viviam, pois que a imagem e a compreensão de tudo isso tiveram de passar, inteiras, por um só homem, Gustave Flaubert, o autor. Ema Bovary é Gustave Flaubert porque sem ele seria nada.
Contamos histórias, pois claro. Contamos a nossa própria história, não a da vida, não a história biográfica, mas essa outra que, em nosso próprio nome, dificilmente teríamos a coragem de contar, não por dela nos envergonharmos, mas porque o que há de grande no ser humano é grande de mais para caber em palavras, e aquilo em que somos geralmente pequenos e mesquinhos é a tal ponto quotidiano e comum que não levaria qualquer novidade a esse outro grande e pequeno que é o leitor. Talvez por tudo isto alguns autores, entre os quais me incluo, favoreçam, nas histórias que contam, não a história do que vivem e vêm viver, mas a história da sua própria memória. Somos a memória que temos, e essa é a história que contamos.

José Saramago - "A Pergunta"

* O livro irá na próxima semana para a editora. Estará nas bancas em finais de Novembro

25 outubro, 2011

Treze anitos, feitos hoje. Parabéns, pá! (e não te estragues...)


Se Woody Allen se diverte tocando clarinete,
 porque é que meu Miguel não se pode divertir jogando à bola?


Meu neto é um rapaz que já é cabeça de cartaz...
O video, em cima, é uma prenda de anos para o Miguel. Merece explicação. O Miguel tocava clarinete, na banda de Alvega. Agora joga futebol, em Abrantes. Desejo que não esqueça aquele divertimento que tinha antes. Se lhe desejo futuro melhor que o de Woody Allen, por que é que não posso desejar que ele mantenha dois "hobbies"?
Um beijo do avô. (sábado, aí estou)

23 outubro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 54

Um livro que ainda não li, mas sei que fala de vivências que também vivi

Pode um homem procurar identidades com outro, até lhe assumir os tiques e procurar imitar-lhe palavras e ir até a um limite que a outros poderá parecer ridícula manifestação de perda da sua própria personalidade? Claro que pode. Pode e não surpreende. Acontece não só entre pessoas, mas entre pessoas e animais. Quem não se deu já por descobrir no rosto de gente, traços do cachorro que leva ao colo? É deslocada a comparação? Até pode ser... Mas não valorizo isso mais do que o valor em si mesmo, dos comportamentos que nos deveriam levar a identificar e a copiar quem admiramos. Em criança, garanto-vos que já fui "Tarzan", "Capitão Fantasma", "Pincipe Valente", "Tom Sawyer" e até "Mandrake. Juro-vos que nunca quis ser "Tin-Tin" ou o "Homem de Borracha". A humanidade estaria melhor se procurasse seguir os seus heróis, sabendo-os escolher. A humanidade estaria melhor se todos copiássemos humanos que valorizaram a marcha humana, ou pior se os modelos fossem déspotas, ditadores ou outros seres degenerados da raça. Tudo isto porque descubro a sobrevivência em mim dessa tendência de criança e "brinco" a sentir, para já, identidades com o meu herói. Saramago. Dou comigo a sentir a grata satisfação de ter frequentado a mesma escola. Dou comigo a ter o prazer de também ter, como ele, curiosidade por sinaleiros... Na sua autobiografia pode ler-se "Já eu tinha 13 ou 14 anos quando passámos, enfim, a viver numa casa (pequeníssima) só para nós: até aí sempre tínhamos habitado em partes de casa, com outras famílias."

A mim também me aconteceu viver assim... Porque julgam ter prometido à Jussara vir a falar da minha rua Morais Soares? Não me admirarei se em "Claraboia" vier a encontrar a dona Alice, o ti Zé Soeiro, o sr. Neto, a Geménia-a-russa, a Beta, o Wilson, a dona Perpétua... Se assim for não vale a pena eu escrever sobre o nº 27. Ele já terá escrito.

HOMILIA DE HOJE

Amanhã, não sei o que serei. Talvez desempregado. Não seria a primeira vez… Ignoro se sabe o que é estar sem trabalho, sem dinheiro e sem casa. Eu sei.
in “Claraboia” XVI - Por Fundação José Saramago
Quando a fita acabou, seguiu uma mulher. Na rua, perdeu-a de vista e não se importou. Ficou parado no passeio, a sorrir para o monumento aos Restauradores. Pensou que com um simples pulo ficaria em cima da pirâmide, mas não deu o pulo. Esteve mais de dez minutos a olhar o sinaleiro e a ouvir o apito. Achava tudo divertido, e via as pessoas e as coisas como se as estivesse vendo pela primeira vez, como se tivesse recuperado a vista após muitos anos de cegueira.
in “Claraboia” XVIII - Por Fundação José Saramago

21 outubro, 2011

"Não há mal pior do que a descrença" - Ele mo diz, eu assim penso...

Como dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
--------------------------Eu francamente já não quero nem saber
--------------------------De quem não vai porque tem medo de sofrer
--------------------------Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
--------------------------Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não
---------------------------------............-------------------------------------------------------------------------Vinicius de Moraes

19 outubro, 2011

Caminharemos de olhos deslumbrados

***
Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos lábios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

Onde estivermos, há-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, há-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.

No ritual do verão descobriremos
O segredo dos deuses interditos
E marcados na testa exaltaremos
Estátuas de heróis castrados e malditos.

Ó deus do sangue! deus de misericórdia!
Ó deus das virgens loucas
Dos amantes com cio,
Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas,
Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,
Fustiga-nos os membros como um látego doido,
Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,
Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,
Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,
Atapeta de flores a estrada que seguimos
E carrega de aromas a brisa que nos toca.

Nus e ensanguentados dançaremos a glória
Dos nossos esponsais eternos com o estio
E coroados de apupos teremos a vitória
De nos rirmos do mundo num leito vazio.
------------------------------------------------------------------------------Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

16 outubro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 53

Hoje trago à homilia uma inesperada companhia.
Temos uma única coisa em comum: ambos fumamos compulsivamente

Nunca escrevi  (ou não me lembro de o ter feito) sobre o que me aproxima de José Saramago. Ocorreu-me, ao ver na sexta-feira passada a entrevista do António Lobo Antunes, escrever sobre o que dele me separa. Desisto de tal impulso, pois poderão pensar que os génios, até por o serem, são incomparáveis ao mais comum dos mortais. Mas não posso deixar de fazer alguns registos. Registo, da entrevista, o esforço da câmara que não larga o grande plano do seu rosto, vendendo dele a sinceridade do olhar e das rugas. Não tenho dúvidas, à força de tanto encenar, o rosto tornou-se um personagem sincero da encenação. A arrogância não é ostensiva e é servida adocicada, perante a câmara, rendida. "No mundo, há apenas cinco grandes escritores" afirma e tem a humildade de apenas insinuar, deixar no ar, que seu nome poderá muito bem ser um deles. Os prémios literários? Desdenha-os - tendo-os quase todos - mas salienta que o "dinheiro é agradável". O Nobel, só é diferente dos outros, porque é maior. Sobre o que de mais importante existe no mundo, escolhe o amor e a amizade. Ele sabe, garantidamente, de ir acertar na quase unânime aceitação de serem tais sentimentos os mais queridos e apreciados, esquecendo toda a série de valores humanos cuja ausência tanto distorcem a verdade daqueles. Lobo Antunes perdeu uma excelente oportunidade de falar disso  e, talvez, considerar ser a distorção egoísta do amor e da amizade uma das principais razões da desumanidade. Sobre a crise e a situação social fala neles nos mesmos termos de vulgaridade com que, nessa mesma manhã, ouvi o senhor Barata,  ao servir-me o café e o jornal. Afirmava o escritor, o mesmo que o sr. Barata: estar  horrorizado... Esta a passagem mais frustrante, pois esperava outra palavra, mais dura e segura, de um homem que todos julgam elevado. Falou da escrita, no escrever por dentro da alma, mas nem uma palavra a quem o tenta também fazer no país e na língua que também é a sua. O génio não tem pares, nem dá - como outros fizeram - palavras de consolação ou incentivo a quem está a caminho de o ser. Fátima Campos Ferreira fez-lhe o favor de o não interrogar sobre os valores da jovem literatura portuguesa. Ou sobre o papel e deveres de um homem que, além de génio, é cidadão. Sabe-se lá se o escritor não se irritaria e se não lhe ia cair a máscara do sorriso sobre a mesa, naquela onde a câmara escondeu o apagar de mais um cigarro fumado, num gesto tão semelhante ao meu. Depois desta entrevista muitos irão comprar livros seus. Eu, por meu lado, irei pôr na prateleira um que tinha entre mãos. O homem não só me tirou a vontade de o ler, como me abriu (pela omissão) o apetite de ler gente nova, cuja existência (prudentemente) ele ignora.

HOMILIA DE HOJE
"O cidadão que o escritor é não pode ocultar-se por trás da obra. Ela, mesmo importante, não pode servir de esconderijo para dar ao autor uma espécie de boa consciência graças à qual ele poderia dizer que está ocupado e não tem tempo para intervir na vida do país."
"Todos somos escritores, uns escrevem outros não"
José Saramago, retirado daqui
"...não será exagero dizer, sem qualquer desprimor para os excelentes romancistas jovens de cujo talento desfrutamos actualmente, que na produção novelesca nacional há um antes e um depois de Gonçalo M. Tavares. Creio que é o melhor elogio que posso fazer-lhe. Vaticinei-lhe o prémio Nobel para daqui a trinta anos, ou mesmo antes, e penso que vou acertar. Só lamento não poder dar-lhe um abraço de felicitações quando isso suceder."
NOTA (em 19.Out) - Depois de várias tentativas para trazer aqui o video da entrevista, o mais que consegui foi este link aqui

11 outubro, 2011

Dinamarca 2 - Portugal 1


Faltam-nos valores...

(...)
Rebola a bola
Você diz que dá, que dá,
Você diz que dá na bola
Você na bola não dá
(...)
Rebola a bola
Você diz que dá, que deu,
Você diz que deu na bola
Você na bola não deu

***
Esta lengalenga (ou cantiga de roda?), dizia-ma minha mãe.
Redescobri-a no cancioneiro popular duriense*, completa... com os valores

* Oh alta serra das neves --------------------------------------------------------------------------------

10 outubro, 2011

Quando não temos tempo, os amigos fazem o trabalho por nós... É tão bom ter amigos assim

A Fê-blue bird, meu pássaro azul, pousa com frequência no beiral da minha janela. Seu voar é delicado. Seu cantar me encanta. Sei que o que tão bem faz, sai-lhe do voo liberto, do seu ser e da cor por si escolhida, que tem  profundidade bastante para albergar todas as estrelas do céu. Surpreendeu-me, lá no seu ninho, com uma homenagem que me perturbou. Julgo não ser tanto assim como meu pássaro diz que eu sou. (vá ver

A Jussara, amizade do outro lado do Atlântico, é uma amante de livros. E fala deles em modos encantados. O seu blogue tem por missão irradiar prazer de leituras e até sugeri-las. Uma frase de seu irmão encabeça o seu espaço, arejado. Diz ele: "Quanto ao o que ler, continuo com o conselho da Jussara - 'leia tudo que puder'. Ela nunca me falou nisso. Mas sempre foi assim, caso encontrasse um pedaço de jornal, cheirando a peixe, na calçada, punha o pé em cima e lia. Sem preconceito. Aprendi com ela."
Jussara pediu para seus seguidores mandassem textos sobre livros, coisa que fiz há dias e lhe enviei. Ontem publicou meu texto enquadrado por palavras belas, que só ela sabe dizer: Pois são palavras... vagabundas. (o livro de que falei foi "Esteiros" dizendo quanto gostaria de lhe falar de "Os Capitães da Areia"...) Estão convidados a ir lá ler também
As ilustrações referem-se aos livros "Esteiros"* (Álvaro Cunhal)
e "Capitães da Areia" (assinatura ilegível) -
*A Jussara publica alguns outros desenhos de Álvaro Cunhal a ilustrar meu texto

09 outubro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 52

Ontem passaram 13 anos sobre a atribuição do prémio.
Hoje, completo 52 semanas (um ano) de citações da obra sua.
Entre as duas datas, o céu povou-se com uma "chuva de estrelas"
(mera coincidência por certo, não creio em metáforas da natureza...)

HOMILIA DE HOJE
"Do chão sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças. Também do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira. Enfim, cá estou eu outra vez a sonhar. Como os homens a quem me dirijo."
José Saramago, in "Homilias Dominicais (citando Saramago) - 1"
Post editado por prévio agendamento

07 outubro, 2011

Vou estar ocupado. Proponho-vos algum trabalho, num sítio recomendado...





Vou estar ocupado. A minha querida amiga Manuela Araújo (Sustentabilidade é Acção) tem coisas para V. ler e fazer (se quiser). Dou por sugestão:



(enquanto isso, andarei um pouco por aí, mas... sem compromisso)

06 outubro, 2011

Steve Jobs

Era muito novo, talvez tivesse 17 ou 18 anos, talvez mais, mas menos de vinte, quando dei por mim a jurar a mim próprio: "Eh pá, sempre que firmes uma ideia ou um ideal ou uma convicção não a assumas sem ouvir o seu contrário ou, pelo menos, o outro lado da questão. E lembra-te, uma coisa boa só o é se for partilhada ou por todos usada.". Levei isso a peito em tudo, a começar pelas leituras que fazia. Uma delas, um livro da Europa América, editava na colecção Encontros Internacionais de Genebra, um conjunto de comunicações e para cada uma delas o diálogo entre os convidados. O que estava em questão era o desfasamento entre os progressos, isto é: a falta de "pedalada" da Moral para dar como adquiridas as vantagens para a TODA humanidade do Progresso Tecnológico e Cientifico. Esta questão não é separável da das desigualdades sociais e da distribuição da riqueza.
Vem tudo isto a prepósito da morte, hoje, de Steve Jobs. Morreu um homem que a Humanidade irá justamente lembrar. Pena da minha incerteza de que ainda estejam por nascer aqueles que irão possibilitar o acesso, a toda a gente, aos inventos que Jobs nos deixa.


A palavra dita e escrita
rende homenagem
a quem tanto pugnou
para que se tornasse mensagem
Passa ela a partir de sua morte
a desejar, a si própria, melhor sorte
e que todo o software disponível
do mais sofisticado ao acessível
impeça o caminho à palavra abastardada
e que invalide texto
que porte língua escavacada

-------------------------------------------------------------Rogério Pereira

05 outubro, 2011

5 de Outubro de 2011 - a actualidade da metáfora, sob a forma de (um belo) hino


VA PENSIERO (letra/tradução)

Voa, pensamento, sobre as asas douradas
Voa, e pousa sobre as encostas e as colinas
Onde os ares são tépidos e macios
Com a doce fragrância do solo natal!
Saúda as margens do Jordão
E as torres abatidas do Sião.
Oh, minha pátria tão bela e perdida!
Oh lembrança tão cara e fatal!
Harpa dourada de desígnios fatídicos,
Porque você chora a ausência da terra querida?
Reacende a memória no nosso peito,
Fale-nos do tempo que passou!
Lembra-nos o destino de Jerusalém.
Traga-nos um ar de lamentação triste,
Ou o que o senhor te inspire harmonias
Que nos infundam a força para suportar o sofrimento.

------------------------------------------------------------------------------------(ver texto elucidativo e outra versão)

Video também editado aqui, de onde foi roubado

04 outubro, 2011

Metamorfose - VI (Partilha de sofrimento)

O corpo do homem
se desdobra, em forma
de gota de água
Passa a lágrima
escorrendo no rosto
Testemunho impotente e mudo,
de desgosto
profundo
Ah!, como abomino
ver alguém convertido
em lágrima de menino

02 outubro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 51

A foto dos três: Ele, ela e a junção de dois (segundo Pilar del Rio)

Para a minha homilia de hoje não faltaram temas e a escolha foi dificil, tanto mais que produzida num interregno do retiro para escrever memórias de guerra e tendo-as, vivas, a povoar-me a mente. Tinha três temas: um (o primeiro que considerei), sobre a criatividade da escrita de jovens do 7º ano, em torno de recriações do conto de Saramago "A Maior Flor do Mundo"; o segundo tema, despertado pelo discurso de Manuel Carvalho da Silva (a finalizar a manifestação convocada pela CGTP-IN) seria sobre a necessária unidade das forças de esquerda ("Fazemos aqui um apelo a todos os trabalhadores, à população em geral e às forças políticas porque se todos se unirem ainda é possível evitar a concretização dos desastres que estão a preparar", dirigindo-se em concreto ao Partido Socialista defendeu a necessidade de este não assumir mais compromissos com políticas neo-liberais).; O terceiro tema, um texto sobre o amor entre dois seres, a sua relação e a bela e enorme participação de Pilar del Rio, ontem no programa do Herman José, onde afirma que eles os dois conseguiram serem três (que expressão mais bela pode definir o amor?).

Não foi fácil a selecção. Optei por critérios, sempre discutíveis, de utilidade mais imediata, ou seja o que de Saramago me fez lembrar o sólido e apelante discurso de Carvalho da Silva na manifestação de ontem:

HOMILIA DOMINICAL
"(...) Quase um mês decorrido sobre as eleições legislativas, tornou-se evidente para a direita que os resultados delas não abalaram o PCP. Em vez dessa esperança enganada, há motivos para crer que a prova de fogo, representada pela diminuição de votos e de lugares de deputados, fortaleceu a consciência política de militantes e simpatizantes, curando-os, Prouvera que definitivamente, de ilusões fáceis. Não tem que espantar-nos, portanto, que a AD acompanhe tão fervorosamente a crise do PS, adulando-a até, se é permitida a expressão. Espanta, sim, ver que o PS, apesar da tão apregoada experiência dos seus dirigentes, não foi capaz de entender a derrota e fazê-la compreender dentro e fora do partido. Espanta ainda mais verificar como Mário Soares conduz friamente o seu partido à ruptura interna. Saberemos um dia por que o faz. Hoje basta-nos ver que para Mário Soares é indiferente que o general Soares Carneiro, tão dotado para suceder ao almirante Tomás, possa vir a ser presidente da República Portuguesa depois do 25 de Abril. Aí fica um tema de meditação para um milhão e seiscentos mil cidadãos que votaram na FRS.
Concluamos. Que os comentadores da AD procurem alcançar resultados acrescidos da vitória, bem está: é o seu papel, é nisso que acreditam ou é para isso que lhes pagam. Mas que outros, afirmando-se de esquerda, levem água ao moinho da direita por arrastamento ou oportunismo, por malícia particular ou ingenuidade, por gosto do paradoxo ou cepticismo elegante - eis o que não pode passar sem reprovação. É possível que a crise do PS tenha já feito recuar os mais atentos. Sobrestejam nessa atitude. A direita não consegue segurar as máscaras. O rosto que está por baixo delas é conhecido. Não querer vê-lo seria sinal de cegueira, mas a esses outros cegos ninguém os levará pela mão para votarem na esquerda que nada fizeram para unir. Quando é essa, e só essa, a esperança da democracia."
José Saramago, "Unir a esquerda, defender a Democracia" (1 de Novembro de 1980), in "Folhas Políticas", pág. 96
Unir a Esquerda, Defender a Democracia
(1 de Novembro de 1980)

Unir a Esquerda, Defender a Democracia
(1 de Novembro de 1980)

01 outubro, 2011

Interregno no meu retiro espiritual e de escrita (há sempre tempo para fazer o que deve ser feito)



----------------------------Video retirado do blogue "relógio de pendulo

"Contra o Empobrecimento!" é uma causa justa, nacional, europeia e internacional que devemos entender como apelo desinteressado (independentemente do uso que dele possa ser feito!) à participação, à unidade e à solidariedade, sem fronteiras ou preconceitos!... antes que seja tarde demais!"

---------------------------Texto retirado do blogue "A nossa candeia"