07 janeiro, 2012

Os poemas, tal como as palavras, são como as cerejas....

Tudo começou com um poema de Joaquim Pessoa. Depois de uma discordância minha, vem AMCD (Trabalhos e os Dias) concordar comigo e assim dizer (transcrevo, porque é necessário de se ler):
"Há um capítulo dedicado a esta questão num famoso livro do Nobel Richard Dawkins, O Gene Egoísta, em que o autor defende que a transmissão cultural pode ser tão ou mais forte do que a transmissão genética. Por exemplo, Mozart é lembrado pelas suas sinfonias e por isso perdura; Sócrates, o filósofo, também é lembrado entre nós, e embora nunca tivesse escrito nada, a sua filosofia ficou registada nas obras dos seus discípulos que o recordaram, em particular Platão. Em suma, estaremos longe de ser nada se perdurarmos na memória dos vindouros, pela obra que deixamos. Mas mais do que isso, se vivermos uma vida plena, a vida já vivida ninguém no-la poderá tirar, mesmo que todas as memórias se apaguem. Essa é a mensagem do longo poema de Alfonso Canales, "Discurso de César às Legiões", de que tanto gosto, e que reza assim:
"Quando a mão cessar de agitar-se, e o lábio
de tentar falar; quando terminar
de organizar a minha destruição, e começar
a organizar meu esquecimento; quando for
coisa ou, menos ainda, a pegada de um gesto
ou, menos ainda, referência
de uma mancha muito zelosamente
apagada; quando acabem
as solúveis escórias, os destruídos
torrões, a fumarada,
de espalhar-se e afastar-se e ver-se
sumidos num fundo saco vazio; quando
nada estiver como está, como não esteve
nunca; quando já ninguém
entender nunca o que é nunca, e sempre
simule eternidades novas;
quando outros mordam o engano, ferido
o palato, e creiam a pés firmes
que estão e são, etcetera; e mais tarde,
quando já não haja nada que crer ou ninguém
que creia; quando não haja
ninguém; quando todas as récitas
acabem, se dispam os actores
de máscara e de pele, e o público
se retire e vá dormir, se apaguem
as luzes, e os ratos
busquem nas plateias
algum pedaço de chicle húmido; quando morrerem
também os ratos e os gulosos
vermes dos ratos e os pequenos
animais (ou plantas) que devoram
os vermes dos ratos; quando abatam
seu estríado prestígio os fustes; quando o brilho
se ensombre, e a sombra
se esfume; quando
tudo se suma num longo silêncio, e não haja um só
sinal para decifrar, TEREI VIVIDO."

(Alfonso Canales)