12 fevereiro, 2012

Homilia dominical (citando Saramago) - 70

Ainda me restam de ontem os rostos dos que comigo estavam, na estreiteza de tão larga praça. Praça do povo, terreiro da esperança e da persistência. Praça de afirmação da resistência. Estive para dar hoje conta, não só dessas emoções mas do que me levou lá... Encontraria, para tal, palavras outras e mais directas das que acabo por escolher: as de um amor de um homem por uma mulher e sobre o que nos dá a força para construir o quer que seja: uma casa, um país... E nem deixo explicada a razão da minha opção. É que nem tem explicação:

HOMILIA DE HOJE
"(..) Para começarmos de novo, para este esforço sempre renovado de fazer melhor, uma casa de palha, uma casa de paus, uma casa de tijolos. Com pilares. Os meus são quatro, só conheço esta estrutura quadrangular. Confiança. Amor. Alegria. Discernimento. Sobre eles reconstruo a todas as vezes o edifício frágil que é a minha interioridade feita de belas arquiteturas, tortuosas, algumas, elegantes, outras, uma curva aérea do Niemeyer, uma linha pura do Siza, tudo dentro de mim quando quero ser mais leve e mais alta e maior. Porque tenho os meus pilares. Eles estão lá. Mesmo quando os tapo e os escondo, ou prefiro fingir que não preciso deles. E são pessoas, quatro, cada uma delas com a sua missão pesada de aguentar os meus exercícios cada vez mais loucos, cada vez mais altos. E aguentam, e eu cresço e não tenho medo da queda. Eu sei que também sou um pilar para cada um deles. Se calhar, não o mesmo, se calhar não o que eles queriam. Mas sou a certeza de alguma coisa para alguém, e a certeza de uma coisa boa que o ajude a elevar-se, nem que seja sem tirar os pés do chão"
Agradeço à Luísa Moreira, do Vox Nostra, este texto de José Saramago