21 março, 2012

Como se tudo dependesse da Primavera - I


DESERTIFICAÇÃO
Fala a pedra com a pedra: Onde a erva?
Fala a terra com a terra: Onde o húmus?
Fala a porta com a janela: Onde a gente?
Fala a parede com o sobrado: Tens saudade dos passos?,
onde pára o espanta pardais, esse espantalho de falsos braços
que afastavam os pássaros?
Onde param as searas? e as eiras? e os cantos? e o pão?
Flor? Que é uma flor?
Flor era essa coisa de pétalas e cor que tu trazes na memória
e que segundo o calendário do tempo devia povoar esses campos?
Árvores? Que é uma árvore?
Árvore era essa coisa de raízes, folhas, ramos, frutos
que juras te ter no passado dado meiga e fresca sombra?
Água? Que é a água?
Água é essa coisa que te molhava o rosto, a roupa o corpo
e que as escuras nuvens teimam levar para outro lugar?
Ah, meu amor, este abandono
Ah, meu amor, este deserto
Se cada um de nós somos três
porque me falas
como se houvesse apenas Minha Alma?
Porque me falas
como se tudo dependesse da Primavera e nada dependesse de nós?
Rogério Pereira