07 abril, 2012

Sábado Santo, na esplanada, com a música de fundo no tom adequado

A manhã começou instável, mas o sol ia espreitando de quando em quando e o vento amainara. O casal vestido de claro chegara primeiro e procurou, na explanada, a mesa mais perto do rio, que ali se alargando, já parecia o mar. Sentaram-se. Calados, esperaram. Passou um cargueiro ao largo e um veleiro em sentido contrário. Ambos olhavam vagamente, até que o casal, vestido de tom levemente mais escuro, chegou. Pareciam terem todos a mesma idade, bem no meio da vida. Cumprimentaram-se. Eles efusivamente, elas com cumplicidade, e os cumprimentos restantes, dos casais trocados, com sorrisos e beijos formais. Pediram de beber. Um deles traçou a perna e o outro também. Uma delas tirou um cigarro e a outra também. Eles começaram a conversa, com o tema do costume, lamentando as baixas do clube, as arbitragens desastradas, e ambos concordaram estarem compradas. A do casal que vestia claro comentou o design da mala da outra e falaram de malas, de sapatos, dos saldos e da dureza da vida que lhes tinha limitado os gastos. O sol abriu-se totalmente, a manhã ficou quente e estava no tom certo a música ambiente. Todos comentaram como o sol, meigo, os bafejava. A conversa ia animada e o tempo passava. Já não se avistava o cargueiro nem o veleiro. O Tejo, tendo no meio o Bugio, parecia vazio. Tão vazio como as conversas e as almas que conversavam horas a fio. Podiam, se pudessem ou quisessem, falar da cruz que cada um levava. Mas não falaram disso. Ou porque não quisessem, ou porque desaprenderam a falar de si ou ainda para não puxarem temas desagradáveis, numa manhã tão tranquila, numa esplanada estendida ao sol, em vésperas de mais um domingo de Páscoa. A musica ambiente fazia-se ouvir numa versão de "Always Look On The Bright Side Of Life", no tom adequado. Ao longe, aparecia um barco.