13 maio, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 83


Eu, Meu Contrário e Minha Alma, perscrutam a multidão procurando Ricardo Reis, em vão. 

Questiono Meu Contrário para em seu juízo me explicar e esclarecer não a razão da fé mas sobre as motivações da adesão das massas ao fenómeno religioso, pois que em tempos afirmei que havia quem com isso beneficiava. A resposta foi curiosa e deixou-me intrigado: "As coisas da fé, afundam-se nos seus próprios mistérios. Depois de Marx ter falado das consequências de ser a fé o ópio do povo, pouco mais de interessante se poderá acrescentar". Insatisfeito com tal resposta, consultei a Minha Alma, com a mesma pergunta, ficando igualmente intrigado com a resposta vinda desse lado: "Há almas que se prestam a tudo, tanto mais quanto mais o corpo lhes sofre." Percebi que pouco adiantava prolongar aquele diálogo, e resolvemos, os três, procurar Ricardo Reis para saber a sua própria motivação para se misturar naquela multidão:

HOMILIA DE HOJE
Este é o lugar. A camioneta pára, o escape dá os últimos estoiros, ferve o radiador como um caldeirão no inferno, enquanto os passageiros descem vai o motorista desatarraxar a tampa, protegendo as mãos com desperdícios, sobem ao céu nuvens de vapor, incenso de mecânica, de fumadouro, com este sol violento não é para admirar que a cabeça nos tresvarie um pouco. Ricardo Reis junta-se ao fluxo dos peregrinos, põe-se a imaginar como será um tal espectáculo visto do céu, os formigueiros de gente avançando de todos os pontos cardeais e colaterais, como uma enorme estrela, este pensamento fê-lo levantar os olhos, ou fora o barulho de um motor que o levara a pensar em alturas e visões superiores. Lá em cima, traçando um vasto círculo, um avião lançava prospectos, seriam orações para entoar em coro, seriam recados de Deus Nosso Senhor, talvez desculpando-se por não poder vir hoje, mandara o seu Divino Filho a fazer as vezes, que até já cometera um milagre na curva da estrada, e dos bons, (...) 
Ricardo Reis vai a Fátima - Excerto de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago (continuar a ler)