11 junho, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 3 ( lições de ética, com exemplos de falta dela )

(ler conversa anterior)
"Sim, julgo às vezes, considerando a diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e que depois, talvez com pena, mas por uma lei mais alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas… " - (Bernardo Soares) 
"E dizer que, quando formos grandes, talvez sejamos tão estúpidos quanto eles!" - (A Guerra dos Botões)

Beijou o rafeiro, do senhor engenheiro, como a mãe o beijava a ele...

O rafeiro continuou a abanar a cauda, satisfeito com a chegada do menino. O senhor engenheiro, deu um sorvo apressado no galão claro e guardou o bolo de arroz para o fim. A Teresa, a Gaby e a Ana, fizeram um ó de exclamação enquanto a Zita não escondia a contrariedade em ter o grupo inesperadamente alargado pelo recém-chegado. - "Tu, aqui?" e inquiria imperativa esperando a resposta - "Foi o pai que me trouxe. Ele disse-me que eu ia ver que tu não tinhas nada que fazer e bem podias tomar conta de mim". A Zita não disse nada porque sua cara dizia tudo. A Teresa pôs água na fervura e desviou a conversa "Está bonito, o teu filho". Outra também atalhou - "Está tão querido..." A Ana, chamou-o e ele timidamente se aproximou para que ela o acariciasse. Zita continuava irada. "Senta-te aí e nem piu" e o miúdo, esquivo à ternura da Ana, meio se sentou pois mal chegava à cadeira que entretanto a mãe arrastara para o seu lado. "Porque não anda ele na escola?" perguntou uma delas. E a conversa deambulou por aí, com a Zita a contar os intensos passos e cunhas para arranjar lugar nas escolas das redondezas. "Deve entrar em Setembro, mas o meu pai teve de aceitar ser ele o encarregado da educação, por causa da morada. A minha não dá para o aceitarem..."- "Olha filha, eu tive que manter a minha residência de solteira para ter acesso ao Centro de Saúde, daqui..." Entretanto o miúdo, desinteressara-se da conversa e abandonara a cadeira para vir ter comigo. - "Posso lhe fazer uma festinha?" e apontava o cão, que voltou a abanar a cauda como a dar seu próprio consentimento. - "O cão é deste senhor, dessa mesa ao lado" - "Posso fazer uma festinha?" interrogou ele quase implorado enquanto o rafeiro se ia levantando. - "Depende... De que clube és?" inquiriu o senhor engenheiro. - "Do Sporting!" mas perante a careta de desaprovação do dono do cão, emendou "Ás vezes também sou do Benfica!"
- "Se passares a ser sempre do glorioso, deixo-te brincar com o meu cão", o miúdo fez jura de ir cumprir e passar a ser daquele outro clube  obtendo o consentimento imediato e necessário. Agarrou carinhosamente o pescoço do cão e beijou-o como a mãe o costumava beijar a ele próprio. Na mesa da mãe a conversa continuava com elogios ao Isaltino. O cão saturara-se do menino e este de acariciar o cão. O engenheiro começou o bolo de arroz, que ia partindo aos bocados esperando pelo pombo e pelo negro melro. "Queres brincar comigo?" Perguntou-me o menino. "Vamos lá!" e levantei-me sem se que quer lhe perguntar o tema da brincadeira. Corremos atrás dos pássaros estragando a manhã ao engenheiro. Na mesa, ficara o jornal, aberto na página onde estava o artigo que me tinha interessado. Lê-lo-ia, passado um bocado...