30 novembro, 2012

Estão convidados!



Eufrázio (Mar Arável) me convidou a falar... lá estarei. Estejam também!

Poesia (uma por dia) - 7


Recomeço. 
Pego na flor de linho como se fosse um pequeno pedaço de céu, e sacio-me na sua vontade de ser, manto ou véu, o mais fino pano sob o manjar dos deuses. Olho-me para dentro, seguro firmemente nas pontas desfiadas dos dias iguais, detenho-me nos nós lenhosos e nos sarilhos do fio, e recomeço, de lágrimas pregadas na saia e de fuso na mão, sem medo de picar os dedos, fiando e bordando o tanto que me falta. Para me amparar dos cansaços, trago o pólen colhido no silêncio das serras, no canto dos rios mansos, no gemido da terra quente, na resina viva das raízes levantadas ao vento e na festa louca das cigarras. Dentro do meu tear serei colmeia, onde as palavras se adoçam, as feridas sempre saram, e a luz não desiste de enxergar melhor o mundo. 
Recomeço. 
Entrego aos deuses os meus gestos pequenos, de mãos a crescerem no amor das abelhas, retalhos de paisagem cravada na alma. Só eles sabem o que em mim valerá a pena, um dia, fazer-se poema. 
Maria João / Pequenos detalhes

29 novembro, 2012

Não ironizo, é mau demais para provocar riso...


«Temos uma Constituição que trata o esforço do lado da Educação de modo diferente do da Saúde. Isso dá-nos alguma margem de liberdade na área da Educação para poder ter um sistema de financiamento mais repartido entre o que pagam os cidadãos e a parte fiscal, que é paga pelo Estado». 
Passos Coelho (ler aqui)

28 novembro, 2012

Poesia (uma por dia) - 6


. ____________ . invade.nos esta avalanche autóctone . e abatidos perscrutamos eventuais saídas sem saída . quem sabe se regressássemos ao estádio embrionário . gérmenes que fomos e gente que desde então somos . talvez ousássemos o arbítrio de nascer para crescer depois . e,,, ainda . quem sabe se ainda . assistíssemos à ressurgida do novo mundo . ____________ . no mundo novo . 
Poema e imagem, Paulo-Intemporal

Orçamento 2013 : regressão, até mais não - 1

A Sopa de Arroios - desenho de Domingos Sequeira (1810)
É péssima a qualidade da imagem, e não é seguro que Lisboa a tenha presente. O povo lembra, mais frequentemente, a "sopa do barroso" (ou do Sidónio) sem que haja a garantia de a associar aos efeitos de uma ditadura. A blogosfera o lembra, e bem. Há quem a chame agora de "take away" dos pobres. Mas falando de fome, o  Banco Alimentar é a modernidade, na versão "do it yourself"... 

O video abaixo é uma peça espantosa da capacidade promocional da organização. Irá ser um instrumento importante da politica social nos tempos que se avizinham, de regressão até mais não...


(o tema foi-me "sugerido" pelo Matéria do Tempo)

Poesia (uma por dia) - 5

  Vladimir Kush

ÁRIA BREVE PARA ALUMIAMENTO DE SOMBRAS
Semeio-te, sonho, nas sílabas solares
desta sala iluminada onde o tempo
dobrado ao lado da manta, no sofá
nos propõe depor canseiras
e cansaços.

Torna-se lúcida a imaginação
E por isso o meu poema é
tecido nas linhas certas
de talhar desacertos e
inseguridades.

Em breve
nada compensará
o anseio da terra
no inconformismo
das mãos.

Sabemo-lo.
Colhemos assim
os últimos frutos do verão e
enganamo-nos deliberadamente
quanto à doçura ressequida da polpa,
uns procurando poupar os outros
porque somos folhas
de um só ramo às portas
do inverno.

Aprendemos juntos a não chamar brisa
ao vento destruidor que nos varre
nos derruba, nos divide,
nos engole.

Criamos um plano de invencibilidades
como um mapa de incontornáveis
afectos sem fronteiras
no qual poderemos
viajar sem nunca
nos perdermos.
Lídia Borges / Seara de Versos 

27 novembro, 2012

Falemos então da persistência da água...

(ver aqui)

Falemos do rio que se alarga
Falemos da água clara
Falemos da persistência da água
De que se diz ser mole
A bater
Em pedra dura
Falemos da pedra que fura
E deste rio que se alarga
Falemos da persistência da água

O INCRÍVEL ORÇAMENTO DE ESTADO PARA 2013



Este blogue hoje tem a porta fechada

26 novembro, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 20 (educação?, assim não!)

(Ler conversa anterior) 
"(...) esta acção tem de ser denunciada pois vai destruir a possibilidade de construção de um projecto educativo, instaurar o paradigma do comando e do controlo burocrático, decalcado do modelo de governação central, desistir de uma pedagogia fundada na ideia da proximidade, provocar gravíssimos problemas nas aprendizagens dos alunos. A escola, tal como a conhecemos, vai deixar de existir e em seu lugar vai erigir-se a fábrica onde o que interessa é a gestão (i)racional dos recursos.(...) " 
"Mega-agrupamentos - Invocar o nome do aluno em vão" in Terrear

Depois de saber que quase todas eram professoras, não me admirei dos temas escolhidos

- Que me dizes àquela treta dos custos por turma serem no "público" superiores ao "privado"?
- É treta!
- Mas não serão mesmo?
- Quem sabe?, o que podes esperar é que o tal estudo vai servir para tudo...
- Achas?
- Acho... caso não, estariam a falar dos nossos custos comparados com outros, por esse mundo...
- E os nossos... não são altos?
- Comparados com os países que apostam na educação, não!
- Por exemplo?...
- A Suécia, a Dinamarca, a Finlândia... os nossos são quase metade...
- Ah, mas esses não podem servir de comparação...
- Então queres falar da Irlanda? da Espanha? da Itália? da ... Islândia?
- E tu achas que os privados vão abocanhar a educação?
- Porque não? O investimento está sendo feito em seu proveito...
- Os mega-agrupamentos estão nessa lógica?
- Claro!, o capital gosta de economias de escala... uma pequena escola seria "peixe-para-o-gato"....
- Tens razão é que vai tudo, tudo, nessa direcção: os custos, os mega-agrupamentos, estes tormentos...


Poesia (uma por dia) - 4


POEMA A DUAS MÃOS
(Semear no mar, colher em terra)
O som das gaivotas desfiando a tarde
O fundo do horizonte a rendilhar
A névoa que se avista
O delírio do mar em convulsões de marés
O desvario da imaginação
O sonho que os olhos do poeta pintam
Sonho sem o ser?
Vá se lá saber...se nem ele sabe.

Sabes, poeta?
Ainda te espero, a declamar
Versos resgatados das areias e
levantados do chão.

Rogério Pereira / Piedade Araújo Sol
(sobre um comentário semeado em "Esta noite" )

25 novembro, 2012

Álvaro Cunhal, "Porque nenhum de nós anda sozinho / E até mortos vão a nosso lado.” - 3


O 25 de Novembro

A História não é um somatório de factos que se possa dar por encerrado. Todos os dias surgem outros factos que confirmam ou desmentem as diferentes versões sobre uma passada realidade. Em certa medida a História não é matéria que se encerre, vai sendo feita. E há documentos que não devem ser ignorados mesmo se possam ter, como este, referências a aspectos que possam ser considerados marginais. Julgo que para quem escreve a história, não devendo ser exigida a isenção, que ao menos se lhe peça rigor. Rigor e exigência de credibilidade moral e ética sobre as testemunhas (e testemunhos) que o historiador julgue necessário reunir, para ilustrar os factos ou entende-los. Sobre esta data, ficam os testemunhos de Álvaro Cunhal, cuja leitura se recomenda na integra:
"(...) O golpe militar de 25 de Novembro foi a conclusão de um agudo e tempestuoso período de choques, divisões e conflitos não só entre os partidos participantes no governo, nomeadamente PCP e PS, mas também no MFA: entre os chamados «moderados» (nomeadamente o «Grupo dos Nove» que se aliavam cada vez mais à direita reaccionária), e a esquerda militar (cada vez mais ligada e sofrendo pressões do esquerdismo pseudo-revolucionário lançado em irresponsáveis acontecimentos desestabilizadores).(...)
(...) O 25 de Novembro não liquidou o processo, ainda então em curso, de configuração do regime democrático a instaurar e a institucionalizar. Criou entretanto uma nova correlação de forças que abriu caminho mais fácil à formação de governos com uma política contra-revolucionária.(...)"
Álvaro Cunhal - in "A Revolução de Abril 20 Anos Depois" - Fevereiro de 1994
"O 25 de Novembro foi um golpe militar inserido no processo contra-revolucionário. A sua preparação começou muito antes das insubordinações e sublevações militares do verão quente e de Outubro e Novembro de 1975 . Talvez que as mais esclarecedoras informações dessa preparação em curso muitos meses antes de Novembro sejam as que dá o comandante José Gomes Mota no seu livro, esquecido ou guardado nas estantes, A Resistência. O Verão Quente de 1975 , Edições jornal Expresso , 2ª ed., Junho de 1976. (...) 
Álvaro Cunhal, in Capítulo 8 do livro "A verdade e a mentira na Revolução de Abril: A contra-revolução confessa-se", Edições Avante!, Lisboa, Setembro de 1999

Poesia (uma por dia) - 3


INQUIETANTES DIAS SEM MEMÓRIA...
Inquietantes os dias sem memória
Como se o magma em que se despenham
Fosse apenas mar de sargaços.

E o sol que das cigarras tem o canto
Fossem pingos de chuva. Gelados.
E as bocas fossem apenas grito sufocado. E o cântico
Vazio das almas saturadas...

Ou fossem vãos desertos
Das portas...

Caminhamos injustiças como quem apascenta
Descuidados rumores da fome. E (des)esperamos
Que nesta auréola de frio escorra o sémen
Das horas. E germine a vibração do tempo...

Incertas as praças. Prenhes embora de couraçados.
E auroras faiscantes...

Lá longe o farol clama.
Na intermitência das dores. E dos relâmpagos...

24 novembro, 2012

"Não me fiz ao mar, para ficar pelo caminho..." (*)


(*) Versos de um poema, que vale a pena
________________

O buraco devora-nos as canções... E o que virá depois?

Poesia (uma por dia) - 2


EM PLENO VOO POR UM GRÃO DE AREIA
Não são únicos os caminhos

mesmo quando se cumpre
a rota dos sonhos
e os barcos se despem
de destinos por sobre as águas

Já tínhamos visto longe
a céu aberto
palavras íntegras a respirar
por guelras
pétalas a despontar nos desertos
mares a gorjear
na folhagem das escarpas
noites claras
ao som do relógio de pêndulo

Não são únicos os caminhos

mesmo quando andamos
a sibilar no vento
desapercebidos do pássaro
que renasce em pleno voo

por um grão de areia

Eufrázio Filipe / Mar Arável

23 novembro, 2012

Redacções do Rogérito 13 - "A aula que eu gosto mais é a de Matemática"

A aula que eu gosto mais é a aula de matemática por causa da sôtora que é muito boa professora e usa saia justa e travada e anda como uma fada e tem um sorriso bonito e nos põe a fazer problemas que dão muito que pensar sobre os números e o que eles querem dizer e com o que ando a aprender quando for grande não me deixo enganar. 
A última aula foi uma prova escrita e eu acertei em tudo que é coisa rara entre os adultos mesmo de escolaridade elevada pois nem todos sabem compreender se no caso de 10 pessoas terem um horário semanal de trinta e cinco horas se passarem a ter outro mais trabalhoso de quarenta no final qual é o total de horas com que a entidade patronal fica a lucrar e eu fiz as contas assim que passo a explicar tim-tim-por-tim-tim

35+35+35+35+35+35+35+35+35+35=350 horas

e depois

40+40+40+40+40+40+40+40+40+40=400 horas

e a resposta foi (400-350=50) a entidade patronal fica a lucrar 50 horas

A prova tinha outra pergunta mais difícil pois a sôtora só tinha ensinado as outras operações de divisões e multiplicações num dia em que trouxe saia rodada e explicou isso com a perna cruzada com a saia um pouco levantada e a pergunta perguntava quantos trabalhadores é que podiam ir para casa a receber dinheiro sem fazer nada com a poupança daquelas horas todas e eu fiz um raciocínio impressionante que foi perceber quantas vezes um novo horário cabia no lucro de horas lucrado e fiz as contas assim de rompante como explico adiante

50:40=1,25 trabalhadores terão de ir para casa

Tive tudo certo na prova de aritmética mas deixei de gostar um bocadinho da sôtora pois acho uma maldade mandar pessoas para o desemprego e ainda por cima parti-las aos bocados e isso só pode ser coisa de adultos... brutos.

Poesia (uma por dia) - 1

IMAGEM - The Charnel House - Pablo Picasso 1944/45

NAVALHA OBLÍQUA EM BECO SEM SAÍDA 
 (Em soneto de nove sílabas métricas)
É tão crua esta oblíqua navalha
Que apunhala os sentidos da gente,
É tão suja, é tão vil que não falha;
Assassina e… disfarça, inocente!

Se debalde lhe foge a canalha
Que afinal lhe foi sempre indiferente,
Ela fixa, encurrala e estraçalha
Cada um dos que em fuga pressente…

Mas que importa a navalha cruenta
Do poder que nos quer degolar
Se outra força imperiosa argumenta

Numa voz que até mortos sustenta
E nos diz que é morrer ou lutar
Se, à traidora, nem sangue a contenta?

Maria João Brito de Sousa  /  PekenasUtopias

22 novembro, 2012

Poesia (uma por dia)


Sem dar por isso, dou por seguir e ser seguido por dezenas de poetas. Agora, atento a tal, dou por eles e elas e pelo facto singular das palavras se harmonizarem, os versos se desenvolverem e os poemas se construírem, reflectindo o que lhes vai na alma. A poesia é, sem o poeta tentar que o seja,  uma impressão digital do seu ser, do seu estar, do seu ver, do seu pensar, e da generosa partilha com os outros...

E porque a poesia é o pão da alma (ah, esta frase batida) editarei aqui uma poesia, uma por dia, todos os dias...

"A história provou a capacidade demolidora da poesia e nela me refugio incondicionalmente."
 Pablo Neruda

Ainda a Greve Geral e as manipulações de um jornal...


Com chamada de primeira página, saiu um extenso artigo usando um estudo antigo (pré-troika) para fazer vingar uma tese moderna... O tal estudo "data de 2010, ano em que José Sócrates governava e António Dornelas, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE e ex-secretário de Estado de António Guterres (e, insuspeito, participa agora em tribunais arbitrais sobre pré-avisos de greve), dizia "que "não há uma causa única" para este declínio da participação nos movimentos colectivos de protesto". (todo este texto foi + ou - copiado daqui)

Não havendo uma causa única há uma que se destaca, a "chantagem" dos patrões e os apertados orçamentos familiares: "Uma sondagem da Universidade Católica Portuguesa, divulgada no início do mês, indica que 59% dos portugueses apoiam a greve geral marcada para a próxima quarta-feira, embora apenas um terço tenha afirmado que vai aderir. A indisponibilidade em fazer greve é menor nos funcionários públicos (26%) do que entre os trabalhadores precários (só 7% admitiram aderir)." - a sondagem referia-se a uma greve geral realizada em Novembro de 2010.

Claro que o artigo antigo e o destaque agora dado pelo Expresso não é inocente e alimenta argumentos de certa gente, e até de um meu amigo que, de pronto, se põe a discorrer sobre os malefícios do sindicalismo. E cismo...

Cismo no que lhe responderam e no que eu lhe disse (mais ou menos isto): 
Desligar a evolução do sindicalismo da hecatombe que ocorreu no aparelho produtivo é ser pouco sério na análise das questões sindicais. Ignorar que a terciarização da economia colocou a precariedade num lugar em que a entidade patronal passa a ter poderes ilimitados, é querer ser cego e cegar quem queira pensar. Ignorar que a grande malha de empresas é constituída por unidades em que o patrão é também empregado, é um erro deliberado... O afundamento da economia retrai a luta mas não a mata. O medo será ultrapassado. Tarde ou cedo. Mais cedo que meu amigo espera e o Expresso deseja...
(imagens com dados da pordata)

21 novembro, 2012

A propósito de um prémio Nobel, Eu e a São, somos da mesma opinião....



A São citou-o, num post. Não conhecia o nobilizado, mas a frase me pareceu entre elevada e pouco mais que uma "boa estirada"...  Resolvi que tinha que temperar a ambiguidade metafísica com o quadro de valores e sentimentos que devem preencher o interior da gente, e comentei: 
"Tragédia é, também (e certamente maior), um povo governado por homens mortos por dentro..."

... Comentário que a São tão bem emoldurou e difundiu 
(por onde muita gente viu...)

Obrigado São!

19 novembro, 2012

É preciso não separar a visita de Merkel do discurso de Gaspar...



Portugal andava mal e ninguém dava por tal, com excepção  de uma minoria que o sabia. Eu fiz parte, não sei com que arte, dos que iam acompanhando a mentira. E como os mentirosos são mais ou menos os mesmos as mentiras não se alteram... nem quanto ao peso e gorduras do estado, nem quanto aos custos unitários do trabalho, nem quanto aos custos unitários da educação, nem quanto aos custos unitário da saúde (nem à sua variação)... Se visitarem os links não terão que se admirar... a aldrabice tem requinte e não vai parar... 

E o que disse Gaspar? Que a troika está encantada, que a Merkel está admirada... e que as grandes multinacionais estão expectantes...  Que a flexibilização do trabalho vai continuar... Que os salários vão ser (ainda mais) degradados.... que o sistema fiscal vai-lhes abrandar... Pois! 

18 novembro, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 19 (a violência)

(Ler conversa anterior) 
"Eu sou contra a violência porque parece fazer bem, mas o bem é só temporário; o mal que faz é permanente" - Mahatma Gandhi  
"Violência é uma das coisas mais divertidas de se assistir (…) Adoro a violência. Às vezes eu acho que Thomas Edison inventou a câmara só para que pudéssemos filmá-la." - Quentin Tarantino  
"A questão está em ver o resultado desses incidentes que, objectivamente  serviram para tentar esconder, esbater, esse grande acontecimento social e político, esse marco na história da luta dos trabalhadores portugueses, a greve geral" - Jerónimo de Sousa   

A Ana aproveitou o sol e isolou-se (mais uma vez) do grupo...

O sol quando nasce é para todos e, assim, o dia estava soalheiro para todos nós: para elas, para mim, para o senhor engenheiro e, até, para o seu rafeiro. Mas não chega estar um dia de sol para que todos nos sentirmos felizes. Assinalo, que de todos, o menos feliz era o rafeiro. É que o cão, por cada movimentação, levava pesada pisadela. Não reagia, a não ser a manter as orelhas caídas, a cauda parada e os olhares resignados. A cada pisadela o cão mudava de posição. Não sei se o coitado poderia tirar algum proveito ou vantagem de ser corpulento, ter caninos afiados e de ser de raça atravessada (que é pouco fiável para comportamento afável). Ele ali estava, convivendo como podia com a adversidade de ser cão... 

O velho engenheiro manteve-se calado o tempo inteiro. Elas falavam pelos cotovelos, até a Ana sair do grupo e se isolar, a pouca distância...
- Sabem? Aquilo na Palestina não pára...
- Eu vi... no telejornal... Israel tem todo o direito em atacar
- E se o ataque que Israel sofreu, tiver sido mera provocação? Se houver, em território palestino, quem lance falsas ofensivas para a retaliação acontecer... assim... brutal...  
- A reposta de Israel é dada pela medida exacta...

A Ana que se tinha afastado, regressa ao grupo e diz, em voz transtornada, o poema que estava escrito no site que mantinha aberto:
a Força Exacta é violência.
a Força em espirro, ao acaso, não é violência, é existência.
O mal é Fixar a Força (direccioná-la) porque a natureza espontânea não o FAZ.
Natural é ser FORTE, isto é, avançar.
Violento é o Percurso que antecede o viajante. Antes dos pés: Sapatos; a estrada.
A Força Exacta é violência.
A natureza não tem, nunca teve, Forças EXACTAS.
E tudo o que o homem faz é tornar exacta a FORÇA.
Ser violento é construir; todo o Edifício é violência.
O homem é o Exacto da Natureza; a falha NATURAL; o Erro.
Deus errou:
fez o homem EXACTO.
- Quem escreveu?

Pensei, calado: gostava ter sido eu

17 novembro, 2012

Álvaro Cunhal, "Porque nenhum de nós anda sozinho / E até mortos vão a nosso lado.” - 2

"Como, estás louco? Mesmo sem olhos um homem pode ver como anda o mundo. Olha com as orelhas. Vê como aquele juiz ofende aquele humilde ladrão. Escuta com o ouvido, troca os dois de lugar, como pedras nas mãos; qual o juiz, qual o ladrão?"  (Rei Lear)
(A morte de Cordelia - filha do REI LEAR) 

Eu, que sou só corpo e apenas porta-voz do que decidem o Meu Contrário e a Minha Alma, venho cumprir o compromisso de aqui escrever sobre o homem, o escritor, o artista, o ensaísta, o resistente, o lutador, o político, todas as semanas durante todo um ano em que se celebrará o centenário o seu nascimento. Escolheram, Minha Alma e Meu Contrário, que escrevesse hoje sobre Rei Lear, peça de William Shakespeare, e que Álvaro Cunhal traduziu em reclusão (entre 1953 e 1955, na cadeia de Lisboa, sob o pseudónimo Maria Manuela Serpa). Minha Alma e Meu Contrário me aconselharam a que o fizesse: sem esquecer o que terá sido o feito, em tais condições de privação da liberdade; o que terá sido o feito, sobre a pressão de quem levava vida perseguida; o que terá sido o feito, se quem o fez não saberia se o dia seguinte iria existir... Não saberemos nós como o pensar, por ser inimaginável que tivesse superado a adversidade e deixado tal obra acabada e em condições de merecer elevados elogios, por quem faz oficio de tradução o seu próprio ganha pão. Sobre a escolha de Rei Lear para tal trabalho, Minha Alma não tem dúvidas, a trama e o drama, além de permanecerem actuais, reúnem todos os valores (e a sua ausência) que justificam e explicam a sua luta. Meu Contrário realça o desafio, vencido, que expõe o intelectual  perante si mesmo, e acha o feito extraordinário: como foi possível, rodeado de esbirros e de ratos?
NOTA: Texto integral  da obra encontra-se apenas disponível em português do Brasil. As edições portuguesas encontram-se esgotadas.

16 novembro, 2012

José Saramago, 90 anos!

Todos os textos seus são textos a não perder. Mas este é urgente:
"(... ) Como sempre aconteceu desde o começo do mundo e sempre continuará a acontecer até ao dia em que a espécie humana se extinga, a questão central de qualquer tipo de organização social humana, da qual todas as outras decorrem e para a qual, mais cedo ou mais tarde, todas acabam por concorrer, é a questão do poder, e o principal problema teórico e prático com que nos enfrentamos consistirá na necessidade de identificar quem o detém, de averiguar como chegou a ele, de verificar o uso que dele faz, os meios de que se serve e os fins a que aponta. Se a democracia fosse, de facto, o que com autêntica ou simulada ingenuidade continuamos a dizer que é, o governo do povo, pelo povo e para o povo, qualquer debate sobre a questão do poder deixaria de ter sentido, uma vez que, residindo o poder no povo, seria ao povo que competiria a sua administração, e, sendo o povo a administrar o poder, está claro que só o poderia fazer para o seu próprio bem e para a sua própria felicidade, pois a isso o estaria obrigando aquilo a que chamo, sem qualquer aspiração a um mínimo de rigor conceptual, a lei da conservação da vida. (...)"

15 novembro, 2012

Este blogue esteve em greve (é o "ex-piquete" quem escreve)

- Psst, psst, senhor!, senhor!, não foi o senhor quem ontem esteve num piquete de greve e me elucidou sobre sindicatos "nim"?
- Eu mesmo, e me lembro desse nosso diálogo! 
- Acha mesmo que esse diálogo existiu? Só nós dois sabemos dele e mais ninguém o viu. Um acontecimento não noticiado do qual não houve referencia ao facto, nem foi mostrada qualquer foto, não existiu?
- Sem referência ao facto e sem se mostrar qualquer foto, ninguém de boa-fé pode sequer insinuar tenha tido lugar!
- E se pelo contrário, um facto forjado, narrado e bem destacado, com fotos por tudo o que é lado é, não só um acontecimento, como um acontecimento enorme, tremendo?
- É um acontecimento a que chamo um "fogo-fátuo"! Tem foto e é um facto, mesmo se o facto não o seja, de facto...
- Mas... o que é um "fogo-fátuo"?
- É um fenómeno natural bem visível, porque luminoso, e que ocorre sempre que há elevada quantidade de matéria orgânica em decomposição. Sempre que há putrefacção, há probabilidade de ocorrência de "fogos-fátuos"!
- Quer dizer então que à medida que o país se degrada as greves não servem para nada?...
As greves apenas podem servir para evitar a degradação, inverter o caminho... Quando se reconhece que não servem para nada...
- Aparecem os "fogos-fátuos"
- Não!... Quando tal acontecer, deixará de haver a paz dos cemitérios.... e tudo pode acontecer...

14 novembro, 2012

O humor, essa estranha forma de nos manter (quase) vivos... e distraídos


Clique na barra de texto, para ouvir 

Este blogue está em greve (é o "piquete" quem escreve)

(retirado daqui)
- Psst, psst, senhor do "piquete"!, Só uma pequena explicação, o que é um "Não!"?
- Bom, um "Não!" é uma dizer negativo do qual se espera um fazer coerente de negação!
- E um "Sim!"?
- Um "Sim!", é uma afirmação que vai em sentido contrário à negação. "Sim" é o contrário de "Não" e não há confusão entre um "Sim" e um "Não"...
- Não percebi!
- Não percebeu? Não percebeu, exactamente o quê?
- Percebi aquilo que lhe ouvi. Só não percebo como o meu sindicato disse "Não", para depois me recomendar "Sim"...
- Ah, pertence a um sindicato "Nim"
- Não me explicou o que é "Nim"...
- Lamento, nem eu sei dar tal esclarecimento... E então? Sim ou Não?
(foram 100% sim´s)


13 novembro, 2012

Greve Geral, a realidade e o que dela fazem os paparazzi...

imagem Street Art 
Tudo vai bem e conforme o compromisso, dizem. Tiraremos disso mais tarde o merecido beneficio, afirmam. Trocam elogios e sorrisos... a realidade não é o que é, mas o que dizem que ela é. O sufoco conta pouco para quem quer acreditar que não vai sufocar. Há quem queira aceitar a mentira porque ela funciona como a droga que alivia a dor. Ex-jornalistas passaram a ser paparazzi e são os candongueiros. Os comentadores falam apenas em pequenos avisos e contra-indicações, mas incentivam o consumo...

Mas a realidade diz que tudo vai mal... e já é impossível esconder... embora nem tudo (ainda) se sinta

Greve Geral?, comentadores e paparazzi dizem não mudar a realidade. E há quem digira tal mentira... e a propale. 

12 novembro, 2012

Penúltimo Acto

Emergem da lama e fazem-se passar por humanos (imagem Street Art)
O último acto será a resposta justa, dos humilhados e ofendidos
PENÚLTIMO ACTO

A noite em fundo
e o desalento prostrado
à boca de cena
A acusação nos rostos
cortados em tão pouca vida...
A penumbra sobre o palco dói!

E os olhos cheios de palavras:
Não quero as roupas usadas,
os sapatos que os vossos pés desprezaram,
o gesto de lavar culpas nas vossas mãos.

De que servem as orações, as confissões
se até esta sopa quente que me dais,
esta sopa que, na noite gélida, me aquece, me salva,
tem o sabor amargo da contrição.

O que quero eu? Sabeis o que eu quero?
A vida que me roubais
a coberto da mentira,
das vossas pseudo-filosofias
das vossas fomes e iras...

Sabeis o que quero?
Romper as vossas leis de uma só face
A vossa hipocrisia que castra
o meu legítimo direito à decência.

Porque fingis querer agora salvar-me
esquecidos que sois do motivo
por que devo ser salvo.

No teatro diário, no palco ou na plateia
todos são actores. O texto é a vida.
É bom que se leia.

Lídia Borges, (Seara de Versos)

11 novembro, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 18 (Muros Largos e Cartas Abertas)

(Ler conversa anterior)
"Esta interpelação não pode nem deve ser vista como uma qualquer reivindicação nacionalista ou chauvinista – é uma interpelação que se dirige especificamente a si, enquanto promotora máxima da doutrina neoliberal que está a arruinar a Europa. Tão pouco interpelamos o povo alemão (...)" - Carta Aberta a Ângela Merkel

A esplanada, ensolarada, e cheia, depressa se converteu em nossa plateia...

Não tenho dúvidas de o velho engenheiro e seu cão rafeiro serem meus fãs devotos. Ele, porque não mais me deixou de dirigir palavra a propósito dos meus escritos. O seu cão, apenas por abanar o rabo, quando me via chegar. A esplanada estava cheia e depressa se silenciou e transformou em auditório, para o diálogo que passou de muros fechados a cartas diversas que, às sacadas, foram (e continuam a aparecer) dirigidas à chanceler:
- Li o seu escrito sobre a queda do muro, lançou-me o velho com voz elogiosa - É um texto enxuto mas que remete para palavras extraordinárias de Saramago...
- Viu o video?
- Claro!, mas o que retenho são as palavras de Saramago: "que se deite abaixo (mas isto é pedir o impossível) o muro que divide os ricos dos pobres..." Só não percebo porque considera impossível que seja derrubado..
- É um muro largo!
- Tanto que não possa ser derrubado?
- Está muita gente em cima, desse muro largo, não cai nem para um, nem para outro lado...
- Refere-se à classe média?
- Sim, a essa classe... é ela que que está num impasse...
- Mas então é preciso que a classe média desapareça para haver alguma possibilidade de derrubar o muro?
- Não, basta que opte de que lado quer estar, se do lado dos pobres se dos lados dos ricos!
- Basta então essa opção?
- Basta essa opção!, mas não é fácil... Não leu algumas cartas que andam por aí a circular?
- Onde quer chegar?
- Há cartas que pedem à chanceler desse país rico que ponha os pés na terra, que olhe para a nossa história, para a nossa capacidade, para os nossos produtos e que compreenda que o aperto que nos está fazendo só nos conduz ao empobrecimento. São cartas que admitem que os ricos possam dar atenção aos aflitos... e que é possível fazê-lo, continuando ricos, como se os ricos não o fossem à custa da existência dos pobres...
- São cartas na linha daquela outra ideia de fazer passar um filme para sensibilizar o povo alemão...
- Isso era Marcelo a brincar com coisas sérias e para animar os que continuam em cima do muro...
- Marcelo está claramente do lado dos ricos?
- Marcelo está claramente do lado do governo e, este, a soldo da Ângela!
- Assim? Sem mais nem menos? Nem está em cima do muro?
- Já lhe disse que em cima do muro está quem anda atarantado, que sabe que se não decidir acabará por ou optar ou cair...
- E aquela outra carta que foi assinada por um mar de gente?
- É uma carta diferente!
- É uma carta de quem já tomou opção?
- Uns sim, outros não. Há gente que assinou a carta para poder explicar que é preciso que continue o muro entre ricos e pobres, com eles lá em cima a clamar que têm toda a razão para lá estar e que os ricos terão de se apiedar! Mas o muro vai-se estreitando...
- Não tem então razão Saramago quando afirma a impossibilidade de esse muro cair!
- Saramago escrevia para desassossegar!
- Desassossegou-o!
- Sim, há muito que estou do lado de cá do muro!

O velho sorriu e o cão parecia que também sorria. Todas as caras da esplanada estavam viradas para nós. Olhavam-nos aflitas, do alto do muro sem saber o que escreveriam a Ângela Merkel. Levantei-me e despedi-me com um "Até mais ver" ao que ele retorquiu "Dia 14 é que vai ser", e fui-me interrogando-me se ainda muita gente iria ficar em cima do muro entre opressores e oprimidos... a "Greve Geral" iria dar o sinal.



10 novembro, 2012

Álvaro Cunhal, "Porque nenhum de nós anda sozinho / E até mortos vão a nosso lado.” - 1


O programa anunciado é diverso. Ao ouvi-lo assumi um compromisso...

Faria hoje 99 anos, pelo que amanhã é o primeiro dia dos cem anos que ele faria. Assumi o compromisso militante de me associar, em nome próprio, a tão honrosa e continuada jornada de lhe divulgar a vida, o pensamento e a luta. Fá-lo-ei recorrendo à sua obra e à palavra dele, e ao que dele disseram, quem, como ele, lutou e sonhou (e ainda sonha e luta) por um mundo melhor, mais justo... e hoje é assim:
«Tão magro, de magreza impressionante, chupado a face fina e severa, as mãos nervosas, dessas mãos que falam, mal penteado o cabelo, um homem jovem mas fisicamente sofrido, homem de noites mal dormidas, de pouso incerto, de responsabilidades imensas e de trabalho infatigável, eu o vejo, sentado ao outro lado da mesa, diante de mim, falando com a sua voz um pouco rouca, os olhos ardentes no fundo de um longo e sempre vencido cansaço, e o vejo agora como há cinco anos passados, sua impressionante e inesquecível imagem: Álvaro Cunhal, conhecido por Duarte, o revolucionário português. Falava sobre Portugal, sobre que poderia falar?»
(...)
«Contei ao poeta sobre Cunhal e Pablo levantou-se, deixou-me com o pescador que parara para escutar-nos e quando voltou havia escrito esse maravilhoso poema que é «A Lâmpada Marinha»* sobre Portugal, seu povo, Álvaro Cunhal e o dia luminoso de amanhã» (...) Hoje o mais bravo dos filhos desse povo heróico, aquele que tudo sacrificou para ser fiel à esperança do povo está com sua vida ameaçada.» 
Jorge Amado  (ler tudo aqui)
A Lâmpada Marinha  
Porto cor de céu - I
Quando desembarcas em Lisboa, céu celeste e rosa rosa, estuque branco e ouro, pétalas de ladrilho, as casas, as portas, os tectos, as janelas salpicadas do ouro verde dos limões, do azul ultramarino dos navios, quando desembarcas, não conheces, não sabes que por detrás das janelas escura, ronda, a polícia negra, os carcereiros de luto de Salazar, perfeitos filhos de sacristia a calabouço, despachando presos para as ilhas, condenando ao silêncio pululando como esquadrões de sombra sobre janelas verdes, entre montes azuis, a polícia, sob outonais cornucópias, a polícia, procurando portugueses, escarvando o solo, destinando os homens à sombra. 
A cítara esquecida II

Ó Portugal formoso, cesta de frutas e flores ? emerges na prateada margem do oceano, na espuma da Europa, com a cítara de ouro que te deixou Camões, cantando com doçura, esparzindo nas bocas do Atlântico teu tempestuoso odor de vinharia, de flores cidreiras e marinhas, tua luminosa lua entrecortada de nuvens e tormentas. 
Os presídios III

Mas, português da rua, entre nós, ninguém nos escuta, sabes onde está Álvaro Cunhal?
Sabes, ou alguém o sabe, como morreu, o valente, Militão?
E sua mulher sabes tu que enlouqueceu sob torturas? Moça portuguesa, passas como que bailando pelas ruas rosadas de Lisboa, mas sabes, sabes onde morreu Bento Gonçalves, o português mais puro, honra de teu mar, de tua areia, sabes que ninguém volta jamais da Ilha da Ilha do Sal, que Tarrafal se chama o campo da morte?
Sim, tu sabes, moça, rapaz, sim to sabes, em silêncio a palavra anda com lentidão mas percorre não só Portugal senão a Terra.
Sim, sabemos, em remotos países, que há trinta anos uma lápide espessa como túmulo ou como túnica, de clerical morcego, afoga Portugal, teu triste trino, salpica tua doçura, com gotas de martírio e mantém suas cúpulas de sombra. 
O mar e os jasmins IV

Da tua pequena mão outrora saíram criaturas disseminadas no assombro da geografia.
Assim, a ti volveu Camões para deixar-te o ramo de jasmins sempiterno a florescer.
A inteligência ardeu qual vinho de transparentes uvas em tua raça, Guerra Junqueiro entre as ondas deixou cair o trovão de liberdade bravia transportando o Oceano a seu cantar, e outros multiplicaram teu esplendor de rosais e racimos como se de teu estreito território saíssem grandes mãos derramando sementes pela terra toda. Não obstante, o tempo te soterrou, o pó clerical acumulado em Coimbra caiu sobre teu rosto de laranja oceânica e cobriu o esplendor de tua cintura. 
A lâmpada marinha V

Portugal, volta ao mar, a teus navios Portugal volta ao homem, ao marinheiro, volve à terra tua, à tua fragrância, à tua razão livre no vento, de novo à luz matutina do cravo e da espuma.
Mostra-nos teu tesouro, teus homens, tuas mulheres, não escondas mais teu rosto de embarcação valente posta nas avançadas do Oceano. Portugal, navegante, descobridor de Ilhas, inventor de pimentas, descobre o novo homem, as ilhas assombradas, descobre o arquipélago no tempo. A súbita Aparição do pão sobre a mesa, a aurora, tu, descobre-a, descobridor de auroras. Como é isso?
Como podes negar-te ao ciclo da luz tu que mostras-te caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho, estreito e amplo Pai do horizonte, como podes fechar a porta aos novos racimos, ao vento com estrelas do Oriente? Proa da Europa, procura na correnteza as ondas ancestrais, a marítima barba de Camões. Rompe as teias de aranha que cobrem tua fragrante copa de verdura e então a nós outros, filhos dos teus filhos, aqueles para quem descobriste a areia até então escura da geografia deslumbrante, mostra-nos que tu podes atravessar de novo o novo mar escuro e descobrir o homem que nasceu nas maiores ilhas da terra. Navega, Portugal, a hora chegou, levanta tua estatura de proa e entre as ilhas e os homens volve a ser caminho.
A esta idade agrega tua luz, volta a ser lâmpada aprenderás de novo a ser estrela. 
Poema de Pablo Neruda, inserido na campanha internacional para a libertação de Álvaro Cunhal, 1954. 

09 novembro, 2012

Da Perestroika à Catastroika...

Nesta data, muitos recordam (e até comemoram) a queda do Muro. Podia fazê-lo também, regressando a uma homilia onde citava Saramago, mas opto para dar (e mostrar) uma volta pela história, explicando os nossos dias. E tudo começou com uma Perestroika...

Espantem-se!




Isabel Jonet e os pobrezinhos...

Mafalda, roubada ao Cantigueiro

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida. (...)

07 novembro, 2012

Abril armadilhado...



Fala o dono dos média de referência. O peso do seu dizer foi Cavaco a enaltecer. Não agora, que esteve calado (até nada vir dizer...): “Devemos todos apoiar os jornalistas e empresários nesta missão patriótica de pressionar...". Acho que os jornalistas e os donos da economia desde há muito que o fazem...


Desde há muito que "Abril" anda a ser armadilhado, 
mas agora trata-se de um autêntico golpe de Estado...

Ó Bama não falha? Boa malha!

Num país em que um presidente ainda manda um bocadinho*
Ainda bem que este "coiso" foi de carrinho
* Manda quase nada, diz-me a minha Fada, segundo o que lá escreve "O Grupo Inter-Alfa controla, hoje em dia, 70% do sistema financeiro mundial." - Que tal?

06 novembro, 2012

Sophia

Clique na imagem
Esta Gente
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia" 

05 novembro, 2012

De cada um o que puder dar, recebendo em troca tudo o que precisa - 3 (Marinaleda/Sevilha)

(clique na imagem)
"Já lá vai o tempo – que, olhando para trás, parece ser idílico – em que os indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes. É apenas um pequeno exagero dizer-se que a humanidade constitui, mesmo actualmente, uma comunidade planetária de produção e consumo. 
Cheguei agora ao ponto em que vou indicar sucintamente o que para mim constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência relativamente à sociedade. Mas ele não sente esta dependência como um bem positivo, como um laço orgânico, como uma força protectora, mas mesmo como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egotistas da sua composição estão constantemente a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. "
Por pena minha (e, se calhar, por pena nossa), a utopia de Marinaleda  será, tarde ou cedo, metida na gaveta. Einstein explica, nesse texto tão actual, que os grupos relativamente pequenos como os cerca de três mil generosos habitantes daquele pequeno município (tal como os de Tamera ou Volos) estão condenados pelo sistema, que, se não os engolir, os neutralizará. Até lá, o alcaide viu a sua posição reforçada, pelos habitantes de Marinaleda, nas eleições municipais de 2011... O socialismo está mais longe do que ali parece... ou talvez não!



Mais informação, aqui

04 novembro, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 17 (utopias)

(Ler conversa anterior) 
"Acho que as eleições, neste momento, complicam tudo e podem não resolver nada." - Mário Soares, hoje, no DN 
"Se começássemos a dizer claramente que a democracia é uma piada, um engano, uma fachada, uma falácia e uma mentira, talvez pudéssemos nos entender melhor." - José Saramago, em 2004, na Veja

Eles se olhavam, como se questionassem o mundo...

Quando me viu chegar o velho engenheiro aproximou-se da mesa perto da minha e antes mesmo de se sentar já me diria palavras, ele que nunca o fizera antes.
- Estou a ler o que está a escrever... sobre Tamara e, ontem sobre Volos... 
- Ah! não sabia que me tinha descoberto...
- É mais fácil descobrir-se um inocente que um criminoso
- E que tal?, que pensa dessas utopias?
- Na verdade? sabe? Não tenho pensado. Tenho sonhado. Sonhar é um pouco menos que pensar. Mas também é menos doloroso. Entre um sonho e um pensamento vai a distância que separa a forma de desejar o mundo e aquilo que o mundo nos parece ser...
- Nunca tinha visto isso assim... mas faz sentido
Ficámos ambos por um momento calados e o rafeiro abanava a cauda esperando o reatar da conversa. Retomo-a o velho engenheiro:
- Não é verdade aquilo das gentes perto de Alvega viverem já na antecâmara da utopia. Não é verdade que haja esse sentimento comunitário e que cada um compense o seu vizinho das faltas que ele tem, nem que procure nele aquilo de que carece...
- Não, não é verdade!
- Mentiu, portanto!
- Não, foi apenas um engano, desfeito logo de seguida pelo meu genro...
- Acha que uma utopia pode nascer a partir de um engano desses?, quem ler irá apontá-lo a dedo. Chamar-lhe-ão manipulador, falsificador...
- E o senhor? 
- Bom eu acho que as utopias podem nascer de todas as maneiras... de actos voluntários...
- Como em Tamara?
- Sim, como em Tamara. Podem nascer também como forma de resistir a um sistema de perda de soberania e como resposta ao empobrecimento, à falta de recursos para o sustento...
- Como em Volos? Mas não acha que regressar a uma economia de troca não será uma regressão... civilizacional?
- A civilização nunca regredirá se voltar um pouco atrás à humanidade da partilha... Há que saber dar um passo atrás para depois avançar dois...
- Isso é uma tese de Lenine, uma estratégia...
- Uma estratégia de bom-senso,  para quem descobre que vive num logro e que seguir em frente é uma loucura... é um desastre... esse sim, civilizacional...
- Acha então que devíamos ter o bom-senso de dar um passo atrás?
- Ou dois... se nos enganámos num caminho é preciso regressar ao ponto do engano e atalhar pelo caminho certo...
- E saberemos fazer isso?
- A necessidade aguça o engenho, é o que diz quem acabará por o saber...
- O povo? Este?
- Não temos outro!...

03 novembro, 2012

De cada um o que puder dar, recebendo em troca tudo o que precisa - 2 (Volos/Grécia)


Não estou seguro que Seguro (que esteve presente) tenha aprendido qualquer coisa com a lição. Não estou seguro, igualmente, de quem me visitar o vá escutar e ver de fio-a-pavio. Mas lhes dou resumo... lhes digo, que isto (para as três alternativas apontadas) não tem, nos tempos mais próximos, outra saída senão desenvolver, em prática informal, uma verdadeira utopia. Eu explico: 

Próximo de Alvega, existem pequenas freguesias rurais (decadentes, como as demais) onde já se observa  uma economia de troca: um pequeno repolho, vale mais que um ovo; duas aves de capoeira e uma poedeira valem um peixe rico do Tejo; deste, meia dúzia de fataças  valem um saco de batatas; um saco de azeitonas dão para uma boa medida de azeite (ou outra troca que for aceite), etc. etc. Generalizar a prática e levá-la até Alvega não terá grande dificuldade, nem arte... mas fazê-lo, em Abrantes... já ronda a utopia. 

Contudo as utopias vão acontecendo e até consta que estão em crescendo. Para tal a pressão de uma Europa sem solução e o desenvolvimento de uma solidariedade que dá à comunidade imaginação até mais não, resolve (quase) tudo). Eu explico:

Uma moeda alternativa foi introduzida na cidade portuária de Volos, na Grécia, A iniciativa resultou na criação de uma rede com mais de 800 integrantes, numa comunidade que não estava a conseguir manter o seu poder aquisitivo com bens cobrados em euros, devido à grave crise económica que atinge o país.Na prática, a moeda é baseada num sistema de trocas, onde pessoas que têm bens ou serviços a oferecer podem acumular crédito para usar em determinadas lojas e mercados. 
 "É uma ótima ideia, porque precisamos fazer as pessoas entenderem que todos nós podemos comprar ou vender alguma coisa. Nós não precisamos de euros."
(ler aqui, ou ver o video abaixo ) 


(o video tem uma função que permite seleccionar legendas em espanhol)

02 novembro, 2012

De cada um o que puder dar, recebendo em troca tudo o que precisa - 1 (Tamara/Odemira)

Existe a utopia, sabia? Mais que uma, até... falarei das que me foram dadas a conhecer... e esta é a primeira...  por ser caseira...
Atraídos pela natureza, fartos do asfalto e do tal labirinto que conduz a um lugar desesperado, os habitantes de Tamara (Odmira) escolheram viver numa comunidade que, caso se venha a alargar, vai colocar problemas tramados ao ministro Gaspar... 
...dá que pensar viver numa comunidade assim... não vou adjectivar. Para já, apenas dou a conhecer (a quem não conhecia). As imagens não foram escolhidas ao acaso da sua beleza (e são muitas as que são belas) mas porque merecem reflexão. No dia em que se acabar o petróleo barato... que vamos fazer, então? 
Admitindo que ir para Tamara é um acto voluntário, quase impossível para quem anda perdido neste labirinto,  sobra a questão: "Vamos ter de nos habituar a outra forma de vida?"

Sim ou não?

Próximos posts: Volos (Grécia): Marinaleda (Espanha); Cuba 

01 novembro, 2012

No labirinto...



No labirinto
Quando tudo começou
Os caminhos eram largos e floridos
Eram floridos os caminhos
Tinham veredas
E rotundas belas
Os espaços eram abertos
Não se davam por incertos
E iam-se abrindo as saídas
Que davam
Para um mesmo lado
Apenas invertendo
O sentido
Uns iam indo
Outros vindo
Um velho cruzava-se com outro velho
E um ao outro dizia
Não tem saída
Um jovem cruzava-se com outro jovem
E um ao outro dizia
Não tem saída
Um homem cruzava-se com outro homem
E um ao outro dizia
Não tem saída
Um homem cruzava-se com uma mulher
Enamoraram-se e seguiam por um outro caminho
Que parecia alternativo
Mas que também não tinha destino
Tiveram filhos que, distraídos
Que lhes seguiram os trilhos

No labirinto, hoje, fervilha vida
Que não encontra saída
Nem ouvem, surdos
Quão vulneráveis são os muros

E continuam
Indo e vindo
No labirinto
Rogério Pereira