30 setembro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 101

...dar atenção finalmente às plantas - essas nossas irmãs
.
"A alegoria chega quando descrever a realidade já não nos serve." escreveu não sei onde Saramago. Ele continua a inspirar cada homilia mas os tempos que vão correndo me obrigam a chamar a este lugar outros saramaguianos. Não, não se trata de virar costas a Saramago, mas sim dar atenção a quem (também) a merece e lhe segue os passos...

HOMILIA DE HOJE
- Era o que eu dizia a Vossa Excelência.
- Era.
- Um homem depois de cair pode ainda cair mais.
- A queda interminável, a queda infinita.
- Vossa Excelência dizia ser mais fácil esmagar um corpo já caído no chão. Era isso?
- Em pleno século XXI cair no chão com grande força e velocidade deve ser considerado uma grande oportunidade...
- Para ser esmagado?
- Sim, para ser esmagado.
- É.
- No fundo, repare Excelência... o que é esmagar um corpo senão uma incomparável delicadeza civil de fazer que um corpo que antes ocupava determinado espaço passe a ocupar menos espaço?
- Não entendi, Excelência: frase longa.
- Dizia: esmagar um corpo é apenas, no fundo, diminuir o volume de um corpo, diminuir o espaço que esse corpo ocupa.
- Ou seja, de um outro ponto de vista...
- De um outro ponto de vista: esmagar um corpo é alargar o espaço comum, o espaço da cidade.
- Por cada corpo esmagado, portanto, a cidade ganha espaço, metro quadrado. Enfim, até podemos utilizar esse espaço livre para construir espaços verdes. Que lhe parece?- Que bela ideia! Construir espaços verdes no lugar de...
- Abrir espaço na cidade através do esmagamento organizado dos diferentes corpos de cidadãos que por aí andam, aos caídos, por assim dizer... e, com esse espaço livre, começarmos a dar atenção finalmente às plantas - essas nossas irmãs. Isto é planeamento urbano... ou não?
- Sim, sim, claro.
- As nossas irmãs plantas.
- Nunca respeitei seres humanos que não respeitem os espaços verdes (...)
Gonçalo M. Tavares, hoje, no DN-Magazine 

29 setembro, 2012

... e encheram ruas e caminhos até à Praça que, de cheia, trasvaza . Ecoaram vozes e as sombras tremeram (como não deixar de tremer?)...

15 e 59, e ainda vinha eu no inicio da Rua da Prata... o desfile duraria ainda mais de uma hora...
Nem pensem que me detenho a comparar esta com a outra, a outra com aqueloutra e esta com a próxima.. Nem pensar em comparar rostos, rugas, energias, alegrias, tristezas, desabafos, certezas, palavras de ordem e os decibéis colocados nos gritos gritados ou na cores dos gritos desenhados em milhares de improvisados painéis e panos pintados. Nem pensar... O que realmente há a destacar é que este meu povo está a acordar. O resto, ou é a desvalorização da importância da rua, ou o criar de clivagens num "dividir para reinar". E, nisso, não alinho e é preciso ninguém embarcar.

Nas manifestações (nesta e a na outra) são claros (e enérgicos) protestos à politica de desastre. São um apelo à mudança e ao regresso da esperança. Concordam?

28 setembro, 2012

Que se encham as estradas, ruas e caminhos até à Praça. Que ecoem vozes e que as sombras as oiçam e tremam...


ACORDAI
Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor 
Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar 
Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis 
José Gomes Ferreira/Fernando Lopes Graça 

Em nome de semelhante ética, a uma sociedade com doença grave, não há mais que fazer do que deixá-la morrer...


Certamente conhece o video (tem cerca de cinco anos) e certamente se comoveu ao vê-lo. Não tenho pois palavras para o que, agora, acabo de ler. As que tinha romperam-me os lábios e o que saiu não foi mais que um soluço... 

27 setembro, 2012

Também o mar foi metido na gaveta...



Felizmente que não se cortou (ainda) o cordão umbilical que nos liga ao mar...

Leio no Público de hoje que foi o "25 de Abril" que fez com que se voltássemos as costas ao mar e que a ministra Cristas quer ideias para projectos. Sobre a primeira afirmação não me sobra espanto, habituado que estou a que a história se vá distorcendo a ponto de quase se por em causa que a "Jangada de Pedra" tenha algum dia sido escrito com o sentido que foi dito. Sobre a segunda, o grito da Cristas, estaremos mais uma vez perante um clamor dirigido aos jornais, num faz de conta de mau gosto. Entre uma e outra vai um nome que me ocorre: Mário Ruivo. E ocorre-me por duas razões, por ter sido Secretário de Estado  das Pescas do 1º Governo Provisório e Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Vasco Gonçalves (um homem do mar, nunca o meteria numa gaveta) e por serem dele as seguintes palavras:
Dispomos de uma comunidade científica qualificada, com alto nível de produção científica, mas é imperativo reforçar a capacidade nacional, nomeadamente em navios de investigação e plataformas de trabalho no Mar, pondo termo à instabilidade de programas e projectos que nos tem feito perder energia e oportunidades. Temos conceitos, ideias, estratégias, dispomos de redes de colaboração e de bons núcleos de especialistas e técnicos. Estamos, no entanto, ainda, confrontados com inexplicáveis bloqueios a nível institucional que não nos permitem agir com coesão, continuidade e optimização dos meios e dos recursos humanos.

Bem teria feito o jornalista, se tivesse consultado tal fonte...

25 setembro, 2012

Exportações: Augusto Mateus, Eugénio Rosa e a minha prosa...

Vão-se os anéis e os dedos... ficam as mentiras e os medos?

Ao ler hoje no Público o texto sobre o estudo de Augusto Mateus («Exportações, valor e crescimento») senti-me tentado em reler o que escreveu Eugénio  Rosa, num estudo seu («O milagroso "reajustamento externo" do governo e da troika». Batem um com o outro, e "bate a bota com a perdigota", como diria o outro:
 "Hoje, só 18,5% das actividades económicas são transaccionáveis, quando em 1995 esse valor estava nos 26,5%. ... Os sectores que poderiam contribuir mais para valorizar as exportações estão a perder a quota de exportações." - Augusto Mateus 
 "o aumento das exportações portuguesas está a ser feito, paralelamente, com a redução muito grande das exportações de bens de maior intensidade tecnológica e, por outro lado, por meio de aumento enorme da exportação de ouro (+ 403,5% entre 2007 e 2010) e por uma subida principalmente das exportações de bens de média, de média baixa e de baixa intensidade tecnológica." - Eugénio Rosa
Numa altura em que atenções estão (com razão) centradas no saque a quem trabalha, no assalto aos bolsos dos idosos, eu venho alertar para o real empobrecimento do país e para a destruição contínua da economia. Assim, não há saída (nem para pagar a dívida)

24 setembro, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 13 (a troika que se lixe)

(Ler Conversa anterior)
""não há como fugir à troika" - Marcelo Rebelo de Sousa, ontem, na TVI 
"...isto está a falhar... eu acho que é preciso discutir a renegociação da dívida. Essa questão irá ficar em cima da mesa..." - André Freire in "Prós e Contras"
 

...e o senhor engenheiro levantou-se, ligeiro, e foi mostrar aquele video...

Não me surpreendeu a decisão da Gaby ao afirmar ir, no sábado à manifestação. O grupo a pouco e pouco vinha a demonstrar uma atenção crescente sobre temas que nunca abordava e, ao abordá-los mostrava, quase que em bloco uma disponibilidade para passar a ter papel mais activo no domínio cívico (excepção para a Rita, que ainda insistia nos tiques apanhados nos "Morangos com açúcar")
- Viste ontem aquele sacana?, interrogou a Ana?
- Ó filha, esse coiso é um magiar manipulador. E é escutado... tem mais audiência do que muita gente pensa...
- Mais que a "Casa dos Segredos"...
- ...e é eficiente. Topas a linguagem do gajo? Quem não lhe compra o recado, naquela alegoria do médico e do doente? É preciso ter lata em falar da "adesão psicológica do doente" ao tratamento que lhe é imposto... e já sabem os próximos seis meses " têm que ser usados para "recolar" as relações entre médico e doente. Ele o fará e bem...
- Porque é que vocês não vêem o "Prós e Contras"? Por vezes a Fátima comete erros de casting e lá aparece alguém...
- Ó filha, é uma seca...
- Pois, mas sempre vamos ouvindo coisas diferentes. Se quiseres, ouve os primeiros vinte e poucos minutos, e depois desliga. Nesse tempo curto, fica tudo dito...
- Por exemplo?
- Sobre a renegociação da dívida... 
- Como na Islândia?, isso não dá nada, nem lá deu...
Nesta altura do diálogo, o senhor engenheiro, perante a surpresa de todos e, até, do seu cão rafeiro, saltou da mesa, ligeiro, e dirigiu-se à Gaby:
- Posso?, perguntou estendendo a mão a solicitar-lhe o iPad.
- Pode!
E o senhor engenheiro em menos de um fósforo encontrou no youtube o que lhes queria mostrar. Todas atentamente seguiram o video, de mim já conhecido!

23 setembro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 100



Já não estar, estando...

Não é a primeira vez que uma amiga me influencia na escolha de uma homilia. Não falarei do que ela fala, não falarei do fado, enquanto canção, mais do que lá lhe disse (Minha Alma se comove com o trinado, Meu Contrário atende ao conteúdo, e Eu fico preso e mudo, atento, ao lamento de um fado). Não repetirei que há vozes que lhe dão um sentido querido e que é ilustrado pelo video. É que o momento vivido exige que se fale do fado como destino, e neste, só há uma coisa certa que chega a hora incerta. No resto, enquanto a morte não chega, o destino será o que um homem fizer para que seja, com persistência e capacidade de espera, mais do que se pensa... 

HOMILIA DE HOJE
"Afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte." 
José Saramago

22 setembro, 2012

Minha Alma, uma carta me escreveu (Meu Contrário também a leu)

Minha Alma está triste comigo...
e diz que tenho de voltar ao estilo antigo.
Meu Caro Eu, 
Estou desolada. Tenho acompanhado teus últimos escritos e não me revejo nas palavras usadas. Não que lhes falte a razão, a aguda crítica e, até, uma correcta visão. Falta-lhes esta, que te escreve. De vez em quando lá me sinto e revejo, para depois me ver relegada para um plano secundário e ser quase ignorada. Cuidado. Quando se assumem actos de cidadania e se parte para o combate, nunca se põe a alma de parte. Se fazes isso, acabas por te assemelhar aos que queres rejeitar. Se falas com sete pedra na mão, perdes razão. Ou pelo menos não te a reconhecem. Lembras-te das tantas vezes que citaste o mestre de que és apóstolo? Afirmaste teres aprendido, como ele, a "... não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro." Lembras-te?
Volta ao teu estilo antigo, meu Eu amigo. 
Um beijo da tua sempre querida
Minha Alma, tua amiga

Li atentamente a missiva com Minha Alma por perto a medir-me a reacção. Meu Contrário, que tinha lido comigo, segredou-me: "Manda tua alma à fava". Respondi-lhe que lhe tenho que explicar o que é raiva...

Acordai!


Dizer que "dorme que nem uma pedra"
não significa  que as pedras não acordem...

21 setembro, 2012

Privatização da Caixa: outra "lebre" lançada?



A poucos minutos do inicio do Conselho de Estado que retirará da corrida a lebre TSU, lembra-me a imprensa que a privatização da CGD é polémica que entrou agora em prova.. António José Seguro tornou-se duro. A batalha e a polémica virá a ser histérica. e os elevados decibéis abafarão tudo o resto... E o resto é um mundo. A lista das empresas a privatizar abrange as mais diversas áreas: transportes (ANA - Aeroportos de Portugal, TAP e CP Carga), energia (Galp, EDP e REN), infra-estruturas (Águas de Portugal), comunicações (CTT - Correios de Portugal e RTP) e sector financeiro (ramo segurador da Caixa Geral de Depósitos).
José Seguro será frontal a lutar por aquilo que, está assente,  não está sequer agendado. Passos entrou no jogo. Será que embarcamos no logro?

Como José Seguro não falou de outras privatizações, falemos de onde elas já aconteceram:


20 setembro, 2012

Conselho de Estado: também tenho direito a imaginar um cenário...

A pedido, Cavaco Silva mandará retirar o que tão mal estava a cheirar...

... a conversa incidirá, não sobre obra desde há muito obrada, mas sim sobre a que foi obra recente. De fora, chegam ecos de ter sido, esta, obra incompetente, nauseabunda. Retirada a bosta antiga da agenda e da mesa, a sessão, mesmo assim, será agitada. Não porque a agitação (entre amigos, conhecidos e comparsas da mesma farsa) se justifique, mas que fique para a história que todos se agitaram.  É uma agitação controlada, Cavaco sabe de quem está rodeado. Se alguém levantar a "garipa" e colocar questões fora da agenda, ele ameaçará fazer regressar a bosta acumulada à sala. E isso ninguém quer.  
As moscas serão colocadas em cheque. Serão mudadas.

Lá fora, um mar de gente, canta, sem parar, "Acordai". E alguns talvez o façam, mas já não convencem...

A tal sondagem e a consciência que ainda falta...

As sondagens valem o que valem e esta não foge à regra de ser um indicador, que serve muitas vezes como forma de pressão da própria opinião. Mesmo considerando que apenas cerca de 40% dos entrevistados aceitaram responder (ver taxa de resposta) a sondagem indica (e não mais que isso) uma tendência para a queda da coligação que nos governa e uma subida das forças que rejeitam o "pacto de agressão".  Como reagiriam os sondados ( e também os calados) se os jornalistas ( e os fazedores de opinião) seguissem o exemplo que aqui apresento?

19 setembro, 2012

Manifestação "Que se lixe a troika"... Lamuria, disposição para a luta ou o quê?

Respondendo aos promotores, estiveram na rua representantes de todo o tipo de organizações e cidadãos anónimos... E foi um mar de gente, um rio que atravessou Portugal de lés-a-lés

Sobre o que foi a manifestação, há muita e diversa opinião: desde a de Vital Moreira, que reflecte um estranho entendimento de democracia,  e a de António José Seguro (e o seu estranho entendimento de cidadania) até figuras mais comprometidas com o ideário de esquerda, passando por um intelectual de alinhamento ferrenho com a coligação do governo: 
VITAL MOREIRA - «…Nenhuma democracia pode assentar nos "referendos de rua", para revogar as decisões politicas do governo em funções…» 
ANTÓNIO JOSÉ SEGURO - «Eu não fui à manifestação porque esta foi uma demonstração de cidadania. (…) Sei que há espaço para os partidos políticos, que devem fazer o seu trabalho, e espaço para a cidadania.» 
VASCO GRAÇA MOURA - «… A palavra de ordem da ruptura parece ter sido subscrita com grande veemência por muita gente que não tem nada a ver com a esquerda propriamente dita, nem com as organizações partidárias ou sindicais, embora também lá houvesse sinais da preocupante presença delas. E essa generalização transversal do protesto é provavelmente o facto que gera mais inquietação, uma vez que não traduz apenas o imediatismo acrítico de uma reacção popular inorgânica, mas envolve também a rejeição de uma situação que é inescapável, independentemente da questão da TSU…» 
BATISTA BASTOS - «…o ciclo fechou-se sobre Passos e a sua obstinada soberba. E ainda não se registara a explosão ética de cidadania… Os dados estão lançados. Mas a alternativa é inexistente. A não ser que a consciência cívica se erga, de novo, e exija que esta nefasta indigência entre o PS e o PSD seja substituída por outras possibilidades. Que as há.» 
MIGUEL TIAGO - «(estamos) comprometidos com a luta que estas pessoas que aqui, hoje, vêm reclamar e com as exigências que aqui colocam… Não temos ilusões de que uma luta resolverá tudo, mas certamente será um contributo para alterar o rumo político que o país está a sofrer, e será certamente também um importante momento para desgastar a base de apoio social do Governo.»

Passos Coelho e a lebre "TSU"

Em atletismo, uma "lebre" corre para pouco depois desistir e fazer com que outros vençam...

Nem todos sabem, mas podem ficar a saber, que as "lebres" são uma manha consentida para que outros, que não elas, ganhem a corrida. As "lebres", em provas de fundo (e dizem os "mentalizadores" de serviço que a crise está aí para durar), têm uma intervenção planeada: imprimem passada enérgica e forçada que parece desadequada à prova exigindo um esforço sobre-humano. Todos, os mirones e os outros competidores, concentram a atenção na "lebre": os mirones julgam que ela, posta a correr, corre para ganhar e dividem-se, uns aplaudem, outros apupam; os competidores perdem a noção da sua própria estratégia para a corrida; os escolhidos para ganhar, passam quase despercebidos e quando tudo está de cabeça perdida, são estes que ganham a corrida. É isso, as "lebres" distraem... 

Desde que Passos Coelho lançou a criativa taxa TSU, alguém mais falou na enxurrada de medidas gravosas que está preparada? O Conselho de Estado vai dizer quando é que a "lebre" vai abandonar a corrida, fazer inverter os discursos, suspirar de alivio os vencedores e, talvez até, venha a ser anunciado que serão nomeados novos "lebres"... 
A analogia (quase metáfora) já vai longa. Por mim, não pega a manobra e dia 29, na rua, vou exigir outra prova. 
Esta, não presta!

18 setembro, 2012

Luiz Goes - In memoriam (1933 - 2012)


Para ouvir clique no título 
Tu que tens dez réis de esp'rança e de amor
Grita bem alto que queres viver.
Compra pão e vinho, mas rouba uma flôr:
Tudo o que é belo não é de vender.
Não vendem ondas do mar,
Nem brisa ou estrelas,
Sol ou lua-cheia.
Não vendem moças de amar,
Nem certas janelas
Em dunas de areia.
Canta, canta como uma ave ou um rio,
Dá o teu braço aos que querem sonhar.
Quem trouxer mãos livres ou um assobio
Nem é preciso que saiba cantar.

Tu que crês num mundo maior e melhor
Grita bem alto que o céu 'stá aqui.
Tu que vês irmãos, só irmãos, em redor
Crê que esse mundo começa por ti.
Traz uma viola, um poema,
Um passo de dança,
Um sonho maduro.
Canta glosando este tema:
Em cada criança
Há um homem puro.
Canta, canta como uma ave ou um rio,
Dá o teu braço aos que querem sonhar.
Quem trouxer mãos livres ou um assobio
Nem é preciso que saiba cantar.
Música: João Figueiredo Gomes
Letra: Leonel Carlos Duarte Neves

Que não nos sequem as fontes...

Foto de Maria Fernanda Ferreira







Orgulhosa a nascente que alimenta a fonte...
Orgulhosa e humilde,
pois essa condição é permanente omissão...
Só reagimos ao que vemos, mas o mais belo é o que não conseguimos ver...

Que não nos sequem as fontes!

17 setembro, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 12 (a grande manifestação)

(Ler conversa anterior) 
"A política normalmente circunscreve-se aos seus profissionais, mas no sábado disse respeito a toda a gente, porque a verdade é que a política tem a ver com a vida das pessoas". - António Pinho Vargas, in jornal PÚBLICO

"O castigo daqueles que não se envolvem na política, é o de serem governados por seus inferiores". - Platão, in Alegoria da Caverna
Olhem, se eu tivesse passado ao pé deste gajo, também não me escapava. É giro à brava...

Quando cheguei, a conversa ia em euforia. Não foi necessário muito tempo para perceber que, à excepção da Gaby, todas tinham ido à manifestação. Passando imagens sucessivas no iPad, a Gaby não se cansava de comentar, ao seu jeito, detalhes de cartazes, rostos e a multidão, perturbando a conversa, que, entretanto, as outras iam tendo.
- Não esperava que fosse assim
- Querias que fosse como?
- Não sei... mas gostei!, só não gostei foi de ver aquele...
- Quem?
- O da Intersindical, se não era uma manifestação dos sindicatos, que foi ele lá fazer?
- O mesmo que nós! Podias dizer é que foi pena o da UGT não aparecer!
- Se calhar até foi, mas perdeu-se na multidão...
- A televisão daria com ele, não lhes escapa nada!
- Acho que o da UGT fez bem não ir!, se assinou o acordo e o pacto, como é que agora vinha para a rua?, ao menos foi coerente, ao contrário de muita gente...

Durante breves minutos a Teresa, a Rita e a Ana calaram-se e na explanada apenas se ouvia o som do video que a Gagy atentamente escutava. O senhor engenheiro, o seu cão rafeiro e eu próprio mantinha-mo-nos na expectativa de a conversa ser retomada. A Teresa retomou-a: 
- Vais à outra?
- Eu não, credo... e vocês, vão?
- Eu não sei, nem pensei nisso...
- Eu vou, acho que esta foi uma imponente demonstração de desacordo, a outra será a demonstração de força para a luta empenhada. Talvez sejam menos... mas esta, enorme, não pode ser transformada em objecto de arremesso contra quem luta todos os dias!
- Mas tu nem alinhas nem com partidos, nem com sindicatos...
- Pois1... e talvez o mal tenha sido esse... e por isso temos vindo a ser governados por gente desta!
E o silêncio regressaria ao grupo se não fosse a voz da Gaby, desligando o iPad e afirmando em voz tão alta que espantaram o melro e pombo que por ali já andavam:
- Conta comigo, desta vez irei contigo!
Perante a admiração das outras e o alegre abanar do rabo do rafeiro do senhor engenheiro, eu disse, sem que ninguém me ouvisse: "boa malha!"

16 setembro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 99

Há um homem lá em baixo, e a ajuda merece ser explicada...

Depois do rio de gente que ontem correu, minhas homilias não serão mais o que foram até aqui. Saramago compreenderia que, por palavras suas, desse voz e citasse, além de ele, outros escritores, de outras gerações. Do hoje citado fez Saramago grande elogio. Dia a dia o dito mostra ser merecido:

HOMILIA DE HOJE
- É bem conhecida esta história.
- Qual?
- A de um homem que está no fundo do poço e pede ajuda.
- Como pede ele ajuda?
- Assim, da mesma forma que os antigos pediam: grita e abana os braços.(ele grita e abana os braços, exemplificando o gesto de pedido de ajuda).
- Só isso?
- Além de gritar e abanar os braços, ele olha para cima. Como está no fundo do poço, olha para cima. A pedir ajuda.
- Muito bem. E o salvador desse homem, o que faz? Se há homem para ser salvo há sempre quem apareça para salvar.
- O mais habitual é até existirem mais salvadores do que homens a precisar de ser salvos.
- Pois sim, mas continuemos...
- Continuemos... o salvador desse homem mal ouve os gritos corre para lá e manda uma corda para o fundo do poço.
- Que simpático.
- E depois, lá de cima, o salvador vai dando instruções.
- Instruções sobre?
- Instruções sobre... como quem quer ser salvo deve colocar a corda em redor do corpo de maneira a ser puxado lá para cima pelo seu salvador. Uf.
- No fundo, instruções para ser salvo.
- Eu vou salvar-te mas tens de seguir as minhas instruções - é isto que diz o salvador.
- Muito bem.
- Muito mal. Quem quer ser salvo está tão desesperado que segue à risca as instruções de quem diz que o vai salvar. Nem sequer pensa no que está a fazer. É uma história bem conhecida, já o disse a Vossa Excelência. Os salvadores deste século leram mal o manual de instruções de salvamento.
- Leram mal?
- Sim. Ou digamos, há duas hipóteses: quem estava lá em baixo ouviu mal ou então as instruções foram erradas. O certo é que, quem estava no fundo do poço, seguindo escrupulosamente as instruções, colocou a corda em redor do próprio pescoço e o salvador, lá em cima, puxou... a corda.
- E o que aconteceu?
- Quem estava a precisar de ajuda chega à superfície inanimado, com uma corda ao pescoço. Está pior do que estava. Talvez fosse melhor terem-no deixado no fundo do poço. Sem corda.
- Que horror!
- Exactamente. Daí que, quando eu próprio, aqui presente, me encontro, por qualquer circunstância azarenta, no fundo do poço, fico por lá, caladinho, em silêncio absoluto.
- Não chama por socorro?
- Nunca! Você é louco?! (...)
Gonçalo M. Tavares, in DN-Magazine

Maria: dois anitos, bonitos!

Parabéns, diz o Diogo à Maria...
Um ar muito vivo, e...
... por vezes, muito maroto! 

15 setembro, 2012

Um mar de gente, um grande rio varrendo Portugal de lés-a-lés...

I

Ir foi um acto voluntário. A maioria terá estado por decisão individual, mas ao reconhecer que outros também estavam (e foram tantos), tiveram talvez uma primeira experiência ao se reconhecerem nessa multidão. Talvez tenham tido a consciência de um poder até aí desconhecido. Se tal aconteceu, que volte a ser utilizado. O pacto tem mesmo que ser rasgado!

Da volta dada aos blogues e amigos do facebook, não resisto em endereçar para este texto, em "O Meu Mundo Cor de Rosa", boa reportagem, excelente prosa... 

Destroikar ou voltar ao ritmo de arder em fogo lento? (2)

Sem ambiguidade: QUE SE LIXE A TROIKA

14 setembro, 2012

Sondagem: Qualquer ligação entre o texto e a imagem... é mera especulação. (A esta hora o pessoal está a ver a "Gabriela" na televisão)

Excelente oportunidade para o "coiso" brilhar, depois de (com cuidado) ouvir o Conselho de Estado...
PÁTRIA 
Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.

Guerra Junqueiro, “Pátria”, 1896.

Destroikar ou voltar ao ritmo de arder em fogo lento?


O video bem produzido. Estou de acordo com ele e ele está de acordo comigo. Pequenas desavenças quanto à organização e convocação da manifestação, não me fazem retirar uma só palavra ao acima dito... A manifestação é para destroikar?, destroikemos então. 

Da troika interna, já se sente o alarido e a perturbação pelo ritmo excessivo das medidas bem como do seu doloroso peso sobre o povo. Dessa troika interna (os três partidos subscritores) clamam vozes e palavras duras, mas sem se avistarem grandes roturas. A questão pode ser até entendida em torno da adesão à manifestação: João Galamba, disse que “em princípio vai”, porque apesar de não se identificar inteiramente com o ‘slogan’ da manifestação - “Que se lixe a ‘troika’, queremos as nossas vidas” -, considera que “é importante participar num movimento de levantamento do país contra esta loucura”. Manuela Ferreira Leite também admite vir a participar... 

13 setembro, 2012

Medo, medos... (4)

Depois de sermos crianças, o medo é o que resta de uma mente mal desperta...
O medo, visto por dentro
Não sei definir medo
Só sei que gostaria
que o medo pudesse ser
qualquer coisa de tangível,
de apalpar, de cheirar e de se ver
E se o fosse, que fosse redondo,
que rolasse e tudo à frente esmagasse
E que se tivesse cheiro,
que fosse o do sebo salazarento
E que ao tacto se sentisse a impressão
do fogo vivo das fogueiras da inquisição
Depois, o medo podia ser apontado
e, sei lá, até cortado

Ver-se-ia que o medo
Não tem nada dentro
Rogério Pereira 

Amanhã é amanhã, independentemente de esse amanhã coincidir com uma dada data. Mas será amanhã, certamente.... meu poeta não mente...



A data mais certa para você estar na rua é escolha sua... só recomendo atenção...

(video retirado de "5 dias")

12 setembro, 2012

Tal como esperado, foi chumbada a moção de censura (...) A iniciativa, votada no final de um debate dominado pela discussão sobre a possibilidade de mais medidas de austeridade, caiu com os votos contra da maioria PSD/CDS-PP. PCP, Bloco de Esquerda e Os Verdes votaram a favor. O PS absteve-se. (25 de Junho de 2012)

Diz-se que há desaguisados entre eles, e que há um coro de vozes....  
Nem os cito. Apenas observo que as reacções, salvo muito isoladas mas honrosas excepções, são quanto ao desatino do ritmo acelerado com que as medidas se sucedem. Alguns se comprazeriam em ardemos num fogo mais lento e tenho dúvidas se não repetiriam anteriores comportamentos (aludidos neste título)
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Escreve, hoje, no DN um daqueles comentadores encartados pelo "reputado" jornal: "A escritora dinamarquesa Karen Blixen dizia que os seres humanos são capazes de suportar todos os sofrimentos desde que eles façam sentido". Sendo que a maior critica à renegociação da dívida é que ela arrastaria pesados sacrifícios,  faltou ao opinador dizer se tal faz ou não sentido...
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Um amigo citava ontem Victor Hugo: "Entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há uma cumplicidade vergonhosa." O povo acabará por concordar com tais palavras e tomará a atitude que dele se espera...

11 setembro, 2012

Janela de oportunidade, com grade...

A janela, e a grade que puseram nela
Entre o espaço dali
E o de lá 
Havia um pequena fresta
E a luz da manhã
Vinha todos os dias beijar-lhe o rosto
E os sons da manhã
Vinham todos os dias acordar-lhe o sono
E os odores da manhã
Vinham todos os dias dar-lhe conforto 
Hoje, a fresta é uma gradeada janela
E nada lhe entra ou sai por ela 
Como é que se sai disto?

10 setembro, 2012

Jerónimo de Sousa, um discurso que vem a ser truncado no essencial do que foi dito. Pelo sim, pelo não, a imprensa (escrita, vista e falada) limita-se a difundir pequenos extractos apenas para que se não diga que nada tenha dito...

As propostas apresentadas, nomeadamente a nacionalização da banca,
têm, no caso da Islândia, um exemplo que deve ser  discutido...
(...)
"Há condições e é possível ir mais longe na convergência e acção comum dos sectores e personalidades democráticas na base de um diálogo sério e leal, aceitando e respeitando naturais diferenças, mas denunciando e recusando as falsas alternativas, sejam as da “austeridade inteligente” que falando de crescimento e de emprego, visam dar uma aparência diferente à mesma política, ou das que omitindo causas e responsáveis navegam nas águas da ambiguidade de objectivos e propostas, e do preconceito anti-comunista.
(...) 
É possível realizar uma outra política na base de um governo patriótico e de esquerda que reúna as forças, sectores e personalidades dispostas a apoiar uma política de recuperação da dignidade nacional e de respeito pela dignidade dos trabalhadores e do povo.

Uma política e um governo que empreenda um programa assente num novo rumo para o país com :
- A inscrição imediata de um processo de renegociação da dívida pública, rejeitando o Pacto de Agressão. Os protagonistas do actual Pacto e os que dele beneficiam estigmatizam esta solução como inaceitável e impraticável. Mas a renegociação da dívida não só é uma proposta séria, como uma solução exequível. Não seria a primeira, nem será a última na vida de qualquer nação, incluindo da própria Alemanha. É a solução de quem quer pagar apenas o que é justo, reavaliando prazos, juros e montantes, para salvar o país e defender as condições de vida do povo. Uma renegociação da dívida realizada com o objectivo de salvaguardar os interesses nacionais, garantindo a canalização de recursos para a promoção do investimento produtivo, a criação de emprego e outras necessidades do país.
- A nacionalização da banca recuperando para as mãos do Estado um instrumento essencial para a dinamização económica e o apoio às pequenas e médias empresas. Dizem que esta é outra impossibilidade. Não é. Os 6 000 milhões de dinheiros públicos entregues à banca para sua recapitalização, chegariam para adquirir o capital social de toda a banca comercial.
- O apoio à produção nacional e a defesa efectiva do aparelho produtivo, com a valorização dos nossos recursos naturais e relançando designadamente um programa público de reindustrialização do país e que tenha como objectivo o pleno emprego. Uma política de combate ao défice agro-alimentar e de apoio à produção agrícola e que potencie o mar e as suas múltiplas actividades. Dizem que somos um país pobre e de parcos recursos. Não é verdade. O nosso país tem recursos e potencialidades que há muito estão desaproveitadas. Importantes recursos naturais no subsolo, no mar, na floresta, nos solos agrícolas. O que é preciso é uma política de Estado dirigida ao seu integral aproveitamento!
- Um novo rumo com a reposição dos direitos e rendimentos extorquidos e a valorização dos salários e das pensões de reforma, indispensável à dinamização do mercado interno e à elevação da procura interna; uma política que coloque no centro das suas prioridades, uma mais justa repartição da riqueza, a valorização do trabalho, a protecção social e a justiça social.
- Uma política que concretize a efectiva taxação da banca, a especulação financeira, o património de luxo e ponha fim ao escândalo dos paraísos fiscais para onde vão milhões de euros da riqueza produzida no nosso país.
- Uma política de reforço dos serviços públicos e das funções sociais do Estado.
- A defesa e respeito pela Constituição da República. (...)
Passagens do discurso de Jerónimo de Sousa, ontem, na Festa do Avante 
(Leitura integral, aqui e/ou ver video aqui)

09 setembro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 98

«Há esperanças que é loucura ter. 
Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida.» (ver aqui)

Enquanto, num imenso palco, fazemos demonstração do nosso esforço em sermos verdadeiramente humanos, muitos ainda nos olham surpreendidos. Julgam que somos a imitação de uma vida impossível de ser vivida. Essa foi a sensação em dois dias de intensa estadia pela cidade que cabe numa quinta. Cidade erguida em muitos dias de trabalho militante, num enorme estaleiro a que eu já chamei de universidade de todos os saberes. Cidade-palco desse esforço colectivo que fazemos para demonstrarmos como somos. Cidade que se abriu na sexta feira passada. Não entro em detalhes sobre a tarefa que me coube de contactar visitantes e sobre o que lhes ouvi depois de umas, poucas, interpelações. O que ouvi foram palavras e sobre o que vale a pena falar é do olhar. Isso, falar de olhares. Quase todos reflectiam surpresa: surpresa de tornarmos a cidade possível; surpresa por insistirmos em construí-la; surpresa pela persistência; surpresa pela convicção e crença. Mas as surpresas aconteceram também num outro sentido, pois eu próprio me confesso surpreendido: a maioria aceitou passar-nos seus endereços de mail e estarem receptivos a receber informação do Partido. 
Faço minhas as palavras de Saramago: "Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas eu já teria desistido da vida".

HOMILIA DE HOJE
"Feito o arado que rasga a terra, a passagem do tempo deixa sulcos na alma e no rosto.
“As viagens sucedem-se e acumulam-se como as gerações; Entre o neto que foste e o avô que serás, que pai terás sido?”
A única coisa que nós temos de fato é a vida. E com ela podemos fazer tudo, ou nada.
Pais, filhos e netos.
Buscar uma experiência de significação, trilhar a senda do auto-aperfeiçoamento.
A vida é um instante, um sopro.
Quantas gerações já vieram e se foram,
quantas ainda virão e igualmente passarão…
Há quem sustente que é o amor das mães que mantém o mundo em seu eixo.
Memórias poéticas e afetivas.
Os pequenos gestos e instantes que se vestem de beleza e ternura o tempo.
O ato de observar é a única chave que abre a porta dos mistérios.
A paisagem de fora, a vemos com os olhos de dentro.
A paisagem é um estado de alma.
Na realidade, o que vemos está em nós.
Não vemos o que vemos, vemos o que somos…
“Se podes olhar, vê.
Se podes ver, repara.”
Cultivar a quietude do espírito
como potência de transformação.
Ter um olhar capaz de discernir a beleza invisível.
A filosofia oriental nos ensina que
a mais bela imagem não tem forma.
Resgatar a beleza, a poesia e a espiritualidade
capazes de suavizar a nostalgia do Absoluto.

Cativar a via do Silêncio
dentro de nós.
Esta existência terrena é uma
oportunidade de despertarmos
da letargia e do sono.
Esta existência terrena
é a infância da Eternidade.
Uma oportunidade para nos
aproximarmos da Pura Luz
que habita nossa finitude.
Felizes os que aproveitam
com sabedoria a preciosa
aventura que é o existir.
Feliz o olhar capaz
de discernir a beleza
do invisível...

José Saramago, "Beleza Invisível" via facebook
Post pré-programado 

06 setembro, 2012

Adriano Moreira, a história e um extraordinário momento para o seu branqueamento...


O traço humanizado, a voz macia, uma humildade que tanto aparenta verdade, quase fizeram esquecer o resto...

Se esperava, e é verdade que esperava, uma entrevista com a condução das anteriores, embora com perguntas mais educadas, adequadas a senadores, depressa percebi que não ia ser assim. Sobre a situação actual, nem uma mão cheia de perguntas ocupou longas respostas sobre a situação actual. Neste aspecto, foi breve e nem comento o juízo, e a oportunidade, de um ou outro aviso feito por Adriano Moreira. O que aconteceu foi uma esmerada lavagem à longa noite do fascismo. O entrevistado prestava-se a isso e deu dele, (e de Salazar), uma imagem de impoluto e, por isso, de exemplar politico, homem e cidadão. O regime do Estado Novo, que com ele teve meros desacertos, não deixou de o reconhecer como filho legitimo. Ele o disse. No resto foi poupado por uma Fátima cúmplice. Eu, eu não esqueço. E só por ironia, transcrevo o que tão bem retrata esse passado negro:
Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.

Mário de Carvalho, escritor - in "DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA", retirado da sua página do facebook

AVANTE! (4)


...sei o que fazer: ficarei sentando num qualquer lado, espectador de rostos e sorrisos, descortinador de afectos, contador de bandeiras e, máximo desafio de atenção, medir a energia dos punhos erguidos. Sei que depois escutarei palavras e que regressarei a casa pensando nelas.
Ritual de fé? Sem dúvida!, pois não há humano que não tenha sua crença e acreditar no homem é a minha. Acredito num mundo melhor, sim senhor...

Agradeço a um amigo que me alertou para um tempo de antena que me passava...

05 setembro, 2012

Gil & Freitas e as ideias feitas...


Freitas olha e escuta atentamente (ou displicentemente?) 

Depois de entrevistar António Nóvoa, Fátima Campos Ferreira faz ouvir José Gil e, há poucas horas, o Freitas. Sobre o professor Nóvoa, já referi que é um querido, esclarecendo que este "querido" ter o sentido de merecer a pena continuar a ser ouvido, até por ter deixado no ar ideias que contrariam (pouco, mas contrariam) o actual paradigma.

Sobre José Gil (ontem), começo por declarar que não tinha expectativa nenhuma. A dramática situação vivida obrigaria, a um intelectual com a sua reputação, que não esperasse por uma oportunidade de agenda de televisão, para vir a intervir publicamente. Pede-se isso a qualquer intelectual que se queira interveniente... Por isso não esperava nenhuma ideia forte. Se o gostei de ouvir? Tanto quanto a um observador atento da realidade e que a sabe descrever e comunicar bem. Mas posso dizer que me surpreendeu. Surpreendeu-me logo no inicio, ao confessar "ter medo de poder a vir a ter medo". É que receio bem que é exactamente essa a razão pela qual se esconde por detrás da sua obra e do prestígio alcançado para se manter calado. Saramago acusava disso os escritores e continua a ter razão. Um país em que as elites intelectuais se acagaçam  e só abrem a boca para responder ao que lhe perguntam é um país que necessita de "um bom susto". Mas houve outra surpresa, no final, José Gil, faz uma surpreende antevisão do que pode vir a ser uma revolução: a contaminação das ideias pacificas, que se querem expressas de modo diferente, podem dar origem a uma agressividade e violência sobre as quais não temos qualquer experiência.
No discurso redondo, nem uma ideia nova, nem uma palavra de esperança.

Quanto a Freitas, desisti de ouvir. Desisti no momento em que, com a cara mais séria deste mundo e sem ponto de ironia, disse que Passos Coelho não mentia... talvez tivesse dito alguma coisa digna de anotar, se o fez, façam o favor de me alertar!

Portugal arde por (quase) todos os lados, ou, o fogo lento e as chamas vivas...

Foto retirada de "O Sítio dos Desenhos" com o título "Que lindo"

Portugal arde por (quase) todos os lados. Os portugueses, vão ardendo em fogo lento, muitos, que nem sapos, sem sentirem que a temperatura chegará ao ponto em que serão cozidos, mansamente, sem darem por nada ou quando derem será tarde. Arde o território nacional. Uns e outros ardem e sustenta-se que tal acontece pela inevitabilidade do não haver mais nada a fazer. Num caso é por razões "explicadas" até à exaustão. Noutros é porque a temperatura se eleva, o tempo não ajuda e há pirómanos por todo o lado. O carneirismo aceita tudo isso, pois tudo isso é "bem explicado"!
Mas, como dizia ao principio, nem todo o Portugal arde. Nem ardem todos os portugueses, nem todo o território está ardendo. Falando de fogos florestais há áreas imensas onde o fogo pouco ou nada entra. São áreas de interesse económico claro, associada à exploração florestal, da Portucel-Soporcel e do Grupo Amorim... O que quer dizer que, se há rentabilidade económica numa dada exploração, ela não arde não (ou arde pouco). O facto, o principal facto, é que há uma riqueza nacional convertida em pouco mais que mato. E o mato despreza-se e ... arde. A principal causa dos incêndios é resultado do desleixo e da falta de aproveitamento dessa riqueza imensa que é a floresta portuguesa. A principal, mas não a única. Some-se àquela a desertificação do espaço rural e a falta de prevenção. Sobre este último aspecto, retiro, deste artigo, esta esclarecedora passagem:
"As políticas de prevenção e vigilância, por um lado, e combate aos incêndios, por outro, são obviamente críticas para garantir que Portugal não é ano após ano um território a arder. E há um conjunto muito relevante de propostas, das quais ressalta, por um exemplo, um trabalho da Cotec, há meia dúzia de anos, sobre florestas, que os sucessivos governos ignoraram. E, fizeram pior, porque mudaram a organização dos organismos que têm responsabilidade na gestão da floresta e no combate aos incêndios de um ano para o outro, de um ministro para o outro, ou ‘incentivados' por incêndios marcantes."
Estamos (quase) todos a arder? Estamos!, e com vossa permissão, podem crer!
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AQUI, OUTRA LEITURA INDISPENSÁVEL 


Em anexo: Artigo publicado no Agroportal e sitio da Afocelca

04 setembro, 2012

A menina guiada pelo pássaro, que em sua cabeça tinha pousado, foi conhecer "A Maior Flor do Mundo"

Ilustração de  Sílvia Mota Lopes Costa
Era uma vez uma menina pequenina, bonita e ladina, que vivia muito triste e já mal brincava. Nada a entretinha e nada a fazia sorrir, a ela que sempre andara a saltar e a rir. E era muito esperta, muito atenta, a tudo o que se passava à volta dela. E quando parecia que não se passava nada, ela levantava uma pedra. E era vê-la contente e divertida com tanta vida. Eram  minhocas, formigas, bichos de conta sem conta a fazerem-na divertida. Mas depois não, nada a animava. Atenta como era, a menina sofria com as coisas más que ouvia e que toda a gente contava. Conhecia poucos lugares, apenas conhecia o seu quintal e a rua ao fundo, mas já sabia todas as tristezas do mundo. Era essa a tristeza da menina.
Um dia, estava a menina como sempre estava, sentada e sem alegria, quando um pássaro, sem sequer lhe pedir licença, veio pousar-lhe no alto da sua cabeça. A menina sorriu, e cumprimentou: "Bom dia senhor pássaro". O pássaro viu quebrado o encanto que a natureza lhe tinha dado de não permitir falar e respondeu, ainda admirado de o poder fazer: "Bom dia linda menina, posso saber a razão do teu sofrer?" E a menina de pronto lhe contou que do mundo só conhecia gente má e a tanta maldade que era feita. O passarinho deixou a cabeça da menina e esvoaçou, suspenso no ar como um beija-flor, olhando a menina de frente falou com entusiasmo e calor: "Mas sabes? no mundo há boa gente. Há meninos bons, com gestos belos". E de seguida contou como é que um menino salvou uma flor que estava condenava  à morte, contou tim tim por tim tim como a salvara de tal sorte e como a flor salva, para se tornar exemplo das coisas belas que os humanos fazem, se tornou a maior flor do mundo. À medida que o passarinho contava o rosto da menina se iluminava: "E eu posso conhecer esse menino e essa flor?" - "Sim, como tu não tens asas eu pouso em cima da tua cabeça e te indico o caminho", disse o passarinho. E lá foram, a menina e o passarinho pousado na sua cabeça e indicando o caminho para conhecer o outro menino que salvou a flor, a maior flor do mundo. 
Depois de saber e de ver, a menina nunca mais entristeceu e todos os dias o passarinho lhe veio cantar ao beiral, baixinho, como que a lembrar que há gestos que salvam vidas, nem que sejam as de uma flor. 

E foram muitas as outras coisas que a menina viu. 
Veja também aqui e sorria, como ela sorriu

DEDICATÓRIA: Dedico este pequeno conto a quem o ilustra e nem sabe porque desenha uma menina com um pássaro na cabeça

Rita Rato, um exemplo de que os políticos não são todos iguais

03 setembro, 2012

O António Sampaio da Nóvoa é... um querido!



Sampaio da Nóvoa é um querido. Isto é, seu discurso é necessário e deve ser discutido!

A entrevista de hoje saiu escorreita e o pensamento fluído. Se fosse eu a ser entrevistado não traria as imagens poéticas que trouxe  ou se escolhesse as trazidas - as de um rio - não deixaria de enveredar por outras vias que ele não enveredou. Talvez citasse, em vez de Torga, Brecht, e reclamasse que as águas se tornassem revoltas respondendo à opressão das margens (*). Mas não fui eu o entrevistado e, assim, vejo-me obrigado a aceitar as regras  do jogo que Sampaio da Nóvoa joga. 

Da entrevista dada, fico com  muitas notas, mas destaco duas que refiro, sem usar as palavras por ele usadas: A primeira é que não é verdade que nos tenhamos que render à força bruta do tsunami e, mesmo perante ela, teremos que pensar o futuro, para além da resposta imediata. A segunda, é que o país só tem solução se tiver um projecto de reindustrialização, dentro de uma estratégia de desenvolvimento que Sampaio da Nóvoa caracterizou. Disse muito mais, mas me basta isto para poder afirmar que o Sampaio da Nóvoa é um querido.
Esperando que o video fique em breve disponível, recomendo a quem não o viu que o veja e escute e aqui, sim, cito Torga: "Os homens são como as obras de arte: é preciso que se não entenda tudo delas duma só vez." 

(*)"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.";

Geração sentada, conversando na esplanada - 11 (Estado de Direito)

(Ler conversa anterior
...“a crónica má gestão dos dinheiros públicos”, aliada “ao concubinato entre certas empresas e o Estado acabaram por gradualmente destruir a economia e a capacidade de produção de riqueza”, que desembocou no “resvalar da incompetência e do desleixo para formas de corrupção sistémica incontroláveis com o consequente e descontrolável endividamento público” - Maria José Morgado (Directora do Departamento de Investigação e Acção Penal).

Oiçam-me! Vejam só esta gaja!!... 
 e brandia no ar o iPad a dar, ao lido, efusivo alarde 

A Gaby estava em euforia e brandia a sua recente tecnologia interrompendo o grupo, que na mesa, usavam outra, mais atrasada, mas com funcionalidades suficientes para manter toda a gente ocupada. Oiçam-me! Vejam só isto!! E colocou o video a correr com o som bem elevado, o mais alto que a tecnologia deu. E a voz bem timbrada da Cândida varreu toda a esplanada Todos, elas, eu, o senhor engenheiro e o seu rafeiro e até uma velhota que ia a passar, parou para escutar.
- "Não sei qual é a admiração, a gaja tem razão. Não somos um país de corruptos. Somos... (e suspendeu por segundos a frase até descobrir o que dizer e o que julgava ser). Somos um Estado de Direito!"
- "Mas a corrupção grassa por todo o lado... li isso num relatório recentemente publicado " disse a Teresa que, assim, respondia à Rita. "E o que é lá isso de Estado de Direito?"
- "O estado de direito é aquele no qual os mandatários políticos eleitos são submissos às leis promulgadas." atalhou a Ana não perdendo a oportunidade para ostentar a sua wikipédica cultura.
- "Pois!, está tudo explicado. A Cândida veio trazer o recado aos "boys" em formação: façam leis adequadas e assegurem quem as saiba interpretar. Depois disso nada terão que recear... nem há um único corrupto na choldra... ela sabe da poda!"
- "Eu conheço um blogue...", interrompeu timidamente a Teresa
- "Tu? Tu nem tens computador..."
- "Tenho o do meu irmão... e aí conheci um blogue que fala disso. Fala que a deusa da justiça derrama lágrimas de sangue por tudo o que se está a passar..."
- "E como se chama? Qual é o endereço?", pergunta a Gaby com o seu iPad em riste e pronta a procurar logo ali.
- "Chama-se Conversa Avinagrada e mostra a Thémis chorando sangue!"
Meu coração deu um baque. Sorrateiramente pirei-me da explanada, mas de forma desastrada e pisando o cão. Este, em vez de ganir, lançou-me um olhar de compreensão.

02 setembro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 97

Ninguém dispensa a sua dose de droga diária e a reacção é de toxicodependência...

À semelhança com o que se passa com o tabaco, escrevi um dia, «Todos os jornais deviam em cabeçalho (ou rodapé) anunciar em caixa alta: "Ler esta porcaria mata a cidadania" ou então "Não procure o omitido, publicá-lo pode produzir outro resultado"...»
Como ninguém dispensa a sua dose de droga diária, os jornais e telejornais lá se vão consumindo. Se é verdade que há leitores que procuram drogas leves (os chamados jornais de referência) ou se limitam a ler parangonas de primeira página, não deixa de ser observável que o comportamento dos leitores é a de verdadeiros toxicodependentes: sabem que lhes faz mal, mas não abandonam o consumo...
Quanto à segunda frase, que fala em omissão, ela faz-me recuar à expressão de Goebbels que dizia "uma mentira mil vezes repetida passa a ser uma verdade" indesmentível, ocorrendo-me esta outra: uma realidade mil vezes omitida é uma realidade que não existe. E se é difícil apanhar a mentira, contrariando que é mais difícil apanhar um coxo que um mentiroso, é impossível conceber uma realidade que permanece escondida. À luz das drogas actuais, Goebbels era um primário passador...
Mas para haver mentira nos jornais é necessário que se reconheça a existência de jornalistas mentirosos. E para que exista omissão, é necessário que existam jornalistas que escolham e seleccionem o que deve ser omitido... Mas então, onde está a tal independência dos jornalistas?

HOMILIA DE HOJE
"...de vez em quando se reivindica a sonhada independência do jornalista. Trata-se de uma ficção tecida de boas intenções, com a qual se pretende amortecer os efeitos negativos da consciência infeliz no espírito dos profissionais da informação. Não sendo nenhum trabalho realmente independente, o dos jornalistas não podia ser excepção. Entre o chefe, que está ao lado, e o patrão, tantas vezes invisível, o jornalista leva o melhor da sua vida a apalpar o terreno instável que o sustém e a perguntar-se se estará fora ou dentro da verdade do dia. Creio que mais útil que o sempiterno e frustrante debate sobre uma mirífica independência do jornalista, seria examinar as franjas de independência relativa que lhe são consentidas, sem esquecer que eventuais aplausos internos dependerão, em muitos casos, mais de factores extra-jornalísticos do que da exactidão de uma informação ou de uma análise. O camaleonismo jornalístico, peste maior do nosso tempo, tem no que acabo de referir algumas das suas mais nefastas raízes. O cidadão comum expressa as opiniões do seu tempo, certos jornalistas talvez preferissem não ter nenhuma. Ser-lhes-ia menos doloroso que serem obrigados a ter aquela que a outros convém. 
Saramago, o jornalismo e a quadratura do círculo, in "Clube dos Jornalistas"