27 fevereiro, 2013

"Caritas in Veritate" - O papa escreveu um texto inapropriado como o meu... dizem que foi pelo corpo que ele foi vencido... eu acho que foi pelo seu escrito - 2


Hoje foi o seu último dia,
não quero falar disso, mas do seu escrito...

Passemos adiante sobre o que acho ou deixo de achar. Falemos do escrito, preso que fiquei ao sublinhado já feito de palavras suas:"Não posso «dar» ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça."
Depois de  ler "Veritas in Veritate", fiquei com duas certezas: nem é um panfletário libelo contra o neoliberalismo, nem é um documento inócuo. No entanto posso concluir que, para além de sectores tocados pela firmeza com que afrontou a pedofilia, outros sectores terão ficados incomodados com a conduta deste Papa. Uns somados a estes outros, terão estado no caminho para este desfecho.
 
Para (minha) memória futura, transcrevo, da citada carta encíclica, estes escritos:
"O lucro é útil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar. O objectivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza. Pg 11

... o mercado motivou novas formas de competição entre Estados procurando atrair centros produtivos de empresas estrangeiras através de variados instrumentos tais como impostos favoráveis e a desregulamentação do mundo do trabalho. Estes processos implicaram a redução das redes de segurança social em troca de maiores vantagens competitivas no mercado global...
... as políticas relativas ao orçamento com os seus cortes na despesa social, muitas vezes fomentados pelas próprias instituições financeiras internacionais, podem deixar os cidadãos impotentes diante de riscos antigos e novos; e tal impotência torna-se ainda maior devido à falta de protecção eficaz por parte das associações dos trabalhadores. O conjunto das mudanças sociais e económicas faz com que as organizações sindicais sintam maiores dificuldades no desempenho do seu dever de representar os interesses dos trabalhadores, inclusive pelo facto de os governos, por razões de utilidade económica, muitas vezes limitarem as liberdades sindicais ou a capacidade negociadora dos próprios sindicatos. ... Queria recordar a todos, sobretudo aos governantes que estão empenhados a dar um perfil renovado aos sistemas económicos e sociais do mundo, que o primeiro capital a preservar e valorizar é o homem, a pessoa, na sua integridade: «com efeito, o homem é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida económico-social». Pg.13

... O aumento sistemático das desigualdades entre grupos sociais no interior de um mesmo país e entre as populações dos diversos países, ou seja, o aumento maciço da pobreza em sentido relativo, tende não só a minar a coesão social - e, por este caminho, põe em risco a democracia … Pg.17

... Os pobres não devem ser considerados um «fardo» mas um recurso, mesmo do ponto de vista estritamente económico. Há que considerar errada a visão de quantos pensam que a economia de mercado tenha estruturalmente necessidade duma certa quota de pobreza e subdesenvolvimento para poder funcionar do melhor modo.
...Um dos riscos maiores é, sem dúvida, que a empresa preste contas quase exclusivamente a quem nela investe, acabando assim por reduzir a sua valência social.  ...
...Apesar de os parâmetros éticos que guiam actualmente o debate sobre a responsabilidade social da empresa não serem... todos aceitáveis, é um facto que se vai difundindo cada vez mais a convicção de que a gestão da empresa não pode ter em conta unicamente os interesses dos proprietários da mesma... Nos últimos anos, notou-se o crescimento duma classe cosmopolita de gerentes, que muitas vezes respondem só às indicações dos accionistas da empresa constituídos geralmente por fundos anónimos que estabelecem de facto as suas remunerações.
...Tudo isto - há que reafirmá-lo - é válido também hoje, não obstante o mercado dos capitais tenha sido muito liberalizado e as mentalidades tecnológicas modernas possam induzir a pensar que investir seja apenas um facto técnico, e não humano e ético. Pg.22/23
... a economia tem necessidade da ética para o seu correcto funcionamento; não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa. Hoje fala-se muito de ética em campo económico, financeiro, empresarial. Nascem centros de estudo e percursos formativos de negócios éticos; difunde-se no mundo desenvolvido o sistema das certificações éticas, na esteira do movimento de ideias nascido à volta da responsabilidade social da empresa. Os bancos propõem contas e fundos de investimento chamados «éticos». Desenvolvem-se as «finanças éticas», sobretudo através do micro-crédito e, mais em geral, de micro-financiamentos. Tais processos suscitam apreço e merecem amplo apoio. Os seus efeitos positivos fazem-se sentir também nas áreas menos desenvolvidas da terra. Todavia, é bom formar também um válido critério de discernimento, porque se nota um certo abuso do adjectivo «ético», o qual, se usado vagamente, presta-se a designar conteúdos muito diversos, chegando-se a fazer passar à sua sombra decisões e opções contrárias à justiça e ao verdadeiro bem do homem. Pg. 26

... Às vezes sucede que o destinatário das ajudas seja utilizado em função de quem o ajuda e que os pobres sirvam para manter de pé dispendiosas organizações burocráticas que reservam para sua própria conservação percentagens demasiado elevadas dos recursos que, ao invés, deveriam ser aplicados no desenvolvimento. Pg.28

... A desertificação e a penúria produtiva de algumas áreas agrícolas são fruto também do empobrecimento das populações que as habitam e do seu atraso... Um acordo pacífico sobre o uso dos recursos pode salvaguardar a natureza e, simultaneamente, o bem-estar das sociedades interessadas. A Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela criação e deve fazer valer esta responsabilidade também em público. Ao fazê-lo, não tem apenas de defender a terra, a água e o ar como dons da criação que pertencem a todos, mas deve sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo. Pg 29/30 
Leitura integral, aqui 

Medo, medos... (5)

 Cá em casa, um livro está fazendo sucesso , "O Livro Dos Medos". Já lhe foi lido normalmente e detrás para a frente, mil vezes. A tal ponto que ele já sabe, em todas as páginas, todas as frases e, em cada frase, todas as palavras. Contudo, a quem encontra pede sempre (e novamente): lê. Hoje calhou-me a mim e ele me escutava como se ouvisse pela primeira vez. Distraidamente, saltei uma linha em frente e de pronto ele corrigiu... Não posso deixar de me interrogar o porquê, se ele fixa coisas com a capacidade impressionante de, depois, quase sempre muito depois, repetir com tino e com o sentido acertado, o que ouvira uma única vez.
Foi então que descobri, com aquele ar triunfal de quem descobre a pólvora: "Ele já teve todos os medos que estão escritos no livro, o livro além de falar de medos fala dele próprio e dos seus sentimentos, é isso!" (há livros assim!)
Depois da descoberta, fiz agenda: amanhã terei de lhe falar de coragem e mostrar-lhe coisas sobre outros medos, não para que os perca, mas para que possa enfrentá-los e, sei lá, talvez até vence-los...
 
Outros escritos sobre o tema: aqui, aqui, aqui e também aqui

26 fevereiro, 2013

Michele Obama direct White House: And the Oscar goes to... Argo

A imprevisibilidade prevista?  Ganhou a coboiada!
Não sei quantos italianos, entre a urna de voto e o televisor, tiveram actos esclarecidos. Não sei quantos portugueses entre o Prós e Contras, a chegada da troika e o serão prolongado, tiveram (ou fizeram) o juízo necessário. Não sei se ou se. Mas é crível que do cerco montado para que se infantilizem as mentes, haja mentes resistentes ao infantilismo militante com que nos cercam. Tudo isto a propósito de Argo, na contextualização do prémio dado. Sim porque não é apenas a Itália que está ameaçada de ingovernalibidade, é toda a humanidade, com o beneplácito da Casa Branca e de governos eleitos...
 
Este meu texto enquadra o editado, aqui, e que reporta um outro escrito 20 dias antes da cerimónia que terá tido centenas de milhões de expectadores. Dele reproduzo a parte final:
"...como um projeto de propaganda, Argo é incrível – como documento, porém, é espúrio. Mas, num momento em que o Irão necessita ter sua imagem ainda mais destruída, nada melhor do que assistirmos a um filme com bárbaros pulando muros, gritando numa língua incompreensível e vestindo-se de modo exótico: assim, saberemos muito bem quem é o bom e o mau. Se um povo como o iraniano quase cometeu uma atrocidade com seis “diplomatas” estadunidenses, o que poderá fazer com uma bomba nuclear em mãos? Essa é a outra função do cinema, nos mostrar quem são os mocinhos e os bandidos, pois mesmo nos westerns eles podem ser difíceis de identificar e é necessário que alguém nos guie para não “aprendermos errado”. Com isso, só nos resta aguardamos até o dia 24 de fevereiro para ouvirmos: “And the Oscar goes to… Argo!”
 Não perca o texto integral, de Renatho Costa

25 fevereiro, 2013

Forças Armadas com almas civilizadas


Em boa verdade esperava um discurso corporativista e não ficar a ver a não ser para o perceber e abandonar logo que o confirmasse. Não confirmei e até direi que me surpreendi. A primeira parte foi praticamente ocupada em discutir o orçamento, sem entrar em detalhes, estes li num outro lado:
"Os que hoje falam de cortes, rácios, sacrifícios e da preocupação com a “dívida que deixaremos aos nossos netos” são os mesmos que, em tempo de “vacas gordas”, não quiseram saber de reestruturações e trataram de gastar “à tripa forra”: compraram equipamento do mais caro que existia no mercado, como no caso dos helicópteros EH101 e compraram em quantidades desnecessárias – 12 EH101 quando 9 chegavam, 12 aviões C295 quando 9 eram suficientes, 40 aviões F16 quando bastava uma esquadra, porque agora nem há dinheiro para o combustível nem para os pilotos, e entraram em negócios como os helicópteros NH90, do qual saíram há poucos meses com elevado prejuízo; optaram por submarinos em detrimento de navios adequados para a fiscalização; aceitaram a constituição de comandos conjuntos e outras estruturas, que resultaram em duplicações entre os ramos e o Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) e entre o EMGFA e o Ministério da Defesa Nacional (MDN); aumentaram comandos funcionais, como seja o caso da criação do Comando de Instrução da Força Aérea Portuguesa, entre outros exemplos"
A segunda parte recomenda-se. È mesmo de ver.Destaco tudo e não posso deixar de me interrogar se não caberá às Forças Armadas papel (também) de cidadania quando se perde a soberania, mesmo se o território nacional não tenha sido fisicamente ocupado. Saliento que a palavra mais frequente foi "protectorado".
 
A síntese final posso dá-la referindo o apelo (ou desafio) às chefias militares para que formem os seus próprios grupos de trabalho e apresentem as suas próprias soluções. Se assim for, crê o General Fernando Seabra, que o Governo terá de agir de outra maneira. Não digo que não, mas não tenho tanta fé...

24 fevereiro, 2013

Carta de Minha Alma e do Meu Contrário, em dia de aniversário...

Por vezes ouvimo-nos a nós próprios, mesmo em dias cheios...
Olá caro Eu,
Lê esta carta quando estiveres a sós contigo, com ela e comigo, depois de todos terem saído e quando, na casa, apenas restarem os ecos de quem esteve a dar-te sorrisos. Vou ser breve, pois o que te tenho a dizer tu já o deves saber e a tua Minha Alma, por comovida, nada acrescenta. Foi um dia bonito, cercado de nossos. E é neste recato que te viemos desejar "muitos anos de vida" e outros desejos mais arredados de cantos cantados depois do sopro de tantas, tantas velas. Desejo que preenchas o tempo metendo-lhe coisas e gestos dentro. É que na celeridade com que passa, o tempo é inclemente para que se detém a vê-lo passar. A vida não te foi dada para te limitares contemplá-la. Ser espectador da vida antecipa a morte, mesmo se permaneceres vivo. Não faças isso, meu amigo. Este Teu Contrário muito lamentaria e à tua Minha Alma, aqui ao lado, também lhe desagradaria. Nas esperes que aconteça, vai e faz por acontecer. Ah, já me esquecia, que hoje seja "o primeiro dia do resto da tua vida".
Agora vai, desce à tua rotina de afectos e visita teu amigos.
Um beijo da tua Minha Alma
Um abraço deste teu Meu Contrário
(assinaturas irreconecíveis) 

Apêndice a um poema antigo

Apêndice a um poema antigo
A pouco e pouco se mexeram
e num repente
o Mundo assistiu
ao despertar das pedras
Rogério Pereira

23 fevereiro, 2013

22 fevereiro, 2013

A CGTP, a manifestação de 2 de Março, o PCP e o reforço do trabalho unitário e de diálogo com forças de sectores democráticos...


Há muito que esta imagem vinha persistindo. Há muito que me espantava a voluntariosa corrida para o abísmo, para onde quase todos aceitavam com inevitável ter de ir. Mas há sempre um tempo em que as coisas mudam quando se dá o exemplo de resistir, de não querer ir, e, mais do que não querer ir é apontar para onde faz sentido caminhar... 
A novidade referida no video abaixo, só o é para quem não acompanha a vida do meu partido. A novidade, a existir (e de facto existe) aconteceu no congresso (o tal congresso que eu não esqueço) em que se alterou, profundamente, a politica de alianças. Foi decisão, e passou a ser linha estratégica, não considerar outras alianças que não sejam com todos os democratas e patriotas e já não com os partidos que, reclamando-se de esquerda, continuam a querer empurrar-nos para o buraco:
"...Nós dissemos e dizemos que não renunciamos à convergência, ao diálogo com forças e sectores democráticos em tudo o que for bom para os trabalhadores, para o povo e para o país. Mas ninguém peça ou exija ao PCP que deixe de ser o que é, que deixe de falar verdade, que deixe de lutar por outra política, que rompa com esta estafada alternância. Este Partido fundou-se e existe, lutou e luta para servir os trabalhadores e o povo português, os seus interesses e aspirações. Será pela sua vontade e apoio que estaremos numa solução alternativa. E não por arranjos de poder que nos exijam deixar de ser o que somos, de defender o que defendemos. Fartos de serem enganados e de troca-tintas estão os portugueses..." - Jerónimo de Sousa, discurso de encerramento do XIX Congresso do PCP
É com esta orientação que os comunistas estarão no trabalho unitário, designadamente nos sindicados, na luta por um poder local e em outras dinãmicas criadas por sectores democráticos. É nessa estratégia que se inscreve o apelo de Arménio Carlos para que nenhum trabalhador fique em casa, no próximo dia 2 de Março. Eu não ficarei.
 

21 fevereiro, 2013

...e o PIB, pumba... contudo, há 16 anos que isto era previsto!

Diário de Noticias de hoje
Não há bruxedos e por isso não há bruxos... nem adivinhos. Se há quem consiga prever é apenas porque usa a memória, sabe da poda, sabe olhar para ver e pensar e, sobretudo, conhece as teias que o diabo tece:
...E quando se questiona o Governo sobre as consequências para o nosso aparelho produtivo, para as pequenas e médias empresas não exportadoras, ou sobre quem vai pagar os custos operativos da introdução do “Euro”, cada Banco, ou mesmo no pequeno comércio a resposta é inevitavelmente a mesma: não há outro caminho, não há outra solução. Depois quando o desemprego explodir (...) então lá teremos as desculpas dos constrangimentos externos… A verdade é que o Governo do eng. Guterres e o PS, irmanados com o PSD, decidiram desde o princípio que o País tem de querer a moeda única e o Tratado de Maastricht. E é a esse querer unilateral e autoritário que o eng. Guterres e o Governo apelidam de “desígnio nacional” ...
... A moeda única é um projecto político que conduzirá a choques e a pressões a favor da construção de uma Europa federal, ao congelamento de salários, à liquidação de direitos, ao desmantelamento da segurança social e à desresponsabilização crescente das funções sociais do Estado.»  
Carlos Carvalhas, Secretário-geral do PCP «Interpelação do PCP sobre a Moeda Única», 1997

20 fevereiro, 2013

D. José Policarpo e uma importante (e descontraída) entrevista...


Uma entrevista para ver e ouvir, na integra.
Depois de ouvir e ver D. Ortiga e D. Januário não podia perder pitada de palavra deste mais alto dignitário. O meu interesse coincidirá com as motivações dos media, com incidência sobre o que a Igreja pensa das questões nacionais e do aperto sem nome que o povo sofre. E fico preocupado. Espero sempre da Igreja o que ela me tem negado. O discurso é descontraído, sério e, de quando em quando, acompanhado um solto sorriso. Mas diz com a calma que lhe é habitual coisas que fazem lembrar Ulrich ("a sociedade aguenta tudo") ou lembrar outro Cardeal que era sempre ouvido por Salazar ("tem havido esse diálogo, aliás os políticos procuram-me.. e não é só este governo", disse, sereno). D. Policarpo insurge-se contra a imprensa que fala em isto não ir lá com caridadezinha "o que é que essa gente percebe disso?, isto sem amor não vai, não vai"...
Não digo (nem penso) que D. Policarpo seja salazarento, apenas porque hoje já não há lugar para nenhum outro Salazar...  Mas dói ver a Igreja (que rejeita estar limitada à sacristia) remetida à missão de ir colando os cacos da alma que este regime vai destroçando. Pelo meio há juízos que à medida que vão sendo expostos criam a expectativa de uma mensagem forte como por exemplo a que citei da enciclica do Papa resignado "Não posso «dar» ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça", e nada acontece. A ambiguidade é essa. 
Uma certeza: Passos Coelho continuará a ouvir o que o cardeal tem para lhe dizer...

19 fevereiro, 2013

D. Januário Torgal Ferreira: "Onde é que está o dinheiro?"

"Não é a classe trabalhadora que pôs este país sem trabalho. Vou repetir: a classe trabalhadora não foi a assassina da falta de trabalho em Portugal. Onde é que está o dinheiro?" - D. Januário Torgal Ferreira (isto, também eu repito)  
A resposta está (parcialmente) aqui:


Digam-me lá a mim se há, ou não, dias assim...


18 fevereiro, 2013

Oeiras, uma ilha de bem estar? - 4

A partir de 1 de Abril, e não é mentira, o VIVA "vai à vida"....

Residir é estar, ir e vir. Quem vive em Oeiras, para além do que vai acontecendo na linha de Cascais, vai ter, para se deslocar, de pagar mais. Se Oeiras é uma ilha de bem estar para quem lá está a morar? Ser, é. É uma ilha para gente que (ainda) leva vida boa, que se delicia a passear no "Passeio Maritimo" e que pode ter a vida ao seu ritmo... sem embaraços de passes intermodais e outras coisas mais...

Porque será que quem luta e primeiro avisa são os mesmos de sempre? Os outros calam-se, e quem cala, consente... Se me perguntarem para onde foi o dinheiro (dívida do estado à Vimeca), não respondo. Já deveriam conhecer a resposta. O pior é, se a moda pegar, todas as operadoras rodoviárias seguirão o precedente criado agora, fazendo avançar os seus "passes sociais"...  Entretanto alguns vão lutando... trarei notícias quando as tiver.

 
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17 fevereiro, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 27 (os católicos e a prática da cidadania)

"...as manifestações são legitimas, são porventura necessárias, mas eu penso que há, também, outros modos, outros meios... se o povo português fosse capaz de se associar em pequenos grupos, reflectir e fazer chegar o seu pensamento, talvez fosse mais eficaz..."  - D. Jorge Ortiga, aqui
 
"Não é a classe trabalhadora que pôs este país sem trabalho. Vou repetir: a classe trabalhadora não foi a assassina da falta de trabalho em Portugal. Onde é que está o dinheiro?" - D. Januário Torgal Ferreira, no vídeo abaixo

A esplanada não estava molhada, mas vazia. Sentei-me e preparei-me para ler o jornal como sempre fazia. Abri-o e folheei-o, não me concentrando. Distraído, ia apurando o ouvido para ver se discernia o cântico da chuva, miúda. Mas foi outro o ruído: com um sorriso o velho engenheiro cumprimentou. E como se tivesse atrasado no assunto que trazia, lançou:
- Foi ontem à manifestação?, admiro a persistência daquela gente...
Pelo comentário feito à volta da própria pergunta, percebi que se excluía da gente que tinha estado presente.
- Fui, vou sempre.
- Foram poucos. Em Lisboa e nos outros lados... mas pelos vistos, no Porto, encheram a praça...
Não me apetecia prolongar a conversa e fiz silêncio. O jornal foi o meu refúgio, mas o velho engenheiro fez-se desentendido...
- Vi um comentário no seu blogue... aquele que tinha uma declaração de interesses e onde dizia que gostava de ver católicos progressistas caminhando ao seu lado... e quem comentava dizia: "tem mais católicos ao seu lado, do que aquilo que pensa "
- E então?...
- Penso que quem o comentou fê-lo confundindo a realidade com o seu próprio desejo. Penso que a Igreja tem os católicos bem amarrados, não os deixa aderir à luta, à rua, aos sindicatos, aos partidos... não ouviu o Ortiga? Ele foi claro... e ele é a hierarquia... os padres não têm a linguagem do Torjal, passam a palavra do Ortiga... pelo que ele diz, a cidadania exerce-se nas eleições e em grupos de reflexão... ele diz que são mais eficazes...
Mantive o mutismo, e o engenheiro percebeu que hoje era o dia de eu querer ouvir a chuva a cair, copiando o estar do seu cão rafeiro. Minutos depois ao sair, disse-lhe em surdina, como despedida...
- Talvez os católicos progressistas estejam em força na rua, no 2 de Março...
Nem o olhei, mas acho que o seu sorriso foi, ainda, mais largo.

16 fevereiro, 2013

E se a Maior Flor do Mundo fosse a Democracia? Se para a salvar fosse necessário fazer 20 coisas, que coisa lhe parece que podia fazer por ela?

Leio no texto, que se supõe destinado a crianças, como a coisa de facto aconteceu:

Deu-se o menino ao trabalho de subir a encosta, e quando chegou lá acima, que viu ele? Nem a sorte nem a morte, nem as tábuas do destino… Era só uma flor. Mas tão caída, tão murcha, que o menino se achegou, de cansado. E como este menino era especial de história, achou que tinha de salvar a flor. Mas que é da água? Ali, no alto, nem pinga. Cá por baixo, só no rio, e esse que longe estava!... Não importa. Desce o menino a montanha, atravessa o mundo todo, chega ao grande rio, com as mãos recolhe quanta de água lá cabia, volta o mundo atravessar, pelo monte se arrasta, três gotas que lá chegaram, bebeu-as a flor com sede. Vinte vezes cá e lá… …Mas a flor aprumada já dava cheiro no ar, e como se fosse uma grande árvore deitava sombra no chão.”

Vinte vezes cá e lá. Vinte certas, diz o escritor, e quero acreditar que sejam precisas tantas. Imagine, caro leitor, que a água não é água, mas sim porções de coisas esforçadas que é necessário fazer para salvar a vida da nossa flor. Pense que, de cada vez que se sobe a montanha, se deposita na Democracia muribunda algo que a faz, lentamente, renascer. Indique uma só, que esteja disposto a fazer ou que ache ser necessário que se faça... Lembre-se que há pequenas coisas, à semelhança das que cabem numa mão pequenina.

As imagens são do video . O texto, em itálico, é do livro de Saramago "A Maior Flor do Mundo"

Reeditado, post inicial em 15 de Abril de 2011

14 fevereiro, 2013

Um Dia dos Namorados e uma rosa que cai mais pesada que a lágrima

Ela recordou aquele outro dia em que os olhares pararam e as mãos se deram...

Ela acordou com o acordar trocado: ela levantou-se, ele ficou deitado. Ele dormia que parecia um justo. E ele o era aos olhos dela. Nada do que se passara ela o culpava, por isso lhe lançou o olhar terno, o número 3 da tabela dos afectos - a única tabela das rotinas que permanecia incólume à devassa dos tempos -. Sem se lembrar da antiga tabela do trajar, vestiu-se depois da higiene da manhã. Bebeu um sumo apressado e deixou um recado. "Não há leite, bebe um sumo, o pão é duro mas podes fazer uma torrada. Há um pouco de manteiga no sítio do costume". No canto superior direito daquele pequeno papel, deixou um coração a circundar a palavra "beijo", ao lado, outro coração desenhado. Saiu, sem bater a porta, para não o acordar...

O autocarro ia cheio, pois fora suprimido o existente no horário antigo. Ia pensando o que foi mudando desde o último dia dos namorados. Depois de tantos meses passados o emprego dele não fora mudado por outro e as diligências, todas, foram sendo, uma a uma, frustradas... reviu como isso lhes alterou a vida sem alterar-lhes o carinho, a relação, os afagos, os momentos de paixão e a forma em como seus corpos se davam. A esse pensamento, sorriu. O autocarro parou e ela saiu. Dirigiu-se ao emprego dando a volta à larga praça, passando ao lado da loja que tinha todas as ofertas da tabela das datas festivas. Passou junto ao canteiro, bem tratado, e com o olhar, marcou a flor que no regresso iria colher para lhe oferecer. E entrou no emprego, pontual, conforme lhe assegurou o relógio de ponto, que lhe marcara, a negro, a hora de entrada.

O dia fora cansativo, mas não se esqueceu de colher a flor, que estava marcada. Chegada à porta de casa, procurou as chaves no fundo da mala, pois a surpresa da chegada requeria uma entrada em silêncio. Meteu a chave, mas quando esperava que estivesse no trinco teve de dar três voltas. Ao seu silêncio só respondeu o silêncio da casa. Só silêncio, mais nada. Sem perceber o que se estava a passar, a casa foi revistada com um só olhar. No sofá de carcomida pele, onde ele costumava estar, estava um bilhete nesse lugar. Tinha no canto inferior esquerdo dois corações e, num deles, um beijo dentro. Leu, em voz alta e embargada:
"Não posso, não posso continuar. Um dia volto. Levo a nossa tabela de afectos e teus desenhos. Não te deixo mais nada que não seja a promessa do meu regresso. Amo-te muito mais que a mim próprio pois o amor que tenho a mim próprio deixou de pesar. Um dia hei-de regressar."
Sempre teu
(assinatura irreconhecivel)
Duas lágrimas correram-lhe pela face, mas a rosa vermelha que tinha na mão chegou primeiro, ao chão... destroçada, inútil na sua missão de lembrar um dia que devia ser lembrado.

13 fevereiro, 2013

"Caritas in Veritate" - O papa escreveu um texto inapropriado como o meu... dizem que foi pelo corpo que ele foi vencido... eu acho que foi pelo seu escrito

Era um papa de aspecto severo, que escreveu (pelo menos) um texto inapropriado. Coitado
 
Quando era moço fazia coisas inusitadas, tais como ir ao tribunal da Boa Hora assistir à argumentação de noviços advogados a defender, na barra, vendedoras não licenciadas e outros crimes de fraca moldura penal. Entrava em igrejas, não para assistir à missa mas apenas à homilia para ouvir e ficar a pensar no que o padre dizia. Depois elaborava várias correlações. Entre a moral cristã e a justiça. Entre os advogados e os prelados, estas para entender a capacidade de a oratória ser capas de ir buscar a um texto o que lhes desse mais jeito. Eram tempos de fascismo e a interpretação mais rara era a justa... Tudo isto a propósito da carta encíclica que tramou o Papa. Estou-a estudando depois de lhe dar uma leitura rápida. Logo na introdução:
"...cada sociedade elabora um sistema próprio de justiça. A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é «meu»; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é «dele», o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso «dar» ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é «inseparável da caridade», é-lhe intrínseca..." - in "Caritas in Veritat" (versão integral aqui)
Abandonei aqueles hábitos antigos, não sei, por isso, se o texto acima citado era dito aos fieis, mas tenho a certeza que não. De outro modo, não veria católicos a pedirem, por caridade, à porta de qualquer Pingo Doce, que déssemos o que acabávamos de comprar. Vê-los-ia  sim nas escadarias de São Bento a reclamar tudo aquilo a esta pobre gente tem direito. São Bento, não o Papa, mas São Bento, a Catedral da Injustiça por obra e graça do voto mal dado.

Declaração de interesses: Sou comunista, mas gostava de ver ao meu lado católicos progressistas a baterem-se pela justiça de que falava a citada encíclica... 
(imagem tirada daqui)

12 fevereiro, 2013

O Papa, a renúncia, o eucalipto e a sua cúria


João Paulo II, o santo Papa que, tal como o eucalipto, à sua volta secou tudo...
 
Em Março de 2010, vai fazer três anos, fiquei com a impressão que iria acontecer coisa próxima disto agora acontecido, e a que se chama "renúncia". O título do post era significativo: "O poder quando se sente ameaçado, até pela igreja, não perdoa…" O meu (talvez único) erro foi confundir Ratzinger com a igreja. Quem ameaçava poderes obscuros era o Papa. Ratzinger ameaçava os próprios poderes da Igreja que o elegera. A Igreja que João Paulo II secou de santidade, ao absorver, como um gigantesco eucalipto, toda a santidade para si.
"Ratzinger é um pastor derrotado e coerente que, farto de lutar, retira-se para a clausura antes de ser devorado pelos abutres [da  cúria de João Paulo II,] ávidos de riqueza, poder e imunidade." - Miguel Mora, in El País

"As vestes e o rosto tão sujos da tua Igreja Igreja assustam-nos, mas somos nós mesmos que as sujamos" - Ratzinger, em 2005, antes de ser eleito
NOTA: As citações acima foram transcritas do Público de hoje, de um comentário de Jorge Almeida Fernandes, não disponível on-line

11 fevereiro, 2013

Oeiras, uma ilha de bem estar? - 3


Quando vim para onde estou, era mau mas melhorou, até desatar a piorar...
 
Não gosto de falar do que não sei... ah, mas vou saber. Vou saber o que está a acontecer. Contudo, confesso desde já a aprensão e o receio: até onde está a ser levada a sanha contra o SNS?
O Centro de Saúde de Oeiras já fazia parte de um agrupamento. Oeiras (e a extensão de Paço de Arcos) estava agrupado com Carnaxide. Em 2011, alterações vieram a ter impacto negativo, que foi noticiado e sentido. Agora (Dezembro de 2012) espanto-me: é dada posse ao uma directora de um novo (?) agrupamento. Diria, mais rigorosamente, um mega agrupamento...
Agrupamento de Centros de Saúde Lisboa Ocidental e Oeiras, compreendendo: Centro de Saúde Oeiras; Centro de Saúde Ajuda; Centro de Saúde Alcântara; Centro de Saúde Carnaxide; Centro de Saúde Santo Condestável  
Não sei o que vai acontecer, mas não estranharei que sendo Oeiras uma ilha de bem estar (para quem sabe e pode bem estar), a actividade privada vai ter procura reforçada. Gemam os que estão fora da ilha, mas habitem dentro dela...

Carnaval (video que é proíbido ver em formato reduzido)

e

Inspirado por Blimunda

10 fevereiro, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 26 (os desejos de Carlos Brito)

(Ler conversa anterior)
"Ó amigo Rogerito, o menino desculpe-me, mas vocês comunistas são do melhor! Primeiro ajudam a pôr o PS de rastos e depois ainda lhes chingam em cima? É que assim não chegamos a lado nenhum e os meninos do PPD/BPN bem que se aproveitam..." - Graça Sampaio, num comentário
(clicar na imagem para ampliar)
Quando o senhor engenheiro chegou à esplanada eu já lá estava. O pombo e o melro também. O velho fixou o que eu estava lendo e perguntou antes mesmo de se sentar:
- É um jornal antigo? ainda reconheço um jornal antigo...
- É, é de 1997. 22 de Maio de 1997!, estou a ler o editorial quando Carlos Brito era o director do jornal...
- Dantes, também lia o Ávante, quando era do partido...
- Há muita gente que sai. Resistir é díficil...  mas há muita gente a entrar...
- Eu ainda pensei em regressar... mas que pode esperar o partido de um velho como eu? E depois parece que há um constante lembrar de águas passadas...
- "Somos a memórias que temos" e mais aquilo que fazemos... foram as águas passadas que definiram este trilho que agora é percorrido por este rio...
- Pode ler alto esse editorial?
 
Li a pedido enquanto o velho se sentava, e depois de satisfeito o pedido diz-me o velho engenheiro perante o ar entendido do seu cão rafeiro...
- E ainda não havia nem agravamento do Código Laboral de Bagão Félix, nem PECs, nem troikas...
- Não, não havia nada disso... o rio ainda não carregava essas águas... nem as consequentes mágoas...
- Mas o Carlos Brito tem razão na ideia da necessidade da unidade...
- Não é uma ideia é um desejo, por todos desejado... faltam as ideias para se poder concretizar...
- Então porque se espera?, porque o partido insiste em se manter de lado...
- Porque "somos a memória que temos" mais o que vamos fazendo...
- Já disse isso. Está-se a repetir, nem me quer ouvir... há marxistas e democratas que se querem unir em torno do PS...
- Esses marxistas e democratas não se espantam com um PS que acaba de maribundar a social-democracia? O PS acaba de assassinar Keynes...
 
E falámos longamente sobre Keynes e sobre a escola keynesiana. O velho fez um curto silêncio. Depois estendeu-me a mão: 
- Estou a entender!, por acaso tem aí alguma ficha que possa preencher?
  

09 fevereiro, 2013

Partido Socialista: se pedir uma dúzia ideias é pedir muito, me dêem algumas, ao menos...

Há a ilusão que é tudo uma questão de pessoas e de lugares...
Face ao impasse, será que o PS estás em vias de "produzir" o seu Cavaco? Ou um D. Sebastião? Ou uma eminência parda?
A imprensa tem sido paciente e conivente. Os entrevistadores são bacanos e não colocam questões que causem danos. Os (e)leitores também paracem não esperarem outras noticias que não sejam as que alimentam a cordilheiriçe. Ideias? Respostas aos que se inquietam? Coisas que façam pensar? Alternativas? Nada. E pasmo com a descontração com que os entrevistados reconhecem que, no PS, ninguèm sabe exactamente o que fazer...
"...o ciclo político acelerou, por responsabilidade da maioria. As pessoas começaram a perguntar o que vocês fariam se fossem governo. E é a essa pergunta que o PS ainda não está em condições de responder." - Augusto Santos Silva, hoje, ao Jornal i

08 fevereiro, 2013

Oeiras, uma ilha de bem estar? - 2


Quando vim para onde estou, era bom e melhorou, até desatar a piorar...
 
Oeiras bem pode ser retratada por aquilo que se passa numa pequena parte dela. Acontece com um sector estratégico para o desemvolvimento e sustentação de qualquer população: os transportes. Caso paradigmático, o de hoje, na Linha de Cascais... e não se pense que acidentes provocados por avarias  são o resultado de manias... O material é como um corpo cansado, quando não pode mais, cai para o lado.
Não sei se a imprensa divulgará, mas eu faço-o, em nome do que me trouxe aqui:
"Há muito que nós tínhamos previsto esta situação e sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, este tipo de acidentes iria acontecer. Não nos surpreendeu e felizmente que não houve feridos." - Comissão de Utentes da Linha de Cascais
"O material é muito antigo (cerca de 50 anos) e, apesar de terem a cara lavada, as carruagens já esgotaram a sua vida útil de funcionamento, aliás, isso é reconhecido pelos anteriores presidentes da CP ... a linha de Cascais é uma das mais dramáticas... está saturada do ponto de vista da idade... Pelo respeito que as pessoas merecem é preciso tomar medidas e não andar a remediar um problema que não tem solução e que a cada dia que passa podemos vir a ser confrontados com novos problemas." - FECTRANS
Oeiras não é uma ilha, e sofre os problemas de toda a linha... A linha não é uma ilha e sofre o problema de todo o país...  e o país, se já perdeu a Equimetal, a Mague, a Metalsines e a Sorefame de uma maneira infame, ainda têm a EMEF, mas não a quer (ao que parece).
 
Isto não tem nada a ver com a autarquia? Quem disse?

... vamos ver agora, como esta coisa se comporta...

Onde tudo pára ou mal funciona não posso estranhar que tal "doença" também me aconteça. Andei "às aranhas" com esta minha geringonça, razão porque não tenho aparecido e tenha sido fraco o produzido. Estive com o meu PIB em baixo. Mas já dei a volta por cima. Pelo menos é isso que eu acho.
Vamos ver  

07 fevereiro, 2013

Oeiras, uma ilha de bem estar? - 1

Quando vim para onde estou, era bom e melhorou, até desatar a piorar...

Todos nós falamos dos nossos lugares, talvez não com a frequência necessária. Eu, que me recorde, apenas falei do que se via da minha janela, mais que uma vez (talvez umas três) e mais recentemente referi uma peripécia mal contada, de parcerias público privadas, que envolvem várias histórias, também elas mal contadas e onde o Isaltino não tem a culpa sozinho. É pouco o escrito. Mas a culpa é das gentes que aqui são frequentes. A culpa é do Rogérito, que bem podia dizer das suas. A culpa é da dona Esmeralda e da vizinha do quarto andar, que falam mais delas do que do que se passa à volta delas, já para não falar dos frequentadores da esplanada que sobre o que cá se passa, dizem nada. 

Vou ao tema. Não faltará assunto. 

06 fevereiro, 2013

Sorrisos? Estou à beira de me especializar...


"O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe", dizia-me um especialista em sorrisos que, com este seu dizer, me empurrou para a tarefa de aprender a descodificar sorrisos. Estou quase a saber... Por exemplo: já sei que por detrás deste sorriso exibido, está um já longo caminho, está uma prole que entre si se dá e, também, um homem diligente. Quando o sorriso dela dá a mão ao homem diligente, o sorriso vem de mais longe...  quando um seu ar muito sério, olha para dento dos olhos do homem diligente para a alma lhe reprimir, acaba sempre por sorrir...(uma mulher nunca resiste a um bom espelho)... 
E pronto, isto é o pouco que sei sobre o sorriso. Hoje é um dia de treino e vou ter sorrisos imensos.
Estou à beira de me especializar... 

05 fevereiro, 2013

A Escola Industrial Afonso Domingues, a escola da minha vida... em ruína... toda partida...


Fiz em tempos um texto que me encheu o peito, memórias do orgulho de lá ter estado...

Temo que meu país tenha o destino daquela escola que me acolheu em menino. Lembro-me bem o dia em que subi aqueles degraus, não a medo mas com o reservado respeito de quem entra numa etapa nova ao entrar no largo átrio da escola. Um amigo, atento (também) a este tempo deu-me a noticia e escreveu com o azedume de contribuinte ofendido: 
"É mais uma história pouco edificante de como, por inépcia e falta de planeamento, os governantes deitam o nosso dinheiro à rua. Em 2008 e 2009, durante o consulado de Sócrates, teve o seu momento de glória e foram lá enterrados muitos milhões de euros em avançadíssimas tecnologias. Um ano mais tarde, a pretexto da nova ponte sobre o Tejo, o mesmo governo decretou o seu encerramento. A ponte não se fez e, desde então, o edifício tem vindo a ser esvaziado do seu conteúdo e caminha, aceleradamente, para a ruína. Vale a pena ler." - escreveu ele.
E o texto lá está, inteiro. Não li. Não consegui. Mais que solidário, na qualidade de contribuinte que se sente, fico sentido por outro mais forte motivo: fui aluno. E aluno de peito cheio, pelo orgulho de o ter sido. Transcrevo do que disse me orgulhar:
"... não se consegue, sem treino, interromper a mente a quem tem 14, 15 ou 16 anos. Mais do que aprender a limar, a aprendizagem era a da concentração. A do domínio da mão sobre a alma, colocando esta quieta e calma. As vestes de operário, "fato-de-macaco", cumpriam, mais que o papel de proteger a roupa contra as manchas de óleo ou da limalha, a função da aprendizagem do significado do trabalho. Parece demagogia. Seria, se esse tempo passado tivesse ocorrido num só dia. Foi a maior lição de humildade por que passei. Como se sentiria Saramago (*) a andar por ali e passar por tal? Teria certamente um sentir igual..." - escrevi eu

04 fevereiro, 2013

''A arte é uma inutilidade indispensável'' ?


Se quer ficar com a alma plena, veja em modo "tela cheia"
Podemos perdoar a um homem por haver feito uma coisa útil, contando que não a admire. A única desculpa de haver feito uma coisa inútil é admirá-la intensamente. Toda arte é inútil” - Óscar Wilde 
"o ponto alto do ser humano é a arte, nela o homem concentra o empírico de sua existência -- a subjectividade -- e a realidade quotidiana que o cerca -- a objectividade" - George Lukács

03 fevereiro, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 25 (a importância do colectivo)

- «É sempre mau o caldo que muita gente tempera.»
- É verdade. É verdade. Frase muito sábia.
- Há, aliás, uma história do senhor Lewis Carroll que diz mais ou menos o mesmo: imagine sete mil homens a pintarem, ao mesmo tempo, um muro de dez metros.
- Sete mil homens...ao mesmo tempo ... a pintar... um muro de dez metros... Não vai resultar bem.
- Exactamente. Ninguém conseguirá pintar.
- Não acabarão uma pintura, começarão uma luta. O que é diferente.

Gonçalo M. Tavares, hoje no "Notícias Magazine"
O senhor engenheiro ia dizendo ao seu cão rafeiro: "hein?, que belo dia soalheiro..."

Elas estavam entretidas a discutir pormenores das vestes para o desfile... as preocupações não vinham à baila, estavam contidas. Coisas que o sol sabe tão bem fazer, aquecer e fazer esquecer. Isso mesmo ia dizendo o senhor engenheiro ao seu cão rafeiro: "hein?, que belo dia soalheiro..." e o rafeiro respondia-lhe o agitar do rabo, prazenteiro. 
Entusiasmado, com a leitura, propus-me ler um pedaço daquela crónica àquele velho companheiro de esplanada. Quer ouvir? E sem esperar li, tendo o cuidado de teatralizar o diálogo, que é a forma mais indicada para respeitar, com precisão, a pontuação. No fim, inquiri: Então?
- Então o quê?
- Gostou?
- Gostar, gostei. Mas nos tempos que vão correndo os escritores deveriam ser mais directos... mais directos e menos ambíguos... até parece que o escritor está a fazer a apologia do rasgo individual...

Fiquei sem resposta. O que o velho engenheiro tinha dito fazia todo o sentido. Mas não me querendo dar por vencido, voltei ao texto.
- Há coisas, como o temperar um caldo ou pintar um muro, devem ser competir a alguém sem atropelo, o que não retira a importância ao trabalho de um colectivo...
- Isso até pode ser verdade, mas não foi isso que o tal Gonçalo quis dizer.
- Nunca se sabe ao certo o que um escritor quer dizer quando está a escrever. Por exemplo, olhe a frase "imagine sete mil homens a pintarem, ao mesmo tempo, um muro de dez metros." Repare que o autor refere "ao mesmo tempo". Pode-se inferir, que se houvesse descontinuidade no acto, o muro podia envolver toda aquela gente... 
- Como, então?
- Um muro de dez metros, pintado de um e outro lado, com dois metros de altura, é muito muro... e se o muro é um muro querido, que se quer colorido, depois de bem desenhado... se forem usadas todas as cores e de todos os tons intermédios, seriam necessários centenas de pincéis e pigmentos, outros muitos instrumentos e utensílios de lavagem, escadotes para os que os pintores das partes altas pintassem a preceito...e se quem pintasse não desenhasse e quem desenhasse não pintasse... a logística seria complicada... mas com uma boa e disciplinada organização...
- Alto, alto, aí!, percebo que queira valorizar o trabalho colectivo, mas não é isso que foi escrito no artigo... está a especular...
- A vantagem de uma metáfora é a especulação e o espaço que é dado à imaginação! Se o autor quisesse ser directo faria uma mera reportagem do acontecido, ou algo parecido...

Desta vez vez foi o engenheiro a ficar pensativo e a voltar, interessado:
- E aquela parte inicial, em que se fala do caldo?
«É sempre mau o caldo que muita gente tempera.»?
- Sim essa, como especular em torno dessa?
- Não tem especulação possível. Conhecido o caldo, tem de haver quem o tempere... 
- Ou sairá salgado...
- Ou entornado!

Algo que há muito já devia ter dito... com ar de quem pede perdão


Tenho os defeitos que me apontam mais aqueles que consigo disfarçar e conter... tenho as virtudes que me reconheço, mais aquelas que dizem eu ter. Até aqui, nada de novo e até todos nós nos vemos mais ou menos assim... 
No "Conversa" não tenho nada a esconder e sempre afirmei estar aqui para desassossegar, por isso não posso levar muito a sério quem discorde deste meu estar... Não é pois sobre este espaço que resolvo vir dizer o que já deveria há muito ter dito. É sobre os comentários que por aí faço... É sobre os escritos deixados... São conhecidos por falta de adjectivos, estilo "que belo" ou "que bonito" e por entrar sem cumprimentar e sair sem me despedir, sem beijar, sem abraçar... São conhecidos por entrarem em espaços que deviam ser respeitados ou, no mínimo, interpretar sinais que devia levar em consideração antes de eu próprio deixar o que, no momento, tenha a dizer.  Contudo, sou assim, nada a fazer. Se tenho que pedir desculpa, teria de pedir desculpa por existir...
Mas há uma coisa de que não me podem acusar: passar ao lado de uma ideia ou emoção no espaço que me é (foi) dado...
"...Ser marginal - sê marginal. Afecta a ti próprio o espaço que é para ti e para ti te foi dado. Na intimidade de ti, na reserva de ti, na pobreza de ti. O mais que viesse e te invadisse o teu espaço, que é que te dava? A ampliação do teu rumor na amplificação alheia dele, seria alheio e não teu. A tua voz é breve, não a amplies ao que não é. E o teu pensar, o teu sentir, o teu ser. Não os sejas mais do que és. E então verdadeiramente serás."
Vergílio Ferreira

02 fevereiro, 2013

O tal poema de Sophia sobre o quadro de Helena...

Imagem, montagem sobre caricatura de Vasco

MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA

Minúcia é o labirinto muro por muro
Pedra contra pedra livro sobre livro
Rua após rua escada após escada
Se faz e se desfaz o labirinto
Palácio é o labirinto e nele
Se multiplicam as salas e cintilam
Os quartos de Babel roucos e vermelhos
Passado é o labirinto: seus jardins afloram
E do fundo da memória sobem as escadas
Encruzilhada é o labirinto e antro e gruta
Biblioteca rede inventário colmeia –
Itinerário é o labirinto
Como o subir dum astro inelutável –
Mas aquele que o percorre não encontra
Toiro nenhum solar nem sol nem lua
Mas só o vidro sucessivo do vazio
E um brilho de azulejos íman frio
Onde os espelhos devoram as imagens

Exauridos pelo labirinto caminhamos
Na minúcia da busca na atenção da busca
Na luz mutável: de quadrado em quadrado
Encontramos desvios redes e castelos
Torres de vidro corredores de espanto

Mas um dia emergiremos e as cidades
Da equidade mostrarão seu branco
Sua cal sua aurora seu prodígio.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Chiça!... então não é que o Franquelim também tem um cérebro assim?...



Pois!... mas tanto cérebro igual... isto ainda acaba mal...
O Honório (dizem que por ser Novo) esperava/exigia, uma “esperança/exigência” mais do que justificada, que Cavaco Silva se recusasse a dar-lhe posse como membro do governo, mas como seria de esperar, tal não aconteceu. Cérebros parecidos... são amigos.

01 fevereiro, 2013

O cérebro do Salgado já foi explicado... e o do Ulrich é também como já disse...


Há ahs de espanto sobre o que a mim não espanta. O que disse Ulrich não é um deslize. É próprio de um cérebro que estudei e cuja "rogériografia" foi publicada em Agosto de 2010. Esse cérebro é o resultado de seu portador ter trepado como esses tantos outros banqueiros que nos têm governado (há quem ainda pense que são os políticos quem governa...). Por outro lado, entre Ulrich, Salgado e os cérebros que este diz ter admirado, há apenas pequenas variantes. 

Do relatório cientifico que ficou escrito, trago-vos este excerto:
...O ar circunspecto e o porte seguro dos portadores destes cérebros conferem-lhes uma presença credível e séria pelo que aparentam ser um cérebro normal embora não o sendo. 
A inexistência de processos verdes retira a este cérebro qualquer capacidade de produzir alegria e felicidade ao seu redor. Todas as suas manifestações são de aparente bom humor dada a sua elevada capacidade de mistificar comportamentos, mesmo quando está confrontado com as situações mais adversas (...)
Estão na maior. Senhores de elevada capacidade verbal e até com dotes de oratória, ascendem facilmente na carreira chegando, na sua grande maioria a lugares do topo, chega qual for o ramo da actividade ou o sector. Frequentemente tratam os colegas como ferozes concorrentes e, à semelhança de outros cérebros anormais, usam as falsas verdades como patamares de trepadeira mas... arrepiam-se só de pensar que alguém possa comentar que começaram graças a uma valente e influente “cunha”. Gabam-se com frequência da sua brilhante carreira académica. Uns ostentam mestrados, outros até doutoramentos. Fazem-no mesmo quando não possuem mais do que o ensino básico (e conseguem ter crédito)...