31 janeiro, 2014

Avancemos, chuva adentro / Chuva adentro / Até que o Sol nos apareça,/ e brilhe / como se fosse Abril

Poesia (uma por dia) - 60

Até que o Sol nos apareça

Uns dizem palavras de desalento
Outros que esperam ter esperança em Maio
A maior parte, não fala e quando saio
Oiço queixas veementes de tão mau tempo

Resguardo-me dos estados de alma
E do silêncio resignado e mudo
Avanço chuva adentro, que não se acalma
Sem esperar que lave os males deste mundo

Meu irmão falou-me de relâmpagos, na escarpa
A nuvem falou-me de trovões e do vento
Um raio que parta tudo isto, ouvi neste momento
Desabafo da impotência que daquela voz se escapa


Avancemos, chuva adentro
Chuva adentro
Até que o Sol nos apareça, e brilhe                           como se fosse Abril
Rogério Pereira

30 janeiro, 2014

Poesia (uma por dia) - 59

MÃO(s)

A mão que esboça o verso, ampara a vida,
Transporta o saco cheio, amassa o pão,
Cava o torrão mais duro e, mesmo f`rida,
Prefere a dor sentida a nem ser mão…

Renasce a cada causa antes perdida
E tece e fia e doba e faz questão
De, sobre a tela pronta e já tecida,
Lavrar, do próprio gesto, a criação…

A mão trabalha ainda, a mão persiste
E até quando algemada ela se agita;
Ou se livra da peia… ou lhe resiste!

Será por cada mão que não desiste
Que a força de que o mundo necessita
Justifica a razão que ao povo assiste…

Maria João Brito de Sousa, no FB

29 janeiro, 2014

Pete Seeger: "Pay Me My Money Down"


(só encontrei esta versão do Bruce, e por isso a trouxe)


Bruce Springsteen, com a Seeger Band

28 janeiro, 2014

Dicas do Bruno - II (...muitas das utopias na educação, já existem!)

Imagem retirada de um vídeo precioso

De uma penada, há poucos dias, liguei dois posts. Um falava da utopia, outro da praxe. Hoje a última página do Público traz uma frase paradigmática que demonstra que, de facto, tudo anda ligado: "Antes de atacar um abuso, deve ver-se se é possível arruinar-lhe os alicerces". Não sei se Luc de Clapiers, se referia aos abusos de praxe e à necessidade de mudar a escola. Admitindo que sim, então é preciso ir à escola e provocar lá a revolução necessária, criar a Utopia. Antecipando-me, foi da Utopia que então falei...

O Bruno, oportuno, sentenciou: "Muitas das utopias na educação, já existem..." E deu dois exemplos: a "Voz do Operário" e a "Escola da Ponte" e deixou links que fazem prova.

A "Escola da Ponte", entretanto, já atravessou fronteiras:

27 janeiro, 2014

Dicas do Bruno - I (da praxe e do conformismo)

O Bruno foi dos poucos que ontem me comentou. A validade do comentário é a que resulta, não do facto de ser um jovem universitário, mas de me ter alertado para outro, o de ser muito difícil vencer a barreira do conformismo. As instituições estão talhadas para tal. Ao fim e ao cabo, a praxe não é um corpo estranho alojado no complexo sistema que forma as nossas elites. E nem sequer me refiro ao silêncio que tem pairado sobre a praxe violenta como antecâmara da sociedade da obediência...

26 janeiro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 50 (... sem praxe, não haveria troika))

(ler conversa anterior)
"Praxe: o desejo de obedecer hoje para comandar amanhã" ..."O tipo de cerimónia, jogos e palavreado era muito parecido entre faculdades, muito mais do que o que estava à espera." 
Bruno Moraes Cabral, comentando a sua "Praxis"

As professoras comentavam os excessos e o senhor engenheiro falava do seu tempo. Percebi que tinha, da praxe, uma opinião formada: "As elites precisam de ensaiar a tempera de quem está a ser formado para mandar, começam por aprender a sentir o que sente um humilhado e ofendido para depois treinar a humilhação e a ofensa!" dizia-me com ar convicto.  Olhei-o silencioso e pensativo, depois interroguei:
- "Sem praxe, não haveria troika?..."
- "Sem competências adequadas e almas treinadas, não!"
- "Almas duras, treinadas em actos de humilhação?"
- "E também almas amolecidas, treinadas em serem humilhadas e ofendidas!"
- "A desumanidade é um conteúdo formativo"?
- "Isso!"
- "Estamos então todos nós a ser "pranxados"?
Ele endereçou-me um afirmativo e triste sorriso, e depois mergulhámos os dois na leitura dos jornais, onde confirmámos o que até ali tínhamos dito.

E porque os retrocessos civilizacionais nunca são iguais... quando cheguei da esplanada, fui lembrar:

25 janeiro, 2014

Uma lição dedicada ao ministro Crato, esse retrópico danado...

Com os devidos agradecimentos ao "Terrear"

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar" - Eduardo Galeano

Fábula mais que batida...


Na floresta, espantam-se os animais desatentos a sinais. Uns dizem não ser possível reconhecer os predadores pois eles já trazem a mesma linguagem das suas presas. Outros (poucos) dizem, parafraseando inversamente Nietzsche: A desvantagem de ter péssima memória é sofrer muitas vezes com as mesmas coisas más como se fosse a primeira vez. 
Numa manhã, dessas confusas e doridas, um pequeno camaleão apossou-se do pequeno espaço de um frágil ramo e nele se instalou. Disse-lhe o ramo: "a mim não provocas engano, sei a cor que tinhas e as que já tiveste." O camaleão, que entretanto tomara a cor do mesmo castanho do ramo, foi-lhe respondendo, com todas as mentiras que lhe ia ocorrendo. Os insectos, que andavam por ali, julgaram que o pequeno ramo teria enlouquecido a ponto de falar sozinho. Foram-se juntando. Juntando e aproximando a ponto de ouvir todo o diálogo. A pouco e pouco iam partilhando da opinião do camaleão. 
Eis senão quando, o camaleão pimba! apanhou todos os insectos com a língua...

24 janeiro, 2014

O poema, o panfleto, o medo e uma ida a Davos

No Centro de Saúde de Oeiras esperava a chamada e enquanto isso ia-me concentrando naquilo em que nos concentramos enquanto esperamos: nas pessoas, nas paredes, em quem passa e depois em detalhes de tudo isso. Numa parede, por baixo do painel electrónico das chamadas - que uma avaria "antiga" tirara há muito essa importante função - estava algo que atraia a atenção. Era um quadro com algo escrito que durante a espera já tinha sido visitado por vários médicos. O sorriso incontido de cada um que o lia desafiou-me para eu próprio o ir ler. Era um poema. Um poema do Gonçalo. Li, li duas vezes e percebi que por detrás da metáfora estava um panfleto, vencendo o medo, mas sem a ousadia de ser mais claro.
Pensei, então, no que o jovem médico terá ido fazer a Davos, e não pude deixar de me interrogar das verdadeiras razões. Defender ou vender? A defesa pode ser uma boa argumentação de venda...
A Grande Inteligência é Sobreviver

A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.

Gonçalo M. Tavares

23 janeiro, 2014

De Bilderberg a Davos e o futuro para que estamos guardados


As imagens, por mais expressivas, não valem mais que mil palavras e por isso o texto retirado da primeira página do Público é indispensável à leitura da imagem acima. Entre outras (muitas) coisas, ambas retratam operações bem sucedidas que concorrem para ilustrar que "Portugal" (com aspas) está a atravessar um bom momento: Uma é o resultado de operação inserida no label "... Portugal vende-se bem"; outra é o resultado de um arremedo de reengenharia financeira (muito oportuna e) porreira, em que alterações de regras contabilísticas provocam milagres na redução do déficit. O presidente do Goldman Sachs, entre Bilderberg e Davos, move-se bem e diz coisas com o fundamento que lhe dá o poder de as dizer: "...o pior da crise já está para trás", disse.

Repito: Haverá uma acalmia como há muito não havia. Depois tudo voltará à mesma. E que não se pense que se vier outra gente será diferente. (atenção Alexandra, é aqui que entra o Octávio)

22 janeiro, 2014

Diário de um eleito - (5)


Que não se diga que um eleito é para estar onde dá jeito. Nós não somos todos iguais, nem estamos à espera, como não estão outros nossos eleitos, que as senhas de presença nas Assembleias nos caiam na conta, aumentando-nos os proveitos. Ontem, por exemplo, foi um dia em cheio: umas dezenas de telefonemas a lembrar a reunião do dia de hoje, uma conversa atenta com quem nos respeita e um estar na Soeiro, a discutir e a preparar, o congresso da ANAFRE... à noite, ler o correio e os mails e depois seguir, por entre o denso nevoeiro da omissão, o que foi o dia dos outros, passado pelo filtro da televisão. A insistência bateu na manifestação dos bolseiros, insubmissos à condição de enjeitados, humilhados e ofendidos. E foi hora de lembrar que aqui, neste lugar(*), se concentra talvez o maior núcleo de jovens que se dedicam à investigação científica em Portugal. Quantos seriam, ou poderiam ser, se a política seguida fosse outra? Quantos serão, se a política seguida for esta? À primeira pergunta tenho por reposta, em números redondos, cerca de 1000 (ou serão mais?). Para a segunda pergunta, não sei se há quem responda...como eleito, tenho de saber!

Imagem do facebook, página do prof. André Levy

(*) Em Oeiras, estão localizadas várias instituições do universo científico e da investigação, com particular incidência nos domínios da biomédica/biomedicina. No âmbito na campanha eleitoral visitei, como candidato CDU, essas instituições e foi feito relato detalhado na página CDU (PCP):
 A situação agora criada levanta, a nível local, outros problemas...

"Davos é o sítio certo para ‘vender' o país", caso não venda ele Dá-vos...

Imagem expressiva 

Que se venda tudo
Que se venda a bandeira,  a alma
aviões e os locais de entrada e saída de passageiros
 Que se vendam as malas e também os bagageiros
Depois correios e dos carteiros, que se venda a água, o entulho
Que se venda tudo
Que se venda a fala e a palavra
o sol, a montanha, a praia e o ar puro
Que se vendam os anéis e também os dedos
Que se venda tudo
E nessa praça, onde até o amor se compra
onde até o amor se vende
se a Pátria, que é tudo, não tiver preço
nada importa. Ele Dá_vos  
Tem ordens para isso

E se, em bom vernáculo, os mandássemos para o caralho?

21 janeiro, 2014

Ouvimos dizer que estás cansado. Ouvimos dizer que estás cansada. Que a raiva vos secou por dentro, que não vos apetece fazer nada...


Ouvimos dizer que estás cansado
«Ouvimos dizer que estás arrasado.
Que já não podes andar de cá para lá.
Que estás muito cansado.
Que já não és capaz de aprender.
Que estás liquidado.
Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo: nós exigimo-lo.
Se estiveres cansado e adormeceres
ninguém te acordará,
nem dirá:
levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?

Se não podes andar de cá para lá, ficarás estendido.
Ninguém te irá buscar e dizer:
houve uma Revolução. As fábricas esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto virão
enterrar-te, quer tu sejas ou não culpado
da tua morte.

Tu dizes: que já lutaste muito tempo
que já não podes lutar mais.
Se já não podes lutar mais, serás
destruído.

Dizes tu: que esperaste muito tempo.
Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu? Que a luta fosse fácil?
Não é esse o caso: a nossa situação é pior que tu julgavas.

É assim: se não levarmos a cabo o sobre-humano,
estamos perdidos.
Se não podermos fazer o que ninguém de nós pode
exigir, afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada é que os lutadores
estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados de mais,
perdem a batalha.»

Bertold Brecht

20 janeiro, 2014

António Carlos Cortez - por cada poeta ou escritor que se cala, que venham mil com a sua fala!

POEMA 

Quando não esperas nada
não esperas nada

Quando não esperas nada
tudo acontece

Quando não esperas nada
o nada é certo

Quando não esperas nada
das leis do verso

Quando não esperas nada
porque esperavas?

Quando não esperas nada
lembras fantasmas

Quando não esperas nada
o som concreto
do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo

e recomeças
António Carlos Cortez

O poeta veio referido, distraidamente, por um jornalista inexperiente nessas lides de esconder vozes. Não será fácil remete-lo à omissão por qualquer chefe de redação. Ele andará por aí, e ninguém o irá calar. E não se esconderá atrás da sua obra, com o pretexto de falta de tempo...


 "...a poesia tem de ter uma dimensão de choque. Não tem de ser simpática, salvífica. Pois o poema é a tentativa de resgatar o que se perdeu. É uma obsessiva procura de dizer o real sem nunca o conseguir" 
 JCC hoje ao DN (indisponível para link )

19 janeiro, 2014

Eugénio de Andrade


"Ser jovem não é fácil. Alguns procuram-me para que lhes dê certezas, e eu não tenho nenhumas, nem sequer para uso pessoal. Por isso não deixo de lhes dizer que a única coisa em que estou interessado é em perturbá-los. A poesia é subversão, e esta passa pelo corpo, naturalmente"
...
"Caridade é uma palavra de flancos frios e águas estanques. Conduz sem grandes desvios ao mundo pantanoso e pervertido da repressão, onde a consciência que se diz virtuosa mais não faz que servi-lo, desinteressada como está em que a potencialidade humana se afirme em todo o seu esplendor"

Eugénio de Andrade, em "Rosto precário"

Geração sentada, conversando na esplanada - 49 (... o cão rafeiro mijar-lhe-ia nas pernas se o ALA aqui estivesse)

(ler conversa anterior)
"...Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem inteligente, mas imóvel..."
Gonçalo M. Tavares, in "Sem Acção, de Nada Vale a Inteligência"

A Gaby, passou do estado de atenta para um estado exasperado. O rosto ficou-lhe avermelhado e atitude parecia ir ser violenta. E foi. Levantou-se, dirigiu-se à minha mesa, e gritou para se fazer ouvir mesmo a quem não queria: "O senhor é um... é um..." E perdeu, naquele momento preciso, o adequado adjectivo. Quando o encontrou saiu-lhe quase inaudível - "...é um ser ignóbil", e bramia o iPad com o ALA a fumar tranquilamente, na "pantalha". Levantou-se assustado o cão rafeiro e o mesmo fez o senhor engenheiro, temendo ambos a agressão. A Teresa quis colocar água na fervura, sem sucesso, e a  Guida manteve-se neutra, tranquila. A Gaby, continuava ali à minha frente, mãos nas ancas, desafiadora: "Fique a saber que o Nobel, para mim, era ele que o merecia", dizia.
- "Mas leu?" perguntei eu
- "Claro que li, porque julga que me insurjo. Isto, escrito por si, é sujo! É um ataque ao carácter"
Peguei no Ipad (que ela tinha mandado para cima da minha mesa), abri-lhe o link em que citava Batista Bastos, apontei ao citado e li em voz alta, para que todos ouvissem, depois fiz o mesmo ao que escreveu Saramago:
"O cidadão que o escritor é não pode ocultar-se por trás da obra. Ela, mesmo importante, não pode servir de esconderijo para dar ao autor uma espécie de boa consciência graças à qual ele poderia dizer que está ocupado e não tem tempo para intervir na vida do país."
Cortou o velho engenheiro o fio àquela meada: "Se o ALA estivesse aqui sentado o meu rafeiro já o tinha mijado! Nas pernas, como nos fala o Gonçalo..."
E a calma regressou à esplanada.

18 janeiro, 2014

Ary? Ele anda por aí, de punho erguido contra o medo, declamando seus poemas com versos pintados de fresco


A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos

17 janeiro, 2014

Par_lamento, e a votação de gente que não aguento

"Cupido, dormindo" - Caravaggio
Definir o amor deixou de ser tema que me ocupe. Nem me atrevo a contestar a imagem do menino com asas e setas que, as lançando às cegas, acerte em quem acertar fará apaixonar quem com elas leve. Sendo anjo, portanto sem sexo, não olha a sexos. É assim, e pronto. Há poetas que tentam uma definição, em vão, pois amor é mais que o belo que deixam escrito e mais que alguns escritores tentam escrever...
Posto este enquadramento... Hoje é um dia negro, entre muitos outros dias negros e outros tantos cinzentos. O parlamento, através de gente que não aguento, votou adiar dar amparo àqueles a quem eles próprios diariamente colocam no gueto das crianças mal-amadas. Crianças, sem asas nem armas, apenas meninos. Meninos sozinhos...

16 janeiro, 2014

António, o cordeiro (e um Lobo chamado Antunes)


O titulo sugere a fábula, mas não é de La Fontaine que vos venho falar. Nem sequer do Gonçalo M. Tavares de quem encarecidamente espero uma maior intervenção cívica e política e, por isso, o tenho colocado na berlinda. Venho falar mais uma vez do ALA, e não me quero repetir nos argumentos já antes despendidos a propósito de uma crónica de Baptista Bastos e, antes também, numa minha "homilia" citando Saramago.
Ao ouvir o que ALA diz (12´30´´do vídeo, onde ficamos sem saber o que terá dito ao Primeiro Ministro) desisto definitivamente do homem, sem saber se se salva o escritor, pois nunca consegui separar uma coisa da outra. E quando falo de outros, não me venham com o argumento que escritores, obras e homens não se comparam, pois não é disso que se trata. Comparo comportamentos, isso sim, pois estes são, para além das palavras escorreitas, escritas e ditas, o que determinam o exemplo daquilo que devemos seguir e querer ser.
Que um dia o Lobo devore o António!

Eu, as duas culturas e um segundo olhar

  
Um dia, muito novo, descobri que C.P. Snow pensava em mim, ao falar sobre "As Duas Culturas"... 

Abro o DN e ultrapasso a incerteza do tema. Escolho o artigo de opinião de Vasco Graça Moura - A urgência da literatura - o qual começa por falar de humanidades e depois disserta sobre essa coisa que diz ser urgente, para, a meio, sentenciar: "Hoje temos todos a consciência de que a literatura é um instrumento do conhecimento e corresponde a um meio de funcionamento ao nível da sociedade que vai muito mais longe. Penso que seria essencial que a escola portuguesa, tanto ao nível de docentes como de discentes, tivesse a capacidade de conjugar estas perspectivas com o território, tantas vezes esquecido, das humanidades." Paro aqui e desisto. Desisto não por desinteresse em continuar, mas porque me assaltam outros pensamentos. O primeiro pensamento foi para aquele momento, há muito, em que um amigo me adjectivou como um eclético e que a primeira coisa que fiz, depois de tal ouvir,foi ir a correr, apressado, consultar um dicionário. O pensamento seguinte, foi para a imagem de me ver, a mim próprio, numa bancada na aula de "Trabalhos Manuais" da Escola Industrial Afonso Domingues (a mesma de Saramago, e há pouco destruída) a limar um pedaço de aço, vendo na limalha, pedaços de versos e associá-los ao desperdícios de ferro. Eram desperdícios a que me obrigava a procura da esquadria. Lá se vai o suor de quem na mina esgravatou o minério, lá se vai o esforço na pasada que alimenta o alto forno da siderurgia. Limalha é perda do valor acrescentado, é desperdício de salário. Tudo isto eu ia desmemoriando a propósito das tais esquecidas humanidades de que falava o Vasco. Daí, procurei outros escritos mais urgentes e ricos como instrumentos de construção do futuro a partir de um banco de escola. Não foi difícil encontrar, um é meu (de 2010), outro é do autor das "Duas Culturas" e que, para satisfação minha, lhe acrescenta "um segundo olhar".
Extraio, de lá este bocado:
«Segundo o autor (C.P. Snow), os humanistas não conhecem conceitos básicos da ciência e os cientistas não tomam conhecimento das dimensões psicológicas , sociais e éticas dos problemas científicos. Essa dicotomia cultural , que traz graves consequências educacionais, ao ser reconhecida , causou e causa ainda ondas de indignação principalmente na academia. Melhor faria ela em analisar as suas causas e consequências e procurar construir pontes par a tornar transponível o que separa as duas culturas, eliminando ou alterando preconceitos mútuos, resultantes de um corporativismo acentuado e defensivo cristalizado nas instituições.»
... e sobre o tal "segundo olhar":
«Relaciona a revolução científica e a produção literária à situação política...»
Há mais para ler. Vá lá ver.

14 janeiro, 2014

O MUNDO DA LUA





Ela enviou-me uma mensagem em que me respondia: "Sim, estaremos então nessa antologia, mas digo-lhe já que não vai gostar da minha prosa. Fala de fuga!" 

A minha resposta foi irónica: "Quanto a não gostar do seu texto, já são dois que me desagradam, pois não gosto do meu..." 

Claro que isto não é a valer. A última palavra será dada a quem nos ler!

O espelho deu-lhe um bom conselho, e vai daí: "A UGT está disponível para um compromisso importante no pós-troika"

Sente que há condições de diálogo com este governo? 
Tem havido, nós temos conseguido manter portas abertas com este governo. 
Entrevista de Cavaco Carlos Silva, hoje no jornal i
Assim se vê a força da UGT! A Unicidade Sindical era, de facto, um perigo... (*)

PS - Segundo o Público, a Moody´s desistiu de fazer um comunicado sobre a dívida soberana e adiou para Maio pronunciar-se sobre o rating. Quem é amigo, quem é? E agora digam que a minha bola de cristal funciona mal... se alguém duvidava pode até continuar, mas ou faz alguma coisa ou leva outra vez com a troika nacional em cima. (desta vez não faço rima) 
(*) Pós-editado, à bocado

13 janeiro, 2014

Cristiano Ronaldo


Saltar mais alto, até às lágrimas!

O CDS e o seu 25º Congresso


Ontem foi um dia assimétrico, sem a dominante de coisas muitos sérias, sem a incidência de interregnos para coisas belas, nem para coisas muito más, pois de tudo isso houve um pouco. Comparando os acontecimentos do dia com o tempo nos Açores, diria que ontem deu para todas as estações: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Concentrando-me no inverno do nosso descontentamento, recordo o discurso de Paulo Portas e discorro sobre para que tende este partido. Entre o ser uma agência de recrutamento para o preenchimento de elevados cargos e o corresponder a uma estrutura partidária representando os interesses da classe dominante e opressora, fica balanceando entre uma e outra sem nunca deixar de ser ambas. Esta é a síntese, poupada em adjectivos e outros juízos. Mas por lá ainda moram pequenos resquícios e reminiscências da Democracia Cristã, que penitenciam (ainda) a má consciência dos bem intencionados que aguardam que se concretize o destino dos nascidos em berço de ouro... apetece-me citar algo que acabei de ler onde se relembram palavras de Bernard Shaw: "o cristianismo talvez fosse uma coisa boa, se alguma vez tivesse sido experimentado." 
Entretanto, o neoliberalismo impera, infecta e destrói todo o tecido social e não é apenas a negação mesma do espírito cristão como até o devora. Nada que espante, no espectro partidário alguém teria que fazer o papel de o bem representar, defender e sustentar. As desigualdades não acontecem por acaso.
O discurso foi seguro, com a segurança de quem sabe que outros partidos dependem de seus serviços. PS e PSD irão disputar-lhe os favores. Paulo conta com isso.

Quanto ao conteúdo, o discurso merece ser desmontado e, também, contestado. E aqui, neste outro lado.

12 janeiro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 48 (... sobrevivem apenas os homens que produzem sentimentos neutros?)

(ler conversa anterior)
 "Em tempos, morreu a mulher que sabia fazer tristeza e agora morreu o homem que sabia fazer a alegria"
Gonçalo M. Tavares, in Noticias Magazine

A esplanada estava por nossa conta. Só Eu, o engenheiro e o seu cão rafeiro, Minha Alma estava como se não estivesse e embora Meu Contrário sempre me acompanhe mantinha-se alheado, distante. "Vai-me dizer que sobrevivem apenas os homens que sabem produzir sentimentos neutros?" - começou o engenheiro e eu disse, convicto, "Sobrevivem muitos outros... os que sabem fazer sentimentos depressivos..." O velho ficou pensativo, mas estava preso à leitura de Gonçalo:
- "Eusébio deixou herdeiros... O Benfica ganhou com alegria!"
- "O futebol é a coisa mais importante de entre as coisas pouco importantes com que nos devemos preocupar"
- "Minimiza coisas de que o povo gosta?"
Minha Alma, voltou como se só nesse momento chegasse e cortou a conversa 
- "Esse gostar é um sentimento neutro!, não muda nada... e não mudar nada é um seguro caminho para um sentimento depressivo. Depois da festa, a depressão regressa!"
O cão, que tudo percebe das palavras das almas, colocou aquele olhar com que os cães antecipam uma corrida em perseguição do pombo que acabara de pousar...

(Não posso dizer que prima pela coerência, vi o jogo do principio ao fim!)

11 janeiro, 2014

Quarenta e quantos?... Tantos?

(Foto de Setembro de 1969, data não confirmada e quase apagada) 
O tempo passa, faz seu caminho... Se me lembro desse tempo? Sim!, com carinho. A maior parte das vezes era a mãe que a adormecia. Poucas vezes era eu que o fazia. E cantava, enquanto a embalava(*)... Faz tempo, meu Deus como o tempo passa...
 Hoje, ela, antes de soprar as velas, sorriu a quem cantou...
(*) A versão que cantava era a  original

A baixa dos juros, aquela bola de cristal e as eleições europeias...


Foi aquela bola de cristal, lembram-se? Dias antes dizia que a taxa de juros descia. E desceu. Sabem agora o mesmo que eu: os neurónios nacionais dão confiança aos mercados e estes aliviaram o torniquete. É necessário manter viva a galinha dos ovos de ouro e expor isso perante a Europa inteira. Dirão, na campanha, "como podem perceber a galinha não vai morrer". A Europa vai a votos e haverá dinheiro para sobrevivência do enorme galinheiro. Haverá uma acalmia como há muito não havia. Depois tudo voltará à mesma, diz-me a bola de cristal.
Nas empresas e na rua, a luta continua.

10 janeiro, 2014

Diário de um eleito - (4)


Desta vez reporto um jantar. A Assembleia de Freguesia, despida de regimento, reunia em informal convívio. Quando chegámos, eu e o Rui, já estavam nas "entradas" e sentámo-nos numa ponta, entre quatro ou cinco cadeiras vazias. Entretanto, chegaram o Presidente da Junta e o João. Depois, não me lembro quem, pegou num assunto, já não me recordo qual. Mas foi como as cerejas, a cada uma puxada outras vinham atrás. Falámos de tudo, de bola, das nossas mulheres, das que tinham interesse e das que estavam tomadas enjoo por tal jogo. Falámos numa rua digna a que dar o nome de Eusébio, sem encontrarmos qual. Alguém sugeriu nessa altura que falássemos de política, consentimos, e muito nisso falámos. "Damos atenção ao que diz o PCP!" disse alguém, ao que retorqui "Gostamos que nos deem atenção!", e dissertei sobre os valores do trabalho, sobre educação e sobre a geração dos "Morangos Com Açúcar". O Rui falou sobre trabalho precário. Quando chegou à altura de atacar aquela frase feita do "vivermos acima das nossas possibilidades e agora pagamos por isso", não me ocorreu citar Mark Twain. Mas agora, que escrevo, me recordo dessas palavras. Dizia ele (escrevia eu): "Um Banco é como um tipo que nos empresta o chapéu-de-chuva quando está sol e que o pede assim que começa a chover!"

Antes dos apropriados discursos finais, prometi ao João dar-lhe opinião mais detalhada sobre o que a banca fez do país. Aqui a deixo, por voz mais autorizada.

08 janeiro, 2014

Uma investigação, com coisas que temos à mão

Lembram-se daquela imagem que representava uma espécie de "cérebro"? Se não tem isso presente, relembre.
Já está? Então podemos seguir em frente: vê essa imagem aí ao lado? É, segundo as localizações cerebrais, a parte daquele cérebro imenso que responde pela realidade local. Vamos ver?
Clique aqui e veja o movimento, de como os neurónios cinzentos se deslocam e se dão as ligações. É fácil. Sendo muitos, não são milhões. Posso até situar-vos serem na casa dos poucos milhares. Querem que fundamente, com pequenos exemplos. Cá vão:
«um só gestor pertencia ao órgão de administração de 73 empresas.»
«17 administradores acumulavam lugares de administração em 30 ou mais empresas»
Isto, quando foi publicado,  levantou um sururu danado, que não havia direito, que tinham vencimentos chorudos, mas esqueceram-se do funcionamento: cada ordem, decisão, de um gestor repercute-se em dezenas de grandes organizações. Um só, pode comandar comportamentos na economia em mais de setenta organizações! Pois! É tudo muito complicado? Não! Veja em baixo uma fácil explicação, descrita na legenda:


Esta imagem mostra o que resultou do que fiz: cliquei na bola "BPI" e de pronto apareceram ramificações de outros tubarões e os nomes conhecidos, de políticos (a cor que os pinta não engana).
A teia está aí.
Vai clicando e o sistema vai mostrando. Experimente! Comece pela Banca... 

Metro*


*Este artigo
foi escrito
ao abrigo
do novo acordo
...
ortográfico

06 janeiro, 2014

Eusébio. Os valores. A memória.

imagem retirada da net
A humildade é um valor? E o trabalho, o esforço? E a alegria associada ao prazer lúdico do jogo?  E o respeito para com os vencidos?
Não estou confuso, a cada interrogação sei a resposta, sei que são.
Mas sei, também, que se manipulados servem a ética da resignação. E Eusébio era tudo menos um resignado!*

Manipulação de sentimentos? Nem sei se foi isso. Mas foi um dia planeado, excessivo...

* Para quem não saiba, Eusébio integrou a Comissão Promotora do Centenário de Alvaro Cunhal 

05 janeiro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 47 (... daqui a cem anos nenhum de nós estará vivo!)

(ler conversa anterior)
"Uma coisa para fazer sentido hoje tem de fazer sentido daqui a cem anos."
"Guardo sempre uma distância de segurança em relação à política. A distância permite que possamos fazer coisas que são políticas mas não conjunturais. Interessa-me mais a política do ser humano."
Gonçalo M. Tavares, in Citador

"Bom dia!" - disse o velho engenheiro à chegada não em tom de cumprimento mas de constatação. Estava de facto uma manhã agradável, a temperatura, o sol, a ausência de chuva e o pouco vento. O rafeiro do senhor engenheiro, contrariamente à entoação do dono, cumprimentou-me com aquele olhar e a cauda com que os cães cumprimentam quem gostam. "Bom dia!" respondi aos dois. Longe da enchente da semana passada, éramos só nós que estávamos na esplanada.
"Ter-se-ão penalizado por terem votado em Goebbels?" - como resposta encolhi os ombros

O engenheiro ficou como se tivesse perdido assunto, mas voltou com outro
"Hoje o DN, na página de Artes, diz que a penúria de obras literárias se assemelha à dos tempos da pré-revolução*, em que os autores metiam os originais na gaveta..."
"A crise não condiciona só o pão!..." - respondi, evasivo
"Nada que tenha a ver com censura... com Goebbels..."
"Goebbels tem a ver com tudo..."
"Será então disso que o Gonçalo se defende?... que guarda distância em relação à política?"
"Possivelmente... Interessa-lhe a política do ser humano. Mas acho que ele também aqui emprega uma metáfora"
"Só perceberemos isso, na verdadeira dimensão, daqui a cem anos!"
"Daqui a cem anos, nem nós nem ele, estaremos vivos..."
"Exactamente por isso meu amigo, exactamente por isso! A política obriga a grande exposição. Gonçalo  trabalha para a posteridade e não arrisca ficar pelo caminho..."
"É uma acusação forte, essa!"
"Pois é!" disse, distraidamente. 

* O termo usado no texto do DN é um eufemismo para evitar a palavra fascismo.

Eusébio da Silva Ferreira, in memoriam (1942-2014)


Morrer é a coisa mais certa que temos na vida. A exacta glória é a póstuma, dizem.
Se podemos ir buscar ao desporto exemplos que podemos seguir na vida? Claro!, ao desporto como em qualquer lado. De Eusébio eu guardo a imagem de um homem de trabalho, daqueles que mesmo que pareça que vai cair, que nada há a fazer, coloca toda a energia e dá a volta por cima... apenas isso, e não é pouco! 
 (queria dizer que sou do Benfica, mas essa omissão não tem importância nenhuma...)


04 janeiro, 2014

O Centenário de Álvaro Cunhal

Três comemorações simultâneas numa mesma data: a do encerramento do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal; a dos 54 anos da fuga da prisão política de Peniche; a dos 40 anos do 25 de Abril de 1974 que, neste último caso, se iniciaram hoje. A imagem exibida, quase diz tudo. Mas escolhi palavras insuspeitas para eu próprio assinalar a data. E o MEC escreveu assim:
«NUNCA RECEBI – até hoje – um telefonema de um politico. Gostaria de dizer que é por não atendê-los mas a verdade é que, passados tantos anos de gesticulação selvagem à minha secretária para lhes dizer que fui levado de urgência para uma clínica de Banquecoque, eles já nem telefonam. Nenhum. Um descanso. Até hoje. Mas hoje fui finalmente recompensado por esta obsessiva independência, que tantos problemas não me tem trazido, de modo nenhum. Porque recebi um telefonema do único político com quem gostei alguma vez de falar; do mais admirável intelectual e lutador político do nosso tempo: Álvaro Cunhal.
Tinha-lhe mandado um cartão a dar-lhe os parabéns e a dizer-lhe o quanto – e as quantas – pessoas como eu pensavam nele. Foi a única vez que escrevi a um político. E ele, apesar de estar em convalescença e arredado das miudezas do mundo, respondeu.
Telefonou-me!
O Álvaro Cunhal!
Lembro-me de mim! Falou comigo! Muito tempo! Sobre coisas interessantíssimas! Senti-me para aí com nove anos! Uma autêntica menina! Que histeria! Mas juro-vos que é com verdadeira alegria que verifico ter esgotado, num só parágrafo, todos os pontos de exclamação que me estavam guardados nesta vida!
Já não preciso mais deles.
Mal pousei o auscultador, os meus colegas cercaram-me, perguntando se tinha dito muita coisa, se estava “lúcido”, se a voz tinha a mesma força de antigamente. Respondi-lhes que sim a tudo – e de que maneira!
Estavam tão preocupados e excitados – e, pela maneira aliviada como reagiram, gostavam tanto dele – como eu. Disseram-me que era raro alguém falar com ele. Pediram-me todos os pormenores e mais algum. Eu dei-lhos. Eles ficaram contentes com cada um. E eu logo percebi, diante a felicidade deles ao conhecê-los, que tinha de partilhá-los também com os nossos leitores.
Falámos da nova geração de marxistas nos seminários de filosofia política de Oxford. Na simpatiquíssima biografia de Marx que há pouco publicou Francis Wheen. E embora ele tivesse recusado o meu convite para escrever para o Independente – a utopia, de facto, não existe! - mostrou-se curioso e interessado em receber os recortes que fazemos das principais revistas académicas e jornalísticas dos EUA e do Reino Unido que têm um pendor político radical e uma inspiração mais ou menos claramente marxista.
Quando lhe disse que, da última vez que estive em Oxford (no seminário de Gerry Cohen no colégio de All Sousl) fiquei com a impressão que vinha aí uma leva nova de filósofos marxistas. Cunhal ainda ficou mais bem-disposto do que já estava, comentando com o lendário humor que não o larga por mais nada: “Ainda bem, ainda bem! É uma boa notícia que me dá! E, para mais, vinda de O Independente…” perante o meu audível sorriso, logo acrescentou, impiedoso: “Tem sempre mais força, não é?”.
Álvaro Cunhal é um intelectual, um comunista e um patriota – se é que estas três qualidades são separáveis numa pessoa que tão concretamente e visivelmente as uniu, nele e naqueles com quem lutou, em proveito concreto e visível dos portugueses e do Portugal sem voz, sem dinheiro e sem força.

É por isso que é um homem tão perigoso – tem a solidez e a clareza convicta de propósitos e de programas que convencem. Passam-se duas horas com ele e sai-se bastante mais marxista do que se entrou. E não é pelo exemplo pessoal que dá. É pelos argumentos que apresenta e a maneira generosa – e democrática – como nos inclui neles. Mesmo os burgueses e conservadores impertinentes como eu. Ou sobretudo. Se há em Portugal uma pessoa mais humana e intelectualmente convincente do que Álvaro Cunhal ainda bem que não a conheço.
Lembro-me de um “Expresso” em que a grande notícia da primeira página tinha o título: “Álvaro Cunhal e MEC fazem acordo eleitoral”. Era totalmente falsa, mas nunca li palavras que me envaidecessem tanto. É um homem que dá a vida, diariamente, pelos portugueses que só têm a vida para dar. Chega ao ponto de ter tempo para telefonar ao director do O Independente para lembrá-lo da batalha que deveria ser comum a todos os homens e todas as mulheres de boa vontade e inteligência justa.
E baralhar-lhe as ideias todas, como se vê. Odeio a mania, felizmente já em declínio, de Cunhal como grande senhor, modelo de integridade, homem de cabeça e de mão cheia. Isso são tretas de tias, chás-de-tílias de patroas aliviadas pelo silêncio reivindicativo das criadas. Isso é que era bom, minhas comadrinhas…
Eu sei. Falei ainda há bocado com ele. Cunhal continua a ser o que sempre foi – um revolucionário, um comunista, um lutador generoso e incansável. E fresco como as alfaces, raios o partam!
Continua a ser um homem perigoso para a nossa preguiça instalada, conformada, prepotente, burguesa e – acima de tudo – injusta. Com um simples telefonema encheu-me de admiração e de terror. Porque o medo é a única homenagem que a burguesia pode prestar a um tão genuíno subversivo da ordem que nos traz de camisola de “cashmere” ao ombro e “Wall Street Jornal” na mão.
É um homem dedicado aos outros. Deu aos outros o que tinha. Se a mim, apenas numa entrevista e num telefonema, me deu tanta razão para repensar e ânimo para perseguir até ao fim as minhas convicções, imagine-se o que não dá aos camaradas do Partido Comunista Português que lutam com ele.
Um dia há-de morrer. Mas será um acontecimento de somenos. Ele já deu, ao PCP e a Portugal, tudo o que tinha a dar: a vida, o espírito, a maneira inteligente de combater e de desejar pelos outros.
Estamos tramados. O homem não só nunca mais se nos morre como está por aí a nascer e a lutar por toda a gente e por toda a parte.
Eu próprio tentarei – mas só para a semana – voltar à normalidade.» 
Miguel Esteves Cardoso - In “O Independente” e editado aqui

Diário de um eleito - (3)


No dia 26 de Dezembro estava a preparar a discussão do orçamento. Habituado a ler "as gordas", dispensei-me de leitura aturada. Ficaram-me os olhos mais demorados por aquilo que todos consideram estratégico: as GOP. Trata-se das Grandes Opções do Plano. Grandes? Parece ironia. Peguemos num pequeno exemplo: Uma grande opção, a primeira, 14.400,00 euros para o Boletim da União das Freguesias. E fui ver as outras, as verdadeiramente estratégicas. E pasmo, o tal boletim, com caráter  trimestral, envolve uma despesa bem superior a qualquer dos outros gastos: 2 mil euros, no apoio a projetos pedagógicos; 9.074,00 euros, no apoio à cultura; 8.320,00 euros, no apoio às atividades desportivas, de recreio e de lazer; 6.500 euros no apoio a entidades e Associações Juvenis; 750,00 euros, no apoio à ação social-crianças e jovens; 11.500,00 euros, no apoio à ação social-séniores!!! 
Parando nesta última rubrica, exclamei para Minha Alma, "Credo!, isto, nem dá para mandar cantar um cego!" Nesse dia, à noite e em coletivo, discutimos e decidimos a nossa posição e intervenção, para a Assembleia a realizar no dia seguinte.

Ontem, porque em 27 de Dezembro não deu para se chegar à discussão do orçamento, lá estivemos, Eu, Meu Contrário e Minha Alma (três a valerem apenas um voto) e o Rui, meu colega de bancada. Combinamos não entrar em muitos detalhes, apenas algumas perguntas que o Rui ia colocando com voz bem colocada. As respostas foram surgindo ágeis e hábeis. No decurso destas, o Presidente ia dando argumentos para o fundamento do nosso próprio voto. Mas mais que isso, ia dando a real estratégia que os documentos não tornava explicita: centralizar na Câmara os recursos que manterão o atual jogo de influências e dependências. No final a votação foi clara: 

Votos contra - 5 (CDU 2 + 3 do PS)
Abstenções - 2 (Bloco + CDS)
Votos a favor 13 (IOMAF+PSD )

Extrato da DECLARAÇÃO DE VOTO, lida por mim
Porque o valor total do orçamento, na ordem de 1 milhão e 200 mil euros, reflete uma submissão total a um modelo de gestão que retira à Junta toda a capacidade de responder às necessidades da população e que continua a centralizar na Câmara Municipal grande parte dos recursos financeiros...

Porque aquele valor tende a eternizar um longo histórico de penúria orçamental e esvaziamento do poder da Junta em benefício de uma Câmara Municipal cuja imagem projectada é a de ser das mais ricas do país...

...apenas dois indicadores:
- O orçamento da União das Freguesias da Cascais e Estoril, com cerca de 52 mil habitantes, viu recentemente aprovado o seu orçamento sendo este na ordem dos 2 milhões e 400 mil euros (o dobro, para uma população menor) 
- O orçamento da União das Freguesias de Carvoeira e Carmões, Concelho de Torres Vedras, uma autarquia rural com 3 500 habitantes, aprovou um orçamento na ordem dos 770 mil euros.

Por tudo isto, a CDU votou contra a proposta da Junta da União das Freguesias de Oeiras e S. Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias.
No fim da sessão perguntou-me o João: «Viu a reconstituição da fuga do seu Álvaro?». Respondi-lhe que não e que o ia fazer de seguida. Foi o que fiz.

Eles não irão matar a galinha dos ovos de ouro, pelo menos enquanto der ovo...


Diz-se que o cérebro tem mais ligações sinápticas que o universo tem estrelas. A imagem acima não é tão perfeita, mas tem funcionado dentro do esperado. Já há tempos António Avelãs Nunes, (omitido e por isso omisso) se tinha referido a "isto", numa nesga de oportunidade que lhe foi dada. "Agora", foi outra voz do outro lado do Atântico... Trago um extracto:
"Esse pequeno núcleo (ver imagem), fundamentalmente de grandes bancos, detém a maior parte das participações nas outras corporações. O topo controla 80% de toda rede de corporações. São apenas 737 atores, presentes em 147 grandes empresas. Ai estão o Deutsche Bank, o J.P. Morgan Chase, o UBS, o Santander, o Goldes Sachs, o BNP Paribas entre outros tantos. No final menos de 1% das empresas controla 40% de toda rede. (...) 1% das empresas faz o que quer com os recursos suados de 99% da população. Eles não trabalham e nada produzem. Apenas fazem mais dinheiro com dinheiro lançado no mercado da especulação. Foi esta absurda voracidade de acumular ilimitadamente que gestou a crise sistêmica de 2008. Esta lógica aprofunda cada vez mais a desigualdade e torna mais difícil a saída da crise."
Leonardo Boff, 28/12/2013, leia no "Sustentabilidade é Acção"
As agências de notação financeira, não são visíveis, mas estão lá. São os "neurotransmissores" que executam com precisão todo o trabalho desse cérebro laborioso que, sem descanso, governa o mundo. Aqui, sede de experimentalismo e de ensaios à escala real, vai-se aliviar um pouco o torniquete para manter viva a galinha. O neoliberalismo vive de ovos e não de galinhas mortas, por isso os juros irão baixar e a troika engendrará a salvação. PSD/CDS/PS será a solução política e o tal consenso alargado é a solução para continuarem a levar os ovos de ouro. 

É possível que não seja assim? Depende de mim e de ti!

03 janeiro, 2014

"Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa." (Torga)


O miúdo aproximou-se, mais curioso que a medo, daquela figura coberta de negro. Ela caminhava, lenta mas certa, direita. Era baixa e segurava um bordão. O miúdo, por detrás, acompanhou-lhe o passo até que, decidido, lançou-lhe um olá metediço. Ela parou, e com um olhar vivo mas inexpressivo respondeu-lhe ao cumprimento. Encorajado, o miúdo perguntou o que perguntava a toda a gente com quem se metia, "Como te chamas?" -"Resignação!", respondeu ela prontamente. "Só tens esse nome?" Ela ficou um tempo imenso a olhar o ar como se esperasse ler o seu apelido entre as nuvens perdido... "Chama-me Resignação, o resto já não conta!" e continuou o caminho, agora mais apressada como se tivesse coisa importante para fazer. O miúdo ficou a olhá-la até a ver desaparecer na primeira curva do caminho que a levava à aldeia, para se juntar aos outros, também chamados resignados.

02 janeiro, 2014

Imagens e palavras que entram por 2014 dentro - II

 

"Se o homem é um produto das circunstâncias, humanizemos as circunstâncias"- Karl Marx 

A foto (de José Ferreira) é paradigmática: Entre a extrema pobreza e o luxo da ostentação (que está para lá do cartaz), passeia-se uma outra classe social (difusa, à procura da sua própria consciência?)
«A crise atual, com pesadas consequências na vida das pessoas, pode ser também uma ocasião propícia para recuperar as virtudes da prudência, temperança e justiça e fortaleza. Elas podem ajudar-nos a superar os momentos difíceis e a redescobrir os laços fraternos que nos unem»,
D. Manuel Clemente, disse

01 janeiro, 2014

A Mensagem do Ano Novo do coiso


Imagens e palavras quem entram por 2014 dentro - I

Poucos se deram conta que ontem, este blogue, comemorava o seu 4º aniversário. A distração não é um acto extraordinário, pois quase a mim próprio me passava a oportunidade de evocá-lo.


Pensado bem, resolvo não deixar em branco nem o facto nem a distração. Até porque nessa vida já longa, que o meu blogue conta, há apontamentos que merecem atenção. Por exemplo: a foto abaixo refere um post, de Agosto de 2012, que contou com 1217 visualizações (para o que fui alertado nas estatísticas das mensagens, que figura ao lado)
É uma imagem dramática da Terra martirizada. O texto? É ao meu jeito!

…será, a Terra, o que fizermos dela…