03 fevereiro, 2014

O Mundo da Lua


Baixou a cabeça e caminhou com o focinho rente ao chão. Era a posição em que lhe doía menos, caminhar com o pescoço esticado no sentido do solo e a sentir o próprio bafo, ricocheteado no empedrado, a dar-lhe um acolhedor retorno. A noite estava húmida e fria, o tempo tinha entrado Novembro dentro. Enquanto caminhava assim, a custo e sem poder lamber a ferida por cima, junto à cabeça, ia pensando. De há muito sabia, pois a sucessão de acontecimentos que lhe povoavam a memória davam-lhe esse saber, que rosnar manso, sem mostrar os dentes, era uma afirmação de negação mais que suficiente para resolver situações, que os conflitos de rua frequentemente geram. Reconstituiu a cena: aquele osso era antigo, descarnado e já mais que ruído, pelo que a sua disputa não merecia luta; estava até disposta a cedê-lo ao intruso se o rosnar manso não surtisse efeito. Rosnou duas vezes e quando ia ceder, aconteceu: aquele vulto irado desferiu-lhe o golpe. Uma força enorme conteve-lhe o instinto agressivo e não reagiu. Nem ladrou. Temeu que se a refrega fosse mais longe ela iria perder. Os cães vadios e sem dono, perdem sempre… 
Quando acordou doía-lhe menos a ferida e o sol anémico que espreitava pelas frestas da improvisada porta de tábua tosca de obra adivinhava um dia frio mas, ainda assim, acolhedor. Os prédios em construção tinham até aí lhe servido de abrigo e os operários tinham-na aceitado com tarefas de guarda em troca de comida, água, aquela esfarrapada manta e aquele canto. Recordara o primeiro encontro com aquela gente, como se insinuou e foi bem acolhida e como reagiram quando, com o seu rosnar manso e sem mostrar os dentes, deu a entender que a não deviam prender. Agora que a obra estava praticamente acabada tinha que encontrar outra ou procurar outro modo de vida. O sol e a ferida aconselharam-na a procurar dono. E ela sabia como. 

Dirigiu-se ao local que levava na mente. Era cedo, mas não tardariam a aparecer. A inclinação das sombras do portão do liceu funcionava como forma de contar o tempo: quando aquele pico de sombra tocasse a berma do passeio fronteiro, era a hora. E assim aconteceu. Ela foi vendo chegar a miudagem, uma a uma, depois em pequenos grupos, rindo e tagarelando, sem lhe ligar. Não desistiu. Ensaiou um abanar de cauda e pequenas corridas de chamada de atenção. Corridas curtas e rápidas, gestos estudados e ágeis, paragens cuidadosamente endiabradas… A atração resultou. Levou algumas festas e de cada vez que as recebia ia aferindo a intensidade do afeto, interpretando as palavras ouvidas para discernir as mais amigas, usando a memória das entoadas, fixando as mais distantes para as separar das mais sentidas. Duas jovens aproximaram-se e debruçaram-se sobre ela. Fingiu que fugiu, deu uma corridita para perto e logo voltar. Recebeu em troca um lento afago percorrendo-lhe o cachaço. Ganiu, sem fingir, pois na realidade a intensidade da caricia fez-lhe uma aguda dor e certamente expôs a chaga. “Coitadinho, está tão ferido” – disse uma. “Ferida, está ferida! Não vês que é uma cadela?”  A chamada da porta do contentor que servia de sala de aula, interrompeu a cena e alertava para o início do dia de escola. Ela ficou só e esperou a manhã toda pela hora da saída. Tinha decidido a escolha. 

Do liceu à casa era a distância suficiente para ir dando consistência aos laços de afeto que se iam estabelecendo. A nova dona, e também a primeira, e a outra ajudaram-na a subir aquele terceiro andar. Entraram, numa sala onde imperava a cor clara (mais tarde saberia ser a cozinha) e foi ali que cuidaram dela. Todos os odores eram intensos e desconhecidos e provinham de frascos que a nova dona espalhara pelo chão, junto dela. Sentiu-lhes as mãos quentes e trémulas por sobre o pêlo. “Está aqui! Cheia de pus… achas que esprema?” A outra recomendou que apenas lavasse com água oxigenada e depois colocasse um pouco de iodo. De seguida interrogaram-se sobre se deviam ou não fazer-lhe penso e quanto isso lhes seria difícil pela inabilidade da pequena tosquia. Estavam assim, quando sentiram a chave a girar na fechadura. O homem entrou. Ela nem se mexeu, limitou-se a levantar o olhar naquela direção e conteve o primeiro impulso de ladrar. Na obra, ladrava sempre e intensamente a quem chegava. Ali calara-se. Percebeu que a sua presença era aceite e que aquele homem era o seu novo dono. Pelo faro, sentia-o boa pessoa e tinha a alma espelhada na cara. Sentiu-se em casa. 

Durante uma semana, talvez mais, equilibrou os hábitos de vadiagem com os de membro da família. Saía bem cedo. Colocava-se junto à porta da rua farejando-a e raspado levemente com uma e outra pata, até que lha abriam. Regressava tarde, com a lua. E foi esse o nome que a dona lhe deu: Lua. “Só te vemos quando a lua aparece…“ 
Nos meses seguintes foi ganhando novos hábitos, conseguira que as professoras do horário da manhã lhe permitisse a presença na sala aula, acompanhando a dona. Era uma prova de afeto mas também uma autoproteção, pois a rua tornara-se mais perigosa e dura. Aprendia novas palavras e usava-as não para as pronunciar mas para saber estar. Em casa gostava de atenção e todos lha davam. 
Um dia aconteceu o que já lhe tinha acontecido e sempre resistira. As pessoas à sua volta chamavam a isso cio e guardavam-na. Quando não estava protegida ela resistia. Daquela vez não se opôs, apenas se limitou a algumas recusas e o cão que a tomou ninguém pode dizer que o tivesse escolhido. Nunca o antes tinha visto, nem depois o voltou a ver. Engravidou. Com o tempo começou a sentir o corpo a preparar-se, depois a ganhar volume e, por fim, a sentir as crias. A dona afagava-lhe a barriga, à sua volta a família dava-lhe mais atenção e a comida passou a ser mais escolhida. Chegou o dia. A mulher da casa ajudou-a a custo a subir o último lance de escadas, temendo que o parto ocorre-se logo ali. Todos da família queriam estar mas a mulher da casa não deixou e apenas ela própria ficou. Ficaram as duas toda a noite, à medida que ia gerando agradecia, com o olhar, a presença da mulher. Do parto longo resultou uma ninhada de quatro cachorros que fizeram a delícia daquela família, mas que depressa foram esquecidos. Ela, contudo, não os esqueceu… 

Os anos foram-se passando e continuava a gostar da forma como o homem a olhava. Gostava da forma como o homem lhe falava e quase sempre achava suas festas breves, mas lambia-lhes as mãos agradecida, com orelhas em baixo em sinal de extrema humildade. Era à voz dele que mais obedecia, embora o mando dele não fosse frequente. Um dia, ele chegou e disse-lhe “Sabes Lua?” e fez uma pausa que a deixou mais atenta “Sabes que tens que te ir embora?” Não entendeu tudo, mas há muito que sabia o significado da palavra “ir” e o resto adivinhou-o no rosto e na tristeza do olhar do homem. 

O calor abrasava e agradou-lhe o fresco quando entrara no carro. Gostava de andar de carro e quase nunca se sentava. De pé, no acento traseiro, costumava acompanhar a viagem. E foi assim que viajou, mesmo que impondo incómodo pois toda a família fizera questão em a acompanhar à nova morada, em terra distante, numa casa baixa sem outras à vista. Um ermo. Ouviu a palavra quinta e foi entendendo que aquele era o outro lado do seu Mundo. O novo dono afagou-a enquanto falavam sobre coisas que tinham a ver consigo mas a que não ligou. Estava mais concentrada em descobrir algo que lhe fizesse deter aquela coisa estranha a crescer dentro dela. Não conhecia aquela sensação que lhe apertava o coração, nunca a sentira antes. Depois seguiram-se despedidas sentidas e todos se foram. Ficou a olhar, muito quieta, com aquela coisa estranha a crescer, a crescer. Ganiu, assustada, sem deixar de olhar para o ponto onde tinha visto desaparecer aquele carro. Depois de ganir tantas vezes que nem as soubera contar, ladrou sem parar e sem saber se o seu ladrar era um chamado se era para afastar aquela coisa estranha que a tomara por dentro. Exausta, ficou ali, prostrada até que o novo dono a recolheu.
O segundo dia, quente como o anterior, passou-o vagueando pela quinta e à volta dela. Quando passava frente ao caminho por onde tinha vindo parava e olhava, com a intensidade com que os cães olham quando esperam. Depois retomava a caminhada. Ao cair da noite o novo dono chamou-a, quase ao mesmo tempo que aparecia a lua. Deu-lhe de comer, de beber e levou-a para um pequeno terraço, murado, no topo da casa. Sentiu o seu afago e respondeu como sempre fazia e com o olhar que sempre tinha, quando agradecia uma caricia. O novo dono passou-lhe uma coleira à volta do pescoço e desenrolou uma corrente que prendeu num ponto firme. Deitou-se e aquela coisa que antes sentira aumentou desmesuradamente. Ia avançada a noite quando, por fim adormeceu…
O terceiro, o quarto e o quinto dia foram iguais. Ao sexto, depois de presa e do novo dono a deixar, a Lua levantou-se lentamente, ensaiou uma corrida curta, depois outra mais longa a medir a extensão da corrente e por fim uma que não parou, passando, como que enlouquecida, por cima do muro do pequeno terraço. Ficou pendurada, sem balancear, sem qualquer movimento, esperando o momento. Ao alto, a lua iluminava com uma cor de prata aquela parte do mundo onde a Lua se finou e, com ela, aquela coisa estranha que lhe apertava o coração. 
Rogério V. Pereira, in "O Mundo da Lua", pág 146 - 
Os meus agradecimentos à editora "Lua de Marfim
NOTA DO AUTOR - Este conto é o efeito espelho de um outro conto. Não se trata apenas de uma alteração do nome da personagem, é todo o texto que encerra uma visão diferente, como se o mundo que rodeia a Lua fosse por ela vivido e até descrito. Quem queira pode relembrar esse meu primeiro exercício de escrita, aqui