14 março, 2014

Poesia (uma por dia) - 61

(Reedição)


CLASSE MÉDIA
Temendo a greve, o marido
já tinha saído
Ela, deixou a agua a correr, na temperatura requerida
Preparou o que vestir, a langerie, a blusa garrida
e aquela saia rodada
A banheira transbordava
Escoou-a um pouco para que lhe coubesse o corpo
Estendeu-se, languidamente,
deixando que o quente, lhe amainasse a pressa
Não esqueceu os sais com odores de flores
E assim ficou, longos minutos
até despertar para o tempo
em gestos resolutos
Massajou o cabelo, com desvelo
depois de lhe deitar o champô com odor a maçã
Passou pela pele o creme de amêndoas
e no rosto o costumado anti rugas, levemente aromatizado
Vestiu-se., fez o penteado
e treinou a silhueta, olhando-se de perfil, detrás e de frente
Esboçou um riso, contente
Na cozinha, preparou um chá de jasmim
Hesitou, entre este, e a prateleira de cima do frigorífico
onde, alinhados, estavam os iogurtes, ricos em bifidus
muito coloridos
e não açucarados
Optou por o de  morango aos pedaços
Trincou uma tosta com doce de frutos silvestres
e meteu na mala a caixa de chicletes
Antes de sair, fechou a janela
não fossem os pólens entrarem por ela
Apressou-se, ia chegar atrasada
à esplanada
Chegou, gabaram-lhe  o ar e o trajar
os cheiros, o penteado e o sorriso
E entrou na conversa sobre os horrores da moda, o preço das extensões, dissertando pelos inconvenientes de se ter um filho, no ponto preciso
surge-lhe uma chamada
Era o marido anunciando que fora despedido
Num gesto impensado desligou
Perguntaram-lhe quem era
Respondeu - alguém que se enganou...
Tranquila,
pediu um gelado com sabor a baunilha
Rogério Pereira

12 comentários:

  1. De nada serve fugir à realidade! Ela cai-nos em cima quando menos esperamos!

    Beijinhos Marianos, Rogério! :)

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  2. Muito ilustrativo dos tempos que correm.

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  3. O pai nosso de cada dia... os despedimentos, o não-emprego...

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  4. Gente fútil e alienada há-as em todas as classes sociais. Média/ média baixa/ alta e aristocrata.
    A crise apanha desprevenidas as pessoas que vivem aparentando um fausto que não possuem. Ao primeiro tropeção, algumas, estremecem mas não caiem. Metem a cabeça na areia e pensam que haverá sempre um burro que puxe a carroça. Asneira da grossa! Quando menos esperam, estão na fossa.

    Quem era que aconselhava: produzir e poupar? Ainda havemos de lá voltar!?!
    Para essa dondoca e outras que tais, que passam a vida na esplanada sem fazer nada...ah, como eu gostava que fossem esfregar escadas!
    Só para saberem o que é bom para a tosse.

    Beijos e até amanhã, camarada Rogério.

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  5. Bom dia, Rogério, há tempos não o visitava mesmo sendo a sua seguidora, mas hoje o reencontrei.Belo, reflexivo seu texto,nos dá a opção de fazermos várias leituras.Os tempos mudam,mas a situação às vezes, é a mesma para muitos. Tenha um lindo final de semana. Abraço!

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  6. Classe média (?!)...

    As generalizações são, muitas vezes, injustas.

    Lídia

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  7. Classe média?!

    OH, Rogério, desculpe mas desta vez não concordo....Não acredito que também pense termos vivido acima das nossas possibilidades!!

    Bons sonhos

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  8. O Rogério esqueceu-se de um pormenor : qual a cor dos cabelos? A rapariga representa bem uma certa gente feita à pressa que vive de aparências.

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  9. a realidade assusta. há quem prefira viver alheado...

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  10. fugir à realidade não ajuda nada, mas, há quem ache nisso. uma certa forma de defesa...

    :(

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  11. Para muitos será uma defesa, para outros o adiar do inevitável.
    A classe média muito bem retratada neste seu poema.

    beijinho

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