19 outubro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 72 (há déficits mais graves, os da memória e da coerência...)

 (conversa anterior)
«Por este entendimento e em nome da coerência, a CDU não pode permanecer nesta sala para escutar os vossos discursos. Depois de ouvirmos as intervenções dos líderes das outras bancadas, nossos colegas da Assembleia, abandonaremos esta sala. É com um desgosto profundo que a abandonará nessa altura. Mas com uma palavra de esperança: a Moção aprovada irá ser cumprida, assim as forças políticas que a votaram acordem para uma posição coerente ou que as populações as façam acordar.»
Rogério Pereira, na passada quinta-feira

Não havia uma única mesa vazia, e de cadeiras só na minha. Ele chegou e sentou-se, e o cão para debaixo dela. Como se estivéssemos ali há muito, disse, como se continuássemos uma conversa não interrompida:
- Soube do seu discurso
- Não foi discurso. Foi uma intervenção. Os discursos pairam sobre os assuntos, numa intervenção as palavras são facas, interpelam a memória e a sua filha directa, a coerência ...
- Disseram-me que ficou surpreendido por ter sido aplaudido!
- Não fiquei surpreendido logo, foi depois. A sala parecia estar comigo, mas depois ficou até ao fim... e foram festejar...
- Admirado? Hoje, todos querem estar de bem com Deus e com o Diabo...
- Eu sei, eu sei! Não é por acaso que os tempos que vão correndo provocam tanto desalento. 
- Desalento? Mas...
- Desculpe, mas hoje não estou em condições de prolongar esta conversa... as memórias do meu poeta, não me saem da cabeça...
E por respeito ao meu pedido o engenheiro quedou-se em silêncio.