28 fevereiro, 2014

A imprensa escrita vampiriza a televisionada, ou será que é esta que vampiriza aquela?


De vários locais partiram. Antes, nenhuma imprensa noticiara de onde. O que a televisão e os jornais não antecipam, não vai acontecer. Mas aconteceu. O DN, editou a foto acima, com uma legenda que termina de forma horrenda: "A CGTP-IN marcou para, ontem". Por segurança, não vá muita gente saber e engrossar a verdade corrente, de uma força que nada a detenha! Mas o DN não está só... nem as televisões. É a força do protesto que lhes impõe a notícia, mas o nível de cobertura minimiza sempre o impacto. Não sei quem vampiriza quem! Acho que os vampiros lhes sopram o recado...
Caso dissesse que os vampiros cozinhavam usando a mesma receita, eles fariam violenta rejeição...

Para que o dia de ontem fique com o merecido registo, cá vai disto:



27 fevereiro, 2014

A mudança


A letargia ajuda. Ajuda à percepção, errada, de que nada muda. A dor que se sente já a sentiu muita gente, julga-se e, sendo assim, não há nada a fazer. A letargia ajuda a não querer mudar e a pensar que haverá boas razões para não mudar. Estar quieto é garantia de não tropeçar - mesmo que se desenhe à sua frente o cenário de queda eminente. Quanto a não mudar de ideias, é fácil. Há três boas razões: a primeira, é não ter ideia nenhuma; a segunda, é ter a sensação de já ter tido alguma e desejar que a memória não a traga de volta; a terceira, a mais vulgar, é mesmo não querer mudar. Mudar é socialmente mal aceite e pouco gratificante.

Agora a sério: entre as ideias fixas e as que se defendem por coerência, há (na aparência) uma pequeníssima diferença, que só a ética explica.

26 fevereiro, 2014

A propósito do tal "Ai aguenta, aguenta!"


Agora, aguenta!

Tinha o cavalo um tipo bestial
era soberbo, altíssimo, imponente.
E como certa gente
do mundo trivial,
a augusta cabecinha
não respondia à lábia que ele tinha,
aos anseios de glória no fino galopar.

Mas vamos à história.
Contar sempre é melhor que discursar...

Na calma da manhã, quando ele estava
a saborear a fava
e a palha de centeio
viu o dono trazer
a albarda, o freio,
a cilha. Tudo digno de se ver.
Metal brilhante
coiro flamejante
e ele truca, na fava.
O dono assobiava.
Lança-lhe a albarda
aperta a cilha
mete-lhe o freio
oh, oh, que maravilha
enquanto enfarda
o gosto a sol que vinha do centeio...

Lança-lhe a albarda o dono.
Os estribos lhe deixa, ao abandono
a cilha, sem brandura
aperta, aperta, na barriga aperta,
logo o freio lhe acerta
na engrenagem da mastigadura...

Viu-se o cavalo ao espelho. Sem favor
aquele trato
dava-lhe um certo ar de baronato,
de fidalguia!
Dava, sim senhor!
Seria exigir muito à humanidade
(ou à cavalidade, com certeza!)
que tão grosso animal não fosse presa
de uma certa vaidade...
O dono dá um salto.
Relâmpago! O assalto
toma o cavalo rombo
de surpresa.
Azamboado
quando acordou, montado
já o tinha, no lombo.

Lutou, esperneou, patada, espuma.
O desespero, em suma.

-- Agora? -- diz-lhe o lobo, entre o folhedo
que a floresta sustenta
-- Devias pensar nisso, mais mais cedo.
Agora? Agora aguenta!

Uma fábula
de MÁRIO CASTRIM, editado num outro lado
in "Jornal do Fundão", no final dos anos 60

Paco de Lucia, in memorian (1947-2014)




Entre duas águas, ficam sons e mágoas

25 fevereiro, 2014

Surpreendido e incentivado


Ontem, dia assinalado, fiquei surpreendido. Surpreendido não pelo número de amigos chegados, mas pela diversidade, no ser e no pensar. Diversidade dos sentires e de formas de escritas. Diversidades de olhares... Surpresa que é incentivo, pelo reconhecimento de que ainda nos ouvimos e que, dessa forma, faz sentido continuar este espaço e esta escrita, com palavras-lâmina, de golpear; com palavras-âncora, de fundear; com palavras-vela, de partir e voltar; com palavras-sorriso e todas mais aquelas que forem preciso.

Obrigado! 

24 fevereiro, 2014

Hoje, sou pequenino!


Aniversário
A todos, sem excepção, devia ser concedido
um momento, curto que seja
de regresso à idade da inocência
revisitando esses dias raros
lúcidos, simples, claros
Minha Alma tenta sempre isso em dia de aniversário
Meu Contrário considera esse gesto inútil e despropositado
Lembra-me, esse meu juízo
a idade que o meu corpo tem
ele que guarda memórias de criança
boas, más e amargas também
(Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...)


Ou talvez aí ainda o tenha
No mesmo lado onde guardo os sonhos
que vou tendo
Rogério Pereira

23 fevereiro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 54 (o que os comentadores não comentam e o que a televisão não mostra, não existe!)

(ler conversa anterior)

"PS, PSD e CDS estiveram e estão com o Pacto para o Euro Mais, com o Semestre Europeu, com a Governação Económica e o Tratado Orçamental. Subscreveram e defendem estes instrumentos. Não há por isso lugar para dúvidas ou ilusões: um voto em qualquer um destes partidos é um voto num só caminho – o do aprofundamento da submissão do país e do empobrecimento dos trabalhadores e do povo."
João Ferreira, no "Encontro Nacional..."

O rafeiro esgueirou-se para debaixo da cadeira do senhor engenheiro, no preciso momento em que este interrompe o meu pensamento:
- Pacto para o Euro MaisGovernação Económica, o que é isso?
Respondi-lhe que não sabia, e ele continuou com perguntas, com ar mesmo de perguntar:
- E o Semestre Europeu, sabe o que é?
Fiz um ar de total ignorância, sem encolher os ombros, e ele continuou inquisitivo:
- E o Pacto Orçamental?
Lá expliquei o pouco que sabia sobre o tal pacto. No fim da minha explicação dirigiu-se à mesa das professoras e, depois das devidas desculpas, disparou as mesmas perguntas. Voltou pouco depois com as mãos vazias de respostas.
- Vai ser uma campanha muito complicada, ninguém sabe de nada!
- O colonizado sabe pouco dos instrumentos legais paridos pelos colonizadores!
Respondeu-me com um sorriso triste, mas não resignado.
- Vai ter muito que fazer, meu caro!

22 fevereiro, 2014

21 fevereiro, 2014

"Ai aguenta, aguenta!"

Francis Gruber - Nu Assis à la Chaise Verte, aqui
É tempo de resistir, a tudo o que nos violenta e deprime. Não está a ser fácil, mas nunca o foi. Não dói ouvir frios comentários quando eles são esperados. "Ai aguenta, aguenta" e "a sociedade aguenta tudo", são expressões que não causam surpresa, a não ser no desplante e nos quase sorrisos que acompanham os ditos. A surpresa dolorosa vem de afirmações de quem menos se espera, e até em relação a esses é preciso resistir, numa altura em que está em curso um projeto neoliberal de destruição do Estado Social:
“Seja qual for a evolução dos problemas que têm uma lista interminável - a pobreza, as desigualdades sociais, o desemprego, o envelhecimento da população -, é incontornável o reforço das organizações da sociedade civil portuguesa junto das pessoas” ... “Com mais iniciativa nos bairros, nas juntas de freguesia, no trabalho, no espaço público, nos executivos camarários, muitas coisas poderiam mudar”...“crescem as áreas onde a actuação [das organizações da sociedade civil] é necessária”.
Isabel Jonet não diria melhor.

PS: Alguns comentários apontam para a infelicidade da comparação. Mas não comparei pessoas mas sim o que elas dizem. Até diria mais, Jonet não faz nem mais nem menos do que aquilo que Sampaio recomenda que se faça.

20 fevereiro, 2014

Que não se enganem, ele estará sempre onde o seu coração quiser. Para mim é no meu que mora, ao lado das canções que canta.


"Eu sou de onde sou. Sou de onde nasci, sou da língua que falo, sou da história que o meu país tem, sou das qualidades e dos defeitos que nós temos, sou dos sonhos e das ilusões que são nossos, ou foram ou vão ser. É daí que eu sou, é aí que eu pertenço...", estas eram as palavras de Saramago quando partia, e deixava outra mensagem, anos depois de ter partido: "Continuo a 'gostar do que Portugal fez de mim'. Do que não gosto é do que se está a fazer em Portugal..."

Saramago esteve sempre perto de nós, mesmo depois de ter partido.  A mesma corja que o afastou, afasta agora Fernando Tordo... Que não se enganem, ele estará sempre onde o seu coração quiser. Para mim é no meu que mora, ao lado das canções que canta.
"Poeta não é gente, é bicho coiso
Que da jaula ou gaiola vadiou
E anda pelo mundo às cambalhotas,
Recordadas do circo que inventou."
"Circo", J.Saramago/F.Tordo

Desmanipulando - II


A imprensa, ao longo dos anos, foi encenando a cena... quase a mesma 
Ainda sobre a Ucrânia, ler para entender o que está a acontecer 

 

...mas a manipulação, assume contornos impensáveis... 
só que a mentira, por tantas vezes repetida...

Sobre a Venezuela, ler aqui

19 fevereiro, 2014

Desmanipulando - I


Enquanto num lado, António Vitorino despejava largo sorriso apresentando um livro, noutro, Seguro afirmava existir em Portugal "um amplo" consenso político e social sobre a necessidade de rigor nas contas públicas e disciplina orçamental. 
Dois sinais, e não sei qual os credores valorizam mais. 
A plateia, quase a mesma, com muito prováveis corridas entre os dois eventos para não perderem pitada, estava deliciada. A pouco e pouco se percebe que as diferenças (assinaladas) se vão esbatendo. A tal não é estranho que Seguro afiance que a bancada socialista tenha aceite introduzir a chamada "regra de ouro" de disciplina orçamental o que coloca o PS fora da discussão da permanência no Euro. 

Quanto aos que se interrogam porque a esquerda não se entende, antes destes sinais, eu responderia com qual PS, o PCP e o Bloco se devem entender? Com o de Seguro? Com o do António Costa? Com o do Sócrates? Com o de Vitorino? Agora, uma espécie de "Primavera Marcelista" (o afrouxar da pressão para não esmagar a "Galinha dos Ovos de Ouro") tende para que o PS se entenda e una (em torno de uma qualquer figura). Só que esse PS não é, pelos sinais dados, um partido de esquerda (como o não era quando, nessa outra "Primavera", aceitava não questionar a Guerra Colonial").

18 fevereiro, 2014

OUTDOORS - II

... 
Alguns pensam que são as mãos de deus 
— eu sei que são as mãos de um homem, 
trémulas barcaças onde a água, 
a tristeza e as quatro estações 
penetram, indiferentemente. 

Não lhes toquem: são amor e bondade. 
Mais ainda: cheiram a madressilva. 
São o primeiro homem, a primeira mulher. 
E amanhece. 
Eugénio de Andrade, aqui

...
Alguns dizem: - bastam-me as mãos
Para fazer brotar fontes e rios
Outros porém,
De muitas sedes nascidos,
Bebem até à derradeira gota
As fontes e os rios
E dizem: - bastam-me as mãos
Para fazer brotar desertos.

Da terra sei a secura
E a interdição da água
Na véspera da lágrima.

Lídia Borges, aqui
As mãos não são para dar
mas nós crescemos de mãos dadas

ainda hoje

quando o vento sopra
deciframos sons por gestos
dedilhamos acordes
vergamos remos
contra o uivo
no bojo dos barcos

de mãos dadas
...
Mar Arável, aqui

17 fevereiro, 2014

Para não dizer que não vos falei de flores... (uma canção de acordar)

A imagem é do "Rodrigo"
 A tendência de fulanização do que nos acontece faz com que esqueçamos o que nos diz a canção. Há um bem consertado processo de recuperação de imagem de personagens conhecidas. As políticas são esquecidas, sobram os rostos e as nódoas negras nas almas e nos corpos, desligados  uns dos outros. Nomes e marcas desligadas. Um qualquer rosto, remaquilhado, com discursos "arejados", bem nos pode fazer regressar a pontos de partida indesejados mas conhecidos. A história vai-se repetindo numa ininterrupta farsa. 

"A grande preocupação atual do PSD é não ganhar as europeias e apenas perdê-las por pouco, isso, segundo eles, manterá Seguro. A última coisa que quereriam é não enfrentar o atual secretário-geral nas legislativas."

Pedro Marques Lopes, escreveu. Marcelo o disse

16 fevereiro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 53 (exemplo de um verdadeiro entendimento)

(ler conversa anterior)
"Nada é definitivo num naufrágio
Havemos de emendar o rumo errado"
Rogério Pereira
desenho in "Urban Sketchers Portugal"

Bastou que a manhã rompesse ensolarada para que, num ápice, se enchesse a esplanada. Gente que nunca vira por ali. A um canto, sempre o seu, o velho engenheiro lia concentrado o jornal de sempre. Das professoras, nem uma, certamente expulsas por aquela vaga de novos clientes que lhes ocupara os lugares. O primeiro a ver-me foi o rafeiro do senhor engenheiro que ladrou como um chamado. Cumprimentámo-nos e sentei-me. Durante uns largos minutos não falámos. Cada um lia, mas a concentração ia morrendo à medida que as vozes à nossa volta iam crescendo. A decisão foi quase simultânea, dobrámos os jornais e desafiámo-nos com um olhar como que a interrogar qual de nós abriria a conversa. Foi ele: 
- "Com que então um poema de esperança e crença... gostei!"
- "Eis duas palavras inadequadas, gostava ter transmitido outra impressão!"
- "Outra impressão?"
- "Certeza!, certeza de que nada é definitivo num naufrágio, certeza de que havemos de emendar o rumo errado!
- "Mesmo que o barco se afunde com todos? Mesmo que não haja sobreviventes?"
- "Está a excluir pressupostos dos meus versos: Assim tua alma te reste inteira / Que a proa a tens virada ao sonho"!
O velho engenheiro anuiu calou-se e sorriu. À nossa volta ninguém nos prestara atenção e o nosso olhar foi ter, não longe, com o pombo que parecia disputar o quer que fosse com o melro, companheiros regressados. Olhámos atentamente e percebemos que se o pombo quisesse, de uma só bicada, faria desaparecer o quer que fosse de comer. Mas não, num perfeito entendimento o que ali acontecia era uma partilha.
- "Eis, um bom exemplo para um rumo certo!", disse. 
- "Que pode ser bem diferente de um rumo novo, que não se garante como certo!", respondeu.
 

OUTDOORS - I


A lembrar um desnaufragar, poema escrito ao correr da pena em dias como estes, assim...

15 fevereiro, 2014

... o rendimento nacional tenderá para zero



O "arco do poder" gerou um mecanismo que lhes destrói o rasto de cada passo dado. Em cada momento são expostos os leiloeiros de serviço. Outros aguardam para quando os presentes tiverem dado sumiço. Do circulo vicioso resultará o que se espera: um país sem hino nem bandeira, ou talvez  apenas só com isso, pois quando forem à praça ninguém os arrematará, por falta de valor. Hoje os lances são de encher o olho. Está aberto o leilão - "Quem dá mais?":
(...) Vende-se austeridade. Custo: uma geração. Pagamento em recibos verdes. Vende-se ilusão de ultrapassagem da crise. Custo: 130% de dívida pública. Vendem-se anéis como se não fossem dedos, corpo como se não fosse a alma, palavras como se não fosse a palavra.
Compra-se: submarinos, estradas vazias, bancos falidos e dívida pública cara. Sem devolução. Paz? Pás!"

Pedro Santos Guerreiro | Expresso | 15-02-2014

14 fevereiro, 2014

Em dia de São Valentim, dá-me para enveredar por experiências e leituras assim

Já tinha, há uns anos atrás, realizado profundas reflexões em torno das atrações entre almas. Nos meus laboratórios das almas e da física fui pesquisando e encontrando o mesmo tipo de resultado: Almas de sinal diferente é que se atraem. Um, sem muito procurar, encontra no outro coisas de espantar. Uma qualquer surpresa ou pequeno segredo revelado são de mútuo agrado. O que uma alma não faz, faz a outra e vice-versa. Completam-se. A atração é permanente e a relação duradoura, pela vida fora. Discutem, discutem, discutem. Quase sempre não há acordo mas aceitam-se um ao outro (caso se respeitem, sendo o respeito uma regra básica e exterior à própria física das almas). Fiz ensaios e experiências com almas de sinais iguais e se quer saber os resultados vá lá espreitar.
Contudo, porque na vida todas as certezas devem ser sujeitas à confirmação, procurei nos laboratórios da química a validação sobre se as almas gémeas mantém relações eternas e se as que não são mantém maior e mais longa união. Dizem, que do amor, a química explica tudo. Assim, rodeei-me de balões de ensaio, pipetas, buretas, bicos de bunsen e numa boa dúzia de lamelas e coloquei as amostras recolhidas em cada uma delas. Amostras de hormonas e neurotransmissores, minhas e dela, para tentar perceber se, pela via da ciência, explicava o que nos vai na alma, aquele magnetismo incontrolável, o desejo irrefreável, a vertigem sentimental que nos liga. Deu tudo certo, como aliás já tinha dado. 
Preparava-me para simular o que se passaria entre almas gémeas, com as químicas delas, um texto me desviou do intento e desisto. Essa história das almas gémeas não passa de um mito. Mito giro:
"No início, a raça dos homens não era como hoje. Era diferente. Não havia dois sexos, mas três: homem, mulher e a união dos dois. E esses seres tinham um nome que expressava bem essa sua natureza e hoje perdeu seu significado: Andrógino. Além disso, essa criatura primordial era redonda: suas costas e seus lados formavam um círculo e ela possuía quatro mãos, quatro pés e uma cabeça com duas faces exatamente iguais, cada uma olhando numa direção, pousada num pescoço redondo. A criatura podia andar ereta, como os seres humanos fazem, para frente e para trás. Mas podia também rolar e rolar sobre seus quatro braços e quatro pernas, cobrindo grandes distâncias, veloz como um raio de luz. Eram redondos porque redondos eram seus pais: o homem era filho do Sol. A mulher, da Terra. E o par, um filhote da Lua.

Sua força era extraordinária e seu poder, imenso. E isso tornou-os ambiciosos. E quiseram desafiar os deuses. Foram eles que ousaram escalar o Olimpo, a montanha onde vivem os imortais. O que deviam fazer os deuses reunidos no conselho celeste? Aniquilar as criaturas? Mas como ficar sem os sacrifícios, as homenagens, a adoração? Por outro lado, tal insolência era perfeitamente intolerável. Então...

O Grande Zeus rugiu: Deixem que vivam. Tenho um plano para deixá-los mais humildes e diminuir seu orgulho. Vou cortá-los ao meio e fazê-los andar sobre duas pernas. Isso com certeza irá diminuir sua força, além de ter a vantagem de aumentar seu número, o que é bom para nós. E mal tinha falado, começou a partir as criaturas em dois, como uma maçã. E, à medida em que os cortava, Apolo ia virando suas cabeças, para que pudessem contemplar eternamente sua parte amputada. Uma lição de humildade. Apolo também curou suas feridas, deu forma ao seu tronco e moldou sua barriga, juntando a pele que sobrava no centro, para que eles lembrassem do que haviam sido um dia.

E foi aí que as criaturas começaram a morrer. Morriam de fome e de desespero. Abraçavam-se e deixavam-se ficar assim. E quando uma das partes morria, a outra ficava à deriva, procurando, procurando...

Zeus ficou com pena das criaturas. E teve outra idéia. Virou as partes reprodutoras dos seres para a sua nova frente. Antes, eles copulavam com a terra. De agora em diante, se reproduziriam um homem numa mulher. Num abraço. Assim a raça não morreria e eles descansariam. Poderiam até mesmo continuar tocando o negócio da vida. Com o tempo eles esqueceriam o ocorrido e apenas perceberiam seu desejo. Um desejo jamais inteiramente saciado no ato de amar, porque mesmo derretendo-se no outro pelo espaço de um instante, a alma saberia, ainda que não conseguisse explicar, que seu anseio jamais seria completamente satisfeito. E a saudade da união perfeita renasceria, nem bem os últimos gemidos do amor se extinguissem.

E esta é a nossa história. De como um dia fomos um todo, inteiros e plenos. Tão poderosos que rivalizávamos com os deuses. É a história também de como um dia, partidos ao meio, viramos dois e aprendemos a sentir saudades. E é a razão dessa busca sem fim do abraço que nos fará sentir de novo e uma vez mais, ainda que só por alguns momentos (quem se importa?), a emoção da plenitude que um dia, há muito tempo, perdemos.
Platão, in "Mito do Andrógino ( Banquete de Platão)"

13 fevereiro, 2014

João Ferreira estará na primeira linha do debate necessário, na luta pelo rumo certo...


As palavras de João Ferreira saem-lhe com a sinceridade que lhe está no gesto e no rosto. Elas soam à coerência de gestos e voz que, na altura própria (1998), se fez ouvir no Parlamento Europeu:
«Senhora Presidente, 
Os deputados do Partido Comunista Português, com a solenidade que a ocasião exigiria, mas que a euforia para impressionar a opinião pública não permite, declaram que:
- o seu voto é a expressão coerente de uma posição contra este projecto, o modo como foi conduzido e os interesses que serve. Não é um voto contra a estabilidade de preços, o equilíbrio orçamental, ou o controlo de dívidas, mecanismos e instrumentos. É, sim, um voto contra a sua utilização para impor estratégias que concentram riqueza, agravam desemprego, agudizam assimetrias e desigualdades, criam maior e nova pobreza e exclusão social, diminuem a soberania nacional e aumentam défices democráticos;
- é também um voto contra a formação do núcleo duro para a Comissão Executiva do BCE, privilegiando zonas geográfico-monetárias e partilhando influência entre grandes famílias partidárias, numa evidente polarização do poder na instituição que condicionará todas as políticas dos Estados-Membros;
- após este passo, continuarão a combater os já reais e os previsíveis malefícios do projecto que integram os mecanismos e instrumentos criados. Procurarão, do mesmo modo, contribuir para que sejam potenciadas as suas virtualidades;
- lamentam, por último, que o Parlamento tenha perdido a oportunidade para se credibilizar como instituição democrática, por ter cedido à pompa e circunstância de um ritual de homologação ou de confirmação do que lhe foi apresentado.»

Sérgio Ribeiro, in Actas do Parlamento Europeu:
«SESSÃO DE SÁBADO, 2 DE MAIO DE 1998
4. Moeda única
Declarações de voto

12 fevereiro, 2014

Miró? Que se lixe o Miró!, novos e mais elevados valores se levantam!

Não sabemos, no imediato,  o resultados das lições, só depois.
Três anos após, o resultado promete.

Diogo Viana, 4 anos
obra sem titulo, c/canetas de feltro

11 fevereiro, 2014

Dê oito, eu dou infinito, porque isto é mesmo muito bonito (o puto nem dezoito anitos tem)



Povo Lusitano
Lembro-me quando eu era novo
Avó do novo, dizia ao Diogo
Heróis do mar nobre povo
Conquistas que foram feitas
E as nossas ideias
Fascina-me ver que a nossa história
Dê uma epopeia
Eu lia nos livros
E via o orgulho sentido
Metade do mundo conhecido
Fomos nós que o descobrimos
Povo com garra, determinação
E muito unido
Somos m4o
Tudo incluído
Mas de há uns anos para cá
Notei a diferença
Seguem para outros países
Para pôr comida na mesa
Evolução, na emigração
Devido á situação
Não há razão para ficar
Na nossa nação
Algo está mal
Apontar nomes não é o que eu faço
Mas alguém se contradiz
E não dá os seus próprios
"Passos"
Desculpem a revolta
Nas linhas que fiz
Não aceito que para uma vida melhor
O português tem de deixar o seu país

Digo com orgulho
Povo unido, jamais vencido
Tentam mandar abaixo
Mas nós não caímos
Com a nossa garra e força
Destruímos esses planos
Digo com orgulho
Não há povo como lusitano
Digo com orgulho
Povo unido, jamais vencido
Tentam mandar abaixo
Mas nós não caímos
Com a nossa garra e força
Destruímos esses planos
Digo com orgulho
Não há povo como o lusitano

Sincero, não percebo
O que se passa
Digo basta, a minha geração é vasta
Não está gasta, algo que se faça
Eu sobretudo, estudo
Luto sempre pelo que procuro
Mas quem estuda no presente
Não assegura o futuro
Assume a cara, encara
Repara, a geração jovem ninguém ampara
E agora falo para
Para os senhores que se sentam lá no topo
Sei que que ainda sou bué novo
Mas sei mais que vocês sobre o nosso povo
Um povo que aguenta
Com qualquer iniciativa
Positiva ou negativa
Supera tudo
Com a cabeça erguida
Tem porte, nunca perde o norte
Esta é para vocês
Eu grito e repito
Não há povo como o português

Digo com orgulho
Povo unido, jamais vencido
Tentam mandar abaixo
Mas nós não caímos
Com a nossa garra e força
Destruímos esses planos
Digo com orgulho
Não há povo como o lusitano

Digo com orgulho
Povo unido, jamais vencido
Tentam mandar abaixo
Mas nós não caímos
Com a nossa garra e força
Destruímos esses planos
Digo com orgulho
Não há povo como o lusitano
D8 in "Factor X"

10 fevereiro, 2014

Os meu olhos?... Correu (mais uma vez) tudo bem!


Tudo se vê, quando se quer (e pode) ver... mas havendo outras maneiras de olhar...
[depois do olho esquerdo agora enxergo (vou enxergando) melhor com o direito]

Hoje não darei a costumada volta a deixar nos vossos espaços palavras de afectos e raivas. 

09 fevereiro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 52 ( do continente ao conteúdo e a mente da nossa gente...)

(ler conversa anterior)


Ao ver aproximar-se o velho engenheiro e o seu cão rafeiro, sorri para mim e ouvi-me assim "não há temporal que lhe afrouxe o moral e a persistência de estar". Também sorriu ao chegar "Uff, isto a muitos molha o ânimo. A mim rega-o, fá-lo crescer..."- disse, sacudindo o guarda-chuva.
Sentámo-nos num dos poucos lugares enxutos e não havia muitos. Depois disparou como se estivesse atrasado e quisesse recuperado tempo perdido.
- "Sabe?, tem-me vindo à memória, com uma intensidade estranha, uma expressão que punha em confronto duas palavras - conteúdo e continente..."
- "Embalagem e presente?"
- "Isso!, conteúdo e continente, líquido e frasco, memória e cérebro, pensamento e rosto..."
- "Gesto e alma?"
- "Exacto, isso mesmo, vejo que o meu caro me entende..."
- "E vai daí..."
- "E vai daí ligo isto às sondagens. Veja, o Jerónimo: como conteúdo é ignorado por meio mundo, como continente é amado por muita gente. Que lhe parece?"
- "Há de facto grande contradição, reconhecem-lhe honestidade no olhar, valores acumulados nas rugas, verdade na firmeza das palavras e na forma como estas são colocadas e depois..."
- "...depois ligam à terra com o conteúdo emanado por tudo isso. De nada serve o seu aviso!"
- "De nada, não. É cada vez maior a simpatia que irradia e a atenção que lhe é dada. Quanto ao conteúdo, hoje já não é fácil esconder..."
- "Mas escondem!" disse, de tal forma irado que me calei. Deitei fora o cigarro que se tinha apagado e depois abrigámo-nos da chuva que acabava de invadir toda a esplanada. O cão, não. Ficou a ali a ensopar-se em água, a afogar talvez a mesma mágoa...

(na esplanada não se falou disto,
 a chuva que chegou não deixou...)

08 fevereiro, 2014

A dona Esmeralda e a vizinha do 4º andar, a conversar - (18)


Vizinha do 4º andar (excitada) - Dona Esmeralda, que governo!... estou entusiasmada... 
Dona Esmeralda (com ar de quem está escaldada) - Ora diga lá! Recebeu alguma carta a repor o corte indevido feito ao salário do seu marido? O seu filho foi readmitido? Ou então... chamaram-na para a operação?
Vizinha do 4º andar (sem a escutar) - Sabe?, as finanças vão sortear carros... e não são dos baratos!
Dona Esmeralda (enfadada) - Com sorte, a vizinha ainda vai parar ao reino dos ricos... ao lado do Amorim, ou coisa assim!
Rogérito (interrompendo, nesse preciso momento) - Ó vizinha, se lhe sair dois euros na raspadinha, invista-os no euromilhões e exija o talão, pode ser que lhe saia um carrão. Entrámos em desatino, o país virou casino !!

07 fevereiro, 2014

O MUNDO DA LUA, uma antologia com pérolas destas...

imagem da net
Vivo num mundo em que o chão é o céu
Vivo num mundo ao contrário
Muito diferente do teu mundo ordinário!
Vivo no sítio onde o chão é o céu,
E nos casamentos, o noivo vai de véu!

Vivo onde as cores de pele são seis:
Roxo, azul, verde, amarelo,laranja e vermelho.
Não existem presidentes, nem reis,
E ninguém rouba o que é alheio.

Plantamos árvores, invés de as cortar.
Salvamos o mundo, invés de o matar.
A gravidade só existe nos corações,
E o dinheiro nada vale perante as emoções.

O meu mundo é quase perfeito,
Só tem um pequenos defeito.
Que é não ser de verdade!
Mas pode vir a ser, quem sabe?

Joana Silva, in "O Mundo da Lua", pág. 168
JOANA SILVA nasceu a 11 de Março de 1996 (17 anitos) e vive em Alenquer. Actualmente, tem dois livros publicados e um blog que merece ser visitado. O seu poema que está presente na antologia é dedicado à sua irmã mais velha.

06 fevereiro, 2014

Fala de Minha Alma sobre uma Árvore (em dia de festa)


Fala de Minha Alma sobre uma Árvore (em dia de festa)

Minha Alma disserta
não sobre a floresta
mas sobre a sua árvore
Diz ela
ser árvore formosa
frondosa
de folha perene, persistente
Verde, verde
tronco em harmonia
com os ramos braços
e estes com os abraços
e com os sorrisos
e com as raízes
e com os raios de sol
e com os raios de luar
e com o voos dos pássaros
e com o seu pousar 

Minha Alma festeja essa Árvore
e Eu também
porque lhe queremos bem
Rogério Pereira

04 fevereiro, 2014

4 de Fevereiro


Dez da noite e o moto-gerador foi desligado. Na messe aprontaram-se os dois petromax mas apenas um funcionou pois a «camisa» de um deles danificou-se irremediavelmente. Nada perturbados pela reduzida iluminação, a mesa da «lerpa» continuou a jogar sem qualquer interrupção ou outro lamento que não fosse as queixas pelo azar ao jogo distribuído pela «mesa».
Noutro lado, mais iluminado, o grupo de leitura fazia o que sempre fizera naqueles serões da retaguarda da luta. Lia. Eu, por meu lado, entretinha-me com distracções menos frequentes como seja acompanhar borboletas e abelhões esvoaçando à volta da luz como se a pretendessem devorar, oferecendo-nos em troca a escuridão. Tinha voltado, desde o Natal, ao costume de ter quase sempre o copo de uísque na mão e dentro, outra vez a simular gelo, a bala de G3. O tilintar do metal no vidro continuava a sugerir maior frescura na bebida e assim estava. O furriel Alma Séria levantou-se de repelão como que sacudido por uma decisão. Pegou no velho rádio de pilhas a um canto e ligou-o no posto já sintonizado mas com ruídos e interferências. Pacientemente procurou melhorar a sintonia o que conseguiu. Música congolesa. Mil tentativas tinham sido já ensaiadas, mil vezes sem sucesso de apanhar outros postos que não fossem emissoras do Congo ou da Tanzânia. «Desliga essa porcaria», reclamou o furriel Alma Redonda, enxofrado pelo mau jogo que lhe tinha calhado. «Desculpa pá, mas hoje tenho de ouvir os gajos.» Não percebi o porquê da importância daquele dia para a audição, mas não fiquei muito tempo na ignorância do significado da data. Segundos depois um hino conhecido fazia-se ouvir sem atrapalhar os afazeres e de seguida as palavras de abertura do programa: «Camaradas e companheiros de luta, boa noite.» (...) O noticiário irritou o sargento Meia Alma: «Calem-me essa gaja, não sei como podem aguentar essas lavagens ao cérebro.» Mas ninguém desligou o rádio. Acho que todos ignoraram o que consideravam propaganda: número de vítimas provocadas nas nossas tropas; deserções; a laudatória aos actos heróicos das forças do MPLA. 
Nossas mentes foram só perturbadas quando chegou a descrição dos acontecimentos de 4 de Fevereiro de 1961 num texto de Mário de Andrade lido com ensaiado dramatismo e que acabava assim: 
«…A vida de um africano não contava, nessa época, mais do que a de um cão. Para o fim de Fevereiro, uma noite, os civis portugueses, enfurecidos, acabaram por pôr fogo aos bairros africanos. Sulcavam a cidade em viatura, armados de espingardas de caça e de bidons de gasolina. Os habitantes que procuravam escapar às chamas caem pelas balas, que não poupavam nem as mulheres nem as crianças. Nenhuma família angolana escapa a estes dias sangrentos de Fevereiro. Várias fontes insuspeitas alvitram a cifra das vítimas deste primeiro genocídio perpetrado em Luanda: 3000 mortos.»
Perturbadas também ficaram as mentes do furriel Alma Séria e do Alma Boa pela leitura de partes do texto da Resolução da ONU de 1966, condenando a política colonial portuguesa e apelando ao reconhecimento à autodeterminação das colónias. Reparei que todos tinham parado o que faziam quando terminou o programa, com a palavra de ordem do costume: «A luta continua e a vitória é certa.» O sargento Meia Alma, levantou-se pousando as cartas dizendo contristado: «Vou-me deitar. Já devia estar deitado.» Eu e todos lhe seguimos o exemplo, silenciosos. 

No meu banco ficou um copo com uma bala de G3 dentro, sem se derreter…

Rogério Pereira, in "Almas Que Não Foram Fardadas", pág. 73 
Edição "Espaço e Memória" - 2012

03 fevereiro, 2014

O Mundo da Lua


Baixou a cabeça e caminhou com o focinho rente ao chão. Era a posição em que lhe doía menos, caminhar com o pescoço esticado no sentido do solo e a sentir o próprio bafo, ricocheteado no empedrado, a dar-lhe um acolhedor retorno. A noite estava húmida e fria, o tempo tinha entrado Novembro dentro. Enquanto caminhava assim, a custo e sem poder lamber a ferida por cima, junto à cabeça, ia pensando. De há muito sabia, pois a sucessão de acontecimentos que lhe povoavam a memória davam-lhe esse saber, que rosnar manso, sem mostrar os dentes, era uma afirmação de negação mais que suficiente para resolver situações, que os conflitos de rua frequentemente geram. Reconstituiu a cena: aquele osso era antigo, descarnado e já mais que ruído, pelo que a sua disputa não merecia luta; estava até disposta a cedê-lo ao intruso se o rosnar manso não surtisse efeito. Rosnou duas vezes e quando ia ceder, aconteceu: aquele vulto irado desferiu-lhe o golpe. Uma força enorme conteve-lhe o instinto agressivo e não reagiu. Nem ladrou. Temeu que se a refrega fosse mais longe ela iria perder. Os cães vadios e sem dono, perdem sempre… 
Quando acordou doía-lhe menos a ferida e o sol anémico que espreitava pelas frestas da improvisada porta de tábua tosca de obra adivinhava um dia frio mas, ainda assim, acolhedor. Os prédios em construção tinham até aí lhe servido de abrigo e os operários tinham-na aceitado com tarefas de guarda em troca de comida, água, aquela esfarrapada manta e aquele canto. Recordara o primeiro encontro com aquela gente, como se insinuou e foi bem acolhida e como reagiram quando, com o seu rosnar manso e sem mostrar os dentes, deu a entender que a não deviam prender. Agora que a obra estava praticamente acabada tinha que encontrar outra ou procurar outro modo de vida. O sol e a ferida aconselharam-na a procurar dono. E ela sabia como. 

Dirigiu-se ao local que levava na mente. Era cedo, mas não tardariam a aparecer. A inclinação das sombras do portão do liceu funcionava como forma de contar o tempo: quando aquele pico de sombra tocasse a berma do passeio fronteiro, era a hora. E assim aconteceu. Ela foi vendo chegar a miudagem, uma a uma, depois em pequenos grupos, rindo e tagarelando, sem lhe ligar. Não desistiu. Ensaiou um abanar de cauda e pequenas corridas de chamada de atenção. Corridas curtas e rápidas, gestos estudados e ágeis, paragens cuidadosamente endiabradas… A atração resultou. Levou algumas festas e de cada vez que as recebia ia aferindo a intensidade do afeto, interpretando as palavras ouvidas para discernir as mais amigas, usando a memória das entoadas, fixando as mais distantes para as separar das mais sentidas. Duas jovens aproximaram-se e debruçaram-se sobre ela. Fingiu que fugiu, deu uma corridita para perto e logo voltar. Recebeu em troca um lento afago percorrendo-lhe o cachaço. Ganiu, sem fingir, pois na realidade a intensidade da caricia fez-lhe uma aguda dor e certamente expôs a chaga. “Coitadinho, está tão ferido” – disse uma. “Ferida, está ferida! Não vês que é uma cadela?”  A chamada da porta do contentor que servia de sala de aula, interrompeu a cena e alertava para o início do dia de escola. Ela ficou só e esperou a manhã toda pela hora da saída. Tinha decidido a escolha. 

Do liceu à casa era a distância suficiente para ir dando consistência aos laços de afeto que se iam estabelecendo. A nova dona, e também a primeira, e a outra ajudaram-na a subir aquele terceiro andar. Entraram, numa sala onde imperava a cor clara (mais tarde saberia ser a cozinha) e foi ali que cuidaram dela. Todos os odores eram intensos e desconhecidos e provinham de frascos que a nova dona espalhara pelo chão, junto dela. Sentiu-lhes as mãos quentes e trémulas por sobre o pêlo. “Está aqui! Cheia de pus… achas que esprema?” A outra recomendou que apenas lavasse com água oxigenada e depois colocasse um pouco de iodo. De seguida interrogaram-se sobre se deviam ou não fazer-lhe penso e quanto isso lhes seria difícil pela inabilidade da pequena tosquia. Estavam assim, quando sentiram a chave a girar na fechadura. O homem entrou. Ela nem se mexeu, limitou-se a levantar o olhar naquela direção e conteve o primeiro impulso de ladrar. Na obra, ladrava sempre e intensamente a quem chegava. Ali calara-se. Percebeu que a sua presença era aceite e que aquele homem era o seu novo dono. Pelo faro, sentia-o boa pessoa e tinha a alma espelhada na cara. Sentiu-se em casa. 

Durante uma semana, talvez mais, equilibrou os hábitos de vadiagem com os de membro da família. Saía bem cedo. Colocava-se junto à porta da rua farejando-a e raspado levemente com uma e outra pata, até que lha abriam. Regressava tarde, com a lua. E foi esse o nome que a dona lhe deu: Lua. “Só te vemos quando a lua aparece…“ 
Nos meses seguintes foi ganhando novos hábitos, conseguira que as professoras do horário da manhã lhe permitisse a presença na sala aula, acompanhando a dona. Era uma prova de afeto mas também uma autoproteção, pois a rua tornara-se mais perigosa e dura. Aprendia novas palavras e usava-as não para as pronunciar mas para saber estar. Em casa gostava de atenção e todos lha davam. 
Um dia aconteceu o que já lhe tinha acontecido e sempre resistira. As pessoas à sua volta chamavam a isso cio e guardavam-na. Quando não estava protegida ela resistia. Daquela vez não se opôs, apenas se limitou a algumas recusas e o cão que a tomou ninguém pode dizer que o tivesse escolhido. Nunca o antes tinha visto, nem depois o voltou a ver. Engravidou. Com o tempo começou a sentir o corpo a preparar-se, depois a ganhar volume e, por fim, a sentir as crias. A dona afagava-lhe a barriga, à sua volta a família dava-lhe mais atenção e a comida passou a ser mais escolhida. Chegou o dia. A mulher da casa ajudou-a a custo a subir o último lance de escadas, temendo que o parto ocorre-se logo ali. Todos da família queriam estar mas a mulher da casa não deixou e apenas ela própria ficou. Ficaram as duas toda a noite, à medida que ia gerando agradecia, com o olhar, a presença da mulher. Do parto longo resultou uma ninhada de quatro cachorros que fizeram a delícia daquela família, mas que depressa foram esquecidos. Ela, contudo, não os esqueceu… 

Os anos foram-se passando e continuava a gostar da forma como o homem a olhava. Gostava da forma como o homem lhe falava e quase sempre achava suas festas breves, mas lambia-lhes as mãos agradecida, com orelhas em baixo em sinal de extrema humildade. Era à voz dele que mais obedecia, embora o mando dele não fosse frequente. Um dia, ele chegou e disse-lhe “Sabes Lua?” e fez uma pausa que a deixou mais atenta “Sabes que tens que te ir embora?” Não entendeu tudo, mas há muito que sabia o significado da palavra “ir” e o resto adivinhou-o no rosto e na tristeza do olhar do homem. 

O calor abrasava e agradou-lhe o fresco quando entrara no carro. Gostava de andar de carro e quase nunca se sentava. De pé, no acento traseiro, costumava acompanhar a viagem. E foi assim que viajou, mesmo que impondo incómodo pois toda a família fizera questão em a acompanhar à nova morada, em terra distante, numa casa baixa sem outras à vista. Um ermo. Ouviu a palavra quinta e foi entendendo que aquele era o outro lado do seu Mundo. O novo dono afagou-a enquanto falavam sobre coisas que tinham a ver consigo mas a que não ligou. Estava mais concentrada em descobrir algo que lhe fizesse deter aquela coisa estranha a crescer dentro dela. Não conhecia aquela sensação que lhe apertava o coração, nunca a sentira antes. Depois seguiram-se despedidas sentidas e todos se foram. Ficou a olhar, muito quieta, com aquela coisa estranha a crescer, a crescer. Ganiu, assustada, sem deixar de olhar para o ponto onde tinha visto desaparecer aquele carro. Depois de ganir tantas vezes que nem as soubera contar, ladrou sem parar e sem saber se o seu ladrar era um chamado se era para afastar aquela coisa estranha que a tomara por dentro. Exausta, ficou ali, prostrada até que o novo dono a recolheu.
O segundo dia, quente como o anterior, passou-o vagueando pela quinta e à volta dela. Quando passava frente ao caminho por onde tinha vindo parava e olhava, com a intensidade com que os cães olham quando esperam. Depois retomava a caminhada. Ao cair da noite o novo dono chamou-a, quase ao mesmo tempo que aparecia a lua. Deu-lhe de comer, de beber e levou-a para um pequeno terraço, murado, no topo da casa. Sentiu o seu afago e respondeu como sempre fazia e com o olhar que sempre tinha, quando agradecia uma caricia. O novo dono passou-lhe uma coleira à volta do pescoço e desenrolou uma corrente que prendeu num ponto firme. Deitou-se e aquela coisa que antes sentira aumentou desmesuradamente. Ia avançada a noite quando, por fim adormeceu…
O terceiro, o quarto e o quinto dia foram iguais. Ao sexto, depois de presa e do novo dono a deixar, a Lua levantou-se lentamente, ensaiou uma corrida curta, depois outra mais longa a medir a extensão da corrente e por fim uma que não parou, passando, como que enlouquecida, por cima do muro do pequeno terraço. Ficou pendurada, sem balancear, sem qualquer movimento, esperando o momento. Ao alto, a lua iluminava com uma cor de prata aquela parte do mundo onde a Lua se finou e, com ela, aquela coisa estranha que lhe apertava o coração. 
Rogério V. Pereira, in "O Mundo da Lua", pág 146 - 
Os meus agradecimentos à editora "Lua de Marfim
NOTA DO AUTOR - Este conto é o efeito espelho de um outro conto. Não se trata apenas de uma alteração do nome da personagem, é todo o texto que encerra uma visão diferente, como se o mundo que rodeia a Lua fosse por ela vivido e até descrito. Quem queira pode relembrar esse meu primeiro exercício de escrita, aqui

02 fevereiro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 51 ( A dissimulação do buraco e a consciência de classe...)

(ler conversa anterior)
"O governo e os seus acólitos e propagandistas têm em curso uma colossal operação de propaganda anunciando resultados económicos de milagrosa recuperação. Mas todos os indicadores da economia real mostram o contrário: prossegue a queda da riqueza produzida, do consumo das famílias, do investimento, da procura interna. Aumenta de forma incomportável a dívida pública. A “descida” do desemprego significa apenas que mais centenas de milhares de trabalhadores são obrigados a emigrar. Aumentam a pobreza e a desigualdade. A única garantia de recuperação é correr com este governo e pôr fim a esta política."
Eugénio Rosa, neste estudo

“sociedades demasiadamente desiguais não funcionam com eficiência, e as suas economias não são nem estáveis nem sustentáveis a longo prazo. Quando os mais ricos usam o seu poder político para beneficiar em excesso as suas empresas, as muito necessitadas receitas são desviadas para os bolsos de poucos, em vez de beneficiarem a sociedade em geral”.
Joseph Stiglitz, premio Nobel da economia, in “O Preço da desigualdade”

O engenheiro olhava atento a imagem do iPad que a Gaby mostrava. "Já conheço essa imagem há muito! É terrível!" dizia. "É terrível!" confirmava a Gaby. "Não percebo porque a esquerda não se entende..." comentava com voz desiludida a Teresa, "...a direita, mais desacerto menos amuo, une-se e governa, à esquerda é sempre a mesma merda!" Levantei os olhos do jornal e entrei naquele carpir de mágoas com uma tese bem clara: "É mais fácil criar o entendimento entre 85 homens ricos do que criar consciência de classe entre o meio mundo que eles empobreceram!...
Fez-se silêncio, passado pouco tempo chegou a Ana para distribuir entre as colegas as raspadinhas que tinha ido comprar. As "minhas" professoras não perdiam a esperança de ascender à classe dominante...

A conversa passou então a um diálogo entre mim e o velho engenheiro, comentando coisas que o papa Francisco tinha dito...

01 fevereiro, 2014

"partiram... que não lhes faltem as asas"

Entre a Lua e a rua, a mão que escreve, a cabeça que pensa e o coração, deveu-se a este a decisão. Fui para a rua, onde a luta continua... antes passei por perto da Lua e falámos de afectos, de passarinhos e de saídas antecipadas dos ninhos. Não resignados, acho que nos dissemos:
partiram... que não lhes faltem as asas