20 janeiro, 2015

António, o cordeiro (e um Lobo chamado Antunes) - II


Ainda a pergunta não estava totalmente formulada e já antevia a resposta. Adivinhava-lhe o conteúdo, pois a forma surpreende, e muito. É (continua a ser) um deus no estar e na encenação da palavra. O rosto brinca com ela como se fosse a sua própria escrita. A voz pausada insinua uma profundidade ao que vai dizendo. Essa insinuação de profundidade é mais forte que a própria resposta. Dir-se-á que em televisão o tempo é estreito para se espraiar o pensamento, mas também é um excelente álibi para se poder concluir que ainda não foi desta vez que o Lobo devorou o António. O homem continua igual e é preciso ser muito crente para esperar que mude. Se Deus existisse segredar-lhe-ia ao ouvido, não o que ele esperaria ouvir, mas o pedido divino que gostasse um pouco menos dele próprio e um pouco mais de todos nós...

nota: suponho que a entrevista emitida na RTP1 é apenas parte da que mais tarde será editada. Esperemos.