14 fevereiro, 2015

Em Dia dos Namorados, a premonição do coração

Levantou-se cedo como há muito não fazia com uma sensação estranha de outra presença, de outra companhia. O espaço ao seu lado estava vazio e, na tabela dos afectos que lhe restava inscrita na alma, espaço vazio tinha o número último da longa tabela e referenciava "ausência". Inscrevera-o ela própria há muito, para registar o sentir e as ânsias das pequenas ausências. Antes de sair do quarto passou os dedos pelos lugares antes ocupados pelos objectos dele e recordava como era desmazelado deixando tudo por todo o lado. Recordou o dia em que a abandonou e o bilhete deixado, tinha na memória todas as palavras escritas, com aquelas letras  redondas, quase desenhadas: "Não posso, não posso continuar" foram as palavras que mais a magoaram e magoavam ainda, passados três anos sobre a data que hoje era celebrada e lhe parecia tão mal escolhida para a inusitada partida. Nunca lhe passou pela ideia aquela desistência e um primeiro impulso foi o de jurar jamais o perdoar. Manteve a jura durante muito tempo até que o tempo lhe fez esbater tal sentimento. Tentou libertar-se da memória e reiniciar uma vida nova e quase conseguia embora fugindo, por medo, de nova relação. Aconteceu então o despedimento colectivo, e retomou o ponto de onde tinha partido. Percebeu a impotência de responder aos compromissos. Empenhou-se e sacrificou objectos amados. Aí, começou a desculpá-lo e voltaram à lembrança as promessas deixadas na vã e inconfessada esperança de serem cumpridas.  Voltou às palavras do bilhete deixado: Um dia volto. Levo a nossa tabela de afectos e teus desenhos. Não te deixo mais nada que não seja a promessa do meu regresso. Amo-te muito mais que a mim próprio pois o amor que tenho a mim próprio deixou de pesar. Um dia hei-de regressar. Sempre teu" .  
À sensação de presença seguiu-se um sentimento de certeza. E a premonição instalou-se no coração, sem resistência. Ele sempre cumpria o que prometia. E com essa quase certeza, fez-se ao dia...

 

O dia de trabalho foi pesado como acontece sempre ao sábado, na caixa do supermercado. Com a premonição quase doentia a dar-lhe energia e a conduzir-lhe os gestos, pôs a mesa, as velas, as flores e foi preparar o jantar com a receita 108, que  antes tantas vezes fizera e que ele tanto gostava. A mesa estava bela e foi experimentar as luzes e a música a tocar, regulando o som à altura do falar. Findo tudo, esperou... estava na hora que o catálogo do tempo, em tempos indicava, para o seu chegar. 
Passou essa hora, e outra e outra e nem o coração nem a alma desistiam...

Ouviu-lhe os passos. A chave a rodar. Levantou-se, segundo o gesto 52 ainda lembrado e que constava na rotina das chegadas. A porta se abriu, mas ele não entrou. Com os olhos pousados no chão, disse: "Anda, vamos ali, temos que falar". Sem pensar em nada, atordoada, saiu como estava. No percurso que ambos há muito tinham percorrido para aquele lugar, ele lhe contou por tudo o que passara. Depois não mais falaram. Sentaram-se no paredão com o olhar a ressuscitar no mar. Deram-se as mãos, numa ternura de perdão e de gestos, sem numeração na tabela dos afectos...

NOTA: este conto piegas é a continuação de um ciclo de vida que começou assim e tem estes antecedentes.