30 março, 2015

Geração sentada, conversando na esplanada - 87 ("A Igreja, os comunistas e os silêncios em Dia de Ramos")

(ler conversa anterior)
"procurou(-se) a identificação daquilo que a Igreja e o PCP procuram no sentido de um país melhor, com mais justiça social, menos pobreza e menos desemprego, não se ficando apenas pela contemplação dos problemas, mas com intervenção concreta, junto das pessoas, dos cidadãos"
Jerónimo de Sousa, após encontro com D. Manuel Clemente

“O problema mais grave é não ter a possibilidade de levar o pão para casa, de o ganhar! E quando não se ganha o pão, perde-se a dignidade. Esta falta de trabalho rouba-nos a dignidade. Devemos lutar por isso, devemos defender a nossa dignidade de cidadãos, de homens e mulheres, de jovens. Este é o drama do nosso tempo. Não devemos permanecer em silêncio.”
Papa Francisco, citado hoje por Frei Bento Domingues

Não era a primeira vez que na esplanada bastasse uma pequena réstia de sol para que tudo se transformasse. A roupa foi pouca, a língua foi solta e não havia quem não conversasse. O rafeiro, estirado, abanava o rabo mesmo sem ser por agradecimento por qualquer festa ou atenção. O melro saltitava e o pombo procurava, insistente, o acasalar com uma pomba vistosa que por ali pousara. As flores, ao fundo, completavam o quadro.
"É dia de Ramos" lembrou o velho engenheiro para de seguida lembrar, com detalhes históricos, o significado do dia e que na versão sua determinaria a ocorrência de sexta-feira enquanto dia santo. "O poder sentiu-se tremer, com aquela aclamação à entrada de Cristo na cidade. O povo, ao tempo, era dócil e raramente se manifestava. O episódio da expulsão dos vendilhões do templo apenas foi a gota de água". Não respondi, apenas abanei a cabeça para lhe reforçar aquela certeza. A Gaby, que ouviu, não se conteve. "Acho que D. Clemente treme com as manifestações de rua e não percebo porque o secretário geral do seu partido valorizou o que lhe terá dito". Fiquei um momento calado, era pertinente a afirmação que, aliás, sublinhava o que eu próprio pensava de D. Clemente. Depois resolvi responder: "Não fossem os milhares de católicos que militam no meu partido, não fossem as palavras e os gestos de Francisco e, sim, teria sido uma visita desnecessária."