06 agosto, 2016

O Rio, se fosse hoje não teria sido escolhido


Porque um povo é a memória que da sua História guarda e porque é a sua cultura, foi bela e digna a abertura dos jogos.
Revendo hoje, não estranho a omissão da nossa televisão a Chico Buarque de Holanda, cuja música ia acompanhando poderosas imagens com dezenas de figurantes trepando "A Construção". 
Logo, ou um pouco depois, o também omitido Drummond de Andrade era declamado, num belo e significativo poema-premonição:
(...)
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Lula da Silva (e o povo) deve estar orgulhoso. Os jogos serão uma sucessão de interregnos para coisas belas. E a luta continua para que o poema se cumpra.