31 dezembro, 2017

Elegia ao ano velho. Ode ao Novo (em dia de aniversário)

Elegia ao ano velho. Ode ao Novo

Meu bom ano velho, que te vais
Cansado, trôpego, descomposto
Que não me fiquem teus ais
Leva para bem longe teu desgosto
E que ele não me apoquente mais

Sabes, velho tonto?
Em quantas das tuas 365 madrugadas
eu construía um sonho?
Em quantas das tuas 365 alvoradas
se me iluminava o rosto?

Sabes, velho refunfelho e travesso?
Sabes a esperança que te tinha, eras tu novo?
Sabes que lutei desde o teu promissor começo?
E o que sobra?, nem te conto
O que desse passado de esperança
eu não me esqueço
Sabes, velho safado?
Foste pouco novo
Mas esse pouco
Mesmo pequeno já foi tanto!

Vai,
Que eu fico e me renovo
Nesta outra mensagem em que me revejo
E que a todos endosso
BOM ANO NOVO! 
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Este blogue faz hoje oito anos. A data foi escolhida para que a comemoração se faça quer queira, quer não queira ou até nem se lembre dela.

30 dezembro, 2017

Os meus melhores (mais vistos) do ano - II

O peido que o Sobral disse que ia dar e não deu... dei-o eu!

Post visualizado 516 vezes, em 28 junho, 2017


«O peido prometido fez correr rios de tinta e fazer surgir textos de qualidade de "primeira água". Depois veio Sobral pedir desculpas e retirar o peido. Eu não retiro o meu, que ontem assumiu outra forma, mais subliminar e, sem odor de traque, deixou larga ambiguidade.»
(ler tudo aqui)
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Título honorífico atribuído a Maria João Brito de Sousa

Post visualizado 787 vezes, em 04 julho, 2017 

«Na Assembleia de Freguesia da União das Freguesias de Oeiras, Paço de Arcos e Caxias foi atribuído, por unanimidade, o titulo honorífico de mérito na classe "Arte e Cultura" à Maria João*. Pedi-lhe, ao dar-lhe a notícia, que ela escolhesse um poema seu para que assinalasse, neste meu espaço, tal acontecimento. Por "maldade" mandou-me um meia-dúzia-deles e... teve que ser minha a escolha.»

SONETO DO PRODUTOR EXPLORADO
 (ler tudo aqui)
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Inês de Medeiros no seu melhor

 Post visualizado 1385 vezes, em 04 novembro, 2017

Esta imagem é uma fotomontagem minha, a original anda por ai...
«Todos nós, eleitos, fazemos tudo o que de melhor podemos e sabemos para deixar, na nossa tomada de posse, uma impressão coerente com o respeito que o eleitorado nos merece. Todos, cada um à sua maneira, procuram dar de si o seu melhor, marcar terreno, dar conta das principais linhas que orientarão o mandato, anunciar projetos e até mesmo lançar desafios.
Inês de Medeiros não foi exceção. Em cerca de 28 minutos de discurso fê-lo sorrindo e rindo, rindo muito. Parecia que o seu melhor estava bem preparado (o nervosismo que registou não conta, e pode até ser entendido como uma forma de transmitir emoção e sentido de responsabilidade).
Só que o seu melhor passou a resvalar para o mau.»
(ler tudo aqui)

29 dezembro, 2017

Os meus melhores (mais vistos) do ano - I

Post visualizado 1068 vezes, em 05/01/17 


Warren Buffett – US$ 60.8 bilhões (EUA) – domina o império Berkshire Hathaway. Esta olding é a principal accionista institucional da empresa de rating que irá classificar a dívida portuguesa. Segundo a Mafalda ele ficará mais rico e nós... mais lixados.
E, já agora, uma leitura de como "a coisa" funciona:

28 dezembro, 2017

"O Bolo Rei" - II (o conto e o testemunho)


Quando há dias me deparei com aquele "Bolo Rei" depressa passei a distribuir fatias para que fosse dado a outros saboreá-lo e ao mesmo tempo dar a conhecer esse meu camarada, a que se refere um conto bem contado.
A ajudar-me na tarefa, o sítio "Abril de Novo Magazine" apresentou-o em lugar de destaque e eu recorri a tudo para o levar a muitos.
Agradecimentos, poucos.
Mas este, valeu por todos:
Obrigada, Rogério!

A história, “romanceada” pela Maria Rosa Colaço, muitos anos mais tarde, passou-se de verdade, em casa do avô paterno do meu pai, era ele pequeno, e o bolo –rei do tamanho de uma roda de automóvel, para chegar para toda a  família …

A minha avó, viúva desde um mês antes do meu pai nascer, era modista, trabalhando para sustentar o filho, a mãe, e uma prima (quase irmã, que tinha sido deixada em pequena pela respetiva mãe , lá em casa…). Quando as “Senhoras” não pagavam os vestidos “a pronto” e se “esqueciam” das contas…a minha avó ia empenhar as escravas (pulseiras de ouro, que o marido lhe havia oferecido no casamento…) no prestamista, para pagar às costureiras e aprendizas que trabalhavam para ela.

O meu pai, criado só por mulheres, habituou-se, desde pequeno, a ver as pulseiras a desaparecerem, sabendo o que isso significava.

Eram outros tempos, em que as pessoas morriam com tuberculose, como aconteceu ao meu avô (aos 27 anos); em que as mulheres (das Avenidas Novas) não trabalhavam, e a minha avó fazia-o (era uma modista de nome…hoje são estilistas!), porque em Portugal, as mulheres, por morte dos maridos, não herdavam!; eram tempos de recorrer ao prestamista e não ao banco; eram tempos de guerra, com racionamentos e dificuldades; eram tempos em que os rapazes usavam calções até entrarem no liceu (os que para lá podiam ir…e o meu pai, mesmo com todas as dificuldades, era um menino das Avenidas Novas…), que depois usavam calças à golfe (como o Tintim…) e só no final da adolescência vestiam calças… Numa Lisboa ainda rural, de pregões e de fornecimentos à porta (a peixeira, o leiteiro , o padeiro, o homem do jornal…), de rol mensal na mercearia e no talho, onde se faziam os “avios” que os aprendizes levavam a casa.

Quando, naquele Dia de Reis lhe saiu a fava, o meu pai ficou em pânico, pois sabia que a mãe não tinha dinheiro para comprar o Bolo-rei-do-tamanho-de-uma-roda-de carro, no ano seguinte. Ninguém percebeu porque o Fernando não conversava, como era hábito. Ninguém entendeu porque não aparecia a fava…O meu pai estava a roê-la, com muito cuidado.

Só à saída de casa do avô, é que o confessou à mãe, pedindo desculpa!
Claro que ficou uma história referida e lembrada para sempre na família!

Boas Festas!
Ágata Branco
Obrigado, Ágata é um belo testemunho a juntar ao conto.

(Quem ler este, não perca o outro.)

Financiamento dos partidos: em ditadura a questão nem se punha


Palavra que hoje tinha planeado outra escrita e detesto falar sobre Cristas. Mas lá tinha de ser. E tinha de ser, porque esta agitada e tão badalada questão em ditadura nem se punha. Embora em Democracia (que como sabemos muitos consideram um sistema caro) seria de esperar que a questão se pusesse de outra forma.

Mas vamos lá... na sequência da imagem acima:

26 dezembro, 2017

Um debate vivo, em ambiente natalício (como documenta o vídeo)


Às tantas, estávamos os quatro reunidos. Já nenhum se lembra como começou a conversa. Talvez pela água, passando pela seca que nunca mais acaba e esta ser um recurso escasso. É ouro! Se é raro, que se penalize o desperdício, se carregue no preço. Cuidado, há 10 milhões e ninguém sabe a quantos o salário mal chega para pagar as alcavalas associadas ao preço da água. Há quem se sirva nos fontanários e mal abra a torneira.
Tendo chegado a acordo nesse ponto, passou-se a falar da justiça e dos que a ela vão escapando, das redes de compadrio, dos boys, dos escritórios de advogados bem representados nas bancadas dos deputados, da maçonaria. E como as palavras são como as cerejas, depressa caímos na apreciação à Democracia, de como Hitler foi inicialmente apoiado e depois derrotado, e como a noite era nossa, debatemos noite fora, tirando eu a mesma (ali inconfessada) conclusão: MUDAR O MUNDO NÃO CUSTA MUITO, LEVA É TEMPO!

O jantar? Ah, pois! Foi assim!

25 dezembro, 2017

Natal... a minha árvore nunca foi igual


Todos os anos faço um postal de Natal. Nunca igual. Em 2010 era pequenino, para logo dar um salto em 2011. Surpreendidos, os amigos, foram então muitos os que fizeram questão de vir ter comigo. 


Mas cedo se começou a inverter o movimento. E se este ano foram mais que em 2014, percebo que passam céleres, e dão prioridade às redes sociais... 

 

Temo que logo o jantar sofra do mesmo mal...



24 dezembro, 2017

Quatrocentos e tal votos de Boas Festas...


Ano a ano a árvore se vai alargando 
Uns só agora chegaram. Outros partiram e vão voltar, outros nem pensarão nisso... Guardo palavras, caras, sorrisos, máscaras e mais de  26 mil comentários. Guardo-os a todos e tenho-os no registo de terem passado. 
Muito obrigado. 
Eu sei que às vezes me "espalho", me excedo. Se pensam que me arrependo, esqueçam. Neste espaço nenhuma ofensa é deliberada, pensada e dirigida. 
Se erro?... É a vida.
Façam o favor de nos fazer felizes! 
Nota: Se faltar aí alguém, considere-se um não-ausente
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NATAL de 1971 
...
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo de bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Jorge de Sena, "De palavra em punho"

23 dezembro, 2017

Contos de Natal - IV (Por não ter conseguido comprar um sorriso?)

Este quarto conto, de 2014, completa a série publicada em 2013 e que tenho vindo a reeditar

Há muito que abandonara o ter de estar a tempo para fazer o quer que fosse, ou estar com quem quer que seja. Contudo, se controlasse o tempo constataria que cumpria rigorosamente, à hora certa, a rotina que a ele próprio há muito se impusera. Só raramente sabia o dia, semana, mês em que fazia o que ia fazendo. Deixara, também, de se importar com essa escala do tempo. Ninguém lhe perguntava há quanto a filha partira. Se o fizessem não saberia responder. Nem há quanto lhe deixara ela de lhe escrever, ou telefonar. Ao principio sofrera com a partida como sofrera com a inesperada viuvez. Quando? Há cinco, há dez anos? Quase ao mesmo tempo em que deixou de medir o tempo, deixou de se importar com as ausências. Ao certo, ao certo, nem se dava pela sua própria presença. Era como se não existisse há cinco, há dez ou talvez mais anos. Era como se ele próprio tivesse partido. Já não ligava à Sua Alma nem mantinha aquele diálogo acalorado com o Seu Contrário, que a pouco e pouco se afastou do seu juízo. Estava só, até de si.

Naquele dia acordou sobressaltado. Na cama, tateou ao seu lado a procurá-la pois parecia ter sentido o seu calor, o respirar manso e o seu cheiro doce. Pronunciou o seu nome como num chamamento. Depois repetiu, e repetiu, enquanto se levantava e percorria toda a casa. Percorreu-a três vezes até confirmar que ali estava apenas ele.

Lavou-se e escanhoou-se. Vestiu-se, escolhendo demoradamente a roupa. Foi à gaveta e recolheu todas as moedas e uma nota pequena, tudo o que lhe restava da pensão magra. Guardou tudo sem contar nem se lembrar de quando vociferava contra ministros e políticos a quem acusava, a esmo, pelo seu empobrecimento. Saiu. Entrou no café ao fim da rua. Pediu um café. A empregada trouxe-o. Ele pagou com um generosa gorjeta, disse, "fique com o troco", e ficou à espera que se lhe alterasse o rosto. E nada, como resposta um seco "obrigada" e mais nada. Deixou passar algum tempo e pediu outro. Na altura de pagar colocou sobre a mesa tudo o que tinha. A empregada transfigurou o rosto, não no sorriso em que tanto tinha investido, mas num ar de surpresa com um misto de submisso agradecimento e uma exclamação "tanto?". Depois foi-se com um sumido "obrigada". 

Nos dias seguintes não comeu, a esperança de obter um sorriso amigo dava-me a energia necessária para cada caminhada. E andava, e andava. Sentou-se num banco, por baixo de uma arvore imensa de tronco desnudado. Apercebeu-se quanto o seu corpo estava frio de um frio que não sentiu. À sua frente apareceu então o sorriso, aquele que não procurava. A Morte estendeu-lhe a mão e disse "Anda". E ele foi.
Se controlasse o tempo, teria dado conta ter sido quase à hora e no mesmo dia em que o Menino nascia.

Não vou desejar-te feliz natal nem feliz ano novo...


Pois não...
Não vou desejar-te feliz natal nem feliz ano novo...

Eu desejo-te coragem p´ra dizer basta,
desejo que te esqueças quem te esqueceu,
desejo que possas fechar portas e abrir janelas,
desejo que não te conformes,
que não fiques com a culpa,
desejo que te atrevas, 

Desejo o que tu quiseres,
desejo-te olheiras e risos,
desejo-te loucura e magia,
também te desejo erros para aprender,
desejo vento,
para te deixares levar,
desejo-te faíscas no olhar,
cores para os dias cinzentos,
guarda-chuva para as más tempestades
e chuva para te calar,
desejo-te "sinto saudades",
desejo-te abraços dos que duram toda a vida
quando fechas os olhos,
desejo-te viagens e novas lembranças,
desejo-te furacões de emoções,
que te façam sentir. 

Desejo que te amem sem que precisem de ti,
desejo-te uma nova música favorita
e uma nova data que te faça sorrir,
desejo-te beijos bonitos,
brindes com os lábios e desejo-te vontade...
de seguir em frente. 
Fernanda Lapa,

22 dezembro, 2017

CONTOS DE NATAL - III ("...este ano não há perú")

Com este terceiro conto retomo uma série publicada em 2013. 
Faço-o por várias razões, designadamente porque quanto mais os raleio mais gosto deles.  

A história é breve, embora entre um e outro acontecimento medeie a esperança de vida de um galo. Eu conto, pois apesar de bem miúdo ainda me lembro de (quase) tudo.

A minha avó Mariana chamou-me depois de ter espreitado - "Estão a nascer, anda cá. Vem ver", e levou-me com ela por aquele grande terreiro baptizado de galinheiro, mas onde, além de galinhas, haviam coelhos, patos e pombos, todos partilhando o espaço mas com retiro adequado a sossego de cada um. Fui ver os pintainhos a nascer. Dois já tinham picado e destes, um deles, tinha a cabecita quase toda de fora do ovo. Adiantou-se o ver, ao conhecimento do facto, pois nunca tinha ouvido falar que era assim. Levaram dois dias para saltarem todos para a vida, mas o primeiro saltou cedo, pouco mais de uma boa hora depois de ter espreitado. Minha avó, experiente, disse "Esse é frango e é aleijado". E era as duas coisa. Quanto ao diagnóstico da deficiência, o pintainho não se detinha de pé. Dava duas passaditas e mergulhava de bico, na poeira. O resto das férias passei-as na brincadeira e a assistir à persistência paciente de minha avó Mariana, mergulhando as patas do pequenito galináceo em vinho tinto, depois de levemente aquecido.

Meses depois o pinto já era um frango emproado. Reconhecia minha avó Mariana como sua mãe e atrás dela corria para onde quer que ela ia. Se ela parava, o frango empoleira-se num qualquer beiral ou saliência e ficava ali, estupidificado, esperando que ela acabasse e fosse para qualquer outro lado. Vivia fora do galinheiro, em cuidados continuados.

Passaram anos. Uns poucos, pois os galos possuem larga longevidade e este usava-a com maldade. Desde que habitou o galinheiro, nunca mais houve a paz que antes por lá havia: os pombos deixaram de poder partilhar o milho das galinhas, os coelhos perderam a liberdade e não mais saíram da coelheira e a Reca, uma pata engraçada, que reagia a todo e qualquer chamamento, perdeu o seu lugar lá dentro. O galo, além de mau, não galava. Mas o safado imperava como se todas as galinhas fossem seu harém. Perseguia as coitadas e algumas que, esperavam ser montadas, recebiam brutais agressões. Muitas perderam a crista, outras a vista algumas, sortudas, apenas algumas penas.

De madrugada, o galo enganava com o orgulho posto no seu cantar. Cantava alto, trinado e repetido. Cantava, cantava, cantava e só parava quando pensava que tinha acordado toda a gente, parava quando toda a gente tinha acordado. Entretanto, o malvado galo era gabado por todas as quintas à volta, e toda a gente comentava "Dona Mariana, o seu galo canta que é um regalo", e a minha avó escondia-lhe o comportamento agressivo como se protegesse actos desavindos de um mau filho.

Num Natal, um dos muitos passados na quintinha dos meus avós, já eu tinha condições de retirar a moral de qualquer história, a minha avó anunciou a sua resolução: esse ano não haveria peru. E assim foi. Na noite da Natal o galo saiu à mesa. O aspecto do assado era com a mesma imponência do bicho enquanto vivo, apesar do tostado. Mas o pior aconteceu, de tão rijo, ninguém o comeu. Souberam bem os miúdos de cabidela, a merecerem  lágrimas de minha avó, a correrem pelos olhos dela...


21 dezembro, 2017

CONTOS DE NATAL - II ("O Grande Arrepio")

Com este segundo conto retomo uma série publicada em 2013. 
Faço-o por várias razões, designadamente porque quanto mais os raleio mais gosto deles.   

Vinha com a costumada ansiedade. Não conhecia outra e esta já se lhe tinha colado no rosto, moldando-lhe a feição. Sempre se vira assim e sempre assim os outros a viam. Não era uma jovem qualquer e tudo lhe levava a crer que não seria uma normal mulher. Não se sentia rejeitada. Ela era rejeitada, assim ela pensava. Era-o em casa, na escola, entre possíveis amigos, na vizinhança. Era-o desde criança. Seu refugio era a procura de outros amigos.

Amigos virtuais, anónimos e também aqueles que fingiam não o ser. Horas a fio despendidas, frente ao seu computador, eram ganhas às horas de grande solidão. Frente ao teclado construía mundos inexistentes em pequenas frases ou em comentários. Procurava e editava fotos da natureza, dos álbuns musicais, de gatos e insetos, seus animais prediletos. Ia assim ocupando o tempo...

Sentia ter duas vidas e não gostava de nenhuma. Foi pensando em tudo isto, com a cara do costume, que se aproximou daquele pequeno miradouro sobre a praia, local tantas vezes escolhido para tentar preencher um angustiado e constante vazio. Aquele que naquela altura sentia. Lá, por onde se deixava ficar, pousado sobre a grade de proteção, estava um pequeno pássaro.

Saltitava. Quase lhe não ligava, quando se surpreendeu pelo passarito, que em vez de fugir assustado, limitou-se a dar um pequeno pulito, não saindo do sitio em que se encontrava pousado. Tomou tal alheamento como um desafio e avançou ostensivamente. Nada, o pássaro na mesma ficava.

Resoluta avançou até quase ao pássaro se encostar, inclinou-se e procurou-lhe o olhar. O pássaro olhou-a, também, de lado com olhar de pássaro, sem medo nem susto mas com ar astuto.

Surpreendida por não ter voado nem lhe rejeitar a presença, nem deu pelo insólito de o passarito lhe falar. Respondeu o que lhe ocorreu, dizendo o que então disse, com o olhar perdido no mar. Ficaram assim os dois tempos esquecidos. Ela contando suas agruras, desventuras, lutos, rejeições, pequenos e grandes desgostos, insistindo sempre que o mal era dela. Ele, contou-lhe o que via pelo mundo, os locais por onde voava, o esforço em vencer o vento, o frio de dormir ao relento, a dureza da vida e da procura de comida.

Desenroladas ambas as vidas, sobressaltou-se o pássaro com o que ela disse: "Não devia ter nascido, minha vida é um arrepio". O pássaro olho-a fixamente, como se fosse gente. Gente compreensiva e inteligente: "Olha o grande arrepio não é nascer, é crescer. Toma minhas asas por empréstimo e dá-lhe o melhor préstimo. Voa e conhece, conhecer é crescer sem te sentires rejeitada". E dizendo isto desapareceu deixando-lhe ficar as asas que lhe ofereceu. Ela experimentou, ganhou confiança e voou. Primeiro com cautela desmedida do sitio onde estava para a árvore que por ali havia perto. Depois fez um voou longo, sobre o mar até chegar ao deserto. Voou por todos os locais que o pássaro lhe contou. Tinha apenas um dia e era preciso usá-lo bem. Fê-lo de dia e de noite. Passou a linha do horizonte. Voou, voou, voou...
Muito chegado o prazo que o pássaro lhe tinha dado, voltou ao local para a devolução das asas emprestadas. Ia eufórica, radiante e uma energia diferente transparecia-lhe do semblante. No local, esperou. Esperou, mas o pássaro não vinha nem chegou. Estava na hora, e agora? Como devolver as asas com que voara?

De repente as asas lhe desapareceram e ela percebeu com tristeza que ele as levara sem um último encontro. Sentou-se no chão. Não chorou porque um sem saber o quê não deixou. Não sentiu angústia nem desgosto, mas apenas pena de não poder contar que acabara para ela, pelo que acabou de viver, "o grande arrepio" de crescer... Nem deu por quem se aproximou e quando deu, depressa se levantou.

Era um um jovem, quase homem. Nem belo nem feio, atencioso e de voz terna. Falou-lhe com uma voz que lhe pareceu familiar. Depois das primeiras palavras de encontro, ela falou-lhe desinibida o que contava dizer ao pássaro. Ele ouvia-a atentamente, como se fosse novidade tudo o que ela lhe ia contando com vivacidade, sem vestígios de qualquer ansiedade, daquela que ela julgava lhe ter moldado o rosto...
Rogério Pereira

19 dezembro, 2017

CONTOS DE NATAL - I (Um conto meu que muitos julgaram não ter sido eu quem o escreveu)

Com este conto retomo uma série publicada em 2013. Faço-o por várias razões, designadamente porque quanto mais os raleio mais gosto deles.   
imagem "Morte e Vida" de Gustav Klimt 

"A morte voltou para a cama, 
abraçou-se ao homem e, sem 
compreender o que lhe estava a suceder, 
ela que nunca dormia, sentiu que o sono 
lhe fazia descair suavemente as pálpebras.
No dia seguinte ninguém morreu." 
Saramago - As intermitência da morte" - pág. 214


Se a Morte tivesse qualquer sentimento, como em tempos terá sentido, esse sentimento seria o da surpresa aliada à sua confessada impotência de, por si mesma, acabar com a vida. A surpresa tida foi pela manifesta ignorância dos ministros. Mas foi da sua impotência em satisfazer o governo que falou demoradamente, naquele conselho onde o primeiro ministro a quis presente.

"É a vida que determina quando intervenho", disse a Morte. Disse-o mais que uma vez e ilustrou que é coisa humana o acontecer encurtar-lhe a chamada. Mesmo que o último sopro de vida seja coisa natural, ela tem de esperar que tal aconteça para cumprir a sua tarefa. Explicou que não se desespera pela espera, nem se apoquenta se a vida se prolonga. Todos os ministros a escutaram, contrafeitos por não terem, como esperavam, uma colaboração a contento. 

A um dado momento, a Morte deixou insinuar que apenas tinha alguma capacidade de persuasão aos vivos deprimidos para se deixarem levar por ela. Gostaram dessa parte e logo o  ministro da coisa social lhe estendeu uma pen, dizendo-lhe. "Tem nesta base de dados milhares de coitados a quem cortámos a pensão, a quem lhes vai faltando a sopa e o pão, a todos cortaram a electricidade por falta de pagamento e a água ser-lhes-á cortada a qualquer momento, faça o seu melhor".

A Morte saiu à rua pronta para cumprir a tarefa prometida de ir, na medida dos seus saberes, acabando com a vida. E assim fez, seguindo a lista que o ministro lhe dera. O tempo foi-se passando e com a sua forte persuasão aumentaram os suicídios, os parricídios e muitos outros crimes de sangue. Alguns nomes da lista eram apenas convencidos a deixarem-se morrer, e morriam. Quando restava um único nome na lista, para toda a sua missão se considerar cumprida. dispôs-se a ir convencê-lo a acabar com a vida.

O homem estava sentado no escuro, pouco se incomodando com ele. Conhecia todos os cantos à casa, a disposição de todos os móveis e a colocação de tudo o que precisava mas que deixou de usar. Não era a escuridão que o incomodava. A fome ia-a enganando como podia e a sede era saciada com a chuva que ia apanhando numa bacia, numa jarra e numa panela, colocadas, uma em cada janela. Ia sobrevivendo ocupando o pensamento com coisas de não pensar. O homem levantou-se e numa decisão, não pensada, tomou um destino impensável: ser um sem-abrigo. Na rua, andou, andou, andou e os pés e pernas lhe incharam de tanto andar. Perdeu a noção dos dias. Perdeu a noção de tudo. Fugia de todos, até dos outros sem-abrigo. A Morte, que o seguia, sentindo a falta do luar, resolveu ser a altura certa para o abordar. "Que vida esta, aquela que tu levas?" e o homem não lhe respondeu. "Porque não lhe pões fim?" e o homem não lhe respondeu. "Ninguém suporta uma vida assim..." e o homem parou, olhou a morte de frente e, sorrindo sem lhe responder, seguiu-lhe a sugestão. Seguiu em frente, virou à direita, meteu-se pela rua estreita e depois por outra, larga, que dava para a marginal. Atravessou-a, lentamente, direito ao penhasco que havia ali, sobre o mar. Nem ouviu o que se teria ouvido se mais gente por ali andasse. E o carro com travões a fundo e guinando para um dos lados, não evitou o embate...

Uma luz clara inundava todo o branco ambiente que se ia alegrando com os tons coloridos das luzes que iam piscando, de um canto. Abriu os olhos e deu com uma cara de anjo que o não era pois os anjos, que se saiba, não usam estetoscópios pendurados em pescoços bem torneados. A médica sorriu-lhe, "Livrou-se de boa, dorme há três dias. Amanhã, se tudo correr bem, já pode ter alta" e quando ia a sair regressou "Há uma senhora, que tem vindo todos estes dias, deixou-lhe este recado." e estendeu-lhe um papel perfumado. Dizia:
"O governo foi demitido depois da sublevação impetuosa dos sem-abrigo... tu eras o último da lista... Não te incomodo mais. Incomoda-me tu a mim." e tinha um número de telefone de uma rede fixa, no fim.
Rogério Pereira

18 dezembro, 2017

O Bolo Rei


Não se pense que vos venho falar outra vez de doçaria ou da arte de bem amassar ou enfeitar o guloso bolo. Venho-vos falar de um camarada (e muito amigo), não por mim mas pela letra de uma escritora, sensível e sua admiradora.
E é assim:
«Todos os anos, quando os velhos Reis Magos acabam de atravessar a pequena estrada de areia que se esboça entre caminhos de musgo e lagos feitos de bocados de espelho partido; quando a estrela de prata que se suspende entre os dois exemplares de “A Paleta e o Mundo” de Mário Dionísio se recolhe para regressar à velha caixa de papelão, com trinta anos de viagens, cheia de bocados de jornal amachucados que ainda guardam notícias de dias que já foram e onde se embrulham os cordeirinhos, os pastores, as oferendas várias que o Menino Jesus recebeu, apesar de já lhe faltar a mãozinha direita que alguém partiu em excesso de limpeza; todos os anos, dizia, recordo a história que o Fernando Midões me contou, certa tarde em que misturámos poemas com lágrimas.
De calças à golfe, lacinho à Baptista Bastos, fato de ver a Deus e celebrar o Dia de Reis, Fernando foi com a mãe jantar a casa das senhoras, gente de talher de prata, criadas de avental branco e crista engomada, cheias de silêncios e reverências.
Com olhos de amora madura, esse sorriso que ainda hoje conserva, sempre molhado de uma melancolia que tem de adivinhar-se mais do que ver-se, Fernando entrou na sala de jantar das anfitriãs, cujas portas só o espírito natalício abria, raros que eram os gestos de caridade e partilha. Assim se explicava a presença do rapazinho e sua mãe, viúva recente e que ali trabalhava de manhã à noite, para que a vida se assemelhasse ao que já fora.
Servidos os manjares da época: a canja onde as bolhas de gordura lembravam pequenos sóis fumegantes, o leitão de maçã vermelha na boca que olhava Fernando em gritos de sufoco que só ele, poeta em germinação, conseguia ouvir; os fritos vários que nas travessas exibiam a abastança, chegou finalmente e foi colocado em lugar de honra, no centro da mesa, ladeado por dois castiçais onde as velas vermelhas ardiam, o bolo-rei, roda magnífica de cores, frutas, pinhões, bocados de açúcar que lembravam neve e cujo esplendor ofuscava o dourado das filhós, os reflexos das garrafas de licor, o brilho dos copos de cristal.
Fernando, pequenino, queixo tocando a toalha de renda, olhava aqueles mistérios de cor e perfume e falava, falava, dizia coisas tão a propósito que as senhoras, enlevadas, não se cansavam de sorrir e felicitar a mãe que tal filho tinha. Então, a mais velha, cabeção de renda e camafeu de marfim a fechar as golas, pega na faca de prata e com solenidade, meticulosamente, parte o bolo. A criada ajuda à distribuição nos pratinhos de sobremesa.
— Agora, não se esqueçam: aquele ou aquela a quem calhar a fava terá de pagar o bolo-rei no ano que vem!
E entre comentários de enlevo, gula, elogios à tessitura e ponto ideal do levedo da massa, à abundância das frutas, à maciez e agrado do paladar, se comeu a sobremesa.
A prenda calhou à criada.
— Que sorte! Mostre lá!
— Olhe que medalha tão bonita! Parece uma libra de verdade. Até pode usar no fio que ninguém diz que não é autêntica.
— E tu, Fernandinho, não acabas de comer a tua fatia de bolo?
— Come que está bom e fofinho!
Fernando, subitamente silencioso, abanava a cabeça em negativas.
— Então, filho! Não sabes falar? Responde às senhoras: queres mais um bocadinho de bolo?
— Ao menos acaba esse!
— Está cansado, coitadinho! Deixe-o lá.
Fernando baixava a cabeça, cabelos lisos na testa. A noite ia adiantada. A Miguel Bombarda, onde moravam, ainda ficava longe. Sim, minha senhora, amanhã às oito cá estarei, se Deus quiser, para cortar o vestido novo e pôr em prova a saia do “tailleur”. Foi uma noite muito bonita. Muito obrigada! Fernando dá um beijo às senhoras e agradece. Diz obrigado, Fernando!
Fernando deu o beijo às senhoras, esticou a cara, pôs-se em bicos dos pés, encheu os olhos de gratidão.
— Diz obrigado, filho! Mas o que te aconteceu?
— Deixe-o lá, coitadinho, perdeu a língua. É o sono, não é?
Descem o elevador, abrem a porta da rua. A mãe, agastada, ralha:
— Mas que vergonha! Umas senhoras tão boas, recebem-nos como família, estavas a portar-te tão bem e agora isto, nem uma palavra de agradecimento, nem boa noite, é esta a educação que te tenho dado? Se o teu pai fosse vivo…
Então, já na rua, o frio de Janeiro a gelar-lhe as mãos e o nariz, a névoa a transfigurar a rua e as pessoas, Fernando, finalmente, abre a boca e lá do fundo deixa voar o mistério da sua inesperada mudez:
— É que me calhou a fava, mãezinha. Eu sei que tu não tens dinheiro para, no ano que vem, comprares um bolo-rei igual àquele.
E, na palma da mão pequenina, cuspiu a fava que ali nascia, quente ainda, do esconderijo em que estivera.
E ainda hoje, nas horas mais dolorosas, quando se esquece de mastigar a comida que arrefece no tabuleiro da cantina e prefere viajar no país da infância, Fernando Midões, meu irmão mais antigo, sente a ternura solidária do abraço e o húmido das lágrimas com que a mãe o aconchegou junto de si.
Sem palavras, mãe.
Sem palavras.»

Maria Rosa Colaço
Viagem com Homem dentro (adaptação)
que uma minha querida amiga me deu a conhecer
E quem é Fernando Midões? 

17 dezembro, 2017

Cartão de Boas Festas com algumas previsões para 2018 - II


O anterior cartão tinha um sentido local, doméstico. Este é mais envolvente. Cá fica um cartão que encerra uma contradição e desejos sinceros mas quase impossíveis de acontecer, embora já tenha acontecido e até vem, algures, acontecendo...
E agora algumas previsões para o ano que aí vem: 
  1. Trump não mudará de penteado, a menos que alguém o despenteie;
  2. Jerusalém só não será capital de Israel se o Pentágono não quiser;
  3. A NATO continuará a ser o braço armado da defesa da Paz no Mundo e continuará com a estratégia de a melhor defesa ser o ataque, tal como se tem visto desde a invasão do Iraque;
  4. Sejam quais forem os resultados eleitorais na Catalunha, Barcelona continuará a ser a sua capital;
  5. A tendência para que 1% dos mais ricos continuem a concentrar  riqueza  é uma certeza, o que não será novidade. A novidade é que a classe média continuará sem perceber que esmifrar a pobreza já não chega;
  6. Aquela tendência também se registará em Portugal, donde a necessidade mais que evidente das IPSS continuarem a crescer:

Cartão de Boas Festas com algumas previsões para 2018 - I


Começaram a chover desejos de todo o lado e eu não podia ficar calado. Cá fica um cartão com desejos sinceros e algumas previsões para o ano que aí vem. Assim, prevejo:
  1. Que não vai haver sol na eira e chuva no nabal
  2. Que os rios continuarão a correr para o mar
  3. Que Marcelo vai tentar conseguir estar ao mesmo tempo em dois sítios diferentes, mas não irá conseguir
  4. Que o dito cujo se vier a ser confrontado com a opção em receber o vencimento como comentador ou como Presidente não irá reunir o Conselho de Estado para tomar uma decisão
  5. Que entre Santana e Rio, o PSD elegerá um deles
  6. Que a Cristas não será convidada para liderar o PSD, dada a minha previsão anterior
  7. Que os jornais teimarão a reclamar-se como imprensa escrita
  8. Que a geringonça conseguirá chegar ao fim do mandato, se o Assis deixar
  9. Que continuaremos a ser rendeiros da nossa própria terra
  10. Que, para o ano, meus netos terão mais um ano

15 dezembro, 2017

Bansky, a parede e eu


Era eu ainda só pai de duas filhas (a minha mai-nova não era ainda nascida) quando para o quarto do fundo a Teresa comprou, fez bainha e pendurou um cortinado bonito. Tinha umas árvores e um burrinho. Encantado, dispus-me a fazer o que ainda nunca tinha feito, um desenho. Depois pintei-o. E a parede do fundo ficou a condizer.

Hoje a parede está lá, minhas filhas, as três, estão crescidas. Netos? Já os conhecem. A parede do fundo continua lá, lisa. Um dia destes armo-me em Bansky, desenho-lhe uma daquelas coisas que ele desenha para a escola. E por baixo, deixo em letras garrafais, citando o autor:
Não se esqueçam, é sempre mais fácil obter o perdão do que a autorização.

13 dezembro, 2017

O futebol é tão só e apenas a coisa mais importante de entre aquelas que não têm importância nenhuma...


O Benfica está fora da Taça de Portugal depois de perder em Vila do Conde, frente ao Rio Ave, por três a dois. Vejamos o quem vem depois. 


Sorriam, é (quase) Natal

 
Sorriam, é (quase) Natal

Há sorrisos para todos os gostos
Há-os irónicos
Há-os trocistas, os sumptuosos
os envergonhados, os dos vaidosos
Há sorrisos alarves e há os tímidos
Há os sorrisos dos vencedores
e os sorrisos humildes dos vencidos
Há os sorrisos de desdém

E cada um mostra o sorriso que tem
O meu?
O meu é convicto, embora triste
E tu? O teu?, porque sorriste?
Rogerito

12 dezembro, 2017

Isaltino Morais, In-Ov? Inova, uma ova!

Não digo que o homem não queira, só que ele só não chega. Diria até que será mau que chegue, pois a democracia não se constrói com homens sós. 
E o que vem isto a propósito? Tão só por isto: um horroroso Relatório de Execução da Gestão do Executivo vencido foi aprovado (ontem) com votos do PSD, IOMAF e pelo IN-OV vencedor. Foi sim senhor. Só três contra e 15 a favor.

E o que foi tal horror? Eu explico (mesmo para aqueles que não percebam nada disto):

10 dezembro, 2017

Poesia (uma por dia) - 93


Confissão de um terrorista!

Ocuparam minha pátria
Expulsaram meu povo
Anularam minha identidade
E me chamaram de terrorista

Confiscaram minha propriedade
Arrancaram meu pomar
Demoliram minha casa
E me chamaram de terrorista

Legislaram leis fascistas
Praticaram odiada apartheid
Destruíram, dividiram, humilharam
E me chamaram de terrorista

Assassinaram minhas alegrias,
Sequestraram minhas esperanças,
Algemaram meus sonhos,
Quando recusei todas as barbáries

Eles... mataram um terrorista!

Mahmoud Darwich (in "Voar Fora da Asa")

09 dezembro, 2017

O Natal, a língua e a gastronomia ou a crónica de uma inocente ofensa

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza
Natal dos Simples - José Afonso

Na proximidade do Natal, calha que fale dele pela parte que dele mais gosto. Podia dizer a boca, mas na verdade o que eu quero dizer é mesa, pois é à volta dela que a família se junta. E os doces são pretexto para adocicar os afetos, para entreter a expetativa das crianças no que lhes tocará no sapatinho ou apenas para matar a fome, nas casas de gente simples. 

Na doçaria tradicional do Natal, as rabanadas tem um lugar especial. São saborosas, gulosas e, como toda a gastronomia que resulta dos parcos recursos, não há mesa onde não apareça. Não há pobre que as não prove. 

No entanto, manda a boa e rica língua portuguesa que tais fatias surjam em cada lugar com nomes diferentes. Dei-me conta disso nas circunstâncias mais desconfortáveis... Eu conto:

Estava no restaurante Casa Aleixo, em Campanhã. Boa comida, um "verde tinto" de estalo, bom atendimento e preço confortável. Terminada a boa janta, a atarefada empregada sobraçava a lista das sobremesas e despejo-a na mesa, com um sorriso, enquanto levantava, lesta, travessas, pratos e copos. Ia a pedir só um café, mas passei os olhos pela oferta. Vinham lá, com fotos e tudo. A imagem, o seu aspeto suculento traiu-me  o intento de só me ficar pelo simbalino. À chegada da empregada, pedi-lhe uma "fatia parida". Ela olhou-me. Corou intensamente, não sei se de raiva se de cólera e disse com voz firme: 

"Não sei o que o senhor quer, mas podia ter mais respeito, passe pelo balcão terá lá a sua conta"

Só então percebi duas coisas: primeira, no norte ou se tratam as rabanadas por rabanadas (ou fatias douradas) ou não há nada para ninguém; segunda, a ofendida estava grávida.

08 dezembro, 2017

Trump: “Hoje, finalmente reconhecemos o óbvio: que Jerusalém é a capital de Israel”

«...este súbito anúncio põe fim a uma encenação de décadas: a dos EUA como mediador do “processo de paz” israelo-palestiniano. As aspas são porque não há processo de paz nenhum. Portanto, o anúncio de Trump não o inviabiliza, como muita gente tem lamentado. O que faz é puxar o tapete a quem se esforçava por manter a ideia de que os EUA estavam empenhados num “processo de paz”. Desde que Israel é Israel, todos os presidentes americanos fizeram, mais ou menos, esse esforço. Era estratégico, dominou a política da Casa Branca, e o que muitos comentadores americanos parecem lastimar mais no anúncio de Trump é que ele retire aos EUA o protagonismo de sempre.»

Acabou o teatro dos EUA entre Israel e Palestina (ler tudo aqui)

A realidade? A realidade é nos vídeos narrada e explicada como se todo o mundo fosse muito estúpido...

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07 dezembro, 2017

Refeições escolares: "Que no ano letivo de 2018/19 não possam ser renovados os contratos de concessão em que a ação de fiscalização tenha identificado falta de qualidade"*

*Proposta do PCP que o PS rejeitou 

Com os ingredientes da imagem acima faria a minha Maria uma boa refeição.
As escolas, no geral, até parece que não. Mostra-o o programa "Linha da Frente".
Pena que o programa, em vez de um "chefe de cozinha" despropositado, não tenha colhido imagens do Parlamento onde o PS votou contra as propostas do BE e do PCP por elas assentarem num pressuposto que o PS considerou errado: o pressuposto de que todos os problemas ficariam resolvidos se os refeitórios e cantinas fossem todas geridas directamente pelas escolas. No programa da RTP  o diretor da Escola de Ponte de Sor desmente o argumento do PS e dá testemunho em reforço das cantinas geridas pela escola...
E quanto a qualidade, ponham o Diogo e a Maria como controladores e vão ver se a coisa não resulta! Resulta, e a baixo custo...

06 dezembro, 2017

Johnny Hallyday - in memoriam

Hallyday gravou 50 álbuns e vendeu mais de 100 milhões de discos, encarnando uma imagem 'bad boy', com todos seus ingredientes.
Resultado de imagem para a primeira gravação de Johnny Hallyday


05 dezembro, 2017

Hoje estou do lado dos empresários... dos pequeninos, claro!


Pois é! Isso mesmo, sem tirar nem pôr. Há uma porrada de tempo que ando para vos falar disso. Primeiro quando assumi. Depois quando representei num e noutro lado. Mais recentemente quando o patrão da CIP ficou zangado com este Orçamento Geral de Estado enquanto eu batia palmas à decisão que tanto o fez "ir aos arames". A imprensa deu-lhe palco, holofotes e parangonas de títulos de caixa alta nas (primeiras) páginas dos jornais e lugar destacado em todos os telejornais.
Sobre nós, CPPME, sobre as 18 propostas apresentadas a imprensa disse... nada.
Sobre o facto de apenas uma proposta (daquelas todas) ter passado, economistas, fiscalistas, analistas e outra gente de "bom" porte disseram... nada.

Mas porque veio agora isto à baila? Veja o vídeo
(mesmo amador, tem lá tudo)

04 dezembro, 2017

Centeno, a eleição e o furacão

A chamada de primeira página não é mais seguida no texto que o DN desenvolve no interior da edição de hoje. Os jornalistas de serviço não retomam o termo "furacão" e passam a citar Carlos Zorrinho, Paulo Rangel, Marques Mendes e Luís Campos e Cunha que, resumindo, consideram que se Centeno for eleito, "será bom" por isto e por aquilo...

Conhecido esta tarde o resultado, aqueles e outros andarão por ai reclamando parte dos louros e que estes competirão também a outros...

Quanto ao termo furacão, ele traduz bem duas coisas: 
  • a primeira, é que com toda a competência que se lhe reconheça, a Centeno não são atribuídos especiais conhecimentos em climatologia; 
  • segunda, o Eurogrupo é uma tertúlia onde, informalmente, se fala do tempo, se comenta e avalia o "Borda d´Água", sem agenda nem acta.
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«(...) Só uma ilusão desligada da realidade institucional da União Europeia – em que as grandes potências, com destaque para a Alemanha, determinam as decisões do Eurogrupo – ou uma estratégia de branqueamento das políticas e responsáveis da União Europeia a partir da actual realidade política portuguesa, é que pode ver na designação do Ministro das Finanças português uma qualquer alteração das políticas e opções da União Europeia.»

Clube Futsal de Oeiras, um marco no associativismo desportivo - II


Depois da primeira vez que fui, fiquei fã e voltei. Julgam que foi para ver o Diogo fazer fintas, dribles vistosos, cortes oportunos, corridas de estilo, centros a preceito e remates com jeito? Nem pensem*... aliás, perdi um belo golo que o Diogo marcou... fui lá para confirmar o que já tinha percebido, daquela vez.. ao ter lá ido.


*A avó, depois de ler isto veio dar-me uma reprimenda por eu não ter deixado um carinho,.. como se este post não fosse, todo ele, eivado de ternura

02 dezembro, 2017

Centeno, podia escrever centenas de coisas sobre Centeno. Mas não, hoje não escrevo...

Quem veio espreitar a julgar que tinha coisa "avinagrada", esqueça. Daqui não leva nada!
Hoje tenho um doce.
Um daqueles doces
em que o doce
pergunta ao doce
qual era o doce
que era mais doce
e o doce
responde ao doce
(com um sorriso)
Um vídeo!