28 dezembro, 2017

"O Bolo Rei" - II (o conto e o testemunho)


Quando há dias me deparei com aquele "Bolo Rei" depressa passei a distribuir fatias para que fosse dado a outros saboreá-lo e ao mesmo tempo dar a conhecer esse meu camarada, a que se refere um conto bem contado.
A ajudar-me na tarefa, o sítio "Abril de Novo Magazine" apresentou-o em lugar de destaque e eu recorri a tudo para o levar a muitos.
Agradecimentos, poucos.
Mas este, valeu por todos:
Obrigada, Rogério!

A história, “romanceada” pela Maria Rosa Colaço, muitos anos mais tarde, passou-se de verdade, em casa do avô paterno do meu pai, era ele pequeno, e o bolo –rei do tamanho de uma roda de automóvel, para chegar para toda a  família …

A minha avó, viúva desde um mês antes do meu pai nascer, era modista, trabalhando para sustentar o filho, a mãe, e uma prima (quase irmã, que tinha sido deixada em pequena pela respetiva mãe , lá em casa…). Quando as “Senhoras” não pagavam os vestidos “a pronto” e se “esqueciam” das contas…a minha avó ia empenhar as escravas (pulseiras de ouro, que o marido lhe havia oferecido no casamento…) no prestamista, para pagar às costureiras e aprendizas que trabalhavam para ela.

O meu pai, criado só por mulheres, habituou-se, desde pequeno, a ver as pulseiras a desaparecerem, sabendo o que isso significava.

Eram outros tempos, em que as pessoas morriam com tuberculose, como aconteceu ao meu avô (aos 27 anos); em que as mulheres (das Avenidas Novas) não trabalhavam, e a minha avó fazia-o (era uma modista de nome…hoje são estilistas!), porque em Portugal, as mulheres, por morte dos maridos, não herdavam!; eram tempos de recorrer ao prestamista e não ao banco; eram tempos de guerra, com racionamentos e dificuldades; eram tempos em que os rapazes usavam calções até entrarem no liceu (os que para lá podiam ir…e o meu pai, mesmo com todas as dificuldades, era um menino das Avenidas Novas…), que depois usavam calças à golfe (como o Tintim…) e só no final da adolescência vestiam calças… Numa Lisboa ainda rural, de pregões e de fornecimentos à porta (a peixeira, o leiteiro , o padeiro, o homem do jornal…), de rol mensal na mercearia e no talho, onde se faziam os “avios” que os aprendizes levavam a casa.

Quando, naquele Dia de Reis lhe saiu a fava, o meu pai ficou em pânico, pois sabia que a mãe não tinha dinheiro para comprar o Bolo-rei-do-tamanho-de-uma-roda-de carro, no ano seguinte. Ninguém percebeu porque o Fernando não conversava, como era hábito. Ninguém entendeu porque não aparecia a fava…O meu pai estava a roê-la, com muito cuidado.

Só à saída de casa do avô, é que o confessou à mãe, pedindo desculpa!
Claro que ficou uma história referida e lembrada para sempre na família!

Boas Festas!
Ágata Branco
Obrigado, Ágata é um belo testemunho a juntar ao conto.

(Quem ler este, não perca o outro.)