20 junho, 2018

A identidade dos bairros e, ainda, o encerramento da "minha" Caixa


Hoje, de manhã, um vizinho do "bairro velho" lembrava que aquela agência da CGD foi uma resposta tardia às reivindicações da "comissão de moradores do Bairro da Medrosa". A partir daí, e durante a recolha de assinaturas contra o encerramento da Caixa, foi um desfilar de memórias. À memória dele, juntava eu a minha, somando o que foram as exigências para o arranjo dos logradouros, para que fossem de aterros passados a espaços ajardinados. Para que ali passasse a haver uma farmácia, um campo de futebol, uma escola. 

Depois de muita luta, de deslocações ao Fundo de Fomento de Habitação e à Câmara (que considerava o bairro clandestino) e depois dos moradores plantarem, com as sua próprias mãos, algumas árvores, lá cedeu a Câmara em ordenar e empedrar passeios, a ajardinar espaços e a colocar aparelhos para recreio da pequenada. 

Depois veio a escola, primeiro em barracões e depois no que é hoje a EB Beça Múrias (patrono que fora morador, e insigne jornalista). E veio a farmácia, primeiro num sítio e hoje noutro. E no que eram os barracões, hoje Centro Paroquial, por lá ensaiava a banda do Nélito (cujos acordes eléctricos, despertavam reclamações dos vizinhos do Bairro Velho) e se meia a tensão aos idosos, com a voluntária prestação de jovens médicos.

Tudo isto veio à conversa, numa jornada de recolha de assinaturas... 
Agora que reporto essa empenhada tarefa de hoje vieram à baila os rostos. A imagem acima (de 1973 ou por aí) é a única que tenho comigo, e está longe de retratar todos aqueles que contribuíram para dar identidade ao nosso bairro.

(memória, saudosa, dos que já partiram)

19 junho, 2018

Contra o encerramento da Agência da Caixa, cá no meu bairro...


O meu bairro, conhecido pelo "bairro novo das caixas", faz parte de um agregado urbanístico que integra "o bairro velho".  Estes bairros são originários do antigo sistema de previdência, um e outro construídos pela "Caixa de Previdência" e pela "Caixa Nacional de Pensões" respectivamente.

Junta-se a esses, um bairro de iniciativa municipal, mais recente. Estes três bairros alojam famílias da classe média baixa e neles residem cerca de 3800 eleitores, na sua grande maioria gente idosa e como já referi aqui, gente de magras reformas ou pensões.

Amanhã, a partir das 10h da manhã, vou estar à porta da CGD a recolher assinaturas, de um abaixo assinado, com o seguinte texto:

A Administração da Caixa Geral de Depósitos tenciona encerrar dezenas de balcões em todo o país. Entre esses balcões está o balcão da Medrosa, cujo encerramento está previsto para o final do mês de Junho.
BASTA! Toda a população local, e em especial os idosos, precisam dos Serviços Públicos! E a Caixa (CGD) é o banco público do Estado!
Não podemos permitir que se continue a financiar a banca privada e os seus desmandos com dinheiros públicos (que são o enriquecimento de alguns, com o fruto do trabalho de todos), e que depois se encerrem os serviços públicos, fundamentais às populações, alegando falta de recursos!
É pois hora de defender as populações e os interesses do Estado e exigir que o Governo através da Administração que nomeou para a CGD mantenha em funcionamento os balcões, fundamentais à população, como é o caso da Agência do Alto da Barra, na Medrosa!
Face ao exposto, os abaixo-assinados:
1. Exigem da Administração da Caixa Geral de Depósitos o recuo na decisão de encerramento da agência; 

2. Exigem da Junta de Freguesia da União de Freguesias de Oeiras e S. Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias, da Câmara e da Assembleia Municipal de Oeiras toda a solidariedade e diligências necessárias junto das entidades competentes para garantir a continuidade do funcionamento da agência;
3. Exigem ao Governo que actue junto da Administração da Caixa Geral de Depósitos para garantir a continuidade do funcionamento da agência.

17 junho, 2018

Uns desenham sonhos, outros constroem pesadelos


O rectângulo, a vermelho, assinala a localização da"Caixa", cá perto do meu bairro. O Macedo vai fecha-la e o Governo, que tem confiança no Macedo, deixa. Macedo, presidente da Caixa, redesenhou a nova rede de balcões e agências da "Caixa" segundo os cânones de Bruxelas. São cerca de menos 70, incluindo a "minha", que vai na leva. Bruxelas impõe à "Caixa" critérios de rentabilidade, os mesmos que se aplicam à banca privada.

Bruxelas está-se nas tintas para o que seja serviço público. O Governo, também assim, está-se nas tintas para o que seja lá isso de serviço público.

Macedo, que é um cumpridor zeloso das ordens de Bruxelas e do Governo, desenhou o pesadelo de dezenas de milhar de idosos, detentores de pequenas contas que movimentam magras pensões e reformas ou, quanto muito num caso ou outro, do seu pequeno pé-de-meia, amealhado durante uma vida inteira. Eles, os reformados, pensionistas e idosos, que paguem a gestão danosa!
«Empréstimos de dezenas de milhões de euros, ou por vezes mesmo de centenas de milhões de euros, concedidos com garantias frágeis, investimentos em aquisições de participações sociais e uma elevada exposição, através de crédito, a empresas espanholas que se relevou ruinosa, foram algumas das decisões que estão ainda hoje a pesar nas contas da Caixa. Acresce a este cenário uma investida no mercado brasileiro — um banco e uma corretora —, onde a Caixa acumulou prejuízos nos últimos anos. E uma operação em Espanha que se tornou desastrosa, obrigando inclusive à criação de uma espécie de ‘banco mau’, para separar os créditos tóxicos da atividade bancária e embelezar o banco. Espanha teve prejuízos de €488,4 milhões em 2011, devido a provisões e imparidades no valor de €1,6 mil milhões. Foram anos de euforia.»
Se há tantos a construir pesadelos, temos de continuar pela rua a combate-los e a desenhar sonhos (por gestos), para que se não lhe acabe o sorriso...

15 junho, 2018

Redacções do Rogerito (40) - [Campeonato do Mundo de Futebol]


Diz um senhor que por acaso é meu tutor que o futebol é a coisa mais importante de entre aquelas que não têm importância nenhuma e diz outro que até é cantor que a vida é feita de pequenos nadas pelo que ligando tudo talvez o primeiro jogo no campeonato tenha sido de encantar pois se a vida é feita de pequenos nadas e se um empatar  sendo o mesmo que nada mais vale isso que coisa nenhuma.

Eu desejo muito que Portugal seja campeão Mundial mas ao mesmo tempo receio que venha a acontecer aquilo que já acontece e que vai contra o que diz o meu tutor passando a ser o futebol a coisa mais importante e as que são verdadeiramente importantes passem a não ter importância nenhuma.

Uma referência especial ao Ronaldo para desmentir o cantor que canta que a vida é feita de pequenos nadas é que quem nada tem na vida se tivesse a massa que o herói desviou ao fisco seria muito rico.

Hoje no hat trick Ronaldo foi magnifico e por este caminho quero a selecção no Panteão!

Me assino
Rogerito 

13 junho, 2018

"A quadra é um vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma..."

Fernando Pessoa 

 
Desgarrada, datada *
Procurei desgarradas
Cantares de encantar
Só encontrei cantigas maradas
O povo perdeu seu cantar

O povo perdeu seu cantar
O povo perdeu o piu
Fartei-me de procurar
Cantigas ao desafio

Cantigas ao desafio
Com a alma posta à janela
Desgarrada, alguém a viu?
Alma do povo, que é dela?

Vale quem aqui deixou
Quadras bem rimadas
Quem os versos bem rimou
Sabe o peso das palavras

Sabe o peso das palavras
Sabe bem o sabor delas
Quadras bem rimadas
Postas nas nossas janelas

Postas nas nossas janelas
Como um regado manjerico
Boa noite meus senhores
Está na hora do namorico

Rogério Pereira
*12 de Junho de 2012 - pode encontrar este meu improviso, na área de comentários de uma tertúlia escrita que reúne mais de 60 quadras. É o meu post mais visitado de sempre, sinal que o povo não perdeu seu cantar... 

12 junho, 2018

Será que a comunidade internacional acredita no Pai de Natal?

Uma pesquisa google, em 24 de Abril, deu isto
 Outra pesquisa, na mesma data, isto dava

As datas, porque são simultâneas, parecem induzir o juízo que Kim foi a correr fazer o que achava que tinha que fazer para evitar a concretização da ameaça. A imprensa, chegou a passar essa mensagem subliminar. Trump chegou a afirmar isso. Fica uma pergunta. E depois outra.

A pergunta: o que leva mais tempo, destruir uma base nuclear ou fazer uma conferência de imprensa?
A outra: A comunidade internacional acredita no Pai de Natal? 

De qualquer forma, um encontro histórico 

11 junho, 2018

Eugénio de Andrade. Há 13 anos que partiu? Quem disse?


3 de maio de 1921 – 13 de junho de 2005
_______________
Éramos jovens: falávamos do âmbar
ou dos minúsculos veios de sol espesso
onde começa o vero; e sabíamos
como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
de ventre, espaço denso, redondo maduro,

dizias; espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave –
repara como voa, e poisa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela a não tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina, ou José – o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida pela brisa?
Eugénio de Andrade
DISCURSO TARDIO À MEMÓRIA DE JOSÉ DIAS COELHO
NOTA/ERRATA: A primeira data por mim referida para assinalar a morte de Eugénio de Andrade estava errada e foi entretanto corrigida.
Assim, aproveito a errata para dedicar este post à memória das minhas referências morais e intelectuais ligando-as a proximidade das datas de acontecimentos, uns felizes outros a lamentar: O nascimento de Fernando Pessoa; as mortes de Vasco Gonçalves, de Álvaro Cunhal, de Eugénio de Andrade. Coincidências que nos marcam e que nos passam rasteiras à memória.

10 junho, 2018

10 de Junho (Camões, hoje, não aceitaria o discurso de Marcelo)


«(...) Haverá ainda quem diga que esse homem cantou a expansão imperial, apesar de tudo, as conquistas imperiais do Oriente, e está portanto fora do nosso tempo e do nosso espaço históricos, e a sua epopeia ofende a consciência das Ásias e das Áfricas. Mas ele cantou a expansão portuguesa, na medida em que considerava que esta expansão era ou deveria ser a civilização ocidental levada a toda a parte, no que tinha de moralmente digno e de socialmente responsável. Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para bem e para mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África. Momento decisivo dessa história do mundo, como eminentes historiadores insuspeitos de simpatias portuguesas ou imperialistas o têm proclamado e reconhecido. E, na verdade, esse encontro (e esse Império que, no tempo de Camões, com todos os erros e crimes, não era os impérios coloniais inventados pela Europa do século XIX, nem socio-moralmente inferior à desordem política existente então, como hoje, em toda a parte) simboliza aquilo mesmo que, mais tarde, nos nossos dias, veio a verificar-se. Porque as ideias de independência política e de justiça social pelas quais lutaram e ainda lutam os povos da Ásia e da África, e às quais se renderam os povos das Américas ao separar-se da velha Europa, não são as tradições tribais originárias por respeitáveis que sejam: são aquelas mesmas ideias que, geradas na Europa, da Europa se difundiram, tal como as naus do Gama partiram de Lisboa para uma das mais gloriosas viagens de todos os tempos. Isso Camões cantou: e vendo-o no seu tempo, e na visão do mundo que ele teve, sabemos que devemos relê-lo atentamente para saber, que ele, tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências, se fosse em vida nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou, para glória máxima de uma língua falada e escrita ou recordada em todos os continentes. O orgulho de ser-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência e de liberdade, disso ele falou, e sentiu como ninguém. É disso um mestre.» 
Discurso de Jorge de Sena, 10 de junho de 1977
 — o primeiro depois da “Revolução de Abril”.
Jorge de Sena fez, então, um discurso memorável. Por isso eu, como se fosse romagem, o revisito anualmente. Fiz isso há pouco e encontrei a explicação do porquê de nos discursos do Presidente  o nome de Camões ter estado praticamente ausente. Falar de Camões, seria inevitável falar do que Jorge de Sena falou. E isso, poderia ser mal entendido por Bruxelas... Sim Bruxelas não iria gostar que Marcelo viesse falar daquilo em que Camões era mestre.
Mas, fica-me uma certeza, Camões, hoje, não aceitaria o discurso de Marcelo. E ele sabe-o.

08 junho, 2018

A dramática redução da natalidade e uma mão cheia de razões para explicar porque anda arredada a cegonha de tantos jovens casais



Nos últimos tempos, e ainda agora, o tema da redução dramática da natalidade tem andado pelas páginas dos jornais sem que por lá ande, como devia, a reflexão sobre as causas. Proponho-me a isso, mesmo que não creia que as cegonhas sejam uma espécie em extinção, razão que basta para encontrar outras razões, que não essa.

Aqui vai uma mão cheia de razões:

07 junho, 2018

Diz o bom povo que a esperança é a última coisa a morrer, mas de que me serve a esperança viva se entretanto o teatro foi assassinado?


O destaque dado pela imagem não significa deixar de lado todos os outros casos. O meu Partido, como lhe era devido, lançou o alerta: "Sem orçamento e com as atuais regras e o atual modelo de financiamento às artes, o caminho que está a ser seguido levará à liquidação, em alguns casos, de estruturas com dezenas de anos de trabalho artístico". 

E enumerou muitos casos: o Teatro Experimental de Cascais; o Teatrão e a Escola da Noite, ambos de Coimbra; o Centro Dramático de Évora (Cendrev); o Teatro das Beiras, da Covilhã; o Teatro Experimental do Porto; a Seiva Trupe; o Festival Internacional de Marionetas e o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI), também do Porto; o Teatro de Animação de Setúbal...

A lista é longa? 
Não é tudo, entre as 39 estruturas e projetos que ficam sem financiamento, ainda temos o Teatro Municipal de Almada. Na página do Teatro de Joaquim Benite pode continuar a ler:
«A Companhia de Teatro de Almada foi surpreendida com os resultados provisórios do concurso de financiamento às Artes, anunciado pela Direcção-Geral das Artes, que prevê um corte anual de cerca de 110 000€ ao financiamento anteriormente atribuído. Este corte, a ser levado a cabo ainda este ano, torna inviável a realização do Festival de Almada, que deveria decorrer entre 4 e 18 de Julho.
O Festival de Almada é considerado unanimemente o principal evento teatral do País e um dos mais importantes da Europa.»
Diz o bom povo que a esperança é a última coisa a morrer, mas de que me serve a esperança viva se entretanto o teatro foi assassinado?

06 junho, 2018

A póstuma vitória do PREC e o venerado defunto (para memória futura)

«O PREC acaba de obter uma vitória, ainda que póstuma, e na secretaria. O Sr. Carlucci já está a fazer tijolo.
É verdade, o ex-embaixador norte-americano em Lisboa (um dos pais da nossa democracia – um dos outros foi, como todos sabem, Mário Soares) deslocou-se em definitivo, e de forma natural, para a terra dos seus antepassados, onde certamente continuará a dedicar-se aos negócios, a jogar tennis enquanto espera pelo seu parceiro Otelo (outro especialista de terra batida) e claro, a conspirar pla democracia.
Já antes, em 1960 - e sempre, naturalmente, pla democracia - tinha conspirado com o sr. Mobutu Sese Seko, no Kongo, contra o governo de Patrice Lumumba. E, em 1964, também tinha supervisionado o estabelecimento da democracia no Brasil (municiando os esquadrões da morte e providenciando a eliminação física de dirigentes da oposição), depois do derrube do presidente João Goulart.»
 _____________________________

Ontem, dia 5, PSD, CDS e PS apresentaram na AR votos de pesar, todos eles aprovados pelos votos de uns e de outros, com pequenas diferenças. Segue-se o texto do voto apresentado pelo CDS
«Morreu no passado dia 3 de Junho, o Embaixador norte-americano Frank Charles Carlucci III.

Nascido em 1930, serviu por mais de duas décadas nos mais altos escalões da Administração norte-americana e trabalhou sob a égide de quatro presidências distintas, tendo chegado a ocupar o cargo de Secretário da Defesa, entre 1987 e 1989.

Diplomata de carreira, representou sucessivamente os EUA, ao longo de 12 anos, entre 1956 e 1968, em Pretória, Leopoldville (atual Quinxassa), Zanzibar e Brasília. Só em 1975 é que o diplomata norte-americano seria nomeado para liderar a missão diplomática em Lisboa, o seu último posto, cujo mandato ficaria marcado inexoravelmente pela sua intervenção política em favor das forças democrática contra o PREC durante o Verão Quente desse ano e na aproximação política e estratégica entre os dois Estados.

De todos os momentos da carreira de Frank Carlucci é à frente do posto em Lisboa que viria a revelar-se politicamente mais determinante. Firme na ideia de que o processo de transição e consolidação democrática não estava perdido, contrariamente à opinião de membros da própria Administração norte-americana, Carlucci bateu-se pela restauração da normalidade do processo democrático em Portugal, ao lado dos principais protagonistas políticos da resistência, Mário Soares, de quem era amigo pessoal, Francisco Sá Carneiro e Diogo Freitas do Amaral.

A persistência com que Carlucci se bateu, ao lado das forças democráticas, valeu-lhe, em 2004, a condecoração pelo Estado português com a grã-cruz da Ordem do Infante D. Henrique e a medalha da Defesa Nacional.

Assim, a Assembleia da República expressa o seu profundo pesar pela morte do Embaixador Frank C. Carlucci, apresenta as suas condolências às família e amigos, recorda a sua intervenção política na consolidação democrática do regime.

Palácio de S. Bento, 5 de junho de 2018,
O Grupo Parlamentar do CDS-PP»
Votação
Favor – PSD, PS e CDS - PP
Contra – BE, PCP e PEV 
Abstenção – PAN e 8 Deputados do PS 

05 junho, 2018

Há muitas Marias... mas quantas mais poderia haver?

Agora tenho um trabalho a que me vou dedicar: 
  1. Saber, investigar sobre o estado da arte no desporto escolar e no associativismo. 
  2. Perceber porque nenhum clube ou associação de Oeiras não esteve presente, se por lá anda e vive tanta (miúda) gente. 
  3. Saber e investigar se algo de semelhante foi feito no meu concelho que, sendo um concelho de muitos velhos, é uma terra de muitas Marias...

04 junho, 2018

Voltando à questão da eutanásia, quero que saibam que mudei de opinião!


Hoje, pela manhã, tropecei no facebook com um post de alguém com quem com alguma frequência troco comentários que escrevia que o meu partido se tinha coligado com o CDS. Respondi-lhe e ele voltou à carga, deste modo:
«...reitero que a posição do PCP é ignóbil, oportunista e contrária à opinião de muitos militantes comunistas, especialmente jovens, que discordam abertamente da posição esclerosada de um grupo de velhos acéfalos que continua a enganar os trabalhadores com amanhãs que cantam mas eles próprios sabem que nunca se concretizam. Estamos em pleno século XXI, mas o PCP continua com o discurso do século passado em relação ao mundo laboral. Era altura de algumas mentes anquilosadas acordarem para o tempo presente.»
Deixei-lhe lá um meu "ó" de espanto e fui rever argumentos, situando-me neste século. E mudei de opinião. Isto é, passei de uma posição moderadamente contra a eutanásia, para uma outra, radicalmente contra.

Eu era moderadamente contra num meu escrito, pois aceitava o princípio mas via como condição prévia o desenvolvimento da rede de cuidados paliativos para depois, então sim, se despenalizar o acto.
Passei a ser radicalmente contra depois de ter lido os testemunhos de Theo Boer, regulador da lei que enquadra o procedimento, em vigor na Holanda, primeiro país a legalizar a eutanásia. Supondo eu que Theo Boer não seja velho acéfalo, comunista e nem tenha mente anquilosada dou importância ao que ele diz, e diz assim:
  • "No geral, as mortes por eutanásia, que respondem oficialmente por 3% de todas as mortes na Holanda, aumentaram 151% em apenas sete anos." 
  • "A eutanásia na Holanda está fora de controle". 
  • "O que estamos vendo na Holanda é a" extensão incremental ", o constante aumento intencional de números com uma ampliação gradual das categorias de pacientes a serem incluídos."
Lêr tudo aqui


Aproveito para lembrar que o sistema de saúde holandês é frequentemente apontado como um dos melhores da União Europeia e é citado pela Organização Mundial de Saúde como exemplo em vários relatórios.

03 junho, 2018

Um conto ao Domingo - XVI ("O BILHETE" - Em duas partes)



Parte I (Escrito pelo AC)
Júlio olhava pela janela. Em frente, na pastelaria, algumas pessoas tomavam a bica ao balcão a olhar para o relógio. Na esplanada, indiferente à pressa geral, um casalinho gozava os raios de sol de um Verão tardio, enquanto deitava uns grãos de trigo a meia dúzia de pombos. Mais à direita, no jardim, viam-se alguns velhos, de sorriso apagado, a olhar para nenhures, como se as pessoas que por ali passavam, qual enxame de abelhas apressadas, nada lhes dissesse. Andavam quase todos na casa dos setenta e muitos, oitenta, e já pouco mais faziam que olhar para o escoar do tempo.
Às vezes Júlio abeirava-se deles e, com a sua presença, o pulsar do grupo alterava-se. Contava uma história engraçada de outros tempos, dizia duas ou três larachas, e o efeito era garantido: os sorrisos voltavam, por momentos, a introduzir-se naquela solidão mortiça. Joana, a filha, fora visitá-lo um dia destes à hora do almoço, cinco minutos roubados ao seu correrio diário, antes de ir aquecer a comida, feita na véspera, que ela e o marido iriam engolir num ápice. Perguntou-lhe como é que se sentia, se tinha tomado os medicamentos, se precisava de alguma coisa. Depois, a propósito de nada, começou a falar do Sousa, amigo de sempre do pai, que estava há uns tempos no lar.
- Sabe com quem estive? Com a Dora, a filha do seu amigo Sousa. Está a viver no lar, e parece que o tratam lá muito bem.
Nem ele sabia outra coisa! Há dias, em conversa de banco de jardim, o João Pires falara-lhe do destino do Sousa. A notícia tocara-o e, sem dizer nada a ninguém, fora visitar o seu velho amigo ao lar. Quando o viu, arrependeu-se logo de lá ter ido. Estava sentado na varanda, sozinho, alheado de tudo o que o rodeava. Ainda lhe puxou pelo sorriso com uma ou outra graçola, mas o Sousa, que noutros tempos distribuía entusiasmo a rodos, mostrava-se indiferente a tudo. Parecia que apenas aguardava que chegasse a sua hora.
Joana estava, nitidamente, pouco à vontade a aflorar o assunto, e tentou dissimulá-lo com a intenção de lavar a pouca loiça do pequeno-almoço. Nem reparara que o pai já a tinha lavado, deixando-a apenas a escorrer no lava-loiças. Disse-lhe, então, que estava preocupada com ele, que não gostava de o ver sozinho. E se lhe acontecesse alguma coisa, quem o socorria? Gostaria muito de o levar para o andar onde vivia, mas as três assoalhadas já eram acanhadas para ela, o marido e os filhos. Na semana passada fora tirar umas informações da Casa de Repouso do Pinheiro, e gostara do que tinha apurado. Era um lugar onde tratavam as pessoas com toda a dignidade, o sítio ideal para ele. Júlio não disse nada, apenas balbuciou um "está bem" quando a filha, à saída, o lembrou do almoço de domingo em casa dela. A conversa de Joana, no fundo, não o surpreendia, pois sabia que ela não tinha condições para o receber. Ela e o marido matavam-se a trabalhar, com um horário cada vez mais exigente, e o que recebiam mal dava para pagarem a prestação da casa. Houve uma altura em que pensou que talvez lhe arranjassem um cantito na sala para dormir, mas era ele a iludir-se com a possibilidade de acompanhar o crescimento dos netos, de os sentar nos joelhos enquanto os maravilhava com as aventuras do João Pequeno, história que o seu avô lhe contara vezes sem conta na sua meninice. Mas os tempos tinham mudado. Ao que sabia, os pequenos passavam o dia fechados no infantário, no meio de dezenas de outros reclusos, e só lhes concediam uma precária quando os pais os iam buscar no fim do trabalho. Mas pouco aproveitavam do seu quinhão de liberdade. Quando chegavam a casa, os pais colocavam-nos em frente da televisão enquanto faziam o jantar. Depois comiam e, passado pouco tempo, toca a deitar, que amanhã é preciso levantar cedo. E, no dia seguinte, num imutável ritual, lá iam todos para o mesmo ramerrame. Tinha pena deles, mas que poderia fazer? Raio de tempos, estes!
Depois da filha sair, Júlio ficou mergulhado num turbilhão de pensamentos inconsequentes. As suas palavras, embora não o apanhassem desprevenido, tocaram-no como nunca pensara. Começou a dar voltas à casa, tentando ordenar ideias, mas a sensação de aperto não saía do seu peito.
Foi então que tomou uma decisão. Ainda pegou numas roupas para colocar na mala que guardava no roupeiro, mas abandonou a ideia. Dirigiu-se para a cómoda e, com todo o cuidado, retirou um estojo do fundo de uma das gavetas. Abriu-o, delicadamente, e olhou para o colar que em tempos tinha comprado para Maria, a sua mulher, pequeno luxo a que se permitira para presentear a companheira de muitas vicissitudes e alegrias. Mas ela morrera, em penoso sofrimento, uns dias antes do aniversário, vítima de um cancro de mama tardiamente diagnosticado, e o colar para ali ficara guardado como uma relíquia.
Tomou banho, perfumou-se e vestiu o seu melhor fato. Depois, delicadamente, pegou no estojo, guardou-o no bolso interior do casaco e saiu de casa.
Desceu a avenida muito direito e compenetrado, como se estivesse a escolher os movimentos certos para não engelhar o fato. Mas, ao chegar junto da estação ferroviária, algo o fez vacilar. Parou, por instantes, e ensaiou um olhar para trás. Mas foi coisa de poucos segundos. Recompôs-se rapidamente e, de forma resoluta, abeirou-se da bilheteira:
- Um bilhete para longe, para muito longe!
Quando entrou na carruagem e descortinou o seu lugar, tirou o casaco e, com movimentos tranquilos, de quem sabe o que faz, sentou-se. Enquanto o ajeitava, cuidadosamente, sobre as pernas, a sua mão, num gesto quase inconsciente, procurou o contacto do estojo, como se da mais preciosa coisa se tratasse. Maria aguardava-o, não queria fazê-la esperar mais. 
Parte II (Escrito aqui, por mim, em forma de epílogo)
Contrariamente ao que esperava, a marcha da viagem durava. Comboio lento, pensava. Júlio olhou em volta procurando olhares de cumplicidade à sua muda reclamação, pois gostaria de a sua decisão ser assegurada com outra marcha.
Nenhum rosto, e eram muitos, partilhava a sua inquietação. No banco da frente um idoso macilento dizia a outro, um pouco mais novo:
- Leste isto? Não sei se decidimos bem! 
E estendeu-lhe um papel que o outro leu atentamente e como resposta, o mais novo, encolheu os ombros, exclamando:
- Deixei de acreditar nos políticos!
Dobrou o papel em quatro e preparava-se para o devolver...
- Posso ver?
Interpelou Júlio, num impulso. O idoso mais novo entregou-lhe o papel que Júlio, pousando o estojo, recebeu para, depois de o desdobrar, também o ler atentamente.
Quando acabou, Júlio pegou no estojo, levantou-se e percorreu a curta distância que o separava da porta da carruagem. E no momento em que a marcha ainda mais abrandava saltou da composição, e rumou ainda indeciso se iria direito a casa ou se antes passaria pelo infantário para beijar os netos...



02 junho, 2018

Trump e Bruno continuam a canibalizar qualquer outro assunto


Há tempos, não há muito
fui alinhando
diferenças e semelhanças
entre Trump e o Bruno

No meu laboratório
de ensaios não destrutivos
provei por uma rogeriografia
que ambos são capazes dos mesmos actos

A imprensa
a de lá
e a de cá
aproveitam o estilo trauliteiro, o ar jucoso
de um e do outro

Os nossos canais televisivos adoram Bruno
As redacções não largam o tema
e elegem-no como questão nacional
promovendo o estilo
e fazendo com que a discussão
dos reais problemas  do Mundo e do País se esfumassem ou diluíssem na enxurrada de notícias

A notícia da semana
ficou-se pela rama
E cada um ficou com a informação que já tinha...

01 junho, 2018

Dia Mundial da Criança

 

Tenho, de entre muitas frases-feitas, uma máxima que de vez em quando repito: "se todos os dias são dias de qualquer coisa, façamos qualquer coisa todos os dias". Hoje foi o caso e não me limitei a fazer uma só. Das várias, dei por mim a pensar nas famílias que, como a minha, conseguem algum equilíbrio e, em contraponto, não deixei de pensar nas famílias desestruturadas e no que sofrem as crianças, nesses casos, tantas vezes entregues a si próprias.


Enquanto eu penso, outros vão fazendo e assinalam o dia com iniciativas. De entre esses, destaco a iniciativa dos deputados do meu Partido, hoje, na Assembleia. Aplaudo!

Não quero fechar o dia sem introduzir este filmezinho, sobre um direito das crianças a terem um amigo para a vida inteira... até como forma de fugir à sua institucionalização.

E façam o favor de sorrir...

31 maio, 2018

Christine Lagarde, O GÉNIO


Christine Lagarde: “Os que mais sofrerão com uma guerra comercial serão os pobres”. Dar esta estirada numa cimeira do ‘G7 Finance’ é mesmo genial. Claro que o tal grupo (que manda nisto tudo) não se pronunciou ainda sobre outras ameaças que pairam sobre... os ricos. Itália, Espanha e a Alemanha estão em turbulência, confrontando-se com esta e com outras "guerras"

Quando chegar a altura, o "génio" pronunciar-se-á sobre elas. 
O "Maceta" é que a topa!

29 maio, 2018

A Gralha e a Eutanásia


A gralha é uma ave que à primeira vista é simpática. A gralha é antipática quando desata a gralhar ou quando pousa, impávida, num qualquer texto. Vejam só o meu desespero quando ela me pousou num título. Emendei, mas não a tempo da emenda se projectar no espaço virtual, onde ainda a gralha por lá perdura.

Contudo, não terá sido a gralha a afastar comentários ao meu texto sobre a eutanásia. Nem nesse texto, nem em 3 outros posts publicados sobre o tema que, aliás, nem por lá gralhas pousaram. A razão da ausência de comentários é para mim uma novidade, até porque houve cerca de mil espreitadelas... Mil espreitadelas e nem um único comentário!

Mas a questão da eutanásia trouxe outras novidades: a ausência do Governo no debate na Assembleia; o PCP e Os Verdes a votarem em sentido diferente; a direita a votar (coincidente) com o PCP.

Sobre esta última novidade, cometeu o "Diário de Notícias" uma espécie de gralha mais grave que a minha, mas prontamente corrigida.

Quanto ao resultado da votação, também não aplaudi pois foi uma questão que discuti-la só lembrava ao diabo.

28 maio, 2018

"A vida é sempre a perder"?

«E mais que uma onda, mais que uma maré
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade
Vai quem já nada teme, vai o homem do leme

E uma vontade de rir, nasce do fundo do ser
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir
A vida é sempre a perder»

27 maio, 2018

A propósito da liberdade de decidir

imagem tirada daqui
«- o “já não quero viver” 
terá de ser conjugado 
única e exclusivamente na primeira pessoa, 
quando o sofrimento for considerado, 
sob o ponto de vista científico, irreversível. 
(Felizmente, hoje, a medicina já sabe identificar
 tais estados, sem margem de erro.)»

Assim, cumprido o requisito, passará a haver a reclamada liberdade de opção... E essa será a única opção, pois identificado o estado bastará uma endovenosa adquirida na farmácia de serviço, uma declaração do próprio e outras determinadas exigências processuais, sem excluir o acto médico.

Para a alternativa, só 2% dos doentes que precisam é que terão a "liberdade de escolher" os cuidados paliativos. Estes requerem uma estrutura qualificada, exigem pessoal diverso especializado e, na maior parte dos casos, exigem disponibilidade de uma cama hospitalar... e isso é um esforço elevado para o SNS.

É oportuno lembrar que Manuela Ferreira Leite, num assumo de clara referência aos custos, disse como se fosse um desabafo que entendia que os doentes com mais de 70 anos que necessitem de tratamentos de hemodiálise os devem pagar. “Tem sempre direito se pagar”, disse.

Suponho que a falência da função renal é irreversível e se trata com custos na ordem dos 2000 euros por mês e por doente... basta que o paciente "decida" e... pimba.

26 maio, 2018

José Manuel Jara: "Dez razões para rejeitar a eutanásia e o suicídio assistido"

José Manuel Jara, médico psiquiatra, fundador da Associação de Apoio aos doentes depressivos e bipolares, considera que "a chamada morte assistida é um falso direito" e escreve hoje, na "Sábado" sobre as «Dez razões para rejeitar a eutanásia e o suicídio assistido»:
1 – A eutanásia não é uma necessidade social ou assistencial
A concretização de uma lei que permita o Suicídio Assistido (ajudado) ou a Eutanásia (execução da morte a pedido), eufemisticamente englobados pelo termo "morte assistida", não corresponde a uma necessidade social ou assistencial, muito menos médica, e não é em nenhum plano uma prioridade. No nosso país é sem dúvida o desenvolvimento e melhoria dos cuidados paliativos a prioridade assistencial."

2 – A chamada morte assistida é um falso direito
A iniciativa da sua discussão e eventual legalização parte de uma proposição doutrinária de base jurídica, alicerçada num liberalismo que entende defender o direito à morte como um direito "humano". A argumentação é antes de tudo do foro jurídico e não de base médica ou assistencial. A ideologia subjacente tem um fundo niilista e tanatológico dissimulado como libertário."

3 – A Constituição da República Portuguesa consagra o direito à vida como inviolável
A argumentação jurídica para defender a "morte assistida" faz o salto da lei que penaliza esses atos (artigos 153º e 154º do Código Penal), para uma eventual legislação que autoriza precisamente o contrário, mesmo que com algumas restrições. Não seria uma "despenalização da morte assistida" como se pretende na Petição nº 103/XIII, pois a chamada "morte assistida", não existindo, não poderá ser objeto de uma despenalização. Em vez de despenalização seria uma institucionalização. A Constituição da República consagra no artigo 24º o direito à vida como um direito inviolável. Nada consta no texto constitucional de onde se possa inferir com base no direito à autonomia da pessoa de um direito à morte, questão extrema, sensível e melindrosa."
A considerar outra possibilidade, terá de ser alterada a Constituição em sede do direito à vida, com uma alínea restritiva. Pois que se trata, no caso da eutanásia, de instituir uma prática que não é do foro pessoal/ individual, pois a execução da vontade do próprio seria cumprida por um terceiro (heteronomia), segundo um regulamento, por um serviço público. Tornear a Constituição em matéria do máximo relevo, em questões de princípios básicos, seria muito estranho. É tema que exige uma larga maioria deliberativa. Para proceder à atualização da lei para Internamento Compulsivo de Doentes Mentais foi previamente aditada uma alínea ao artigo 27º da Constituição para autorizar a "privação da liberdade", prévia a uma decisão judicial."

4- A história da eutanásia revela perigos
É errado considerar que a questão da eutanásia é historicamente recente, pois tem antecedentes em doutrinas na eugenia do fim do século XIX. Uma obra "clássica" (1922) de um professor de direito penal alemão (Karl Binding) e de um psiquiatra (Alfred Hoche), defende a eutanásia ativa voluntária para pessoas com doenças terminais em grande sofrimento e também a eutanásia involuntária para deficientes e doentes mentais. A prática da eutanásia na Alemanha Nazi inspira-se nessas teorias, visando a eliminação da "Vidas não dignas de ser vividas" (Operação T-4). O impacto destes factos repercute ainda hoje na Alemanha, impedindo qualquer opção pela eutanásia no país.
Para a história da agora chamada "morte assistida" conferida pela aceitação da "autonomia" para uma "morte digna", há que registar os antecedentes de eugenia e de políticas sociais de racionalização demográfica que levaram aos extremos conhecidos, que hoje são menos patentes mas reais. Os desvios das leis do Benelux, com alargamento do perfil das candidaturas, patologias, idades, aí está a comprová-lo. É o efeito de banalização e desdramatização dos procedimentos gerado pela sua legitimação."

5- Muito poucos países legalizaram a eutanásia e o suicídio assistido
A complexidade que coloca a eutanásia mede-se de imediato pelo facto de apesar do sensacionalismo promovido pelos media desde há muitos anos (para casos singulares chocantes), são muitos poucos os países que adotaram leis de eutanásia e de suicídio assistido: Bélgica (Flandres principalmente), Holanda e Luxemburgo (os três únicos na Europa que autorizam a eutanásia e o suicídio assistido); a Suíça, que autoriza o suicídio assistido de maneira privada; cinco estados dos EUA, mas apenas para o suicídio assistido em doença terminal, e o Canadá, que autoriza o suicídio assistido e a eutanásia apenas para doenças terminais, a partir de 2016. Todos os outros países não têm legislação que legalize estes procedimentos."

6- A valorização da eutanásia é contraditória com uma política adequada de cuidados paliativos
A argumentação que sustenta que a "morte assistida" não é contraditória com os cuidados paliativos refuta-se com alguma facilidade. O terreno é o mesmo, o da assistência em situações de doença grave, com sofrimentos, possivelmente fatal em pouco tempo. Na Inglaterra e na França (Lei Leonetti, 2005), a legislação para os cuidados paliativos e a sua prática são o argumento que contraria a institucionalização da "morte assistida". As associações de técnicos e promotores dos cuidados paliativos opõem-se quase sempre à chamada "morte assistida". A simplificação do desfecho fatal (curto-circuito, bypass ao processo de morte natural) pode mediar atitudes tecnocráticas neoliberais para poupar nas despesas sociais e assistenciais geradas pelos cuidados paliativos. E pode gerar em pessoas sugestionáveis uma vontade de acabar com a vida para deixar de ser um fardo, um peso para os outros. A autonomia da pessoa vista à luz da pessoa jurídica (sujeito abstrato, titular de direitos) subtrai as condicionantes contextuais, éticas, sociais, familiares psicológicas, médicas e psiquiátricas, num ser humano em situação de acentuada fragilidade."

7- Há práticas médicas e assistenciais justas para o fim da vida a não confundir com a eutanásia
Há uma confusão propositada entre procedimentos muito diferentes, utilizada por alguns defensores da eutanásia. Uma coisa é executar a morte de um doente a pedido, outra bem diferente é admitir que a medicina já nada pode ajudar, que a sustentação da vida não se deve prolongar, deixando que sobrevenha a morte natural de alguém que já não existe como ser consciente (impropriamente chamada "eutanásia passiva"). Também não se pode comparar a "morte a pedido" ("medicamente assistida") e a verdadeira assistência médica para atenuar o sofrimento, cuja aplicação pode, em alguns casos, como efeito secundário, abreviar o tempo de vida (impropriamente chamada "eutanásia indireta"). O encarniçamento terapêutico, que se designa "distanásia", corresponde a uma prática assistencial errada, artificial e inadequada, contrária aos princípios da medicina e ao interesse da pessoa assistida. Os progressos nas terapêuticas que atenuam e suprimem a dor tornam também a questão da eutanásia muito menos relevante do que em períodos anteriores."

8 – A "morte assistida" é contrária aos princípios da medicina
Sendo um dos pressupostos o de que a "morte assistida" deverá ser praticada como assistência médica, constata-se desde logo a sua colisão no nosso país com a lei deontológica da medicina portuguesa que a tal se opõe formalmente. Com efeito, muito dificilmente se pode incluir a eutanásia e o suicídio assistido como práticas médicas. Há alguns juristas, como a Dra Inês Godinho e o Prof. Dr. José de Faria Costa, que teorizaram sobre a reformulação do "ato médico", tentando forçar a sua "atualização" para consentir a eutanásia. É assaz curioso que sejam juristas penalistas a fazê-lo. Ficaria penalizada a medicina e despenalizada a morte. De facto, considerar que a avaliação médica prévia ao veredito da sentença que permite auxiliar ou executar a morte do paciente se inscreve na medicina é um tour de force em que naufraga a mais sofisticada retórica de algumas sumidades."

9- A saúde mental é também saúde moral
As questões de saúde mental subjacentes nas condutas suicidárias, o cerne subconsciente ou dissimulado de toda esta problemática, terá de ser objeto de cuidadosa análise. Os fatores que levam ao suicídio são complexos e imbrincados, sendo consensual que os fatores psicopatológicos são da maior relevância. Mas a dimensão social e sociocultural é de grande importância. A legalização da eutanásia e do suicídio assistido é uma promoção do suicídio, não se restringe à população-alvo, pode expandir-se como a "arma" legal que propicia o ato ao "cliente" da morte. Não se deve minimizar a sugestão na vida social, o efeito de epidemia comportamental na sociedade mediática que é a nossa. A prevenção, questão da maior relevância na saúde pública e na medicina, não se coaduna com o liberalismo em que o cidadão é considerado uma mónada numa sociedade anómica, em que reina o individualismo sem fronteiras, e se minimiza a solidariedade humana, base para uma civilidade moralmente saudável."

10- A exceção deve manter-se excecional
Casos extremos e excecionais que possam enquadrar-se numa assumida necessidade de suicídio assistido ou de eutanásia não justificam a sua institucionalização. Evita-se a generalização e pode satisfazer-se essa necessidade através de uma jurisprudência tolerante, caso a caso. É matéria complexa que apenas se enuncia.