28 fevereiro, 2018

Cai chuva e a água é pública


Quando passa a haver a consciência generalizada de que a água se tornou um recurso escasso, é preciso lembrar (e combater) tentativas recentes para transformar a sua posse num bem privado

26 fevereiro, 2018

A guerra na Síria e a (minha) explicação de como se chegou até aqui.

O "até aqui", como ponto de situação na Síria, podia ser dado por um mapa, ou pela situação no terreno ou ainda pelo desenhar da esperança, na sequência de diligências diplomáticas a ocorrerem no contexto de um cessar-fogo, deste agora ou de outro.
Temo que nenhuma dessas possibilidades possa dar, de facto, o retrato do "até aqui" a que se chegou e como tudo isto começou.
A sistemática e dramatizada imagem dos efeitos da guerra com que a televisão portuguesa abre todos os noticiários, sempre a colocar o regime sírio na a origem de todos os males e desumanidades, se em nada contribui para a compreensão do conflito dá, no imediato, sinal inequívoco de que é Bashar al-Assad o odioso e, por isso, o alvo a abater.

Se há textos que possam dar algum contributo para entender o que se passa, eles têm vindo a ser publicados à margem da imprensa, como é este o caso.

Sobre como tudo começou, repito um texto antigo (Agosto de 2011) até por fazer referência a um testemunho que os acontecimentos viriam, mais tarde, a confirmar:
Uma "guerra humanitária" à Síria? Escalada militar. Rumo a uma guerra mais vasta no Médio Oriente-Ásia Central? "Quando retornei ao Pentágono em Novembro de 2001, um dos oficiais militares superiores teve tempo para uma conversa. Sim, ainda estamos em vias de ir contra o Iraque, disse ele. Mas havia mais. Isto estava a ser discutido como parte de um plano de campanha de cinco anos, disse ele, e havia um total de sete países, a principiar pelo Iraque e então a Síria, Líbano, Líbia, Irão, Somália e Sudão". (General Wesley Clark)

25 fevereiro, 2018

Um conto ao Domingo - IV ("Governo")

Por ressaca justificada
hoje o conto é d´outro

 

«Os garotos da rua resolveram brincar de Governo, escolheram o Presidente e pediram-lhe que governasse para o bem de todos.
- Pois não - aceitou Martim. - Daqui por diante vocês farão meus exercícios escolares e eu assino. Clóvis e mais dois de vocês formarão a minha segurança. Januário será meu Ministro da Fazenda e pagará o meu lanche.
- Com que dinheiro? - atalhou Januário.
- Cada um de vocês contribuirá com um cruzeiro por dia para a caixinha do Governo.
- E que é que nós lucramos com isso? - perguntaram em coro.
- Lucram a certeza de que têm um bom Presidente. Eu separo as brigas, distribuo tarefas, trato de igual para igual com os professores. Vocês obedecem, democraticamente.
- Assim não vale. O Presidente deve ser nosso servidor, ou pelo menos saber que todos somos iguais a ele. Queremos vantagens.
- Eu sou o Presidente e não posso ser igual a vocês, que são presididos. Se exigirem coisas de mim, serão multados e perderão o direito de participar da minha comitiva nas festas. Pensam que ser Presidente é moleza? Já estou sentindo como este cargo é cheio de espinhos.
Foi deposto, e dissolvida a República.»
Carlos Drummond de Andrade

23 fevereiro, 2018

"Se o homem é um produto das circunstâncias, humanizemos as circunstâncias" (Karl Marx)


«Veio enfim um tempo em que tudo o que os homens tinham olhado como inalienável se tornou objecto de troca, de tráfico, e podia alienar-se. É o tempo em que as próprias coisas que até então eram comunicadas, mas nunca trocadas; dadas, mas nunca vendidas; adquiridas, mas nunca compradas - virtude, amor, opinião, ciência, consciência, etc. - em que tudo enfim passou para o comércio. É o tempo da corrupção geral, da venalidade universal"»
Karl Marx, in "Miséria da Filosofia", 1847
Como disse Álvaro Cunhal, comemorar «é memoriar o passado distante e recente, mas não apenas memoriar o passado. Comemorar [...] é uma forma de intervir e lutar no presente, e de perspectivar com confiança a luta futura».

22 fevereiro, 2018

Uma mão cheia de coisas que a imprensa ignora... ou lhe dá diferente relevo. Leia!

Posted: 21 Feb 2018 05:42 PM PST
Uma notável sátira a Trump e à National Rifle Association WASHINGTON (The Borowitz Report)—A new study released today indicates that … Mais
Posted: 21 Feb 2018 03:36 PM PST
Dividendos mais generosos !“A Galp vai travar investimentos para dar dividendos mais generosos ” e ninguém se escandaliza !O das … Mais
Posted: 21 Feb 2018 03:22 PM PST
Ele anda por aí, e depois de tantas outras personagens meteu-se na pele de Pessoa. Levando a coisa a sério, … Mais
Posted: 21 Feb 2018 03:21 PM PST
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Posted: 21 Feb 2018 03:11 PM PST
Existe um partido que, mesmo sem aparecer, participa de fato nas eleições italianas: O Partido da Otan, formado por uma … Mais
Posted: 21 Feb 2018 02:31 PM PST
Os serviços secretos anglo americanos tocam e a imprensa dos dominantes baila “O massacre do século ! “Diz o Publico , … Mais
Posted: 21 Feb 2018 11:28 AM PST
Ler artigo em: Início – CPPC – Conselho Português para a Paz e Cooperação http://bit.ly/2EK7rbY
Posted: 21 Feb 2018 10:35 AM PST
O advogado e historiador norte-americano, Alfred de Zayas, especialista da ONU sobre Promoção da Ordem Internacional Democrática e Equitativa, concluiu, … Mais
Posted: 21 Feb 2018 10:08 AM PST
Sempre que houve convergência entre o PS, o PSD e o CDS-PP, o País e os portugueses andaram pior – e são … Mais
Posted: 21 Feb 2018 09:49 AM PST
O presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, general-de-exército Raúl Castro Ruz, recebeu na tarde da terça-feira, 21 de … Mais
Posted: 21 Feb 2018 09:48 AM PST
Foram anos de degradação das condições laborais. O capital esmagou o trabalho. Resistir foi duro mas valeu a pena. Os … Mais
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Posted: 21 Feb 2018 08:28 AM PST
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Posted: 21 Feb 2018 03:48 AM PST
O antigo patrão dos patrões acusou os portugueses de não quererem trabalhar, mas no seu currículo tem pouco trabalho e muitos cargos … Mais
Posted: 21 Feb 2018 03:33 AM PST
As comissões de trabalhadores do grupo Águas de Portugal (AdP) consideraram esta terça-feira, em audição parlamentar na Comissão do Ambiente, que a … Mais

21 fevereiro, 2018

Poesia (uma por dia) - 94



Ele anda por aí, e depois de tantas outras personagens meteu-se na pele de Pessoa. Levando a coisa a sério, quis saber mais do poeta e interrogou, nas redes sociais, se Pessoa teria, não só ouvido p´ra música mas se a ouvia ou se gostaria dela. Reuniu contributos de muitos. 
O meu vai aqui...

Minha alma é uma orquestra oculta
Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tange e range, cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.

Todo o esforço é um crime porque todo o gesto é um sonho inerte.
As tuas mãos são rolas presas.
Os teus lábios são rolas mudas.
(que aos meus olhos vêm arrulhar)

Todos os teus gestos são aves. És andorinha no abaixares-te, condor no olhares-me, águia nos teus êxtases de orgulhosa indiferente.
E toda ranger de asas, como dos (...), a lagoa de eu te ver. Tu és toda alada, toda (...)

Chove, chove, chove...
Chove constantemente, gemedoramente (...)
Meu corpo treme-me a alma de frio... Não um frio que há no espaço, mas um frio que há em vir a chuva...

Todo o prazer é um vício, porque buscar o prazer é o que todos fazem na vida, e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz.

20 fevereiro, 2018

Autoeuropa: enquanto por cá se malha nas organizações de quem lá trabalha...


Por cá,
"Nas últimas semanas acentuaram-se os ataques aos trabalhadores da Autoeuropa e às suas organizações representativas, configurando já uma das maiores campanhas de manipulação política e de ingerência externa num conflito laboral de empresa, desenvolvidas desde o 25 de Abril de 1974.
Políticos de direita, representantes patronais, comentadores de várias matizes e pseudo-sindicalistas atropelam-se na comunicação social dominante para ver quem vai mais longe no ataque aos trabalhadores e às suas organizações, colocando-se abertamente ao lado da multinacional alemã, na tentativa de impor um horário de trabalho que vai ao encontro da velha ambição do capital de voltar a considerar todos os dias da semana como dias normais de trabalho.
Cúmulo da hipocrisia, utilizam a táctica do «agarra que é ladrão»". 

Por lá,
"Após uma série de greves de 24 horas e várias rondas de negociações tensas, o sindicato alemão chegou a um acordo com o patronato que consagra um aumento salarial de 4,3% e a possibilidade de redução da semana laboral de 35 para 28 horas, em prol da conciliação familiar.(...) O acordo colectivo foi assinado na madrugada de terça-feira (6 de Fevereiro), em Estugarda, entre o IG Metall e uma associação patronal do Sudoeste da Alemanha, a Südwestmetall, abrangendo cerca de 900 mil trabalhadores dos sectores automóvel, metalomecânico, metalúrgico e eléctrico da região de Baden-Württemberg, onde estão sediadas algumas das mais importantes empresas alemãs." 

19 fevereiro, 2018

Gonçalo M. Tavares, eu um seu leitor e a desconstrução da metáfora


Gonçalo M. Tavares é o autor do conto que ontem recriei. Incapaz de enveredar pelo plágio, uso o estratagema de manter a ideia original (e até o texto) e depois dou-lhe o meu jeito, reforçando a ideia e alargando-lhe o sentido. 
Tratando-se de metáforas, com o mínimo de criatividade, os resultados podem até nem acrescentar nada ao brilhantismo do autor usado, mas alargam o campo de quem lê e interpreta. 

Sem repetir todo o conto, reproduzo o essencial. Conta o conto que o Senhor Calvino treinava os músculos da paciência transportando de um ponto a outro, com colheres de café, um monte de 50 kg de terra, tendo por ali perto uma pá. Gonçalo M. Tavares termina «Paciente, cumprindo a tarefa, sem desistir ou utilizar a pá, Calvino sentia estar a aprender várias coisas grandes com uma pequenina colher.»

A isto deixa a Maria João o comentário, que desconstrói a metáfora:
Pressupondo que a pá corresponda ao ordenado médio deste nosso país e a colher de café ao RSI, não tenho eu feito outra coisa senão aquilo que o senhor Calvino faz... só não o faço por opção própria e sim porque não tenho alternativa.
Será agora de esperar o que fará o Senhor Calvino quando descobrir que não tem saída... nem ele, nem todo o Bairro, nem o País.

18 fevereiro, 2018

Um conto ao Domingo - III ("receitas para treinar os músculos da paciência")

Dizia de si para si, com uma frequência usada para seu auto convencimento, que mudar o Mundo não custava muito* e o contava era o tempo que isso levava. Os acontecimentos dos últimos anos e a sua rápida sucessão mexeram com ele a ponto de duvidar se teria disposição em dar tempo ao tempo para que a mudança do Mundo ocorresse. 
Sempre ouvira dizer que a impaciência é reacionária e, assim, tomou a decisão, ir aO Bairro, procurar O Senhor Calvino e seguir-lhe a lição. Não levou demora a encontrá-lo, folheou o livro até encontrar a página, que releu atentamente.  
«Para treinar os músculos da paciência o senhor Calvino colocava uma colher de café, pequenina, ao lado de uma pá gigante, pá utilizada habitualmente em obras de engenharia. A seguir, impunha a si próprio um objetivo inegociável: um monte de terra (cinquenta quilos de mundo) para ser transportado do ponto A para o ponto B - pontos colocados a quinze metros de distância um do outro.

A enorme pá ficava sempre no chão, parada, mas visível. E Calvino utilizava a minúscula colher de café para executar a tarefa de transportar o monte de terra de um ponto para outro, segurando-a com todos os músculos disponíveis. Com a colher pequenina cada bocado mínimo de terra era como que acariciado pela curiosidade atenta do senhor Calvino.
Paciente, cumprindo a tarefa, sem desistir ou utilizar a pá, Calvino sentia estar a aprender várias coisas grandes com uma pequenina colher.»
Fechou livro e sentiu-se revigorado de paciência a ponto de estar disposto a regar uma pequena planta, gota a gota, para o resto da vida toda.

*Ver no Google  

17 fevereiro, 2018

Todos diferentes, todos iguais. Todos zorrocotrocos, uns menos outros mais...


"Mas... são só homens?" interroga-se a minha Teresa entre a constatação e a surpresa.

Não confirmo e afirmo, "Sabes? Por detrás de um grande zorrocotroco* há sempre uma grande zorrocotroca. Elas vão aparecer, vais ver!".
Como estava ocupada nem me perguntou o que eu queria dizer com aquilo e eu fui ler como certa direita comenta o discurso de Rio...

Há algumas horas Rio confirma a existência, nas listas, de algumas zorrocotrocas, embora poucas.

*Palavra entre nós pouco usada, carece ser traduzida

16 fevereiro, 2018

Ainda não vos tinha dito, também sou um "Desenhador de Sonhos"


Ainda não tinha vindo ao caso falar-vos disto. É agora. Sou membro ativo e dirigente associativo. A Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos - Desenhando Sonhos, tem mil e uma maneira de vir a sonhar. seus sonhos...

Sonhos que passam por sonhar direitos com um envelhecimento feliz e ativo, com sonhos de melhor saúde, com sonhos de ter acesso a uma reforma justa, com sonhos de ter uma vida menos amarga e isolada, com sonhos de multiculturalismo... sonhos... sonhos...

A "Desenhando Sonhos", que tem vindo a desenvolver atividade no domínio das artes e do ensino da informática aos seniores da vida, vai iniciar um vasto plano, em parceria com o Centro Qualifica, onde proporcionaremos "10 Dedos de Conversa" com quem apareça...

... e falaremos sobre a Quinta do Marquês e do património que deu nome ao "Bairro do Pombal"... e falaremos sobre Bento Jesus Caraça, um nome grande, que importa dar a conhecer a quem mora no Bairro ao qual o seu nome foi dado... e falaremos de poesia... um iraniano declamará Saramago em português e em persa... um português declamará um poeta cabo-verdiano - Arménio Vieira Prémio Camões 2009 - em português e em crioulo.

E por onde começa tudo isso? Claro que será pelo princípio... 
Apresentar a Associação e um pouco daquilo que por lá se faz!


15 fevereiro, 2018

Galileu Galilei nasceu na cidade de Pisa (Itália), no dia 15 de fevereiro de 1564.

Além da ira da igreja...
Poema para Galileo
Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.
António Gedeão

14 fevereiro, 2018

Qual São Valentim, foi Zeus!


Tal como foi tudo bem explicado num outro lado, foi Zeus o culpado:
"No início, a raça dos homens não era como hoje. Era diferente. Não havia dois sexos, mas três: homem, mulher e a união dos dois. E esses seres tinham um nome que expressava bem essa sua natureza e hoje perdeu seu significado: Andrógino. Além disso, essa criatura primordial era redonda: suas costas e seus lados formavam um círculo e ela possuía quatro mãos, quatro pés e uma cabeça com duas faces exatamente iguais, cada uma olhando numa direção, pousada num pescoço redondo. A criatura podia andar ereta, como os seres humanos fazem, para frente e para trás. Mas podia também rolar e rolar sobre seus quatro braços e quatro pernas, cobrindo grandes distâncias, veloz como um raio de luz. Eram redondos porque redondos eram seus pais: o homem era filho do Sol. A mulher, da Terra. E o par, um filhote da Lua.

Sua força era extraordinária e seu poder, imenso. E isso tornou-os ambiciosos. E quiseram desafiar os deuses. Foram eles que ousaram escalar o Olimpo, a montanha onde vivem os imortais. O que deviam fazer os deuses reunidos no conselho celeste? Aniquilar as criaturas? Mas como ficar sem os sacrifícios, as homenagens, a adoração? Por outro lado, tal insolência era perfeitamente intolerável. Então...

O Grande Zeus rugiu: Deixem que vivam. Tenho um plano para deixá-los mais humildes e diminuir seu orgulho. Vou cortá-los ao meio e fazê-los andar sobre duas pernas. Isso com certeza irá diminuir sua força, além de ter a vantagem de aumentar seu número, o que é bom para nós. E mal tinha falado, começou a partir as criaturas em dois, como uma maçã. E, à medida em que os cortava, Apolo ia virando suas cabeças, para que pudessem contemplar eternamente sua parte amputada. Uma lição de humildade. Apolo também curou suas feridas, deu forma ao seu tronco e moldou sua barriga, juntando a pele que sobrava no centro, para que eles lembrassem do que haviam sido um dia.

E foi aí que as criaturas começaram a morrer. Morriam de fome e de desespero. Abraçavam-se e deixavam-se ficar assim. E quando uma das partes morria, a outra ficava à deriva, procurando, procurando...

Zeus ficou com pena das criaturas. E teve outra idéia. Virou as partes reprodutoras dos seres para a sua nova frente. Antes, eles copulavam com a terra. De agora em diante, se reproduziriam um homem numa mulher. Num abraço. Assim a raça não morreria e eles descansariam. Poderiam até mesmo continuar tocando o negócio da vida. Com o tempo eles esqueceriam o ocorrido e apenas perceberiam seu desejo. Um desejo jamais inteiramente saciado no ato de amar, porque mesmo derretendo-se no outro pelo espaço de um instante, a alma saberia, ainda que não conseguisse explicar, que seu anseio jamais seria completamente satisfeito. E a saudade da união perfeita renasceria, nem bem os últimos gemidos do amor se extinguissem.

E esta é a nossa história. De como um dia fomos um todo, inteiros e plenos. Tão poderosos que rivalizávamos com os deuses. É a história também de como um dia, partidos ao meio, viramos dois e aprendemos a sentir saudades. E é a razão dessa busca sem fim do abraço que nos fará sentir de novo e uma vez mais, ainda que só por alguns momentos (quem se importa?), a emoção da plenitude que um dia, há muito tempo, perdemos.
Platão, in "Mito do Andrógino ( Banquete de Platão)"

13 fevereiro, 2018

Me mascarei de Gabriel, mas não o anjo. E cantei também "Eu não matei nem vou matar literalmente um presidente"

Tô feliz (matei o Presidente) - 2
«Eu não matei nem vou matar literalmente um presidente
Mas se todos os corruptos morressem de repente
Ia ser tudo diferente, ia sobrar tanto dinheiro
Que andaríamos nas ruas sem temer o tempo inteiro
Seu pai não ia ser assaltado, seu filho não ia virar ladrão
Sua mãe não ia morrer na fila do hospital
E seu primo não ia se matar no Natal
Seu professor não ia lecionar sem esperança
Você não ia querer fazer uma mudança de país
Sua filha ia poder brincar com outras crianças
E ninguém teria que matar ninguém pra ser feliz

Hoje, estar feliz é uma ilusão»
Gabriel, o Pensador (aqui)

11 fevereiro, 2018

Um conto ao Domingo - II ("as memórias de um marujo")

A imagem terá quase tantos anos quanto aqueles que eu somo. É esbatida a imagem, mas não a memória que guardo daquele velho. E só não lhes conto detalhes dele enquanto novo, pois não seria natural a um neto lembrá-lo enquanto tal. 

Joaquim Bento Guerreiro, era só conhecido por Ti Joaquim Bento, por ele mal usar o último apelido, quase sempre omitido por razões que nunca referia e que nem os que lhe eram próximos inquiriam pois tinham a ver com uma infância sofrida. O Ti, diminutivo muito em uso por ali, lhe era acrescentado pela vizinhança e não deixava de traduzir um respeitoso e carinhoso trato, como se o tivessem adotado como membro da pouco numerosa prole que habitava aquele lugar, entre a Moita do Ribatejo e o Chão Duro.

Homem de francas e calorosas falas não as usava nem na taberna nem em um outro lugar, dos poucos que por ali havia, para dar dois dedos de conversa, pois o tempo era por ele contado para cuidar daquilo que ele julgava ser onde o tempo devia ser gasto. Já assim não era com a sua mulher, a Mariana, que por vezes para ir comprar um litro de sal distraia-se em cavaqueira chegando a perder a manhã inteira, incapaz que era de dar justificação ou desculpa para romper uma qualquer conversa, desde que não fosse coscuvilheira.

Joaquim Bento levantava-se muito cedo, primeiro para tratar da lareira. Fazia-o com cuidado esmero, não lhe faltando a lenha pois que a poda nem sempre a fazia bem feita e sempre lhe sobrava madeira. E era podas de videira, romãzeira, figueira e de outras árvores de fruto à mistura com as podas do olival, abrangendo  todas as árvores da quinta, num bem estudado mix para obter o odor desejado, em equilíbrio com o ponto de ignição, para que todos os toros ardessem por igual. 

Fogo pegado, ajeitava a cafeteira e na água fervente juntava-lhe duas ou três colheres de café, e depois de levantada a fervura, depositava uma pequena brasa para que a borra depressa decantasse. 

Joaquim Bento e Mariana
O aroma da lenha somado ao do café funcionava como um despertador para Mariana e ambos, após o pequeno matinal repasto, saiam para as lides da quinta, ela para tratar da criação, ele para os afazeres agrícolas com exceção da vaca que ele tinha por sua conta, na missão de levar-lhe a palha. "Vai lá tu, Joaquim, ela gosta mais de ti" disse-lhe Mariana, um dia, apontando o estábulo improvisado e já a caminho da pequena pocilga para tratar da porca, e depois dos gansos, e depois das galinhas, e depois aos pombos e só no fim os coelhos, quando ele trouxesse a erva que chegasse.

Todos os animais da quinta tinham nome, mas só me lembro do dado ao cão, o "Naice" (assim escrito, conforme dito) e receio trocar os dos outros todos. Coisa imperdoável seria trocar o nome dado à porca por aquele que fora dado à vaca...  

Aquela quinta** dava tudo pois Joaquim Bento e Mariana assim o garantiam. Desde cereais a frutos, toda a espécie de hortícolas e tubérculos, vinho e até azeite. Tudo trabalhado a braço e a estrume, pois os animais além de boa carne, com exceção de um ou outro caso*, também garantiam o adubo orgânico que bastasse...

Esta rotina, só era alterada nas férias, quando a quinta era invadida pela alargada família e Ti Joaquim Bento e Mariana, se por um lado tinham redobrada ajuda, por outro eram chamados a outras tarefas. Ele era solicitado a contar histórias***, ela a embalar sorrisos.

Numa dessas férias, o meu tio Maurício, impressionado pelo que vira deixou a promessa de aligeirar o esforço de meu avô no levantar a pulso dezenas de baldes do poço, na tarefa empenhada na rega do pomar.  "Não pode ser, num homem daquela idade".

Promessa feita, promessa cumprida. E sem que já ninguém se lembrasse que a tinha feito, meses depois, meu tio trouxe uma bomba de água, provida de um pequeno moto-compressor e em segredo montou-o no poço. Chamou-o para lhe dar a surpresa e ele foi. 

Olhou a aparelhagem, muito sério. Meu tio, julgando que o seu ar seria porque se intimidara em lidar com a tecnologia, avançou com um "não custa nada!" e explicou tim-tim-por-tim como se fazia:
"Aqui, liga o motor. Depois ferra a bomba, assim. E de seguida puxa este botão para cima". E repetiu  tudo o que dissera, pondo a bomba a bombear. E bem  depressa se enchia o tanque de rega.
- "Está a ver?"
- "Estou, mas não posso usar isso!"
Surpreendido, questionou com um desiludido por quê. A resposta surgiu pronta.
- "Sabes que levo meia-manhã a fazer tudo isso que esse zingarelho faz em minutos? Que faria nesse entretempo? E depois enquanto o faço, a braço-a-braço, recordo quando era grumete e baldeava o convés, com um balde que é tão parecido com este. Quando o elevo agora parece que volto a sentir a brisa do mar a desalinhar-me os cabelos. Este esforço que faço agora ajuda-me a fazer perdurar tal memória. Se isso se for, vou eu atrás!" 

Meu tio e todos nós mal tínhamos presente que Joaquim Bento fora marujo e nem nos passava pela mente que era com memórias de mar que ele tão bem cultivava a terra.
_______________________
* "Este Natal não há peru"
** "Escolas da minha vida: a quintinha dos meus avós"
*** "A Flauta (aquela que agora me faz tanta falta)"


 

 

10 fevereiro, 2018

No Brasil, o verdadeiro Carnaval é na rua!

“E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu”.
Clarice Lispector, aqui 

O verdadeiro Carnaval é na rua!

É quase impossível imaginar o Brasil, sua cultura e sua música sem pensar no Carnaval. A mais importante festa popular do país ocorre em quase todas as regiões brasileiras, tendo Rio de Janeiro, Salvador e a dupla Recife-Olinda como as principais cidades sede da festa de Momo.

Fantasias, música, dança, multidão, loucuras mil, regadas a álcool e outros ilícitos. O Carnaval é um ponto no espaço/tempo não linear na vida dos foliões, um passar de dias que desloca e estica a realidade para um mundo paralelo, hedonista e festivo, difícil de explicar pra quem não viveu esta sensação.

Composição da festa

A festa, originalmente europeia e associada ao calendário católico, encontrou no Brasil o ambiente perfeito para se instalar, desenvolver e ampliar. O calor, a criatividade da população, a absurda composição étnica para a criação de ritmos musicais, rituais litúrgicos e profanos, enfim, toda essa magia mítica dos trópicos foi muito propícia para a configuração do Carnaval brasileiro como se conhece hoje. Mas nem tudo são flores. Muita segregação social e interesses econômicos algumas vezes acabam pautando o evento e estragando tudo.

Ao som dos clarins de Momo, as ruas se enchiam de gente - eram os metais de bandas marciais que se misturavam a uma percussão duramente ritmada e sem suingue. Marchas ainda muito europeizadas e com sotaque de Exército, com temas lamentosos em tons menores, trazendo as dores dos brancos para os festejos do inicio do ano.

Estas fanfarras também animavam salões de clubes, além de cordões, blocos e agremiações, em sua maioria, formados por pessoas de pele clara, de famílias ricas, que não queriam se misturar com os pobres e pretos nas ruas. Um simulacro de alegria dentro da fantasia coletiva que é a festa da carne.

Os batuques de matriz africana ecoavam nas periferias e chegavam às ruas centrais da cidade. As nações de maracatus no Recife, com seus abês e alfaias; os blocos afro de Salvador, ao som de afoxés, timbais e agogôs; e as escolas de samba no Rio de Janeiro, com seus surdos graves, ganzás e repiques acelerados, todos arrastavam um publico mestiço e mesclado, gente periférica que nunca precisou de muito para se divertir e que, naquele momento, poderia vestir a fantasia de rei, ou de pirata, ou jardineira, pra tudo se acabar na quarta-feira.

Cordões, troças, blocos, agremiações, blocos de índios ou caboclinhos, afoxés, escolas de samba e nações de maracatu se misturavam nas ruas sob um sol escaldante, quase que fundidas no calor tropical do extremo verão. Hordas de foliões e foliãs, todos os tipos de gente, uma mistura que sempre foi a cara da festa. Ricos e pobres, negros e brancos, gays e héteros numa harmonia heterogênea. O Carnaval seria o momento em que a segregação perderia o sentido, em meio a uma grande fantasia coletiva, onde viver sonhos era a meta real.

Mas isso só pode acontecer em um lugar: na rua.

09 fevereiro, 2018

Tão bonito, isto!


Eu sei, eu sei... diz-se que uma imagem vale mais que uma carrada de palavras... diz-se que quem acena, chega... diz-se que quem aplaude, gosta.
E é por tudo isso tudo se dizer, que tenho a esperança de que algo de diferente venha a acontecer...

Mudar o Mundo não custa muito, leva é tempo!

Patriarca queria PSD, CDS e PS como antes da troika... mas agora avisa: com sexo não


Dom Cle_mente já é de há muito considerado um cómico. A foto, antiga, já era a propósito de segundos casamentos...

07 fevereiro, 2018

Da mentira do Presidente ao apagão, na Visão


Na imprensa, sem que seja novidade, uns manipulam, outros, por vezes distraídos, arrependem-se dos textos publicados e por isso retira-os. Cúmplices, os outros jornais e revistas seguem o omisso e replicam o silêncio sepulcral...
Julgo ter sido o caso, quando para ter acesso ao original de um texto publicado recorri ao expediente de sempre. Peguei na primeira frase "saiu tudo ao contrário das profecias", coloquei-a inteira no google e fiz enter e... nada vi, zero, népia. Foi como nem tivesse existido tal artigo.
Peguei na segunda frase e repeti a dose, e outra vez nada. Ou melhor, nada que tivesse a ver com a procura e apenas a confirmação da sua existência. 

Por última tentativa fui à revista, origem da notícia. E dela, da noticia, nem pisca.

Fui então o sítio de onde o título partiu, e lá estava. Com foto e tudo. E no texto, a indireta explicação do apagão na Visão. Assim:
«Quando agora Marcelo Rebelo de Sousa anuncia que o governo de António Costa herdou um “trilho aberto” de ”inquestionável mérito” parece estar a querer refazer a história e “inquestionavelmente” a formular uma incontestável mentira.

Marcelo não deveria prestar-se a este tipo de mistificações e deixar-se arrastar pelo tortuoso caminho das inverdades políticas.

Todo o mérito da actual situação económica, orçamental e social pertencem unicamente ao governo do PS com o apoio parlamentar do PCP e BE e a mais ninguém porque foi capaz, contra ventos e marés, inverter as políticas da governação PSD/CDS.

Seria bom que Marcelo escutasse bem as palavras de Dom Januário Torgal Ferreira

06 fevereiro, 2018

Festejamos o aniversário de um sorriso sem idade


Em tempos, em fase avançada no estudo para descodificador de sorrisos, já em pleno tirocínio, senti-me encorajado, depois de algum treino sobre o meu próprio, a fazer a anatomia do sorriso dela. 

Seguro de não usar técnicas evasivas que lhe fizesse doer a alma, a cada sorriso, lá estava eu a vasculhar-lhe a origem e a tentar perceber o porquê da insistência com que com toda a facilidade o sorriso aparece e depois, quando desvanece, nem lhe deixa marcas na cara. Ao fim destes anos todos, rugas? Nada. 

E quanto à etiologia, nada de ironia, nem troça, nem desdém. Um tanto de humildade e de timidez, também.

Provoco-a. Digo-lhe isto e mais aquilo e acabo com uma frase batida "Se não fosses tu, não sei o que seria de mim".
Como resposta, ela sorri. Sorri assim, como se vê aqui.

05 fevereiro, 2018

Redacções do Rogerito (39) - [O Ranking das Escolas]

Veio a stora lavada em lágrimas pedir à turma que fosse ela própria numa nossa redacção a dar a explicação do porquê ter ficado a nossa querida escola cá em baixo da tabela e eu acho que não é culpa dela mas é mais culpa do tal diabo de que falava a stora Lídia que até é minha amiga e é isso mesmo que eu acho e é por isso achar que passo a relatar que essa coisa do ranquing mandado publicar em nome da transparência é coisa muito opaca e até mesmo uma indecência.
Eu acho que a nossa escola ficava no topo da tabela se os ministros todos desde este aos mais antigos olhassem e olhem mais por ela e não continuem a pôr a stora a fazer coisas com papeis às carradas só para que no ministério se faça uma vida ocupada mas que ao saber e ao conhecimento não acrescentam nada e que ainda por cima nem lhe pagam uma única hora extraordinária.
Eu acho que a nossa escola ficava no topo da tabela se valorizassem as matérias por igual como por exemplo o estudo do meio que é coisa que eu sei à brava e onde sou melhor que em matemática e assim a tabela ficava mais equilibrada e era mais transparente sobre os saberes da gente e sobre a nossa habilitação em lidar com os vizinhos dos nossos pais lá no bairro camarário e do outro fica logo ali ao lado ou daquele que fica lá mais abaixo.
Eu acho que a nossa escola ficava no topo da tabela se o ensino fosse orientado para os filhos dos homens que nunca foram meninos em vez de embandeirar em arco com o desempenho dos filhos dos amigos dos donos disto tudo.
Quando a escola mudar a minha irá ser a melhor do Mundo.

04 fevereiro, 2018

Um conto ao Domingo - I ( O meu Vale Escuro)


Nasci no Vale Escuro
Brinquei entre latas
Pulei o alão
Andei à pedrada
Escorreguei no muro
Caí no jará
Ganhei no pião.
A jogar à bola
Perdi a sacola
Mais o que trazia
A fugir ao guarda
Que nos perseguia.
Mas que bem sabia
Faltarmos à escola!

Manuel da Fonseca, aqui


Os poetas nascem onde menos se espera e eu não esperava o poema. Ele me remete para a minha infância, para o meu Vale Escuro, ali perto da escola da minha vida, daquela de que vos falei um dia.

À saída das aulas, ou aproveitando um horário não preenchido, chegávamos e quase sempre éramos muitos, 15 ou mais, para jogar à bola. Os lideres, aqueles que há muito se destacavam ou aqueles que eram ali mesmo consentidos como tais, procediam à disputa para decidir qual deveria ser o primeiro a escolher os elementos da equipa, das duas que se iriam enfrentar.

A disputa compreendia um ritual, desde sempre seguido no Vale Escuro e que consistia em cada líder se colocar frente a frente. Cada um à sua vez, ia colocando um pé à frente do outro, calcanhar do pé direito, batendo na biqueira do esquerdo, sincopadamente, estreitando lentamente a distancia entre os dois. O primeiro que conseguisse fazer com que o seu pé não permitisse a entrada do pé adversário, tinha ganho e assim, a ele, lhe competia a primeira escolha, o vencido escolhia o segundo, e cada um ia fazendo a escolha interpoladamente. Nos grupos, cada um esperava com ansiedade a altura de ser escolhido. 

Nunca eu era dos eleitos em primeiras escolhas, e raramente era dos últimos e todos eram escolhidos, pois uma regra seguida, nunca discutida (e sempre cumprida) era dar lugar a todos os que por ali aparecessem manifestando interesse em jogar. Ninguém ficava de fora. Nem os meninos, poucos, das barracas que não iam à escola, ficavam de fora.

Depois era o jogo, sem árbitro nem desacato, e o prazer lúdico do exercício de marcar o golo, ou de evitá-lo, ou de o dar a marcar. "Passa", "lança", "centra", "remata", "salta", "corre", "desarma"... muito raro ouvir um "dá-lhe" ou um "chega-lhe", embora por um lance mais frenético uma canela se ressentisse, um joelho se esfolasse ou, o que era pior, um rasgo no calção fosse raspanete assegurado aquando do regresso a casa.

Findo o jogo, que mudava aos cinco e acabava aos dez, era a passagem obrigatória pelo senhor Zé sapateiro que a troco de uma coleta de quem tinha algum dinheiro nos reluzia o calçado com um pouco de pomada ou uma simples escovadela...

Não posso dizer que tenho saudades desse tempo (saudades, só do futuro) mas o que eu lembro, com ternura lembro, claridades do meu Vale Escuro e também algum orgulho ao saber que o poeta Manuel da Fonseca terá um dia por lá jogado e que pisei o chão que ele terá pisado...

Imagem do Vale Escuro, anos 50 (foto do meu amigo F. Penim Redondo)

Correia de Campos quer o coro afinadinho

 

João Ferreira, eleito deputado no Parlamento Europeu pelo PCP, alertou na sua página do facebook, sobre iniciativa de Correia de Campos:
«O Presidente do Conselho Económico e Social vai organizar um debate no próximo dia 9 no CCB sobre "Orçamento da UE pós-2020: que impactos para Portugal?", para o qual convidou deputados dos partidos portugueses representados no Parlamento Europeu. Todos? Não. Correia de Campos, que até já andou pelos corredores de Bruxelas, sabe de onde pode vir uma voz dissonante num coro que quer afinadinho. Razão pela qual decidiu excluir o PCP do debate.
(Quem tiver uma concepção de democracia que não encaixe nos peculiares padrões do ex-ministro, pode exigir a reparação desta exclusão deixando a sua opinião aqui:
apoio.secretario.geral@ces.pt »
Já segui a sugestão, e você
Espera o quê

02 fevereiro, 2018

ALEMANHA - Produção parada nas fábricas da BMW, Mercedes e Airbus.


Segundo a imprensa bem informada, decorreu ontem um plenário de trabalhadores da Autoeuropa, onde ficou decidido que os colaboradores da empresa, de origem alemã, não vão entrar em greve – face à evidência de que há evoluções positivas nas negociações com a administração. A informação é oriunda de alguns dos trabalhadores que estiveram presentes no plenário que não confirmaram que tais evoluções se devam a um telefonema de Angela Merkel para a Administração...

Contudo, este meu "Conversa" está em condições de poder informar que o sindicato metalúrgico alemão IG Metall convocou greves de 24 horas afetando 260 empresas e quase 3 milhões de trabalhadores alemães, numa ação sem precedentes desde 2003.
Segundo outras fontes, também aqui citadas, Merkel já advertiu os sindicalistas: se continuarem a reivindicar, transferimos as fábricas para Palmela.

 

01 fevereiro, 2018

Centeno e o alívio sentido por poder continuar a malhar...


Quando percebo que me podem confundir com o lado errado, fico calado. Fico calado, que é como quem diz, não escrevo. E o tanto que tinha que escrever sobre Centeno. Agora, aliviado posso continuar a atacá-lo, mas por questões pertinentes, sérias. Sérias como aquelas que em anterior post, por interposto autor, sintetizei... 

Agora vejamos o outro lado da noticia, em conformidade com a imagem acima:
  • A RTP, na chamada à leitura, surge parecendo que nem se tenha empenhado em dar eco à atoarda;
  • O Observador, constrangido, não desarma;
  • E o Público, vem agora colocar aspas no "óbvio" pois o seu julgamento na praça pública era "apenas" no domínio ético...
Perdido para já o eco, posso então continuar a malhar nas opções políticas do Centeno, sem incorrer no risco de alinhar com o lado errado...  É o que continuarei a fazer.