10 fevereiro, 2018

No Brasil, o verdadeiro Carnaval é na rua!

“E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu”.
Clarice Lispector, aqui 

O verdadeiro Carnaval é na rua!

É quase impossível imaginar o Brasil, sua cultura e sua música sem pensar no Carnaval. A mais importante festa popular do país ocorre em quase todas as regiões brasileiras, tendo Rio de Janeiro, Salvador e a dupla Recife-Olinda como as principais cidades sede da festa de Momo.

Fantasias, música, dança, multidão, loucuras mil, regadas a álcool e outros ilícitos. O Carnaval é um ponto no espaço/tempo não linear na vida dos foliões, um passar de dias que desloca e estica a realidade para um mundo paralelo, hedonista e festivo, difícil de explicar pra quem não viveu esta sensação.

Composição da festa

A festa, originalmente europeia e associada ao calendário católico, encontrou no Brasil o ambiente perfeito para se instalar, desenvolver e ampliar. O calor, a criatividade da população, a absurda composição étnica para a criação de ritmos musicais, rituais litúrgicos e profanos, enfim, toda essa magia mítica dos trópicos foi muito propícia para a configuração do Carnaval brasileiro como se conhece hoje. Mas nem tudo são flores. Muita segregação social e interesses econômicos algumas vezes acabam pautando o evento e estragando tudo.

Ao som dos clarins de Momo, as ruas se enchiam de gente - eram os metais de bandas marciais que se misturavam a uma percussão duramente ritmada e sem suingue. Marchas ainda muito europeizadas e com sotaque de Exército, com temas lamentosos em tons menores, trazendo as dores dos brancos para os festejos do inicio do ano.

Estas fanfarras também animavam salões de clubes, além de cordões, blocos e agremiações, em sua maioria, formados por pessoas de pele clara, de famílias ricas, que não queriam se misturar com os pobres e pretos nas ruas. Um simulacro de alegria dentro da fantasia coletiva que é a festa da carne.

Os batuques de matriz africana ecoavam nas periferias e chegavam às ruas centrais da cidade. As nações de maracatus no Recife, com seus abês e alfaias; os blocos afro de Salvador, ao som de afoxés, timbais e agogôs; e as escolas de samba no Rio de Janeiro, com seus surdos graves, ganzás e repiques acelerados, todos arrastavam um publico mestiço e mesclado, gente periférica que nunca precisou de muito para se divertir e que, naquele momento, poderia vestir a fantasia de rei, ou de pirata, ou jardineira, pra tudo se acabar na quarta-feira.

Cordões, troças, blocos, agremiações, blocos de índios ou caboclinhos, afoxés, escolas de samba e nações de maracatu se misturavam nas ruas sob um sol escaldante, quase que fundidas no calor tropical do extremo verão. Hordas de foliões e foliãs, todos os tipos de gente, uma mistura que sempre foi a cara da festa. Ricos e pobres, negros e brancos, gays e héteros numa harmonia heterogênea. O Carnaval seria o momento em que a segregação perderia o sentido, em meio a uma grande fantasia coletiva, onde viver sonhos era a meta real.

Mas isso só pode acontecer em um lugar: na rua.


Recife/Olinda, a influência para outras cidades

Recife e Olinda são cidades especiais para a formação do Carnaval brasileiro como conhecemos hoje. Com uma diversidade cultural riquíssima, sua música e sua cultura foram amplamente influentes para os carnavais de outras cidades do país.

É nos idos dos anos 1940/1950 que o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife e sua orquestra organizam uma viagem ao Rio de Janeiro, com escala na capital baiana. Pela primeira vez, Salvador pode ver e viver ao vivo uma tradicional orquestra de frevo pernambucana, com tubas, trombones, sax, clarinetes, surdos e caixa.

Uma sonoridade impactante e com um volume assustador. Arranjos e melodias que encantaram público e músicos da cidade, uma metrópole-irmã tão cheia de música quanto o Recife e Olinda, mas que não conseguia tocar ao vivo e nas ruas com toda aquela pressão sonora que arrastava multidões.

Naquela época, Dodô e Osmar eram músicos de um regional de choro. A percussão suave e as rápidas melodias dedilhadas no bandolim e nas violas eram o mais próximo que os baianos conseguiam chegar daquele ritmo quente, dançante e divertido, que saía dos metais pernambucanos. Encontrar uma forma de poder tocar algo tão alto e envolvente nas suas cordas virou uma meta para os músicos, que queriam amplificar as cordas do bandolim.

É em 1950 que Dodô e Osmar desenvolvem o pau elétrico, instrumento que precede a guitarra de Fender e Gibson, e apresentam ao mundo uma base de madeira sólida que podia amplificar as cordas dedilhadas pelos músicos, surgindo então a guitarra baiana, instrumento que mudaria a história do Carnaval de Salvador.

A Fobica, primeiro trio elétrico, foi também desenvolvido para dar suporte ao sistema de som que era necessário para levar ao público as melodias tocadas na guitarra baiana, naquela época, apenas instrumentais. Com temas que inicialmente repetiam as músicas das orquestras de frevo pernambucanas e clássicos das marchinhas carnavalescas, o Carnaval baiano começou a se recriar atrás dos trios e das guitarras eletrificadas.

Nos anos 1960, trios como Tapajós começam a assumir o protagonismo da festa em Salvador. No final desta década, Caetano lança “Atrás do trio elétrico”, uma ode ao Carnaval baiano de trios e à modernidade da guitarra e do trio elétrico. Mas só em 1976 Moraes Moreira se tornaria o primeiro cantor de trios, entoando "Pombo correio” no Carnaval.

Pra gringo ver – A folia carioca foi transformada num cartão postal do país pelos militares, um evento para televisão. Com o tempo, encaixotaram uma extraordinária manifestação popular legítima em um formato centrado no sambódromo, na padronização do Carnaval e do samba, na hipersexualização das mulheres e na higienização das arquibancadas e camarotes. Para vender o Brasil no exterior como destino sexual e turístico, sufocaram a verve do Carnaval do Rio de Janeiro.

Nos últimos 15 anos, a retomada das ruas foi feita por grupos de jovens músicos e artistas que, vindos de algumas temporadas contínuas passando os carnavais em Olinda e no Recife, descobriram que a festa é feita de folião e rua, de fantasia e improviso, de batuque em descompasso e coral cantando letras erradas.

Blocos como Suvaco de Cristo lideraram o retorno ao protagonismo das ruas cariocas de vários blocos antigos, como o Cordão do Bola Preta, que atualmente leva milhares de pessoas às ruas, rivalizando em volume de público com o Galo da Madrugada recifense. Esta retomada tem reativado o Carnaval do Rio, fazendo ele ser desejado por pessoas de outras cidades por ser, agora, uma festa para além do sambódromo. Abadás, cordas e segregação – No final dos anos 1980, o então governador Antônio Carlos Magalhães colocou os ídolos da axé music num avião e levou o Carnaval excludente baiano para o restante do país. Aquele som pop com tempero de música afro e uma matriz rítmica e melódica de frevo, tocado em cima de baterias e teclados, espalhou por todo o Brasil as prévias carnavalescas, com muito abadá e mamãe-sacode.

Carnatal, Fortal, Carnabelô, Paráfolia, Maceiofest, Pré-Cajú e Recifolia. Nestes e em outros eventos, todos os ícones do axé chegavam juntos, num mesmo final de semana, para transformar cada uma destas cidades numa pequena Salvador, ao som de Chiclete com Banana, Bamda Mel, Asa de Águia, Daniela Mercury, Netinho, Cheiro de Amor e etc.

Toda essa indústria sufocou as cenas musicais locais durante os anos 1990. Com o sucesso destes artistas nos eventos, nas rádios, nos programas de televisão, um rolo compressor desarticulou e ofuscou a produção musical de pequeno porte no país.

O público ficou direcionado apenas para o consumo destes nomes, formatos e conceitos, e os artistas locais se viram numa sinuca de bico: ou se dedicariam a copiar estes modelos pré-estabelecidos, seguindo a maré, ou precisariam de uma musculatura muito mais densa de referências para negar essa música comercial e criar a sua própria identidade. E é no underground que artistas independentes fortalecem suas identidades musicais.

Manguebeat – A partir de finais dos anos 1990, com o boom da cena Manguebeat, a juventude de várias capitais brasileiras tanto voltam o seu olhar para a sua cultura popular local e para uma música pop/rock brasileira, com sotaque nacional, como querem conhecer a meca desta cena musical, Recife.

Grupos e mais grupos de Brasília, Belo Horizonte, São Paulo, Fortaleza, Natal, Rio, Porto Alegre e até mesmo Salvador aportam na capital pernambucana para conhecer de perto o Carnaval de Recife e Olinda, encantados pelas sonoridades de maracatus, cocos, cirandas e frevos, presentes nas músicas de Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre /SA, Mestre Ambrósio, Comadre Fulozinha, entre outros tantos nomes que despontavam nacionalmente em cadernos de cultura e revistas especializadas.

Esta espécie de êxodo para o Carnaval pernambucano fez surgir um novo gosto pela cultura popular na juventude classe média e universitária brasileira do final do século XX. Um público que voltava para suas cidades instigado a misturar suas expressões tradicionais a elementos da cultura pop, como o hip hop, o rock, a música eletrônica, algo que virou uma tônica na música brasileira produzida no inicio dos anos 2000. Perceber a localidade com características de protagonismo é um grande legado da cultura urbana contemporânea de Pernambuco para o país, tanto na música como no cinema.

O renascimento dos carnavais de rua

Brasília – Na Capital Federal, o Carnaval nunca foi exatamente o grande atrativo. Viajar para as principais cidades do país onde os festejos de Momo eram mais tradicionais era algo que fazia a cidade ficar vazia no período. Porém, de uns anos para cá, o Planalto tem vivido um interessante apogeu de blocos e manifestações populares.

O Suvaco da Asa é um destes blocos que levam orquestras de frevo às ruas sem esquina. Babydoll de Nylon e Calango Careta são também expressivos. Há ainda o Aparelhinho, um mix de trio elétrico, sound system e aparelhagem de tecnobrega, que é, na verdade, um carrinho alegórico, conduzido pelos DJs do coletivo Criolina. Tem também o Bloco da Tesourinha, um festejo mais familiar, mais antigo ainda que o Suvaco da Asa, feito por músicos e que arrasta mais de mil pessoas, muitas crianças.

Vale lembrar ainda do Confronto Sound System, que toca reggae e dub, tendo como referência o Carnaval de Nothing Hill, em Londres. E não podemos deixar de mencionar o Bloco do Amor, uma agremiação que levanta pautas afirmativas, de identidade e empoderamento, questionando a caretice da classe média. Desfilando no “coração” da cidade, na avenida S2, local tradicionalmente ocupado por garotos e garotas de programa, o bloco ainda se aproximou de entidades que atuam amparando os profissionais do sexo daquela região, mostrando que Carnaval é também manifestação política.

BH – Na capital mineira, há um claro confronto ideológico entre os saudosos do Carnabelô e a juventude que quer inventar um jeito belorizontino de viver o Carnaval nas ruas. Agremiações de amigos, com batuques e charangas se negam a receber patrocínios e se posicionam numa lógica de ocupação das ruas como espaço público.

É o caso da turma do Praia da Estação, um movimento politizado que traz a reboque diversas causas, como o uso da cidade, a ocupação do centro e o fortalecimento das relações comunitárias em detrimento de um Carnaval elitizado e excludente, com mega patrocínios de cervejarias e trios elétricos tocando sucessos decadentes do axé.

Importante citar Banda Mole, Praia da Estação, escolas de samba e batuques de maracatu como estopins para uma retomada de um Carnaval de rua em Belo Horizonte. Na esteira, muitos blocos começaram a surgir e, seguindo o sucesso, os patrocínios se aproximaram.

SP – Sampa também foi muito influenciada por este ciclo e viveu nos últimos anos um crescimento fora do normal de suas festas de rua. Mais de 80 blocos com nomes irônicos e bastante criativos, festas de rua e até mesmo trios elétricos ocuparam a acinzentada paisagem paulistana, levando cores e alegria para a festa momesca.

Entre os destaques, estão Acadêmicos do Baixo Augusta, Bloco Soviético, Bicho Maluco Beleza com presença do cantor Alceu Valença, Confraria do Pasmado e Bloco Charanga do França. O Carnaval em São Paulo ainda conta com uma imensa variedade de estilos musicais não carvalescos, indo do rock à eletrônica, passando pelo brega e hip hop.

Natal – Várias capitais nordestinas também viveram e vivem um renascimento de seu Carnaval de rua, com destaque para Natal, que passa por um ótimo momento de sua cena musical independente. Neste 2018, a cidade se vê coroada com uma das melhores e mais ricas programações de Carnaval dos últimos anos.

Para o músico e produtor cultural Anderson Foca, a retomada deve-se sobretudo ao fato de as pessoas terem se cansado de viajar para fazer e viver um Carnaval em outros lugares. Ficar em casa, juntar-se a outros fazedores de cultura locais e realizar um Carnaval da cidade, com ou sem apoio institucional, era possível e foi se configurando.

Destacam-se o Bloco da Greiosa, com charanga ensaiando desde novembro pra fazer bonito nas ruas da capital potiguar; o Frevo do Chico; e blocos como A Ponta e a Banda da Praia.
Publicado no "Portal Vermelho"