08 abril, 2018

Um conto ao Domingo - X ("o regresso da gaivota e a sua boa nova")


"Olá" - grasnou ela, do lado de fora daquela mesma janela onde outrora tinha pousado.

"Olá" - respondi-lhe da mesma maneira, dirigindo-me a ela, sabendo por situação passada que não fugiria à minha aproximação. Não fugiu, como então. Sabendo já o que fazer, fiz o que antes tinha feito, julgando saber que me procurava para que lhe desse daquele alimento que as gaivotas esperam poder comer quando pousam nas nossas janelas. Ela ia depenicando e olhando. Depenicando e olhando. Após a décima depenicadela olhou-me como olham as gaivotas e interrogou-me.

"Não me perguntas porque regresso?"

Surpreendido e até contristado por nem sequer me ter ocorrido tal pergunta, respondi por palavras dela.

"Não são muitos os homens que alimentam a liberdade, agora que é hora em que ela mais periga!", foi o que me disseste em tempos. Julguei que teu regresso teria a ver com o mesmo reconhecimento!..."

"E tem, mas também te trago uma novidade. E porque é boa, quis vir dar-ta. Como o bando me espera, tenho que ser rápida. Desde o ano passado não tenho parado. Cruzei mares, sobrevoei desertos, pousei em mil um beirais. Vi muito, por esse mundo, guerras, desmandos e, apesar de tudo...", grasnou levemente, como se estivesse emocionada, e continuou, no ponto em que tinha ficado "... apesar de tudo são cada vez mais os homens que, como tu, me alimentam o voo e se batem pelo sonho da igualdade, combatem cercos de autoridade, de injustiça mascarada, de prepotência e de rituais de guerra."

E grasnando ao bando que naquele momento ia passando, voou ao seu encontro e lá foram, mais uma vez, em direção ao mar, naquele elegante voo que as gaivotas usam quando trazem boas notícias.
NOTA PARA O LEITOR - Este conto, que lembra o outro, não aconteceu o que não quer dizer que amanhã não venha a acontecer...

Rogério Pereira