08 agosto, 2018

Os comboios e a já longa viagem para a privatização

O PSD responsabilizou o Governo pelo estado 
de “falência operacional” da CP.
(...) Em declarações à Lusa, o deputado 
social-democrata Carlos Silva sustentou que 
“o Governo deve uma explicação aos portugueses"
Esquece  o PSD que é todo o "Centrão"
que deve tal explicação


O rápido Oeiras-Cais do Sodré 
( Publicado em Abril de 2014 )

Naquele dia, mal ela sabia, decidira ir de comboio. Apesar da distancia se vencer em menos de meia hora, deu para tudo: olhar a paisagem, fixar-se nos rostos tristes e fechados dos passageiros apinhados e dar uma leitura, rápida, no jornal gratuito pejado de anúncios e parco de assuntos. Ia concentrada em pensamentos, quando o andamento da composição se tornou mais e mais vagaroso, lento, muito lento, até parar. E porque no inicio do dia todos os minutos são contados, começaram os suspiros e de seguida os comentários: "passámos a pagar mais, perdemos regalias e o serviço piora"; "o material está gasto e não é mantido"; "há tempos, houve um descarrilamento e só não aconteceu o pior, sabe lá Deus como..." E as conversas iam evoluindo conforme o prejuízo sentido e o conhecimento que cada um tinha da realidade da linha: "Esta degradação tem a ver com a privatização"; "vai acontecer aqui o que se passa com o comboios que atravessam o Tejo: operador privado, preço dobrado". 
Ela, de si para si dizia, lamentando-se, porque raio se tinha lembrado de naquele dia não ter levado o carro. Olhou o relógio. Tinha tempo. De trás de si uma voz, que se tinha mantido calada, fez-se ouvir sobrepondo-se a todas as outras: 

«É preciso levar tudo à penúria para que o investimento estrangeiro apareça e seja querido. Não sabem que vão ser gastos milhões e milhões na ferrovia? E vejam: precisamos de renovar carril  ou meter novo, anos depois de a Siderurgia Nacional fechar. Não faz mal, vem de fora; precisamos de renovar carruagens e adquirir mais material de transporte de pessoal e de carga, anos depois da Sorefame e da Metalsines fechar. Não faz mal, mandamos vir de fora; precisamos de substituir rodados e adquirir outros, anos depois de fecharem as principais fundições. Não faz mal, mandamos vir de fora. Há uns anos, não muitos, a incorporação de componentes nacionais num projecto ferroviário tinha um impacto extraordinário. E hoje? Fala o governo que a ferrovia é um projecto estratégico para a economia... Para a economia de quem?»

Ficou tudo calado. Ela encheu-se de energia e repetiu a pergunta. Não foi pelo facto de o comboio ter retomado a marcha que a pergunta ficou sem resposta...

TGV ou o que o Expresso não Vê 
(Publicado em Janeiro de 2010)

As omissões, outra forma de avinagrar temas

Jorge Fiel, jornalista do DN, assina hoje uma crónica cujo título me dispenso de aqui reproduzir. Do que ele aí escreve quero apenas sublinhar a passagem onde ele diz "Como todos os mentirosos incompetentes, desenvolvi uma técnica de protecção que consiste em usar a omissão da verdade como sucedâneo da mentira". Tenho-o debaixo de olho para o fazer ingressar no meu rol de testemunhas de que, de facto, existe uma imprensa golpista. Ainda não é desta. Ele afirma que é um “mentiroso incompetente”. Falemos das omissões do Expresso, onde os mentirosos me parecem mais competentes.

As omissões do Expresso de 7 de Novembro de 2009

O título do artigo “100 Mil empregos Criados até 2013”, publicado no suplemento Economia (pág. 3) destacava a importância do TGV pelo volume de emprego criado. Contudo, não associava esse volume à incorporação nacional que o projecto potencia. O autor artigo omite qualquer referência a essa incorporação. Isto é, se forem 100 mil empregos, quantas as empresas nacionais se garantem como empregadoras? Dos custos incorridos pelo projecto quais as estimativas para a parte retida na economia nacional?
O autor, que omite que o projecto pode ser entendido como o desenvolvimento do cluster de Alta Velocidade (ver estudo da Refer ), também não discorre sobre as exigências dos concursos para serem asseguradas as estimativas para a incorporação nacional que os futuros Cadernos de Encargos deveriam salvaguardar.

As omissões do Expresso de 21 de Novembro de 2009

Trata-se de uma entrevista a Ângelo Ramalho, presidente da Alstom Portugal que o suplemento Economia titulou “A estratégia para Portugal é investir em massa cinzenta”. É um texto editado poucos dias depois (12 de Novembro) a se ter publicado, no site da Agência Financeira, uma boa notícia. Diz o título dessa notícia: “Alstom cria rede nacional de empresas para concorrer ao TGV”, o subtítulo é “Fornecedores da indústria ferroviária juntam-se” e a notícia termina “A iniciativa, que conta com o apoio da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), vai reunir cerca de 50 empresas e instituições, como a Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário (EMEF) e a EFACEC, segundo um comunicado da Alstom Portugal”.

Regresso à leitura do Expresso, e percorro todo o texto da entrevista dada por Ângelo Ramalho, presidente da Alstom Portugal ao suplemento, na expectativa de encontrar desenvolvimentos da notícia anterior e… nada, népia, zero.

Fui-me ao Google pesquisar. Encontrei vários sites fazendo referência à iniciativa da Alstom. Encontrei até o texto do Press Release e encontrei ainda um fórum de discussão no Comboios.org. Aqui é mais explicita a ideia da Alstom, transcrevo: “Apesar da iniciativa ter um âmbito local, a Alstom pretende que os seus resultados venham a ter um cariz internacional, de modo a que as soluções apresentadas pelas empresas portuguesas possam um dia vir a integrar os produtos e soluções ferroviárias da Alstom. «Esta é uma forma de dinamizarmos a indústria nacional», revelou Ângelo Ramalho, adiantando que «a integração de parceiros nacionais nas nossas ofertas» é uma componente bastante importante nas políticas empresariais da Alstom.”Voltei novamente ao texto da notícia do Expresso e a mesma pessoa responde desta maneira à pergunta”Qual vai ser a vossa presença na Alta Velocidade em Portugal” Resposta: “Temos competência para…bla… bla…bla”. É que o gajo não disse nada. Ou melhor, disse. Disse que ainda é cedo para pensar nisso (Alta Velocidade).
Nessa altura tirei uma conclusão: Um bom jornalista (bom para o PiG) não deve questionar uma multinacional sobre o porquê desta silenciar o que noticiou dias antes. A bota não bate com a perdigota, de facto existem razões para pensar que a Alstom tenha alterado o eixo do seu discurso: Vejamos, ainda que especulativamente, possíveis razões:
1. O presidente da Alstom poderá ter fortes sintomas da doença de Alzheimer e por isso esqueceu tudo o que tinha dito e feito antes
2. O presidente levou um puxão de orelhas da casa-mãe por ter antecipado a estratégia;
3. Sendo uma multinacional, as estratégias mudam. Ponto final;
4. A estratégia não mudou, só que os cadernos de encargos não incluem cláusulas de exigência de garantias para a incorporação nacional e, sendo assim, não vale a pena oferecer algo que não será valorizado nos futuros concursos.
As omissões do Expresso online de 12 de Dezembro
Com esta data, existem vários textos sobre o TGV mas detenho-me no título “ Ernâni Lopes: TGV não deve arrancar no quadro actual”. Este senhor argumenta "Quanto ao TGV, devo dizer que não consigo explicar dentro da minha cabeça uma opção para arrancar no futuro próximo. (...) Essa ideia de que as obras públicas são o sustentáculo da vida política portuguesa, eu não a aceito. As obras públicas são obras para efeitos públicos. Pagas pelos contribuintes ainda por cima. Temos de ter respeito por isso"…

O jornal regista isto e cala-se. Omite-se a ele próprio como tem vindo a fazer ao longo do tempo. Quanto a mim, agora que se aproxima a discussão do Orçamento, as omissões vão continuar. Omissões que são uma forma de mentira. Lembro a crónica do Jorge Fiel.