08 março, 2026

EU, RECONHECENDO O ERRO, RETRATEI-ME (CURIOSAMENTE, LOBO ANTUNES NUNCA O TERÁ FEITO)

 

Há três dias atrás, sobre Lobo Antunes, escrevia o que nunca devia ter escrito. Foi assim: "Nunca li nada dele, mas neste meu espaço fui escrevendo sobre o que parecia ser sua alma. Não vou, por respeito à sua partida, fazer rol de tudo aquilo que me afastava da sua escrita. Limito-me a dois apontamentos" e citei-o.  Ao afirmar que nunca lera nada dele, justamente, levei na cabeça... e, reconhecendo ter metido a minha pata na poça, prometi ir ler obra sua. Estou indo a caminho da promessa e tropeço nesta crónica publicada ontem:

"... Carlos Vaz Marques foi depois entrevistar José Saramago, para o número do mês seguinte da revista Ler, e procurou esclarecer o episódio relatado por Lobo Antunes. Começou então por perguntar ao prémio Nobel de 1998 se, ao contrário de Lobo Antunes que dizia não ler obras de Saramago, ele lia os romances do outro escritor.

Saramago disse que “ao princípio, sim”, até que os lia e, depois de um pausa, afirmou: “Pois, para quem nunca leu um romance meu, ele desdobrou-se em opiniões a meu respeito, como escritor. Tem todo o direito a não ter lido e a continuar a não ler, até ao fim da vida, uma só linha minha. Mas, em princípio, isso retira-lhe o direito de julgar”.

Saramago não se ficou por aqui na apreciação e rematou: “E há uma outra coisa, em toda esta história lamentável: eu nunca me comportei, em relação ao Lobo Antunes, como ele em relação a mim”. 

Conclusão: eu, retratei-me; Lobo Antunes, ao que parece, não!

 

14 comentários:

  1. A trabalheira que tiveste para elaborares esta publicação. Congratulo-te por isso. Gostei de ler. Um episódio que desconhecia.
    Somos tão rápidos a fazer julgamentos precipitados...

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    1. Mas... à medida que vamos entendendo o que vamos publicando, assaltam-nos alguns desafios. Agora tenho um, ler Lobo Antunes

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  2. Esta tua publicação continua na senda do julgamento do homem. Há outras opiniões sobre ele. Qual a razão da tentativa de destruir a imagem do homem como meio de desvalorizar a obra do homem?

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    1. Este texto, foi publicado ontem... Pergunta ao autor ou então ao jornalista Carlos Vaz Marques...

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  3. Acrescento: quando a Saramago foi atribuído o Nobel assisti a um movimento igual.

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  4. Estas questiúnculas literárias, com maior ou menor intensidade, sempre existiram na nossa "Praça", em todas as épocas. Poe isso mesmo, eu faço questão de manter Saramago e António Lobo Antunes, bem juntinhos, nas minhas estantes. Por vezes, até me parece que, no silêncio da noite, eles trocam impressões e palavras muito cordiais.

    Lídia Borges

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    1. Eu sei, Lídia
      Que és uma querida
      Pois, se assim não fosses
      Jamais serias a madrinha
      da minha escrita

      Beijo de afilhado

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    2. Tenho a obra literária de Fernando Pessoa entre a obra literária de António Lobo Antunes e a obra literária de José Saramago.

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  5. Para evitar ter de me retratar é que fico calada!
    Se calhar Lobo Antunes também evitava retratar-se...:))
    Beijinhos!

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  6. Há muitos anos, li dois dos primeiros livros de António Lobo Antunes: Memória de Elefante e Os Cus de Judas. Não li mais nenhum, porque o estilo barroco que encontrei nesses dois livros não me agradou. O estilo dele fez-me lembrar a filigrana, que na joalharia é maravilhosa, mas na literatura já não é tanto, na minha modesta opinião.

    A António Lobo Antunes, prefiro José Saramago, que era muito mais direto, muito mais terra-a-terra, e isso compreende-se. Enquanto António Lobo Antunes foi fruto de um determinado ambiente citadino, refletido no seu estilo refinado, José Saramago foi fruto de um ambiente rural, porque tinha as suas humildes raízes profundamente enterradas nos campos da Golegã, mesmo quando escrevia sobre assuntos que eram completamente alheios a esse ambiente. Lobo Antunes foi mais rebuscado, Saramago foi mais claro e direto. É a minha opinião, que vale tanto como qualquer outra.

    Quanto a Fernando Pessoa, sou um admirador incondicional da sua poesia, mas acho a sua prosa densa, pesada e até deprimente, por razões estritamente pessoais. Refiro-me concretamente ao Livro do Desassossego, que li há onze anos numa cama de hospital, enquanto estava a soro e a oxigénio e com cinco tubos a sairem-me da barriga, por ter sido operado de urgência a um tumor maligno na bexiga. O Livro do Desassossego foi o pior livro que eu podia ter escolhido para ler numa tal situação. Eu devia ter pedido para me trazerem outro livro, que fosse mais leve e que me induzisse pensamentos mais positivos.

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