04 abril, 2026

PARA JÁ, LEIAM O PREFÁCIO (da autoria da "madrinha" da minha escrita)

PREFÁCIO

Nesta Antologia, o autor coloca-nos diante da sua visão do

mundo, marcada por um forte sentido crítico relativamente às

maiores questões que hoje se colocam ao homem, numa ótica

da falta de consciencialização, ética e ação, face às mesmas. É

um conjunto de textos que resulta da experiência vivencial, ob-

servação e interpretação pessoal do mundo com o qual, o poe-

ta se sente em desalinho. É a expressão maturada do encontro

consigo mesmo, provocado pelo exercício de liberdade poéti-

ca que pretende reafirmar, perante familiares e amigos. Mas é

também o desejo/intenção de homenagear a sua companheira

de vida. É para ela, a quem carinhosamente trata por menina, o

primeiro poema (que dá título ao livro). O texto em causa ter-

mina com o verso - Falar de mim é falar de nós, deixando pairar

no ar a ideia de que o sujeito, por si só, não será capaz de rea-

lizar os sonhos e alcançar a felicidade. O pronome nós, não se

limita ao eu e tu do casal, claramente, mas a um universo bem

mais amplo e complexo. Esta é uma constatação patente, desde

logo, na epígrafe/dedicatória que se vai tomando mais visível, à

medida que se avança na leitura.

Há, no trabalho em presença, uma nítida tendência para a

objetividade, com raízes no neorrealismo (reconhecida e assu-

mida pelo autor) uma intenção declarada de eleger o coletivo

em detrimento do individual, conforme se intui no poema “Au-

to-Retrato” onde se lê: Diz nada decidir / sem convocar o coletivo

seu Eu,/ sua Alma e seu Contrário/ ao qual apelida de Juízo, porém

não deixa de revelar, a individualidade (o Eu é a voz da maioria

dos textos) e a impulsividade a que a Arte não se pode furtar.

À conceção da escrita comprometida, o autor parece querer

associar a ideia de um humanismo outro, capaz de minorar ou

até solucionar os muitos conflitos que, por todos os cantos do

mundo, assolam os povos. Puramente utópico - dirão muitos

de nós, leitores. A isso responderá Rogério Pereira com uma

afirmação que costuma repetir frequentemente e surge inscri-

ta no poema acima citado - Diz ser fácil mudar o mundo/só que

leva é tempo.

Uma genuína preocupação relativamente aos problemas de

carácter político-social transparece dos textos e julgo ser essa

mesma preocupação a despertar no autor a pulsão da escrita, a

necessidade de grafar o seu entendimento das coisas do mun-

do e da vida e a partilhá-lo com outros.

De registar, aqui e ali, um pendor acentuadamente irónico

relativo àquilo que, na perspetiva do autor, é frivolidade, desin-

teresse e dispersão e como tal, merece ser criticado, parecendo

querer tomar a seu cargo a função de orientador/mestre.

Vejamos, no poema “Crisálida” ... entregou ao silêncio/ as for-

ças resignadas/ e sentou-se, ansiosa/ à espera/ da hora/ da telenovela.

Ou em “Pele” - A pele, escrita/ A pele, poema/ A pele, prosa/ A

pele,/ a pele,/ a pele/ E ela? /Apenas uma mensagem: /”…porque

noutros lados// também há flores e barcos … e uma vida/ que é

muito mais a minha!”

Ou ainda em – “A primavera das mulheres pueris”. Na última

estrofe pode ler-se:[ ...] Então um ser que não olha o céu, / que não

tem assunto/ que não liga ao mundo/ que virada a cada momento/

só para dentro/ […]

Ah, mulheres/ temos que um dia falar/ olhos nos olhos...

Um reparo, apenas, no sentido de que a frivolidade não

pode ser entendida como apanágio de género. Ela existe, sim,

mas não diz respeito exclusivamente às mulheres. A frivolida-

de, por mais que possa parecer ridícula, a alguns, é transversal

a toda a sociedade, podendo ser encontrada onde menos se

espera. Contudo, não apenas de ironia e crítica social se faz

este livro, faz-se também:

  • de Sonho - O impossível é tão só e apenas aquilo que ainda não aconteceu;
  • de Utopia - Quem antes via apenas a árvore / pode agora ver / através de mim / a floresta;
  • de Esperança - Havemos de emendar o rumo errado.

E, então, a Poesia…


Lídia Borges (*)

2025/08/09


(*) Lídia Borges é o pseudónimo literário de Olívia Maria Bar-

bosa Guimarães Marques, natural de Braga. Professora do Ensino

Básico, sempre teve a Literatura como suporte imprescindível à

compreensão do Mundo e do Homem. Possui o grau de mestra-

do em Teoria da Literatura, na área de especialização de Estudos

Lusófonos, pela Universidade do Minho.

Tem obra publicada nos géneros de conto, crónica e poesia. Assina

vários títulos, alguns dos quais distinguidos em Prémios Literários.

É membro da Associação Portuguesa de Escritores.



 

1 comentário:

  1. Parabéns ao autor do livro, parabéns à autora do prefácio.
    Um abraço para cada um.

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