Tocou, repenicada, a campainha da porta sem outra razão que não fosse a do carteiro, a confirmar se estaria ou não alguém em casa para recepcionar a encomenda. Cumprido o procedimento, apalpei o objecto envelopado naquele papel pardacento, coberto de selos não habituais, oriundos do outro lado do Atlântico. E do tacto se fez luz: era um livro. Voltei o pequeno embrulho para consultar o remetente e sorri da satisfeita curiosidade. Que me manda ela aqui? Abri. Nem acreditava. Para mim vinha remetido o meu próprio livro. Nem sequer sabia que o tinha comprado(*)... E agora? Mo devolvia? Será que tinha defeito, estaria algo errado? Sacudi-o na procura de algum bilhete, uma mensagem que desse explicação. Nada. Mas de pronto reparei que, em letra bem redonda, diria desenhada, vinha na primeira página, a branca da guarda, uma extensa dedicatória. Extensa, mas não de todo estranha. Aquelas palavras me eram familiares, no estilo e na forma carinhosa. Surpreendido, isso sim, estava. Passei à página seguinte, que também estava anotada. Ainda mais escrita: nas margens, no alto do cabeçalho e no pé de página. Sem ainda me deter a ler, verifiquei, apressadamente, todas as páginas. Todas anotadas. Fui lendo de forma salteada e depois, voltei ao principio, para o ler ao correr do seu escrever. Ora comentava se sim ou não concordava , ora falava directamente com os personagens com se intrometesse no escrito ou dele fizesse parte. Ao Meu Contrário e à Minha Alma, acompanhava-lhes os humores alegrando-se com suas alegrias, sofrendo com suas dores. Ela fizera com o meu livro o que há muito fazíamos na blogosfera: Trocar palavras enlaçadas pela ternura que só as palavras sabem ter, mesmo sem se conhecerem quem as escreve. É bom ser lido assim. Não sei se algum autor guardará carinho parecido. Obrigado Gisa, foi um gesto lindo.(*) O livro foi comprado no Sitio do Livro
22 fevereiro, 2012
Carinhos...
29 janeiro, 2012
Homilias dominicais (citando Saramago) - 68
Não é intrusão nem devassa deste espaço, que sempre foi dedicado a divulgar Saramago, colocar aqui um outro autor e a apresentação do seu primeiro livro. É que foi dito que o arrojo de este se fazer à escrita foi inspirado por essa figura de escritor e de Homem. Sentir-se o "jovem" autor um escritor que escreve, a ele o deve. Mas deve-o também a muitos, muitos amigos que apareceram e a muitos, muitos outros, cuja ausência só o foi por lhes não ver o corpo. O autor sentiu, a cada momento, que também eles estavam presentes e lhe sorriam, confiantes.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------Rogério Pereira
28 janeiro, 2012
Intermezzo... entre trabalhos de mares e o que farei amanhã.
Tão belo quanto estes acordes, foi o trabalho dos mares (eram sete os mares e mais um, este, um mar arável).
27 janeiro, 2012
Há pouco mais de um ano...
"(...)As viagens sobre as quais vou escrever, estão no mapa. São viagens impostas e não escolhidas de entre a oferta turística para destinos de veraneio ou de cultura. São viagens impostas por desígnios que outros consideraram sem me ouvir, replicando-se, assim, a viagem que conduziu à minha própria existência (“eu nem se quer fui ouvido no acto de que nasci”). Não farei reclamações por ter sido introduzido por esses caminhos pois, como parece ter ficado claro, encaro normal no meu passado que me tenham condicionado horizontes. Outra coisa é a forma de navegar. Aí sim, tenho responsabilidades. Sobre como o fiz, o que fiz e o que deixei de fazer. Significa então a minha aceitação por imposições externas na direcção que deve seguir um homem? Sou contrário ao princípio de que cada um deve poder escolher o seu caminho? Claro que não. Mas escrever sobre isso seria escrever sobre a utopia. Não sei se o farei ou se guardarei para outro dia…"
25 janeiro, 2012
Entre o sonho e o pesadelo, a fala do guerreiro negro...
A fotografia, que julgava perdida, apareceu.
É referida no livro e nela, agora,
inscrevi a passagem onde, "Entre o sonho
e o pesadelo", o guerreiro me fala.
in "Almas que não foram fardadas"/pág. 186
(ver)
17 janeiro, 2012
Traz outro amigo, também...
Falarei mais sobre a sessão... Entretanto foi criado um "evento" no FaceBook.
28 setembro, 2011
O livro que estou a escrever está muito atrasado...
O Diogo não me larga. Eu não largo o Diogo. O sol me põe mole. O dia-a-dia tem pressão que não alivia. E os amigos me requerem. As palavras e as páginas não me saem. Tenho que pôr mão nisto: vou ter que ser mais disciplinado e, entre outras coisas, estar menos aqui e menos a passear para comentar. Tem de ser... Vou ligar à editora, a comunicar que o rascunho do meu livro vai ter entrega adiada... Sobre nova data? Por enquanto, não digo nada.
26 setembro, 2011
Pai à distância, sonhando com Maria Montessori...
20 agosto, 2011
20 de Agosto de 1970
107 – “será a selectividade da memória a forma do corpo assegurar a sobrevivência da alma?” – Diz-se que a memória é selectiva e que guarda apenas emoções desde que elas não abalem a mente da gente. A mente, a minha, não é mais do que o Meu Contrário e ele não se sente hoje minimamente abalado. Segredo? Não se lembra de nada, nem dos primeiros beijos de chegada, nem o sentir dos corpos, nem o risos nem os sorrisos, nem os dizeres. Não se lembra. A Minha Alma, essa, também não. E julgo que o faz para se auto-proteger e, desse modo, proteger-me a mim próprio. Os esquecimentos da alma ocorrem quase sempre por instinto de sobrevivência, por necessidade fisiológica e, nalguns casos, pela própria incapacidade das almas guardarem sentimentos em confuso turbilhão. Assim, este episódio, que durou mais de um mês mas é centrado em vinte e quatro horas passadas, não o escrevo à custa das memórias mas dos factos, e dos indícios indiscutíveis, que provam que eles aconteceram. O primeiro facto é a própria data, 20 de Agosto de 1970, quarto aniversário do meu casamento festejado nas férias, interregno da minha comissão militar (não da guerra, que continuava e havia de lá estar ao regressar). Segundo facto, as fotos mostram-me uma alegria (antes e logo de seguida a esse dia), que não podia ser inventada, nem por mim, nem por minhas filhas, nem por ela, minha mulher. Há sorrisos, gestos e expressões que não mascaram o sentir dos corações. Terceiro facto, o dia foi passado a dois como testemunham as cartas, posteriormente trocadas, comentando o dia. Inventando um pouco sobre essas férias, diria que elas aconteceram sob a pressão do medo do regresso a Angola e da longa separação que se ia seguir... Longe da vista, longe da afeição?19 agosto, 2011
"Caminhos do Meu Navegar" passou a ter acesso privado e até o estacionamento é proibido...
Pois é. Algum dia tinha que ser. Ainda sem data de publicação, o livro passou a ser escrito no recato do word, sem mirones. O que mais dói à Minha Alma é não ter os comentários carinhosos de quem, pacientemente, me ia lá ler. Serão recompensados por isso. Mais tarde direi como... De vez em quando, neste local, mostrarei uma página ou outra...
11 agosto, 2011
Contra a ociosidade, a mãe de todos os vícios...
(...) "Ali, nada fazia mais do que ocupar o corpo para distrair Minha Alma, arrumando e voltando a arrumar coisas que não tinha chegado a desarrumar. Caiando o posto de socorros, pintando móveis, pintando janelas e portas, para uns tempos depois voltar a caiar e pintar, mudando tons e cores para sentir, também, que alguma coisa mudava e era diferente naquele quase inútil ambiente. Era como se mudando as coisas as pudesse achar atraentes. Naquele dia, a acção da UNITA e os comentários à volta desse acontecimento foram o alento para a escrita. A carta seguiu ..."
(Pode aqui ler mais mais um episódio do livro que estou a escrever)
02 agosto, 2011
Lá no outro lado, fora da ânsia destes dias... vivendo outras - 2
“Porqui tu, com esperto nus cabeça, bebe cigarro?”. A princípio, a estranha expressão levou-me a corrigir o que entendi ser confusão do seu mau português, sem atender à censura implícita na pergunta. “Não se diz bebe cigarro. Bebe, é beber bebida e cigarro é de fumar, não de beber” disse reforçando o que tinha dito acompanhando com os gestos de beber e de fumar, pois estava fazendo ambas as coisas. “Tu fazes os dois ao meismo tempo e eu dizer eras misturadas”.(...)No dia seguinte o “Meia-Cuca” apareceu acompanhado de outro miúdo, mais pequeno e com ar assustado. Com o seu, sempre igual, interrogou-me se me importaria que ele ficasse por ali, adiantando ser aquele mais sossegado que ele próprio, e que até podia ajudar (...)
01 agosto, 2011
Lá no outro lado, fora da ânsia destes dias... vivendo outras - 1
O “Meia-Cuca” veio buscar o que lhe era devido pelos recados, tantos, que me fizera nesse dia. Ele não fazia nunca o preço. Eu também não. Dava-lhe os trocos que tinha à mão e ele não regateava, talvez até por mal saber o valor do dinheiro. Acho que prezava mais os valores do trabalho remunerado e da sua digna ocupação de "recadista" - como gostava de ser tratado - na esperança de, quando crescer, talvez passar a haver condições para exigir o real valor do trabalho
Para ler tudo, vá ao outro lado
18 julho, 2011
Em 1970, em Lisboa, mal se conhecia fruta... da boa
"Disse-me, como antes tinha dito, os nomes dos frutos: “Esta tem papaia, aquela abacate, aquelas qui tu tá vendo nu ali, tem muntas manga”. “E a que dá o mamão?”, perguntei por me faltar ver essa, enquanto os odores se misturavam com o cheiro da terra “Essa tá mais nu longe. Custa mais dinheiro”, disse o Meia-Cuca com ar quase severo e que entendi ser seu sinal de não estar para ir mais longe do que tínhamos ido. “É igual a esta que tu ver aqui” e apontou-me a da papaia."
(leia aqui, quando conheci o que hoje é banal ver)
16 junho, 2011
Retomando um trabalho interrompido... que me é muito querido
Interrompi, há cerca de quatro meses (como o tempo passa...) o livro que resolvi escrever. Interrompi sem que houvesse qualquer razão especial. Ou melhor, por várias razões tais como: um trabalho deste tipo precisa de maturação, o caminho da obra carecia de reflexão, o dia-a-dia solicitou-me e obrigou-me à dispersão, os amigos que foram chegando foram-me tomando tempo, etc, etc. Acontece que fui instigado a continuar e a editora, com a qual já me comprometi, espera-me lá por volta de Setembro com obra feita...04 fevereiro, 2011
4 de Fevereiro de 1970, lembrando outra data
Dez da noite e o moto-gerador foi desligado. Na messe aprontaram-se os dois petromax mas apenas um funcionou pois a “camisa” de um deles danificou-se irremediavelmente. Nada perturbados pela reduzida iluminação, a mesa da “lerpa” continuou a jogatana sem qualquer interrupção ou outros lamentos que não fossem as queixas pelo azar com o jogo distribuído pela “banca”. Noutro lado, mais iluminado, o grupo de leitura fazia o que sempre fizera naqueles serões na retaguarda da luta. Lia. Eu, por meu lado, entretinha-me com distracções menos frequentes como seja acompanhar borboletas e abelhões esvoaçando à volta da luz como se a pretendessem devorar oferendo-nos em troca a escuridão. Tinha como costume o copo de uísque na mão e dentro, mais uma vez a simular gelo, a bala de G 3. O tilintar do metal no vidro sugeria-me maior frescura na bebida e assim estava. O furriel Alma Atenta levantou-se de repelão como que sacudido por uma decisão. Pegou no velho rádio de pilhas a um canto e ligou-o no posto já sintonizado mas com muitos ruídos e interferências. Pacientemente procurou melhorar a sintonia o que conseguiu. Música congolesa. Mil tentativas tinham sido já ensaiadas, mil vezes sem sucesso de apanhar outros postos que não fossem emissoras do Congo ou da Tanzânia. “Desliga essa porcaria” reclamou o furriel Alma Redonda, enxofrado pelo mau jogo que lhe tinha calhado. “Desculpa pá, mas hoje tenho de ouvir os gajos”...25 janeiro, 2011
Dois actos, datas distintas e um futuro mais uma vez adiado...
10 janeiro, 2011
"Poema frouxo" / "Canto belo"
"... quem lia parou de ler, como se os olhos fossem ouvidos e fosse necessário olhar para ouvir aquela melodia a tocar. “Because” ia harmoniosamente tomando conta de todos os ambientes. Eu pensei: “Poema frouxo”. “Canto belo” atalhou Minha Alma. E assim ficámos todos ouvindo até chegar “Imagine”, prolongando-nos a nostalgia de imaginar impossiveis...30 dezembro, 2010
18 dezembro, 2010
O livro que estou a escrever?... Vá lá ver!

Um livro escrito
para dar testemunho que a guerra
pode trazer a consciência
não só da nossa humanidade
mas também
da inevitabilidade
histórica da libertação
dos povos
(para ler o que estou a escrever)
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"A violência que presidiu a instauração do mundo colonial e provocou incansavelmente a destruição das formas sociais autóctones demoliu sem restrição os sistemas de referência da economia, as formas de aparência, de indumentária, será reivindicada e assumida pelo colonizado, no momento em que, decidindo ser a história em atos, a massa colonizada investir as cidades proibidas. Explodir o mundo colonial é então uma imagem de ação muito clara, muito compreensível, que pode ser retomada pelos indivíduos que constituem o povo colonizado.” – Frantz Fanon in "Condenados da Terra"/1961









