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19 outubro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 72 (há déficits mais graves, os da memória e da coerência...)

 (conversa anterior)
«Por este entendimento e em nome da coerência, a CDU não pode permanecer nesta sala para escutar os vossos discursos. Depois de ouvirmos as intervenções dos líderes das outras bancadas, nossos colegas da Assembleia, abandonaremos esta sala. É com um desgosto profundo que a abandonará nessa altura. Mas com uma palavra de esperança: a Moção aprovada irá ser cumprida, assim as forças políticas que a votaram acordem para uma posição coerente ou que as populações as façam acordar.»
Rogério Pereira, na passada quinta-feira

Não havia uma única mesa vazia, e de cadeiras só na minha. Ele chegou e sentou-se, e o cão para debaixo dela. Como se estivéssemos ali há muito, disse, como se continuássemos uma conversa não interrompida:
- Soube do seu discurso
- Não foi discurso. Foi uma intervenção. Os discursos pairam sobre os assuntos, numa intervenção as palavras são facas, interpelam a memória e a sua filha directa, a coerência ...
- Disseram-me que ficou surpreendido por ter sido aplaudido!
- Não fiquei surpreendido logo, foi depois. A sala parecia estar comigo, mas depois ficou até ao fim... e foram festejar...
- Admirado? Hoje, todos querem estar de bem com Deus e com o Diabo...
- Eu sei, eu sei! Não é por acaso que os tempos que vão correndo provocam tanto desalento. 
- Desalento? Mas...
- Desculpe, mas hoje não estou em condições de prolongar esta conversa... as memórias do meu poeta, não me saem da cabeça...
E por respeito ao meu pedido o engenheiro quedou-se em silêncio.


13 outubro, 2014

Eleições no Brasil - Filmezinho (I)


TAKE 1 - A câmera percorre, lenta, a multidão agitando bandeiras vermelhas, segue-se um grande plano em que um homem forte, de cabelo bem grisalho e farto bigode fala ao telefone. Findo o curto diálogo volta a mostrar-se as bandeiras. Sobre elas, passa em letras garrafais o seguinte texto, em cortina, de baixo para cima:
ESTADO DO MARANHÃO 
Área 331 937,450 km2 (três vezes e meia maior que Portugal) 
640 quilómetros de litoral - Cerca de sete milhões de habitantes (20,64/km2) 
*** 
FLAVIO DINO do Partido Comunista do Brasil, foi eleito com 64,02% 
O primeiro governador comunista do Brasil 
Os mídia ignoram ou desvalorizam o facto, 
as bandeiras vermelhas com a foice e martelo 
afastam tabus conquistando o seu espaço. 
***  
Candidato dos Sarney, que governavam o Maranhão há 50 anos, 
ficou-se pelos 32 % 
(guião retirado daqui)

TAKE 2 - A câmera dá a imagem da esplanada, com o senhor engenheiro afagando o seu cão rafeiro e a dizer convicto: "Não sei o que aquilo vai dar, mas depois daquele "Marinho de Saias" o Partido Socialista Brasileiro vai ficar em cacos"
 
TAKE 3 -  A cena começa com um grande plano da dona Esmeralda, depois passa a um zoom-out, onde a câmera a fixa a falar com a vizinha do 4º andar. Segue-se um curto diálogo e, de seguida, dona Esmeralda lê parte do artigo do Avante, em voz alta:
«A nossa simpatia e solidariedade para com a candidatura apoiada pelo Partido dos Trabalhadores e por outras forças de esquerda em que se inclui o Partido Comunista do Brasil, não ignora as dificuldades, contradições e limites do processo de mudança em curso neste imenso país/continente. Nem esquece que a par das eleições presidenciais se realizaram eleições para governador dos diferentes estados, para deputados e senadores e que, apesar de alterações que importa avaliar, a relação de forças daí resultante permanece globalmente desfavorável às forças de esquerda. E bem sabemos que uma coisa é ter a presidência e posições importantes no aparelho de Estado, outra coisa bem diferente é ter o poder. É uma evidência que a vitória de Dilma não assegura por si só o prosseguimento e aprofundamento do processo de mudança iniciado em 2002 com a primeira eleição de Lula. Como as manifestações de Junho do ano passado confirmaram, só com o apoio e mobilização das camadas populares interessadas será possível quebrar a resistência do Capital e avançar com as transformações económicas, sociais e constitucionais que a sociedade brasileira reclama.(...)»
Ia a leitura assim ouvida quando é interrompida pelo grito do Rogérito: "Vizinha, a eleição de Morales na Bolívia, pode dar uma ajudinha à Dilma!"

CONTINUA

14 setembro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 71 (Este ano não vai haver outono, passamos directamente deste falso verão a uma rigorosa invernia)

(ler conversa anterior)
«Com Seguro as coisas são, portanto, relativamente claras e previsíveis. Com Costa, não. Contrariamente ao que alguns agora pretendem fazer crer quem no PS fez explicitamente a apologia do “Bloco Central” foi António Costa. Foi essa durante meses e meses a sua linha de actuação na “Quadratura do Círculo”, porventura com base na salvífica esperança de que um dia, não muito distante, o PSD viesse a ser governado por alguém que interpretasse tão semelhantemente quanto ele o “interesse nacional”. »
In "POLITEIA"
«Não nega que este PS tenha facilitado muito a vida ao PCP a nível político?
Facilitar a vida ao PCP era se o PS desalinhasse com a direita (...) e ajudasse na definição doutro rumo para o País.»
João Oliveira, hoje em entrevista ao DN
O rafeiro depois de se sacudir enfiou-se debaixo da cadeira. O engenheiro também vinha molhado, mas não se sacudiu como o cão. Colocou em cima da mesa um livro conhecido e enquanto me cumprimentava ia falando das agruras do tempo: "Este ano não vai haver outono... Passaremos directamente deste falso verão a uma rigorosa invernia" - "Quem dera! E assim teremos uma antecipada primavera!", retorqui com um sorriso cúmplice. 
Ele também sorriu e abriu o livro. "Quer ouvir?" E leu estrofes dum poema épico conhecido

(e sem que déssemos por nada, um denso e premonitório nevoeiro invadiu a esplanada)

27 julho, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 70 (Passos Coelho também está a "governar com maioria absoluta")

(ler conversa anterior) 
«O PS pretende governar com maioria absoluta porque é necessário estabilidade para fazer a mudança que é necessária em Portugal» - António Costa, ontem

«A frase do candidato socialista deixa transparecer que está por quase tudo no que toca a entendimentos pós--eleitorais - excetuando com "este" PSD (mas se for com "outro" PSD isso já não será assim, conforme o próprio aliás já admitiu).» - Editorial do DN, hoje 

"Olá!", dissemos quase em uníssono e  com um parecido sorriso. Temos rostos muito diferentes e, por isso, o sorriso apenas é parecido no sentimento sentido. Sorriso aberto, franco, sério. Isso, um sorriso sério. O velho engenheiro, percebi, vinha com uma "agenda" carregada pois desatou, sem se conter, a fazer uma churrada de questões a que não soube responder. Até que resolveu entrar por outra toada: a de fazer afirmações à espera das minhas confirmações.
- "Cá para mim, é significativo que ele se tenha furtado a falar da dívida, que não deixou de aumentar!"
- "Bom, ao certo não sabemos se falou ou não..."
- "Cá para mim, é significativo que ele se tenha furtado em falar da renegociação da dívida, os juros estão a comer o pouco que temos vindo a crescer!"
- "Bom, ao certo não sabemos se falou ou não..."
- "Cá para mim, é significativo que ele se tenha furtado a falar do que o Presidente Sampaio disse, antes da Convenção!"
Nesta altura, parei e não pude deixar de interrogar: "Sampaio, disse? O que é que Sampaio disse?"
- "Bom, de certo António Costa disso não falou, logo se saberia!"
Ele ficou a comentar o que a imprensa diz e pensa. Entretanto, o rafeiro, talvez intimidado pelo acto ousado que tivera, na última "conversa", em saltar para cima mesa, desta vez esgueirou-se para debaixo dela. Pachorrento, ia acompanhando o diálogo com uma atenção quase humana. É por isso que eu gosto de cães...



20 julho, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 69 (Se Seguro quer o PSD, Costa o PSD quer )

(ler conversa anterior)
"Se me diz: o PSD perde as eleições e muda e aparece outra direcção e tem outra política... Se o PSD for outro PSD com certeza que a conversa também é outra conversa" - António Costa, na "Quadratura do Circulo", citado no "Manifesto 74"

"Num Estado de Direito democrático, qualquer acordo político pressupõe o respeito do quadro constitucional em que vivemos e no nosso Estado de Direito quem define o sentido dos comandos que decorrem deste quadro é o Tribunal Constitucional. Se não se aceita isto, se não se respeita isto, não há acordo ou compromisso possível, nem sequer ele seria desejável" - Jorge Sampaio, aqui

O rafeiro do senhor engenheiro saltou, ligeiro, para o único lugar vago, da única mesa disponível. O dono, franziu o sobreolho para o animal entender. O cão não quis saber e passou para cima da dita, fazendo tombar a chávena, que saltou do pires e quase caia. Depois, refastelou-se, ignorando o ar recriminatório do dono.
- "Incompreensível, este comportamento", justificou-se o engenheiro.
- "Teu cão fez aquilo para preencher um lugar vazio"

13 julho, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 68 ("Brutal, brutal, brutal" disse o merceeiro, sem se referir à faixa de Gaza))

(ler conversa anterior)
"Brutal, brutal, brutal"
Alexandre Soares dos Santos, hoje, sobre o BES

«Só queria ser mosca, ter estado lá, e ouvir o que eles diziam!» Ninguém, na esplanada, lhe ligou.
Lá, no nosso canto, era o BES o assunto, depois de terem sido muitos outros. Questionava-me o senhor engenheiro, afagando o seu rafeiro:
- «O "merceeiro" está preocupado. Terá razão para estar?"
Encolhi os ombros, mas lá fui dizendo, - «Afirma-se que o BES está defendido com dois mil milhões, mas a dívida da holding é sete mil milhões... alguém vai estar a arder com a diferença!»
- «O merceeiro?»
- «Não, o povo inteiro!»

06 julho, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 67 (sobre o susto, os chimpanzés e os homens)

(ler conversa anterior)
"A Terra rebentará, podemos tê-lo por seguro, mas não será para amanhã. Do que estamos a necessitar é de um bom susto. Talvez despertássemos para a acção salvadora." - José Saramago, aqui

"Na cidade, agora, todas as pessoas esperam por um outro terra­moto, semelhante ao anterior, mas de sentido inverso – que recolo­que o cérebro dos chimpanzés no sítio certo e antigo. E com isso a ci­dade recupere a normalidade." - Gonçalo M. Tavares, aqui

Em menos tempo do que aquele que se leva a contar, foi um debandar. A chuva persistente afastou toda a gente. De todos, ficámos só nós os três abrigados pelo estreito telheiro: eu, o velho e o rafeiro. Mesmo com os pés molhados compensámos tal desconforto com o gosto das palavras trocadas...
- "Voltou a citar o Gonçalo! Mudou de opinião?"
- "Não, apenas lhe estou a voltar a dar uma oportunidade!"
- "Aproveita ter o Gonçalo falado dos efeitos do terramoto... mas não era esse o susto de que falava Saramago!"
- "Não, porventura, não seria!"
- "... e macacos não são homens!"
- "São quase!"
- "Então a cidade é um grande zoo?"
- "É verdade!"
E continuamos a conversar muito para além da chuva parar, deambulando sobre mil assuntos até comentar o que dissera o Carlos:


29 junho, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 66 (Lula, Dilma, a "Copa do Mundo" e... o resto )

(ler conversa anterior)
«Que os trabalhadores e o povo se perguntem sobre a oportunidade de se construírem estádios em vez de infraestruturas que correspondam às necessidades sociais é legítimo. Mas, nessa contradição própria em que se geram os protestos no Brasil, com justas reivindicações mas também com aproveitamento da direita, há que olhar com profundidade...» 
Bruno Carvalho, citado por mim, aqui

«Mas, não é a Copa, imbecil! É a eleição presidencial. É a perspectiva provável de reeleição da Dilma, ainda mais com a possibilidade de um retorno do Lula em 2018. Isto é o que produz o desespero da direita nacional e dos seus aliados internacionais. Não olhem para o dedo que aponta a lua, olhem para a lua. A questão política central este ano não é a Copa, são as eleições.»

Não me contive e numa atitude intrometida espreitei por cima do ombro dela. Ela quando deu por mim parecia que me esperava, esboçou um tímido sorriso e disse o que era escusado, pois eu estava a ver o que lhe tomava a atenção: "estou a reler este seu post", "estou a ver" disse, mas aproveitei para eu próprio relembrar um texto linkado. Ia lendo, e ela também. "Não se importa agora de abrir este outro link?" Ela abriu, eu fui lendo e, a dada altura li de alto: "O Brasil orgulha-se de se associar a Cuba neste que é primeiro porto terminal de containeres do Caribe com capacidade de se integrar à cadeia logística interoceânica", afirmou a presidente." A Gaby ficou por momentos silenciosa e depois perguntou-me se eu ia mesmo escrever e aprofundar a realidade brasileira, respondi-lhe que sim e acrescentei:
"A série de posts vão ter o mesmo título, e começo hoje com este vídeo, quer ver?" e peguei-lhe no iPad para o encontrar e mostrar:


15 junho, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 65 (Ganha o António Costa, vai uma aposta?)

"O último erro que os socialistas cometeram, e espero que seja mesmo o último, foi o Tratado Orçamental, porque ele veio consagrar duradouramente um desequilíbrio assimétrico no funcionamento e na gestão da nossa moeda".
António Costa, aqui
"...provavelmente na altura em que aprovámos o Tratado Orçamental não havia outra solução senão aprovar o Tratado Orçamental."
Idem, aqui
"Um país nunca se deve comprometer com coisas que não pode cumprir. Segundo o Tratado (Orçamental), vamos ter que fazer uma parceria (...) com a Comissão Europeia para ela nos impor um conjunto de políticas económicas durante 20 anos."
João Ferreira do Amaral, aqui


Quando ele chegou já eu lá estava, mas não na esplanada. Por estar cheia, sentara-me num dos últimos degraus da escada que lhe dá acesso, à sombra e não desagradado do lugar, pois ali corria uma brisa fresca. Ele, quando me viu, sorriu e fez o mesmo, a custo, pois uma daquelas dores que incomodam os velhos não facilitou o dobrar-se e quase entornava a chávena de café ao sentar-se em lugar tão baixo. Já recomposto, e depois do habitual cumprimento e de falarmos do tempo, lançou-me: 
- "Sei que não quer comentar a guerrilha que anda lá para o lado do PS, mas o que é que lhe parece?"
- "Me parece... o quê?"
- "O Costa é de facto aquele de que muita gente gosta!"
Encolhi os ombros, mas lá fui dizendo, contrariando a jura de não falar no tema:
- "Que venha o diabo e escolha! Sabe que ele foi ministro disto e daquilo e ninguém se lembra de um só empenho que lhe possa ser atribuído e que ele se possa gabar?"
- "Mas sabe o seu partido!"
- "Podemos lá nós esquecermo-nos disso..."
E mudámos de assunto, depois de rejeitar uma "cena" em que ele queria apostar...

08 junho, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 64 (do que só o Negócios fala, mas à boca calada))

O velho engenheiro nem me deixou sentar. Colocou o jornal em cima da mesa e ia dizendo não perceber porque o jornal tinha fechado o texto à leitura on-line. Na esplanada era rara a gente calada, por isso começou a ler de alto, e depois mais alto ainda, até que toda a esplanada se calou para o ouvir. A meio, palmas e tudo...
ALGUMAS DAS COISAS LIDAS, de entre as mais aplaudidas
(o texto integral passou para outro lugar)
...
- As vozes que mais recorrentemente se ouvem, que são a favor e confiam no projecto europeu, apontam o modo como ele foi erguido, nomeadamente o euro. A sua voz é mais radical.
- O euro foi muito mal concebido, isso é consensual. Mas vou para além disso. O euro é um projecto que exige a existência de um Estado europeu. O euro não pode ser um factor de criação de um Estado europeu (como se pretendeu). Quanto muito, se houvesse um Estado europeu, então poder-se-ia ter criado o euro.
...
- Os resultados eleitorais recentes, que levam cerca de 120 deputados de extrema-direita e eurocépticos ao Parlamento Europeu, são expressão disso?
- A Europa está fraquíssima, em decadência clara, quer do ponto de vista económico, quer social, quer até político. Mas isso não é surpresa. Rompeu-se aqui um equilíbrio que assegurava a grande originalidade do processo de integração europeia.
- Então, futurologia. Daqui a dez, 20 anos, como é que imagina que vamos olhar para estas eleições que expuseram a fragilidade da Europa?
- Não vou fazer futurologia. mas vou dizer quais são os meus receios. Dificilmente a Europa se manterá. A degradação já é tal que é muito difícil a Europa voltar a beneficiar do ambiente de estabilidade. Se não garante a estabilidade, desagrega-se. Esse cenário é cada vez mais provável.
...
- Indo mais ao coração dos seus livros, e dizendo numa formulação provocadora: aquilo não nos atira para um "orgulhosamente sós"?
- Não vejo porquê. As pessoas confundem autonomia com "orgulhosamente sós". E muito português pensar que precisamos sempre de um paizinho, e que se não temos um paizinho ou uma mãezinha estamos sós. Podemos exercer a nossa autonomia, de país que já tem longos séculos de autonomia, cooperando com outros países na gestão de interesses comuns. Por isso fui e sou a favor da participação de Portugal na União Europeia.
Se não fazer parte da União Europeia fosse estar "orgulhosamente sós", haveria 165 países no mundo "orgulhosamente sós". Isso é um disparate federalista.
- Um disparate federalista?
- O federalismo e uma teoria perigosa na Europa porque se apoia num mito (o da solidariedade). Tentar forçar uma realidade que não existe é do pior que se pode fazer em política.
...
- Se exceptuarmos o Governo, não vejo ninguém de garrafa de champanhe na mão a celebrar a famosa saída limpa da troika.
- Não vai alterar nada de fundamental [a saída formal]. Vamos ficar sujeitos às regras do Tratado Orçamental, que não podemos cumprir.
- Não podemos cumprir?
- Não temos margem para cumprir. O que nos é exigido é impossível de cumprir. Reduzirmos o déficit a quase zero, até é possível, desde que não seja amanhã. Mas reduzir a dívida pública para 60% do PIB em 20 anos é inexequível. Isto põe o país numa situação falsa. Um país nunca se deve comprometer com coisas que não pode cumprir. Segundo o Tratado, vamos ter que fazer uma parceria - gosto do nome [risos] com a Comissão Europeia para ela nos impor um conjunto de políticas económicas durante 20 anos.
- Ou seja, vamos continuar atados.
- Não vamos. Antes disso alguma coisa vai suceder. Ninguém aceita 20 anos de austeridade, que é o que propõe o Tratado Orçamental. Entretanto a Europa ou dá uma grande volta ou desaparece.
...

________________________
Agradecimento: Agradeço este texto a Jorge Faria, que o editou na sua página do facebook

01 junho, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 63 (Dia Mundial da Criança)

(ler conversa anterior)
“O homem degeneraria sem a criança que o ajuda a renovar-se”
Maria Montessori, que cito, no meu livro

Já tínhamos falado de tudo, do Marinho, do Costa, do Tribunal Constitucional, do tempo e do empate. Mas nenhum de nós tinha ainda olhado o relógio, nem o rafeiro do senhor engenheiro tinha deixado de brincar com o atrevido melro, sinais mais que evidentes que a conversa podia a qualquer momento ser retomada. Ia a ser, quando o som estridente do telemóvel veio anúnciar a chegada de uma mensagem. Fui ler, tinha escrito "Vou andando". Nem procurei recordar pois tinha presente aonde ia. Voltei-me para o velho engenheiro e disse com ar prazenteiro:
- "Vou brincar com o meu neto!"
- "Brincar? Brincar a quê?"
- "Não sei... talvez às guerras..."
- "Às guerras? Tem a certeza que é brincadeira que se tenha? Julgava-o pacifista!"
- "E sou, é por isso que nestas guerras é o meu neto que define as regras. Eu sigo-as, só quando discordo..."
- "Percebo, ele é quem comanda. Ele é o seu general!"
- "Não, eu sou o inimigo, mas ele estabelece as regras comigo."
O velho sorrio: "agora não lhe entendo a metáfora"
- "Não é metáfora, é mesmo o que se passa. No jogo, claro!"


...

11 maio, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 62 (Talvez a Mafalda se engane...)

(ver conversa anterior) 
"O que a televisão não mostra, os jornais não falam e os comentadores omitem, existe. Existe sim senhor, e vai-se impor !" - Rogério Pereira

A Gaby nem deu pela minha chegada, tão entretida estava. Na esplanada, só eu e ela. O velho engenheiro enviou-me uma mensagem enigmática e dela só entendi que não contaria com ele para as habituais tertúlias dominicais. As outras professoras, pelo adiantado da hora, deviam ter trocado aquele estar por um qualquer outro lugar. Sorrateiro, aproximei-me convencido de que a Gaby não me iria levar a mal por eu a espreitar. Aconteceu isso, quando deu por mim esboçou-me um sorriso. Estendeu-me o iPad, "Quer ver? o João Ferreira está com uma capacidade de expressão de tal forma incrível que nem dei pelo tempo passar. Compactou 21 minutos de entrevista em 2 ou 3 minutos da minha vida.
Sentei-me na mesa dela, e enquanto eu via o que ela me sugeria, seguia-me a expressão com uma cumplicidade inesperada... Depois fomos comentando o que Marcelo dizia, as reflexões da Mafalda e a certeza, de ambos, em que tarde ou cedo seria rompido o cerco de silêncio...
 

04 maio, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 61 (seremos a mãe que tivemos)

(ler conversa anterior) 
Estou sózinho no mar largo
Sem medo à noite cerrada
O minha mãe minha mãe
O minha mãe minha amada

José Afonso (ouvir)

Por vezes, da alma me sai  
Falando a quem quero bem
Sou mais que teu pai
Sou quase tua mãe
Rogério Pereira

Quem estava não tinha procurado a praia e fazia o que sempre ali se fazia, conversava. Conversava, de tudo e de nada até que, pela frequência com que passavam flores, o velho engenheiro, comentou o dia e o negócio que proporciona, dissertando pelo consumismo. Depois falámos de mães e de mulheres, de mulheres e de mães, a seguir de nossas filhas e das mães delas. Não falámos de nós a não ser por falarmos delas e percebemos quanto as admirávamos sem lhes endereçar um só adjectivo e ficando os elogios perdidos no que cada um ao outro contava. Antes de irmos, cada um à sua vida, deixámos quase sentenças:
- "Somos a mãe que tivemos", sentenciou ele.
- "Não é mãe quem quer, mas quem soube ser", disse, antes de me despedir.

27 abril, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 60 (27 de Abril sempre, apartheid nunca mais!)

(ler conversa anterior)
"Cuito Cuanavale foi a viragem para a luta de libertação do meu continente e de meu povo do flagelo do apartheid"
"...dia 27 de abril de 1994, os cidadãos não brancos votaram pela primeira vez com plenos direitos em eleições multirraciais que transformaram Mandela, líder do partido Congresso Nacional Africano (CNA), no primeiro presidente negro do país."

A esplanada era uma imensa algarviada. Os assuntos estavam pulverizados e falava-se de tudo. Sem lugar para se estirar, o rafeiro do senhor engenheiro corria, lá adiante, atrás do melro que gozava com a perseguição e esvoaçava logo que o cão estava prestes a alcançar-lhe a asa. O engenheiro ia falando, sem que eu lhe desse atenção até que lha dei ao ouvir uma frase próxima de uma outra, ouvida e repetida: "27 de Abril sempre, racismo nunca mais!" ia ele dizendo, como um murmúrio. Depois olhou-me com aquele ar de quem não interroga e avançou: - "Sabe que as datas quase se tocam, e o 27 não existiria se não houvesse 25?"- um leve sorriso meu deu-lhe a certeza de que sabia do que ele falava, e continuou - "Depois da descolonização, não acha estranho que a África do Sul tivesse de esperar 20 anos para se libertar?" - Aí, eu respondi: "Os povos libertam-se com processos que não se esgotam nas datas em que começam!" - Ele sorriu como eu tinha sorrido e eu fiquei com a certeza de ele ter entendido o que tinha eu tinha dito. Antes de se calar, lá foi dizendo: - "Pois é meu amigo, a luta continua!"
Na mesa ao lado, falava-se dos santificados e, numa outra, com admiração, na morte de Vasco Graça Moura... Lá adiante, o cão não desistia do melro nem o melro desistira do cão. Estranho entendimento para "gente" tão diferente...
__________________________________

Para além da data, este post foi inspirado pelas tentativas de João Salgueiro pretender reescrever a história. Ele "ignora", quando afirma que o sucesso da África do Sul se deveu ao facto de o Projecto Mandela ter sido preparado em mais de uma década, que o processo se deveu a outros factos, aqui descritos.  

13 abril, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 59 (caminhos únicos e os nossos elos)

(ler conversa anterior)
"Os tempos
Apagaram as Rosas dos Ventos
Destruíram mapas dos mares
Sextantes antigos, modernos radares
E outros apetrechos mareantes
Hoje, e esse hoje tem muitos ontens,
Diz-se haver um só caminho
E que fora dele o desastre é certo
Como se não fosse certo o desastre dentro dele
"

"O meu cão sentiu a sua ausência" - disse ao ver-me chegar, não tendo a coragem de dizer que fora ele próprio que a sentira. Sei o que se passa na cabeça e na alma de um velho quando não mais pode contar do que um cão com quem falar. Não que o rafeiro do senhor engenheiro não interaja ou reduza a monólogo qualquer conversa que com ele se tenha, mas um cão nem lê jornais nem toma iniciativas de assunto. 
Sorri e respondi que sim, com detalhes e mais detalhes, e fui espraiando até que me interrompeu: 
- "Está visto, gosta dos velhos!"
- "Sem velhos, perdemos elos!"
- "Foi à manifestação?"
- "Claro!"

06 abril, 2014

Hoje não houve conversas na esplanada...


Há quem acorde feliz por acordar e, no resto do dia, vai passando ao lado da vida. Há quem acorde com a tristeza da quase certeza de que vai perecer, e no resto do dia esquece medos e males e abraça a vida. Contudo, a conversa com o médico é clara e, por entre os termos clínicos quase indecifráveis, foram ditas palavras que não pudemos evitar que tivessem sido ditas. Alheia a isso, quando entro no quarto esboça um sorriso e faz-me um aceno. Aceno que não é uma despedida, é de satisfação pela chegada... Está melhor esta rosa, envelhecida, que se agarra à vida!


30 março, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 58 ( chove sempre, nos olhos de alguém...)

(ler conversa anterior)
Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu... 
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
A esplanada, coberta e abrigada, era por vezes escolhida para deixar escoar a nostalgia e ir conversando enquanto a chuva caía. Estávamos ali há tempo e o que nos ocorreu nada teve de diálogo nostálgico:
- "A chuva nunca mais acaba, não pára!" disse.
Olhei o céu e respondi como se pensasse para mim
-"Nos olhos de muita gente, não parará tão cedo..."

23 março, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 57 (Afinal, Marx sempre escreveu poemas... )

(ler conversa anterior)

"...(sou) a favor do Tratado Orçamental... mas é preciso fazer uma leitura inteligente..."
Francisco Assis, in entrevista ao Expresso

"Pergunta-me, é possível cumprir o Tratado Orçamental? É, com um polícia a cada porta, porventura num estado de emergência..."
João Cravinho, hoje, ao DN

O cão rafeiro do senhor engenheiro desviou-se a tempo da pisadela na cauda, que a Gaby quase lhe dava. Eu suspendi o que ia dizer ao meu velho amigo, sobre a entrevista do Cravinho. E o pombo, espantado voou para ir pousar noutro lado. A Gaby dirigiu-se à mesa, erguendo-se de sopetão gerando a confusão e despertando todos para o que ia dizer. "Sabem?, ele tinha razão!" Percebi que se referia a mim, quando ela quase me cita: "Marx rima, mesmo sem rimar! Querem ouvir?" E sem esperar a resposta, leu:
"com desdém jogarei minha luva
bem na cara do mundo, e verei o colapso deste gigante pigmeu
cuja queda não sufocará meu ardor."
"Bem, não sei se goste... mas não tenho dúvidas quanto a este outro texto. É uma carta. Ora oiçam:
"Meu coração bem-amado:
Escrevo-te, porque estou só e me perturba sempre dialogar contigo na minha cabeça sem que o saibas e me possas responder.
Por má que seja a tua fotografia, presta-me esse serviço e compreendo agora como as efígies da mãe de Deus mais odiosas, as virgens negras, podem encontrar admiradores incansáveis. Nenhuma dessas imagens foi jamais tão beijada, olhada e venerada que a tua foto, que não reflete de modo algum a tua querida, terna e adorável doce figura. Mas os meus olhos, por ofuscados que estejam pela luz e tabaco, ainda a podem reproduzir não só em sonhos, mas também acordados.
Tenho-te, deslumbrante, diante de mim. Toco-te e beijo-te, da cabeça aos pés. Caio de joelhos na tua frente e gemo: « I love you, minha senhora... Amo-a de verdade muito mais que o Mouro de Veneza jamais amou... » O meu amor por ti, assim que te afastas apresenta-se-me pelo que é: um gigante que absorve toda a energia do meu espírito, toda a substância do meu coração. Sinto-me de novo um homem, porque tenho uma grande paixão..."
Karl Marx, in Jenny, a mulher de Karl Marx, de Françoise Giroud

16 março, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 56 (classe média)

(ler conversa anterior)
«Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos...»

Na esplanada, a algazarra fazia-se em tom moderado. Uma voz se destacava, de quando em quando, lá da mesa das professoras, onde a conversa era acalorada. Discutiam-se comportamentos e definições do que era, seria, a classe média. 
- "Falam do seu poema", disse o engenheiro acariciando, distraidamente, o cão rafeiro. "Olhe, acho que estão a confrontar os comentários de ontem com os que tinham deixado o ano passado..." Concentrei-me, e apercebi-me que assim era. De repente, perguntou-me, mudando de assunto:
- "Correu bem? Foi aplaudido o seu discurso?"
- "Como sabe que fiz uma intervenção?"
- "Ao certo, ao certo, não sabia. Mas sabendo a responsabilidade que tem... correu bem?"
- "Fiz má gestão do tempo, não cheguei à parte fundamental, onde citava Álvaro Cunhal..." 
- "Citava o Álvaro? E qual a citação?
- "Se fôssemos dizer: não devemos entender-nos com ninguém que nos ataque, então não nos entendemos com ninguém. Todos nos têm atacado. Portanto é necessário ver que, embora todos nos ataquem, há homens que não são comunistas, que têm preconceitos anticomunistas, mas que podem vir a ter uma posição de cooperação connosco...", dito na Marinha Grande, em 1976
- "Exactamente o contrário do que dizia Kopler!"
- "Não exactamente! Mas haverá sempre alguém preferirá matar-me, a escutar-me..."
- "Alguém como a personagem do seu poema?"
- "Como a personagem do meu poema!"

09 março, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 55 (Jornalismo de merda - assim mesmo, sem aspas)

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... Vários anos volvidos, a RTP enviou para Kiev um seu funcionário para fazer a reportagem dos acontecimentos que agora estão a ter lugar. Não há palavras para descrever com rigor o seu desempenho desde que chegou a Kiev. Ele escamoteia factos essenciais que hoje já todo o mundo conhece, como a identidade política dos atiradores furtivos; ele não presta a menor informação sobre a composição do poder político saído da Praça Maidan, quando hoje já toda a gente conhece o curriculum dos participantes desse governo; ele fala da Ucrânia como se a Ucrânia fosse apenas Kiev ou até mais limitadamente a Praça Maidan, omitindo propositadamente a realidade complexa do país; ele esconde as medidas que o governo saído do golpe já tomou relativamente à parte que não o apoia; ele não dá a menor informação sobre o que pensa e o quer a outra parte da Ucrânia. Em suma, ele foi para a Ucrânia numa pura missão de propaganda tão inútil quanto estúpida, porque com os meios de informação que hoje estão para todo o mundo à disposição de um clik é perfeitamente possível saber o que ele tenta esconder. Mas nem por isso o protesto deverá ser menos vigoroso, quanto mais não seja por ele lá estar à nossa custa na prestação de um serviço público que vergonhosamente deturpa com o seu facciosismo vulgar.
J.M. Correia Pinto, in "Politeia"
 Ainda há jornalismo decente - dedicado, objectivo, honesto - daquele que reporta factos sem usar adjectivos nem tirar conclusões. E depois há o jornalismo de merda - assim mesmo, sem aspas - como o de José Rodrigues dos Santos, o enviado especial da érretêpê à Ucrânia. Não tem nada a ver. 
Fernando Campos, in "O Sítio dos Desenhos"

O sol amigo não compareceu e a manhã estava cinzenta. Todos estavam. As professoras falavam entre si, excepto a Gaby, que falava para o seu iPad como se conversasse com gente. "Não tem nada a ver!" dizia de si para si. Eu e o velho engenheiro trocámos olhares na cumplicidade, pois já tínhamos lido. Mantivemo-nos calados talvez esperando a pergunta óbvia que a Gaby iria lançar. E lançou: "Vocês lembram-se do Carlos Fino?"
Ninguém lhe respondeu, e ela parecia também desligada da resposta pois a tinha no próprio texto, bastava abrir o link que a levava ao "Politeia"...