08 setembro, 2010

Moçambique, causas remotas dos efeitos de hoje - 5

Ontem era a notícia. Se o aumento dos preços era pressão do FMI, foram necessárias vitimas do povo para o Governo moçambicano ter força para contrariar essa pressão. Os Governos dos países pobres tem cada vez menos força. Os povos... Os povos ainda podem ter (sobretudo se a usarem)

Curiosamente algumas das medidas tomadas seriam benvindas em Portugal. Julgo que sem a pressão do povo, o Governo PS (e quem se prepara para viabilizar o OE) essas medidas aprovadas ontem pelo Governo de Guebuza, não prevalecerão aqui. Quais? Veja aqui...

Resolvido o problema? Claro que não. O FMI apenas teve uma pequena contrariedade com este recuo. Voltará à pressão. O Governo? A Frelimo? Esses terão que relembrar e cumprir com as recomendações de alguém que, há 36 anos atrás, assim discursou:

"(…) O poder, as facilidades que rodeiam os governantes podem corromper o homem mais firme. Por isso queremos que vivam modestamente com o povo, não façam da tarefa recebida um privilégio e um meio de acumular bens ou distribuir favores. A corrupção material, moral e ideológica, o suborno, a busca do conforto, as cunhas, o nepotismo, isto é, os favores na base de amizade, e em particular dar preferência nos empregos aos seus familiares, amigos ou a gente da sua região fazem parte do sistema de vida que estamos a destruir. O tribalismo, o regionalismo, o racismo, as alianças sem princípios constituem atentados graves contra a nossa linha e dividem as massas. Porque o poder pertence ao povo, quem o exerce é servidor do povo. (…) Os desvios da linha suscitam as contradições, as brechas por onde penetra o inimigo, o imperialismo e as forças reaccionárias. Para que se mantenha a austeridade necessária a nossa vida de militante e assim se guarde no sentido do povo e dos seus sacrifícios, todos os militantes da Frelimo que receberam tarefas de governação do Estado tal como no passado deve renunciar às preocupações materiais, nomeadamente aos vencimentos. É evidente que por maioria de razão não se pode tolerar que um representante nosso possua meios de produção ou explore o trabalho de outrem. Combatemos durante dez anos sem qualquer preocupação de ordem financeira individual, empenhados apenas em consagrar toda a nossa energia ao serviço do povo. Está é a característica do militante, do quadro, dos dirigentes da Frelimo. Como o fizemos sempre, de acordo com as nossas possibilidades, procuramos assegurar ao militante que cumpra uma tarefa, o mínimo de condições materiais indispensáveis ao seu trabalho, ao seu sustento e da sua família. Mas também não nos devemos esquecer que muitas vezes combatemos e vencemos descalços, esfarrapados e com fome. Sublinhamos ainda que, assim como fizemos guerra sem horário de trabalho, sem dias de descanso, nos devemos empenhar com o mesmo espírito na batalha da reconstrução nacional”.


Parte do discurso de Samora Machel na tomada de posse do Governo de Transição/1974

A forma como foi silenciada a boca de quem proferiu tão sensatas palavras e o esquecimento que se seguiu a tais recomendações e avisos, são causas não muito longínquas dos efeitos de hoje. Relembrando isso termino esta série de 5 posts, consciente de apenas ter aflorado várias questões que mereciam melhor aprofundamento...

Se quiserem continuar a acompanhar a evolução dos acontecimentos, podem seguir o trabalho de Carlos Serra. (não concordo com tudo o que analisa e escreve, mas é uma boa fonte)

07 setembro, 2010

Moçambique, causas remotas dos efeitos de hoje - 4

Não voltei a Moçambique depois de 2001. Mas nas minha viagens virtuais é possível "ver e ouvir" testemunhos e factos que podem ser considerados (eu considero) como causas que explicam os acontecimentos recentes em Moçambique. Vejamos algo que vem de longe. Na sequencia do Acordo de Nkomati, em 1983, Moçambique adere ao FMI facto que é aqui recordado nos seguintes termos:

"A nossa adesão ao FMI (1984) merece um rememorar de episódios curiosos. Quando aderimos ao FMI, defronte ao Hotel Shorham em Washington, onde decorria a Assembleia Geral Anual do FMI, nas imediações, assistimos a uma manifestação na qual os seus autores transportavam um caixão simulando o enterro do FMI. Ironicamente, nós estávamos a um passo da adesão ao FMI e, este, a ser “enterrado”... Foram emoções difíceis de gerir."

"Os condicionalismos impostos pelo Fundo Monetário Internacional na concessão de créditos para a educação impedem o governo moçambicano de contratar metade de professores necessários nas escolas públicas, uma vez que aquele banco limita as despesas de salários do Ministério da Educação e Cultura."

A legenda da foto é retirada do blogue "Diário de um sociólogo" e o texto que se segue também: De acordo com um estudo, o país precisa de 109 mil professores até 2005. Quando o Fundo Monetário Internacional diz que estamos no bom caminho, é evidente que o caminho é apenas um: o da alma privada. Quanto mais privada estiver a alma, mais o FMI nos premeia. E, então, por que deveria o FMI preocupar-se com os salários dos professores das escolas públicas em Moçambique?"

A fotografia (retirada daqui) não engana. Terá entre 10 ou 12 anos. Pertencerá a uma qualquer escola descontente e terá na família um heroi da guerra civil (saber lá de que lado) ou mesmo um luto mal resolvido pela memória. Sabendo que o aumento de preços é uma imposição do FMI acatada pelo Governo, ter-se-á sentido impelido para a acção com o convencimento de que ainda há lugar para ele na história do seu país.

Alertas preocupantes: ele não está mascarado de povo; ele soube que o funeral do FMI era falso; teve disso conhecimento a partir de um telemóvel que nunca usou nem irá usar nos anos mais próximos (outros o usarão por ele...)

CONTINUA

06 setembro, 2010

Moçambique, causas remotas dos efeitos de hoje - 3

Do avião, vistas de cima, as águas tomaram a cor da pele daqueles a quem lhes encharcava os haveres, impiedosamente, tomando como sua toda a terra boa. Os cultivos e os animais ter-se-ão perdido, deles restando sabe-se lá o quê de coisas a enterrar. Tem sido assim em anos consecutivos. Foi assim o que vi, voando para o Soio cerca de oito meses depois de lá ter estado, na Hidroeléctrica de Cahora Bassa num trabalho que já comentei ter sido profissionalmente gratificante... Na estadia anterior tinha, além de desenhado novos processos, definido requisitos para a sua informatização. Vinha agora, numa curta estadia de 4 dias, verificar a conformidade funcional do sistema.

As imagens de gentes sofrendo depressa foi substituída pela pressão da minha missão. Correu bem o meu trabalho e no prazo apertado que me fora concedido consegui escrever um pequeno relatório com as inconformidades detectadas e instruções para a sua correcção. O director responsável, estava visivelmente satisfeito com o resultado final do trabalho. Convidou-me para jantar em sua casa, convite esse que aceitei, planeando secretamente nesse jantar colocar-lhe mil perguntas. No dia combinado, a caminho da casa do meu simpático anfitrião, ia passado em revista algumas das questões a pôr: Como estaria a economia, sequelas da prolongada guerra, operacionalidade dos portos e dos caminhos de ferro moçambicanos, para quando as comunicações móveis alargadas a todo o território, a agricultura e o impacto das cheias e ciclones... Com estas ideias fui me aproximando da residência, localizada numa das zonas mais arborizadas e bonitas do Soio. Ao meu encontro veio primeiro a boxer, a sua cadela brincalhona que me reconheceu oferecendo-me festivos latidos reclamantes de festas (nessa noite estava visivelmente bem disposta pois, contrariamente a um hábito inexplicável, não tinha comido nenhum sapo. Apareceu de seguida um empregado e logo depois o dono da casa que me cumprimentou efusivamente, juntando-se a nós a sua mulher e as duas crianças, filhos do casal. Seguiram-se palavras de circunstancia, falando em conversa solta e agradável sobre um monte de coisas pessoais e perspectivas, com a já prevista deslocação para o Maputo, como aliás iria acontecer com todos os serviços administrativos da empresa. Não toquei num só dos pontos agendados por mim e fiz mal. O jantar, um divinal caril de caranguejo, encostou-me às boxes. Não habituado ao gindungo, suei, enranhozei e as lágrimas corriam-se sem qualquer comoção a justificar tal choro. Passado o primeiro impacto e perante a minha insistência continuei a comer, não voltei as costas à luta e devorei o meu prato. Contudo, este pequeno incidente gastronómico fez com que todas as perguntas ficassem por fazer. Já de regresso, no avião, ia pensando que as respostas não poderiam ser positivas e que Moçambique era em 2001 um país esquecido por Deus... Sobre as imagens das cheias, lá do alto, nada era perceptível. Em quatro dias as águas tinham retomado os leitos dos rios e a lama não se via nem quem nela lutava pela sobrevivência.

Sobre a agricultura e o uso das terras boas, só há dias tive a resposta, quase 10 anos depois, nesta noticia do DN: "há tendência de desinvestimento na agricultura tradicional e aposta de grupos internacionais em cereais usados no domínio energético. A Galp tem lá projectos, assim como os chineses e os sul-africanos. Solos de primeira qualidade agrícola estão a ser usados dessa forma". Talvez isto seja parte da explicação do que se passou no Maputo. Essa poderá ser uma das causas desse efeito, mas haverá outras...

CONTINUA

05 setembro, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 5


Tirei esta foto do "jugular", de um post de Fernanda Câncio. sem qualquer outro texto além do título "Atalaia, 3 da tarde"... Não percebi o sentido, mas deixei este comentário:
Vou lá estar
Procurar esse seu enquadramento
captar o momento
e, quando a poeira pousar,
Ir-lho-ei mostrar
Provando que aquelas bandeiras brancas
não são de rendição
e apenas estavam por pintar

-
Esqueci este compromisso, talvez por aquelas imagens estarem cobertas por uma multidão...

HOMILIA DE HOJE

A FESTA DO AVANTE - Percorri 2 exposições no Pavilhão Central, ouvi um debate no Café Concerto, cruzei-me com multidões e ouvi muitas canções... Agora, tento rever tais emoções. Não é fácil. Mas a sintese aí está, sob a forma de perguntas: "Porquê Portugal não é uma Festa, como esta? Porque é que não se usa o olhar para perceber que esta obra pode ser replicada com a mesma humanidade, em qualquer cidade? Porque fecham as pessoas as portas à mudança necessária? Porquê a selva lá de fora?

ESCANCAREM-SE AS PORTAS: Saramago escreveu uma resposta antecipada, dizendo-nos: "Eu acredito que dentro de nós há um espesso sistema de passagens e portas fechadas. Nós mesmos não abrimos as portas, porque suspeitamos que o que há do outro lado não será agradável de ver […] Vivemos numa espécie de alarme em relação a nós mesmos, que é o de, quem sabe, não querermos saber quem somos na realidade."

Saramago: ‘Si España va bien, es una excepción, porque el mundo no va bien”,
La Provincia, Las Palmas de Gran Canaria, 15 de Abril de 1998

MUDANÇA NECESSÁRIA: Sobre a minha mesma pergunta inicial, Saramago detalha-me a natureza da mudança necessária: "Falo de uma mudança que levasse as pessoas a pensar que isto não é bastante para viver como ser humano. Não pode ser. Se nós nos convertemos em pessoas que só se interessam pelos seus próprios interesses, vamos converter-nos em feras contra feras. E aliás é isto o que está a acontecer.
Saramago: "A literatura não muda o mundo”,
O Globo, Rio de Janeiro, 14 de Agosto de 1999
Outros apóstolos que, esta semana, lembraram palavras de José Saramago: Na Casa do Rau ; Conversas Daqui e Dali e Ematejoca Azul

Imagem que promove o filme "Embargo", com argumento baseado num texto de José Saramago o qual versará mais uma parábola sua sobre esta "selva". Promete...