31 outubro, 2016

Dia D. Dia de Drummond. Dia Bom

Poema da Necessidade 


É preciso casar João,
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Sentimento do Mundo'

(veja aqui)

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Actualizado a 1.Novembro 17h00

 

30 outubro, 2016

Geração sentada, conversando na esplanada - 91 ("o empreendedorismo em conversa acalorada")

 (ler conversa anterior)

«Não se pode fazer da Educação um acordeão de romaria que se abre e se fecha ao sabor das ideologias e dos interesses dos "pensadores" de meia tigela sedentos de eternidade. É um crime!»
Lídia Borges, num comentário à "Redacção do Rogérito...
«El emprendimiento es una actitud, y por eso sugerimos que sea considerado un eje transversal en la formación del individuo a lo largo de la vida, empezando desde la escuela primaria.» 
na XXV Cimeira Ibero-americana? que merda é esta?  


Não tive presente a mudança de hora e fui o primeiro a chegar. Passado pouco mais de uma hora chegaram as professoras, uma após a outra, mas todas me cumprimentaram, cada a qual à sua maneira e a Gaby nem se inibiu de me vir dar um beijo e dizer-me quase em segredo "Tenho lido tudo o que escreve e até aquilo para que remete. Obrigada". Ainda mal me tinha refeito do inesperado agradecimento, saltou-me o rafeiro e logo seguido o cumprimento efusivo do velho engenheiro. 
- "Há quanto tempo, meu caro. Há mais de um ano?" 
- "Sim, mais ou menos!"
- "Sabe?, tanto tanto eu como o meu cão sentimos a sua ausência. Temos poucas pessoas com quem falar... "
E desatámos a recuperar o tempo perdido, não recordando por que tema começámos. Ia-mos nós lançados quando uma voz nos interrompeu. Era a Gaby que pedia para se sentar, de ipad na mão, sentou-se sem esperar pela autorização e lançou-me uma pergunta directa ao mesmo tempo que estendia a "página" já aberta.
- "Porque no seu texto de ontem não incluiu isto? Posso ler?"
E leu:
«A criança que se desenvolva em ambiente normal manifesta, cedo, criatividade. Gosta de jogos de faz de conta, troca nada por coisa nenhuma, e até acha graça. Oiça, se apanhar qualquer miúdo a andar de bicicleta, mande-o parar, fingindo ser policia, peça a documentação, a carta de condução. Primeiro, reage com espanto, depois é muito provável que finja procurar no bolsito o que lhe tenha pedido, e depois lhe estenda nada, que você terá que receber. Finja o que faz qualquer policia. Depois passe-lhe uma multa, sem lhe passar coisa nenhuma. Ele a receberá esse nada, com um sorriso. Gosta disso. Se esta brincadeira não resultar, experimente outra, ele reconhece o estilo e pega logo. 

Faço isso com o meu neto... que é esperto. E por vezes é ele que toma a iniciativa e a lidera. Os jogos colectivos (para ele) são um castigo, quer impor regras estranhas e ganhar sempre. Ele faz para a semana cinco anitos e contamos com a escola para desenvolver a socialização, o ser cooperativo, o respeito pelo outro e aprender a ser menos maroto...»
- Porque não fez link para isto? É que é tão exactamente assim!...
- Porque guardava esse texto para dar força a um outro onde me insurgia que merda seria aquela!
- Não percebo!
- Não? Eu leio... e é uma esperança, talvez uma pequena passagem que merece todo o "manifiesto": 
«Apostamos por un emprendimiento inclusivo, sostenible y social, un emprendimiento en equipo, alejado de los modelos individualistas y egocéntricos del pasado. El viejo estereotipo del emprendedor solitario en contra de las adversidades del mundo ha dejado de ser válido. El emprendimiento en el siglo XXI se hace en equipos multi-disciplinarios, multiculturales e intergeneracionales.»
- Quer dizer que espera que na escola primária se ensine o cooperativismo?
- Isso!

29 outubro, 2016

A XXV Conferência Ibero-americana, o empreendedorismo e a doença senil do capitalismo

 
 Projecto de empreendedorismo na Escola Básica Integrada Padre Vítor Melícias (ver aqui)

«O empreendedorismo é um conceito que floresce e se dá bem na selva. Aí o mais empreendedor se afirma com as suas competências, qualidades individuais e outras coisas que tais... mas num deserto? Cavaco foi o esperto...»
 in "O empreendedorismo está na moda - 1"/ 8.Jan.2013 

«O empreendedorismo está na moda. A moda vem e passa. Mas enquanto não passa a moda faz mossa. E a mossa que deixa é uma mossa composta. Composta de duas violentas mazelas. Uma é na mente de muita gente que fica ciente que está no acto culto, rasgado, voluntarista e ousado a resolução dos problemas da vida, da economia e, assim, é saída para o tormento que vamos vivendo. A outra mazela é na memória, fazendo querer que o sonho de Abril passou definitivamente à história. É que os valores de Abril apelavam ao esforço colectivo, enquanto a doutrina agora vendida proclama que a salvação é possível para quem tenha ganas, garras unhas e guitarras e o sucesso de uma nação é o resultado do somatório dos sucessos individuais. Sucesso individual das pessoas, das empresas e das organizações.»
in "O empreendedorismo está na moda - 2"/ 9.Jan.2013 

«Quando em post anterior me interrogava sobre se as escolas das nossas crianças se estariam transformando em sítios de "fabricar" amorins e belmiros, estava longe de supor que estavam mesmo. E não foram apenas as palavras de Cavaco a darem-me o alerta ("É dessa forma que nós vamos conseguir renovar a classe empresarial portuguesa"), foi depois a pesquisa feita. Andei de um para outro lado e fiquei assustado pois, sobre o tema, são muitos os que se "fecham em copas", mas lá dei com o texto do "5 dias" e com um outro...»
in "O empreendedorismo, doença senil do capitalismo - 1"/ 2.Ag.2014
«A organização* assegura “voluntários oriundos do mundo empresarial”. Estes seguem  um programa que lhe embalará a alma, que a encaixará e transportará num molde comum e normalizado. O modelo, mete medo, os voluntários ensinarão "o que são as profissões, as finanças, ao desenvolverem ideias, construírem o primeiro plano de negócios, gerirem as suas próprias mini-empresas, os alunos aprendem a tornar-se empreendedores a partir dos 6 anos”. Em cerca de 500 escolas, são já 200 mil os meninos que se visa transformar em quadros escravos dos Soares do Santos, Amorins e Belmiros. Escandaliza-se o mundo com o transporte de um menino dentro de uma mala. Não se escandaliza se lhe é transportada a alma?»
 in "O empreendedorismo, doença senil do capitalismo - 2"/ 10.Maio.2015

«Em Janeiro de 2013, julgava ser o empreendedorismo uma moda. Mas temia o risco de ela se instalar, e escrevia: "A moda do empreendedorismo nasce de mãos dadas com o neoliberalismo, ambos se fundamentam no mito que o valor do homem apenas está no «valor que o "mercado" lhe dá». Por isso é preciso que a moda não passe com a tranquilidade com que as modas passam de moda. O que é preciso, necessário, urgente é que acabemos com ela. É preciso acabar com a moda, agora!" Em Agosto de 2014, confirmava a suspeita de o empreendedorismo se ter imposto, o DN dava-lhe rosto, dedicando-lhe página inteira divulgando o projecto "EmpCriança". Então, pensei "Vai ser muito difícil sair desta selva". Hoje, percebi que na selva o "neoliberalismo" teria já ultimado o efeito predador. Estamos próximos do que a escola já fora, embora com outros métodos e bandeiras. Recordam-se disto
in "O empreendedorismo, doença senil do capitalismo - 3"/ 11.Maio.2015

«Cuestionamos la idea de enmarcar el espíritu emprendedor como una asignatura más. El emprendimiento es una actitud, y por eso sugerimos que sea considerado un eje transversal en la formación del individuo a lo largo de la vida, empezando desde la escuela primaria.»
 na XXV Cimeira Ibero-americana?
que merda é esta?

Marcelo, Fidel e o carisma...


A psicanálise teve os seus dias e Freud teria, certamente, explicação quase cientifica para explicar o sorriso escarrachado de Marcelo (ou seria do Presidente?) e o brilho vivo mas tranquilo de Castro (ou seria do revolucionário que nunca se dá por reformado?).  As regras do protocolo de Estado não exigiria ao Presidente que se encontrasse com Fidel já que, certamente, determinaria a forma com que se deveria encontrar com o outro Castro. Mas nestas coisas que dizem respeito a velhas raposas, fica a perdurar no ar a dúvida de se foi o Presidente a querer aparecer na foto ao lado de Fidel, ou se a iniciativa partiu de Marcelo, como aliás este pareceu fazer crer...
Coisas menores, de países pequenos, mas com carisma.
Não, certamente, desse carisma que saiu à liça num livro (daqueles que estão na lista dos que nunca lerei  quando tiver tempo). É que o autor, fixa-se no carisma das personalidades  e o meu lema é que os verdadeiros protagonistas da história são os povos.
Falemos então de povos e, por prioridade diplomática, falemos do povo cubano. Aquele que, não por acaso, tem vivido de acordo com as suas possibilidades...


Nota importante: Topei este vídeo em 25 de abril de 2012 às 11:33 e respondeu-me ela a um comentário lá deixado
Olá Rogério

Aqui em Famalicão houve de facto reacções muito estranhas... e esta sessão de documentários teve menos pessoas que as duas anteriores. Houve quem me dissesse que não ia nem divulgava porque era uma "apologia" do comunismo. Quando se fala sem conhecimento, dá nisto, pois a ignorância é muito atrevida.

De qualquer modo, este exemplo vai servir a quem o quiser conhecer para enfrentar a escassez de combustíveis. Aprender com os outros, evitar os erros que cometeram, faz parte do modo de funcionar das sociedades inteligentes. Mais ainda se se atuar atempadamente!