05 agosto, 2018

Um conto ao Domingo - XX ("Construíndo a visão")

Se Brecht fosse vivo
faria deste conto um teatrinho


Parte I (15.Jan.2013)

- Que está a pensar com esse olhar tão fixo?
- Espero que a abelha saia dali e me liberte o material para eu poder pensar no que está a acontecer...
- Não percebo!, diga-me isso de outra maneira para que eu possa perceber!
- Estou à espera de poder usar o arame e reconstruir este momento que estamos vivendo...
- Com o arame constrói o pensamento para poder ter a visão do momento?... Olhe, a abelha já voou... Não se importa de eu ficar a ver como constrói a realidade trabalhando o arame?
- Fique. Veja só: pega-se assim, firmemente. Depois vai-se fazendo um pequeno arco, lentamente... mas com força. Repete-se o procedimento e surge aqui à frente outro arco quase igual. Repete-se, e assim sucessivamente, vamos desenvolvendo ciclos e ciclos com o arame...
- Faz muita força de dedos nessa manipulação?
- Neste ponto, já não... e é isso mesmo o que queria perceber... ao principio, para fazer cada ciclo, foi preciso, agora o próprio arame vai-se pondo a jeito... parece estar viciado e isso favorece a forma que lhe vou dando...
- Percebo! A partir de um dado momento os ciclos desenvolvem-se com o vício da forma inicial que foi dando...
- Isso mesmo! O arame, depois de bem manipulado, quase que automaticamente assume a forma pretendida... é uma espiral... parece uma mola, só que não impulsiona nada. Fica como a vê aqui, parada.
- Olhe, está-se a acabar o arame!...
- Vou passar a fazer círculos de diâmetro mais reduzido. Acho que chegámos ao ponto em que estamos agora...
- Mas... está a voltar atrás?
- Passámos os ciclos viciosos e, à falta de arame... digamos que temos que voltar atrás e reduzir os ciclos que tinham sido maiores. Passo a fazer ciclos recessivos... e, à frente, a fazer ciclos mais reduzidos...
- ...que vão parar?
- Quando não houver mais arame!
- O fim está à vista... foi excelente este exercício! Mas como é que saímos disto?
- Neste momento vamos a tempo... É sair destes ciclos e endireitar o arame... mas com o vício...
- Com o vício?... 
- Só à martelada!
- Acho que é uma boa solução. Procuremos o martelo, então.
(saíram os dois, procurando o martelo)

Parte II (17.Jan.2013)

- Olhe ela voltou!, mas pousou neste outro lado... vai esperar que ela vá embora e voltar a trabalhar no arame?
- Trabalhar no arame naquele momento foi uma decisão errada. Uma metáfora para resultar tem que ser bem trabalhada e usar-se nela o material adequado...
- Escolher o arame foi uma opção errada?
- Não!, errado foi ter metido lá o martelo... em vez de se ter entendido que ele era usado para desfazer os círculos viciosos, todos leram que o que era preciso era desatar à martelada...
-  Os sinais dos tempos sobrepõem-se às intenções edificantes... então e agora?... noto que está a olhar para o belo insecto com o mesmo olhar fixo...
- Estou a tentar discernir se o insecto é abelha ou vespa... Há uma grande confusão à vista desarmada... o que mais se parece com uma vespa é uma abelha, o que mais se parece com uma abelha é uma vespa...
- Tem razão, eu próprio as confundo. Dizem das abelhas que são trabalhadoras e calmas e que as vespas são carnívoras e bravas...
- As abelhas têm uma organização social invejável mas vulnerável... as vespas atacam as abelhas, invadem-lhes os favos e devoram-lhes as larvas. As vespas maiores, mais vorazes, até as comem... 
- Não sabia... agora reconheço a importância de ficar aqui a olhar... mas... como vamos perceber a diferença?
- Primeiro olhamos para reter a imagem, a forma das patas, o abdómen, o tórax... Depois aproximamo-nos. Se nos atacarem, são vespas..
- Aproximemo-nos então!... Olhe, voou e pousou naquela flor...
- Era abelha!
- Era abelha! Podemos recapitular o observado ainda agora?
- Não consigo, tenho um problema de memória...
- E eu de observação... estamos então condenados à confusão... a só perceber quando nos vierem morder...
- Nem mais! O nosso drama é continuarmos sem memória!
- E de observação! Há um vespeiro reunido e muitos ainda julgam tratar-se de uma colmeia!!!
(Saem como se tivessem receio de estarem a ser escutados)

 Parte III (18.Jan.2013)

Os Zzzz´s próprios dos vespeiros eram inteiros e os olhares dos vespas se perdiam pela ornamentação dourada da bela sala, olhando as abóbadas do tecto, como que a inquirir a resposta: "e como fazer, sem que as abelhas acordem e se revoltem?Do lado direito, da fila primeira, logo da primeira cadeira, se levantou um vespa. Levava na mão uma pen que inseriu para mostrar um vídeo para ilustrar a palestra. Elevando a voz para que fosse ouvido de modo entendido, disse antes das imagens passarem: 
"Evitemos esta imagem voraz. Evitemos mostrar o que não deve ser mostrado, como hoje soubemos não deixar escutar o que foi dito. Alimente-mo-nos das abelhas de forma menos evasiva, mais...persuasiva. Não esqueçam que temos a vantagem de sermos confundidos e tomados por salvadores e amigos... de estar a cumprir um desígnio...  de este sacrifício ser um imperativo e desse imperativo ter um único sentido: o do extermínio!"
 (findo o vídeo, o orador foi muito aplaudido e depois disso os vespas foram saindo)

Parte IV (22.Jan.2013)


- Ferreira Fernandes, internacionalizou-te a metáfora depois de te ler até aqui. Escreveu que para a Europa não há vespas más...
- Não acredito que ele o tenha escrito...
- Escreveu, escreveu, e acho que até espreitou o teu vídeo, e falou na voracidade consentida... e com a mordacidade que lhe é conhecida, titulou a sua crónica assim "Não há vespas más"...
- E não disse mais nada? Não falou nos enganos dos eleitores que votam nas vespas que se fazem passar por abelhas?
- Não, disso ele não falou! O que ele descreveu foi a técnica dos japões em defender as colmeias do ataque das vespas... e da displicência dos cientistas franceses...
- Tens a certeza que o Ferreira Fernandes não escreveu mesmo nada?, nem sequer coisa insinuada?
- Nada, internacionalizou-te a metáfora e com algum sentido! Acho até que lhe devias estar agradecido...
- Agradecido?, se ao menos ele denunciasse a metamorfose que por aí tem andado e que agora requer ainda maior cuidado... 
- Metamorfose? Estás a falar de quê?
- Das "abelhespas", abelhas que deixaram de o ser sem que sejam vespas. Falam como se fossem abelhas mas procedem como as vespas!
- E são vorazes?
- Sim, também, mas disfarçam bem... 
- Ah!
(saem do palco, conversando, sem que se oiça o que dizem)
Parte V (16.Fev.2018)

O favo era amplo, largo. No centro uma mesa igual a tantas existentes no ninho-colmeia, que também pode ser considerado vespeiro. Pousados frente a frente dois abelhespas sorriam-se reciprocamente perante o ar neutro de um outro indistinto insecto. Pareciam ambos pacíficos até deixarem de o ser e a cada um o sorriso desaparecer. Sobre os golpes desferidos não importa a descrição sendo certo e sabido que um vai ser comido.
Começou a voragem dos abelhespas por eles próprios.
Cá fora, ouvem-se comentários das abelhas: "Que se devorem uns aos outros. Será a salvação da colmeia."

CAI O PANO

04 agosto, 2018

Marcelo Rebelo de Sousa, "A mão por detrás dos afectos"

«Marcelo Rebelo de Sousa resolveu devolver à Assembleia da República um decreto que tinha por finalidade garantir aos arrendatários o direito de preferência em caso de compra dos imóveis por inteiro.

Tudo isto surge numa altura em que decorre um negócio que, caso a lei venha a entrar efectivamente em vigor, pode ficar em risco: trata-se da operação de venda de 277 imóveis da companhia de seguros Fidelidade a um fundo de investimento norte-americano (Apollo), operação na qual a Fidelidade se tem negado a dar a devida preferência a cada um dos inquilinos sobre a respectiva fracção. Enquanto a lei vai, volta e não entra em vigor, lá vão folgando as costas, dando tempo precioso à consumação da negociata.

O presidente tem à sua mão um conjunto de sapientíssimos conselheiros. Esses assessores “técnicos” determinam ou influenciam, naturalmente, as decisões a tomar, pois é para isso que lá estão. O problema coloca-se quando um desses conselheiros aparenta ter, directa ou indirectamente, interesses óbvios na opção tomada. Para este caso concreto, a mão que se esconde por detrás dos afectos é, segundo o Jornal Económico, Miguel Nogueira de Brito.
(...)
Marcelo respondeu à questão de forma contraditória, apressada, esquiva e leviana. Não negando a intervenção de Nogueira de Brito, justificou-se dizendo ter-se tratado de uma “decisão solitária” e por razões “políticas”. Foi uma espécie de “ele aconselhou mas eu não liguei ao conselho”. Ele “disse mas foi como se não tivesse dito”. Qualquer coisa como “é proibido, mas pode-se fazer”. »

Lido tudo isto, não reprimo o meu impulso em recorrer à rábula, bem esgalhada, do RAP,  com o único propósito de ilustrar o estilo de decisão:

03 agosto, 2018

Lições da Pipoca


Há lições difíceis de fazer passar. Nem o pai com ar solene, nem a mãe de rosto grave ou sorriso convincente, nem a professora de dedo esticado. Essas lições, só um gato. São lições práticas de comportamento que muitos humanos nunca chegam a entender e a assumir. O respeito que lhes é devido. O só vou, se quero. Os afectos, quanto baste. O desafio para brincar e o saber fazer sentir que a brincadeira acabou. O saber insinuar-se quando ninguém lhes "está a passar cartão". O saber ficar só sem submergir na solidão. O encanto dos pássaros... Tudo isso e os preceitos básicos de higiene.

Não teria sido necessário ter privado com a Pipoca para conhecer tais  características dos pequenos felinos, mas ela comprovava-as de um modo muito personalizado, sensual, ora meigo ora irrequieto. 

Hoje, inesperadamente, partiu. Das sete vidas que tinha, delas se separou com um simples sopro.

Restou-nos a triste emoção da perda. 
Resta-nos a memória das lições da Pipoca tão bem recriadas no excelente poema de O´Neill...

02 agosto, 2018

Fogos: «O Prometido é Devido»

Fotos e texto do "A ESTÁTUA DE SAL"

Foto: Um dos seis pequenos incêndios no Algarve. As bestas querem novamente atacar de sul ao norte da PÁTRIA.
«Rui Rio prometeu que se tivermos incêndios suficientes o governo deve ser derrubado e, naturalmente, ele ou outros puseram as suas brigadas incendiárias e FASCISTAS em ação. As mesmas bestas do ano passado voltaram a Pedrógão Grande porque os tribunais não os detiveram nem condenaram.

Todos os criminosos incendiários têm o apoio da magistratura ou parece que têm dada a sua ineficiência em combater aqueles que querem ver a nossa TRISTE PÁTRIA a arder. Viva PORTUGAL, fora com aqueles para quem a PÁTRIA é apenas o seu ordenado e as regalias pessoais e querem condenar os bombeiros que sejam voluntários e militantes do PARTIDO SOCIALISTA.

O incêndio que lavra há quatro dias consecutivos em Pampilhosa da Serra, no distrito de Coimbra, continua ativo c/ 317 bombeiros, 97 veículos e nove meios aéreos envolvidos no combate às chamas.

O incêndio de Relva, Vila Real, mobilizava 68 bombeiros, 18 veículos e um meio aéreo. Este incêndio levou à evacuação de cinco aldeias do Parque Natural do Alvão – Benagouro, Iscariz; Paredes, Coedo e Adofe – e também levou ao encerramento da Estrada Nacional 2.

A frente de incêndio em Quintela, também no concelho de Vila Real, levou à evacuação de algumas pessoas das localidades de Vila Marim e Sapiões. De acordo com o SNBPC, está accionado o Plano Distrital de Emergência em Vila Real.

O incêndio em Vale da Aveleira, concelho de Alvaiázere, Leiria, foi dado como controlado.

No mesmo concelho, em Pedrógão Grande, 45 bombeiros combatem as chamas apoiados por 11 carros. O fogo em Fraga, Concelho de Celorico de Basto (Braga) mobiliza até ao momento 22 homens e seis veículos.

Em Fráguas, concelho de Vila Nova de Paiva, Viseu, 16 bombeiros apoiados por cinco veículos e três meios aéreos combateram um incêndio dado como controlado. Às 19h30, o SNBPC indicava haver dois outros incêndios neste distrito, em Santa Luzia (concelho Tabuaço) e junto ao Aeródromo de Viseu.

A meio da tarde dois outros incêndios estavam a preocupar os bombeiros. Na Sertã, distrito de Castelo Branco, as chamas estavam a ser combatidas por 29 homens apoiados por cinco meios aéreos.
Chora PÁTRIA AMADA e que ninguém desarme e se deixe amedrontar pelos TRAIDORES dos Tribunais que deixaram os Incendiários à solta para voltarem a queimar a PÁTRIA para satisfação de Rui Rio e dos fascistas.»