02 abril, 2019

De Greta a Jerónimo, (quase) o mesmo discurso ecológico

«Vivemos num mundo estranho, onde ninguém se atreve a olhar para além dos nossos sistemas políticos atuais, embora esteja bem claro que as respostas que procuramos não se encontram dentro da política de hoje.»
Greta Thunberg  
«...bem se pode dizer que é legítimo defender que o transporte público deveria ser crescentemente desmercantilizado e ter como objectivo ser, no essencial, gratuito, assumindo o Estado, e em particular o capital, os custos de funcionamento do sistema. Mas sobretudo porque uma política alternativa centrada no interesse público tem que ser desamarrada da estrita visão do transporte olhado a partir do “económico”, para o ver e garantir como um direito mais geral inerente à vivência social, ao acesso à fruição e ao acesso a bens culturais, com as suas inegáveis vantagens de melhoria das condições de vida e protecção ecológica e ambiental.»

Afinal todos os dias são "Dia das Mentiras"


Não, desta vez não cito António Aleixo. Cito o Expresso. Cito-o depois de me ter citado a mim mesmo, em "O PS e coisas que a gente não esquece". É preciso que a verdade vá marcando terreno...

01 abril, 2019

Dia da mentira... tolerada


O elétrico ia como sempre ia, àquela hora. Ia meio vazio e a nove-à-hora. Minha mãe ia enfadada porque não me dava calado pois eu ia lendo tudo o que era anúncio, letreiro ou aviso, de nariz encostado contra o vidro, vaidoso e exuberante pelos meus precoces conhecimentos de leitura
Chegando o revisor picou o bilhete* que minha mãe lhe estendera e quando ia para passar à frente, deu um passo atrás, questionando-me directamente:
- "E o menino que idade tem?"
- "A minha mãezinha disse-me para eu dizer que tenho quatro", e estendi de repelão a mão com cinco deditos trémulos, mas bem esticados...
Debaixo do bigode farto, de inspiração republicana,  o revisor esboçou um largo (e cúmplice) sorriso.
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* Bilhete foi um título de transporte único até 1976. Foi graças à Revolução de Abril que apareceu o passe-social e foi preciso esperar 22 anos para que uma proposta fosse colocada e aprovada e o passe passasse a ser gratuito até aos 13 anos. 
Mudar o mundo não custa muito, leva é tempo!

31 março, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 11

 Hoje escolho um texto porque lhe encontro dentro um desafio, o tal que há muito venho sentindo:
Recomeçar em cada coisa
em cada manhã recomeçar o mundo
 e, passo a citar Sophia

«"O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. Perdi a minha memória da morte da lacuna da perca do desastre. A omnipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. 

Por isso trouxe comigo o lírio da primeira praia. Ali se erguia intacta a coluna do primeiro dia – e vi o mar reflectido no seu primeiro espelho. Ingrina.



É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo."
Sophia.
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
in 'Livro Sexto'