Nesta Antologia, o autor coloca-nos diante da sua visão do
mundo, marcada por um forte sentido crítico relativamente às
maiores questões que hoje se colocam ao homem, numa ótica
da falta de consciencialização, ética e ação, face às mesmas. É
um conjunto de textos que resulta da experiência vivencial, ob-
servação e interpretação pessoal do mundo com o qual, o poe-
ta se sente em desalinho. É a expressão maturada do encontro
consigo mesmo, provocado pelo exercício de liberdade poéti-
ca que pretende reafirmar, perante familiares e amigos. Mas é
também o desejo/intenção de homenagear a sua companheira
de vida. É para ela, a quem carinhosamente trata por menina, o
primeiro poema (que dá título ao livro). O texto em causa ter-
mina com o verso - Falar de mim é falar de nós, deixando pairar
no ar a ideia de que o sujeito, por si só, não será capaz de rea-
lizar os sonhos e alcançar a felicidade. O pronome nós, não se
limita ao eu e tu do casal, claramente, mas a um universo bem
mais amplo e complexo. Esta é uma constatação patente, desde
logo, na epígrafe/dedicatória que se vai tomando mais visível, à
medida que se avança na leitura.
Há, no trabalho em presença, uma nítida tendência para a
objetividade, com raízes no neorrealismo (reconhecida e assu-
mida pelo autor) uma intenção declarada de eleger o coletivo
em detrimento do individual, conforme se intui no poema “Au-
to-Retrato” onde se lê: Diz nada decidir / sem convocar o coletivo
seu Eu,/ sua Alma e seu Contrário/ ao qual apelida de Juízo, porém
não deixa de revelar, a individualidade (o Eu é a voz da maioria
dos textos) e a impulsividade a que a Arte não se pode furtar.
À conceção da escrita comprometida, o autor parece querer
associar a ideia de um humanismo outro, capaz de minorar ou
até solucionar os muitos conflitos que, por todos os cantos do
mundo, assolam os povos. Puramente utópico - dirão muitos
de nós, leitores. A isso responderá Rogério Pereira com uma
afirmação que costuma repetir frequentemente e surge inscri-
ta no poema acima citado - Diz ser fácil mudar o mundo/só que
leva é tempo.
Uma genuína preocupação relativamente aos problemas de
carácter político-social transparece dos textos e julgo ser essa
mesma preocupação a despertar no autor a pulsão da escrita, a
necessidade de grafar o seu entendimento das coisas do mun-
do e da vida e a partilhá-lo com outros.
De registar, aqui e ali, um pendor acentuadamente irónico
relativo àquilo que, na perspetiva do autor, é frivolidade, desin-
teresse e dispersão e como tal, merece ser criticado, parecendo
querer tomar a seu cargo a função de orientador/mestre.
Vejamos, no poema “Crisálida” ... entregou ao silêncio/ as for-
ças resignadas/ e sentou-se, ansiosa/ à espera/ da hora/ da telenovela.
Ou em “Pele” - A pele, escrita/ A pele, poema/ A pele, prosa/ A
pele,/ a pele,/ a pele/ E ela? /Apenas uma mensagem: /”…porque
noutros lados// também há flores e barcos … e uma vida/ que é
muito mais a minha!”
Ou ainda em – “A primavera das mulheres pueris”. Na última
estrofe pode ler-se:[ ...] Então um ser que não olha o céu, / que não
tem assunto/ que não liga ao mundo/ que virada a cada momento/
só para dentro/ […]
Ah, mulheres/ temos que um dia falar/ olhos nos olhos...
Um reparo, apenas, no sentido de que a frivolidade não
pode ser entendida como apanágio de género. Ela existe, sim,
mas não diz respeito exclusivamente às mulheres. A frivolida-
de, por mais que possa parecer ridícula, a alguns, é transversal
a toda a sociedade, podendo ser encontrada onde menos se
espera. Contudo, não apenas de ironia e crítica social se faz
este livro, faz-se também:
- de Sonho - O impossível é tão só e apenas aquilo que ainda não aconteceu;
- de Utopia - Quem antes via apenas a árvore / pode agora ver / através de mim / a floresta;
- de Esperança - Havemos de emendar o rumo errado.
E, então, a Poesia…
Lídia Borges (*)
2025/08/09
(*) Lídia Borges é o pseudónimo literário de Olívia Maria Bar-
bosa Guimarães Marques, natural de Braga. Professora do Ensino
Básico, sempre teve a Literatura como suporte imprescindível à
compreensão do Mundo e do Homem. Possui o grau de mestra-
do em Teoria da Literatura, na área de especialização de Estudos
Lusófonos, pela Universidade do Minho.
Tem obra publicada nos géneros de conto, crónica e poesia. Assina
vários títulos, alguns dos quais distinguidos em Prémios Literários.
É membro da Associação Portuguesa de Escritores.


