24 setembro, 2018

Serralves, Mapplethorpe, eu e o meu neto

 

Não fico alheio à polémica. Serralves abafou todo o noticiário e até me tolheu, a mim, intenção de falar sobre coisas necessárias. Não vou a Serralves certo que Serralves não virá a mim e procuro no google não a discórdia mas o pomo dela: a obra.

Retiro a foto acima. Não é erotismo, ninguém está despido e não é sexo explicito. Imagino visitar a exposição com o meu neto, puto vivo... e ele pergunta (está na idade das perguntas), "Vô, o que é isto?" Hesito na resposta, pois desconcerta-me até explicar a um adulto os comportamentos perversos. Ia tentar e desisto. Ajudou-me o olhar firme do jovem acorrentado, e menti, dizendo à criança não saber. 

Claro que a minha abordagem é imaginativa. Eu nunca lá iria, Primeiro porque a entrada é cara, depois porque Mapplethorpe, na verdade, não me diz(ia) nada...

Outra coisa, será que a curadora Isabelle, lá na Galerie Thaddaeus Ropac também faz censura? É incompleta a mostra? Ou seguiu o mesmo critério de Serralves, não mostrando toda a obra?


23 setembro, 2018

Meu pai, taxista, também lá estaria


Já lá vai tempo, a propósito de uma bela frase de Sophia, contava eu que «Poucos anos depois de minha mãe ter deixado de ser uma das meninas da "loja nova" de Ermidas/Sado e de meu pai ter desistido de ser o rapaz da camioneta verde, que era fretado para tudo o que era transporte de carga, eu nascia e de pronto vínhamos para Lisboa, à procura de nosso destino. E porque o destino foi uma eterna procura dentro dos limites que o poder de então detinha, fomos andando de casa em casa e meu pai de emprego em emprego. Foram anos que não sei contar a não ser pelo que minha mãe cantava. Era de Amália o seu lamento. Se eu gostava? Pode-se lá gostar desse viver, desse cantar... »

Hoje acrescento, que naqueles tempos a vida, não sendo pera-doce, era uma vida onde a tristeza ficava à porta de entrada e cada um, na família, vivia sem conflitos de consciência e de bem com ela e com os outros.

A foto acima, retrata meu pai, taxista em praça fixa mas que ia cirandado pelas ruas todas de Lisboa, é de 1952. Tem um ar prazenteiro, junto ao seu "matateu", que em boa verdade era um carro há pouco adquirido a alguém que saíra do negocio e adquirido em sociedade com um meu tio. Meio por meio o valor do carro e da respectiva licença.

21 setembro, 2018

O Escritor Possui Deveres?

«(...) não é meu objetivo desqualificar o texto puramente voltado a entreter, o plano é demonstrar a capacidade da literatura como arte que transcenda este aspecto superficial envolvida na atividade. Veja Mia Couto, por exemplo: branco, formado, descendente de portugueses, soube não apenas se apropriar da ficção como algo seu (em termos estilísticos), mas captar a alma do povo e da terra de Moçambique, onde cresceu, sendo não apenas um porta voz de seus sentimentos, ele atua em causas próprias do lugar (entre elas a preservação de animais nativos), usando muito de seu conhecimento e prestígio para tal. Assim, o moçambicano não apenas enxerga o mundo pelos olhos sensíveis do artista, valoriza as riquezas de sua terra, e luta contra as mazelas que a atormentam.

Ainda dentro desse viés, temos José Saramago, conhecido atuante de causas fortes e necessárias, dentro e fora da literatura. Segundo Ronaldo Lima Lins, em seu artigo Que Medo nos Contamina “Saramago, que ocupava como intelectual um lugar deixado por Sartre, aproveitando o Prémio Nobel para virar uma figura política além de seus romances, sentia as limitações da literatura dentre seus contemporâneos. Valia-se independentemente do fato de o escutarem. Criava espaços de constrangimento, inclusive entre Estados ou povos, o bastante para romper, de algum modo, com o isolamento à que se via relegado".

O relevo concedido pela distinção traz à reboque um renome internacional. É como um estadista de uma grande nação, neste caso a da literatura, cujos movimentos chamam à atenção. A época e a tradição de suas instituições permitem isso, diferentemente do que acontecia no século XIX, quando o importante, o que pesava, para lá da individualidade selecionada pelo sucesso, era o tipo de atividades que a constituía. Ou seja, o escritor português usou muito de sua influência enquanto artista para lutar por causas que lhe eram relevantes além da ficção, e dentro dela, cultivando em sua produção um debate subtil, delicado e profundo, sobre questões polémicas, mas enraizadas na população de sua época. Portanto, Saramago, quer nos discursos, quer no plano das narrativas, nos quais exerceu, enquanto lhe foi possível, a tarefa de construtor de teses, entre histórias que, de certo modo, metaforicamente, retomavam dados da realidade.
Deste texto, que na fonte é bem mais extenso, ocorrem-me palavras de Saramago: "O cidadão que o escritor é não pode ocultar-se por trás da obra. Ela, mesmo importante, não pode servir de esconderijo para dar ao autor uma espécie de boa consciência graças à qual ele poderia dizer que está ocupado e não tem tempo para intervir na vida do país."
 

Mas Saramago foi agora mais longe, soube-o (só) hoje. Vai ter tempo para intervir na ordem do mundo, no lugar próprio, na ONU.
Do que se trata? De uma carta inspirada no seu discurso de 1998:
CARTA UNIVERSAL DOS DIREITOS
E OBRIGAÇÕES DOS SERES HUMANOS
(ler aqui)



20 setembro, 2018

A UBER e a futurologia...


O ponto-de-situação dado reza que
«Os representantes do setor do táxi estiveram esta quarta-feira reunidos com os grupos parlamentares de PS, PCP, Bloco de Esquerda, CDS-PP e Os Verdes. Os socialistas defendem que a lei deve entrar em vigor a 1 de novembro e avançam que não vão pedir a fiscalização sucessiva do diploma. Já o PCP afirma que vai propor a revogação da lei que regula as plataformas eletrónicas de transporte. Por seu lado, o Bloco de Esquerda anuncia proposta de revogação da "lei Uber" O CDS está disponível para “atualizar e rever a lei” e dá razão a muitas das exigências dos taxistas. O PEV avança que não vai apresentar um pedido de fiscalização do diploma mas admite viabilizar.»
 O PS acrescenta que «os eleitos não podem fazer "futurologia sobre quais são as consequências efetivas no mercado que esta lei vai provocar".»

Ah, não podem fazer futurologia? Ficamos a saber que o PS não pode fazer futurologia. Nem precisa. Bastaria fazer a avaliação de risco olhando para o que se passa à volta inventariando quais são "Os perigos da uberização". Sobre isso, apenas um cheirinho (e um alerta):
«Muitas pessoas bem-intencionadas sofrem de uma fé equivocada nas habilidades intrínsecas da Internet de promover comunidades igualitárias e confiança e, assim, inadvertidamente ajudaram e incitaram essa acumulação de fortuna privada e a construção de novas formas exploradoras de emprego (...)
Daqui a vinte ou trinta anos, quando provavelmente enfrentaremos o fim das profissões e mais empregos serão “uberizados”, podemos muito bem acordar e imaginar por que não protestamos contra essas mudanças com mais força. Apesar de toda a conveniência da “economia do compartilhamento”, deliciosa e caseira, podemos acabar compartilhando as sobras e não a economia. Podemos sentir remorso por não termos buscado alternativas antes. Sem dúvida, não podemos mudar o que não entendemos. Portanto, vale perguntar: o que significa “economia do compartilhamento”?

A economia do compartilhamento indica uma força global e maciça em favor de “construtores de pontes digitais” que se inserem entre as pessoas que oferecem serviços e as que buscam tais serviços, imbricando assim processos extrativos em interações sociais. A economia sob demanda indica que o trabalho digital não é um fenómeno de nicho. A Upwork (anteriormente conhecida como oDesk and Elance) afirma ter em torno de 10 milhões de trabalhadores. A Crowdwork tem 8 milhões. A CrowdFlower, 5 milhões. Em 2015, 160 mil motoristas estavam nas ruas pelo Uber – se você confiar em seus números. O Lyft reporta 50 mil motoristas. O TaskRabbit afirma que possui 30 mil trabalhadores.

Na Alemanha, sindicatos como ‘ver.di’ concentram seus esforços em defender os direitos dos empregados, enquanto, nos Estados Unidos, vejo pouca chance de retorno às 40 horas por semana nos setores do trabalho autónomo ou temporário. A questão, portanto, é como melhorar as condições da enorme parte da força de trabalho que não tem um emprego tradicional.»
extratos do artigo "Os perigos da uberização"