23 dezembro, 2020

Eu, árvore velha e triste, desejo Boas Festas a todas as minhas folhas perenes.

… E tudo começou, 
há 20 anos atrás
Até que um Pássaro Azul
pousou, como estrela
e as folhas
foram nascendo, nascendo
até que a árvore
atingiu
a dimensão do seu coração
enorme
 
___________________________
Tenho recebido e-mails em barda
Uma autêntica enxurrada 
...e até Minha Alma implora: 
volta, volta, volta!
Meu Contrário não diz nada
e como quem cala consente
voltei a abrir a porta
a toda a gente

21 dezembro, 2020

Mesa Redonda (12) - Tema: A blogosfera, fechar a porta ou mantê-la aberta!

Apresentação, contar da esquerda: Eu, Meu Contrário e Minha Alma

Eu (virado para a assistência, com a sala quase vazia): Esta Mesa Redonda decorre daquela outra, realizada em Novembro. Essa, foi considerada decisiva, pois estava colocada a questão de fechar ou não este espaço. Considerava ser pesada a decisão e lembrava ser há mais de pois há 10 anos que mantenho esta janela aberta. Hoje não vos proponho discutir a revisão dessa decisão, mas se devo ou não manter a porta aberta a comentários, atendendo ao que anda por aí... Quem quer tomar a palavra?

Minha Alma (pensativa): Mas... fechares a porta a comentários, terás de abandonar aquilo que tanto gostas, que é deixar comentários nas portas dos outros...

Meu Contrário (interrompendo): Deixa-te de tretas, no Seara de Versos, a Lídia fechou, por razões semelhantes, o espaço de comentários mas não se inibe de os fazer. Com todo o respeito, ela vai deixando, de quando em quando, a sua visão ou opinião...

Minha Alma (gaguejando): Eh pá, sei lá! Acho que tens razão... Na verdade a blogosfera já não é aquilo que era. Cada vez mais se está tornando num universo "facebooquiano".

Eu e Meu Contrário (em coro): Isso mesmo!

(... e os três fomos juntos fechar a porta e transformá-la numa montra onde tudo se mostra!)


20 dezembro, 2020

Um conto de Natal, lembrando Saramago

(reedição revista, da versão publicada em Dezembro de 2010)

"Parece-me completamente impossível ler num ecrã de computador. Lamento. Sou do tempo do livro, do papel. Uma pessoa pode deixar cair uma lágrima sobre um livro. É mais difícil deixar cair uma lágrima sobre um computador. Creio que o livro, apesar de tudo, perdurará." 
Ao ler estas palavras de José Saramago redobro a motivação. Terei que (re)escrever os "meus caminhos" nesse formato, transformando-o em livro*. Contudo, não tenho a visão de que seja impossível experimentar emoção sobre um teclado trocando o virar de página por um "enter", ou sair de abalada  mágica teclando um "ctrl+alt*Del" ou, ainda, que não possa sentir como milagre que um toque de "rato" sobre uma palavra nos leve ao texto certo... Querem tentar? 
Cliquem aqui e vão parar lá, a todo o conto de Natal que vos fará o coração saltar (os corações saltam, sabiam?) 
 
HOMILIA DOMINICAL (extractos de um conto de Natal)

(...) Porque o Menino, a Criança é um menino, levanta-se da mesa, abre a porta, separa-se da Família e desce os três degraus de pedra que conduzem ao mundo. Ali adiante há um muro caiado, baixo, com uma varanda dando para terras ignotas. A Criança vai debruçar-se sobre o muro, deixa cair a cabeça sobre os braços cruzados, e o terrível nó das lágrimas desata-se dentro de si. Da casa vêm risos e vozes, alguém fala muito alto, e depois ressoam gargalhadas. Ninguém está pensando na Criança (...) Mas ela tem os olhos fixos, está confusa, perturbada: o desenho mostra a invariável manjedoura, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena já sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê? “Porquê?”, pergunta a Professora à Menina que fez o desenho. A Menina não responde. Talvez mais nervosa do que quereria mostrar, a Professora insiste. Há na sala os risos cruéis e os murmúrios de troça que sempre aparecem em ocasiões destas. A Menina está de pé, muito séria, um pouco trémula. E responde, por fim: “Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu”. Fez-se silêncio e a Professora pensou, assim o veio a contar mais tarde: “À Lua já chegámos, mas quando e como conseguiremos chegar ao espírito duma criança que pintou a neve preta porque a mãe lhe morreu?”. Muitos anos depois destas histórias terem acontecido, contei-as a uma outra Menina, que me perguntou: “E eles ainda estão tristes?”. Nessa altura disse-lhe que sim, que há tristezas que o tempo não consegue apagar, mas hoje conforta-me a ideia de que talvez o Menino do Muro Branco e a Menina da Neve Negra se tenham encontrado na vida, e que talvez por causa deles o mundo já esteja a mudar sem que nós tenhamos dado por isso."

Um Conto de Natal de José Saramago

________

* Sim, estas palavras de Saramago foram o empurrão que faltava para publicar "Almas Que Nunca Foram Fardadas", cujo titulo inicial era "Caminhos do Meu Navegar"