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13 julho, 2024

QUE GRANDE 31! TENHO MESMO QUE REGRESSAR À ESCRITA!

 


A espuma dos dias e as ameaças que por aí pairam têm-me afastado da escrita. Como resultado, quem me seguia e que muito me comentava, na sua maioria, jazem em parte incerta, com exceção de uma meia dúzia de fieis seguidores...

Hoje, dia 13, faz precisamente 13 anos que escrevi um conto e resolvi recordá-lo. O título, era imposto por um regulamento e acho até que meu escrito terá sido premiado (o que não consegui comprovar). Li também os 31 comentários e tomei a decisão de regressar à escrita. Como não?

Pois quem comentou, assim falou:

24 setembro, 2023

UM CONTO AO DOMINGO - I ( o meu Vale Escuro)


Nasci no Vale Escuro
Brinquei entre latas
Pulei o alão
Andei à pedrada
Escorreguei no muro
Caí no jará
Ganhei no pião.
A jogar à bola
Perdi a sacola
Mais o que trazia
A fugir ao guarda
Que nos perseguia.
Mas que bem sabia
Faltarmos à escola!

Manuel da Fonseca, aqui


Os poetas nascem onde menos se espera e eu não esperava o poema. Ele me remete para a minha infância, para o meu Vale Escuro, ali perto da escola da minha vida, daquela de que vos falei um dia.

À saída das aulas, ou aproveitando um horário não preenchido, chegávamos e quase sempre éramos muitos, 15 ou mais, para jogar à bola. Os lideres, aqueles que há muito se destacavam ou aqueles que eram ali mesmo consentidos como tais, procediam à disputa para decidir qual deveria ser o primeiro a escolher os elementos da equipa, das duas que se iriam enfrentar.

A disputa compreendia um ritual, desde sempre seguido no Vale Escuro e que consistia em cada líder se colocar frente a frente. Cada um à sua vez, ia colocando um pé à frente do outro, calcanhar do pé direito, batendo na biqueira do esquerdo, sincopadamente, estreitando lentamente a distancia entre os dois. O primeiro que conseguisse fazer com que o seu pé não permitisse a entrada do pé adversário, tinha ganho e assim, a ele, lhe competia a primeira escolha, o vencido escolhia o segundo, e cada um ia fazendo a escolha interpoladamente. Nos grupos, cada um esperava com ansiedade a altura de ser escolhido. 

Nunca eu era dos eleitos em primeiras escolhas, e raramente era dos últimos e todos eram escolhidos, pois uma regra seguida, nunca discutida (e sempre cumprida) era dar lugar a todos os que por ali aparecessem manifestando interesse em jogar. Ninguém ficava de fora. Nem os meninos, poucos, das barracas que não iam à escola, ficavam de fora.

(Conto reeditado, este foi o primeiro da série)

17 setembro, 2023

UM CONTO AO DOMINGO - XXV (A Gata)


A Gata, estava assim, repousando deitada à minha porta de entrada, certa que acordaria à minha chegada. Embevecido com aquele quase-carinho perguntei-lhe, como era domingo, se queria que lhe contasse um continho. O miau dado pareceu-me ser um estar de acordo e, assim, passei ao conto:

"Era uma vez um gato. O gato chamava-se Gato, não por falta de imaginação ou falta de madrinhas (o Gato foi, além do "dono da casa", o primeiro macho da família). O gato chamava-se Gato porque alguém, ninguém se lembra quem, o chamara "anda cá, gato" e o Gato, de pronto, respondeu com um "miau" ternurento ao chamamento. 

Lembram-se do Gato não pelas cortinas caídas, reposteiros arranhados, ou jarras partidas em resultado daquele seu exercício de se passear, lento e dengoso, sobre as prateleiras do móvel da sala onde se expunha (e até hoje continua exposto) um autêntico acervo da memória que o "dono da casa" fazia (e faz) questão em olhar diariamente. Lembram-se do Gato porque ele era a referência da sua própria humanidade: "Se a inteligência tivesse escala, bem podíamos ser  mais humanos..." Lembram-se do Gato, pela sua habilidade em lidar com aquilo que julgava (sim ele tinha esse juízo) ser o temperamento daquela família e de cada um, isoladamente. Com a diplomacia, doçura e afectividade à medida.

Entre o "dono da casa" e o Gato havia um pacto: ele sancionava a liberdade ao Gato de ocupar todos os espaços, o Gato retribuía-lhe não ocupando o espaço que entendia ser cativo do "dono da casa". A liberdade usava-a repartindo todos os regaços e colos, mas na hora do sono ia ter com a dona para aos seus pés dormir, na hora do comer era à dona que ia pedir. Ás vezes miava, mas a comunicação preferida era a de uma agitação contida.
O Gato era um exibicionista, um verdadeiro artista. Bastava que a família estivesse reunida e sem lhe prestar atenção, ele não perdoava a distração e lá vinha aquela correria doida e o salto felino, trepando a parede ao fundo. Ele não se inibia de públicos gestos obscenos com a inesperada namorada, um peluche já com bastante uso, animal indistinto que todos jurariam ser um urso e que o "dono da casa" trouxera de Hannover, como prenda em retribuição de uma ausência... 

Um dia, na janela soalheira que escolhera para seu pouso de todas as manhãs, aconteceu. Um pombo atrevido sobrevoou-lhe o sono e o Gato, num gesto mal reflectido de resposta à provocação, quis ripostar e lá foi... pelo ar. A queda, todos a supunham mortal. O "dono da casa" desceu a escada, três lances em corrida, degraus saltados a quatro e quatro na ânsia de acudir ao Gato. Já na rua, agarrou-o a custo pois o Gato declarava o susto com as garras e com o desespero. O "dono", mesmo arranhado, ia conferindo se estavam todas as sete vidas. Estavam. 
Nessa noite, o Gato dormitou um pouco no colo do seu salvador, até adormecer, como costumava fazer, ao colo da Maria João. Da segunda vez que caiu daquele terceiro andar, nada há que contar: a experiência fez com que tudo parecesse normal.

Epílogo

Perto de um ano depois da João ter saído de casa para ocupar o pequeno apartamento da Cruz Quebrada, ligou chorosa. O Gato desaparecera. O Gato desaparecera sem deixar rasto em todos os lugares onde o procurara, em todas as portas em que batera. O "dono da casa" esboçou um sorriso triste e pensou "A densa mata do Vale do Jamor é um apelo a qualquer felino, que se danem os ratos e que se satisfaça o Gato com verdadeiras fêmeas, mais atraentes que um usado peluche..."
Mesmo na incerteza desse destino, dava-lhe descanso pensar que fora esse o que tinha tido..."
Findo o conto pareceu-me ver-lhe uma lágrima no canto do olho.  Ficou triste a Gata com tal epílogo.

25 setembro, 2022

A LUA DE MEL DO GAFANHOTO MAROTO

Imagem criada por Sílvia Mota Lopes

  “A LUA DE MEL DO GAFANHOTO MAROTO”


Estava o avô do menino, fazendo o que tantas vezes fazia, contando, desta vez não um conto, mas sim um acontecimento há muito, muito tempo, ocorrido e que o deixara muito, muito aflito. A ele e a milhares de agricultores desde o Algarve até à cidade à beira Tejo, que se chama Barreiro.

 

Contou, que uma praga imensa de gafanhotos, devastou muitas plantações, sobretudo searas de trigo, centeio e milho. Os insetos de todas as cores e tamanhos, não o faziam por maldade, mas por uma fome medonha. Não tinha sido uma presença demorada. Numa só manhã, “enquanto o diabo esfrega o olho” quase toda a sementeira foradevorada. Foi preciso muito esforço e tempo para repor tudo como agora estava.

 

“Avô, só vi gafanhotos em livro, nunca vi nenhum vivo... anda ainda algum por aí?

 

“Sim, um ou outro... ali para os lados do pomar até deixei um canteiro com comidinha escolhida para seu alimento... e acontece uma coisa engraçada um gafanhoto, muito maroto e traquina namora uma “gafanhota” que, ao que parece é bonitinha. Para onde um salta, salta o outro. Para onde o gafanhoto voa, voa a “gafanhota” atrás...

 

“Será que se eu for lá, os vou encontrar”?

 

O avô alimentou-lhe a esperança de ir ver quem nunca tinha visto ao vivo.  O menino lá foi andando e pulando, pulando e andando em direção ao pomar, entrando pelo lado do laranjal. Mal tinha dado dois passos, pimba, um objeto bateu-lhe no rosto e ficou-lhe colado à face. Tentou tirá-lo e conseguiu isso sem grande custo, mas doeu-lhe um pouco. Olhando a mão, percebeu que era o gafanhoto que tinha acabado de agarrar e que a bochecha lhe ficara a sangrar. Zangado, mas sem pensar em fazer-lhe mal, ouviu o gafanhoto, com voz trapalhona pedir-lhe desculpa, que fora sem querer, um erro de salto mal avaliado, que elenão fazia mal nem a uma mosca...

 

Logo de seguida, ouviu-se a voz da joaninha: é verdade, ele até me salvou quando fiquei presa numa teia de aranha. E o louva-a-deus, dizendo que ele ajuda toda a comunidade. De seguida deu testemunho a borboleta contando que, quando um acidente lhe tinha quebrado umaasa, o gafanhoto a transportava levando-a até onde precisasse ir até a asa se curar. A abelha, que ia ouvindo tudo, lembrou como ele mobilizou a colmeia para fazer fugir um camaleão. A libelinha que ia passando, deu conta de como o gafanhoto a convenceu a regressar ao lago e deixar de comer os insetos daquela comunidade.

 

O menino, ouvindo tudo isto, largou o gafanhoto que de pronto se foi juntar à sua namorada que assistindo à cena, ficou ainda mais apaixonada e lhe disse baixinho para que nenhum inseto ouvisse: vamos fazer uma lua de mel e depois acasalar?

 

O gafanhoto deu o braço à namorada e saíram dali, cantando uma canção muito querida mas só pelos dois ouvida...

 

Depois de tudo isto, cada um dos outros ficou onde estava e o menino regressou a casa onde contou tudo ao avô, depois da avó lhe tratar da cara que ficara levemente arranhada.

 

O avô, pediu para que ele se sentasse ali, junto a ele. Começou por dizer que ele assistira a um belo momento, depois fez um prolongado silêncio como que a tomar coragem para o que ia dizer a seguir. Começou com uma breve pergunta: “sabes quanto de vida têm esses simpáticos insetos?” e depois, sem esperar pela resposta, assegura, “No máximo 16 semanas, vê lá...”

 

Com a resposta na ponta da língua, comentou o menino “Quem determina isso é o destino. Se tiveram vida curta, de uma coisa me fica sem dúvida: foram respeitados e felizes”

 

O avô sorriu e abraçando-o foi dizendo:

"Dure a vida o tempo que durar o que é importante é espalhar o bem e saber amar".

 

Quando ia a sair, voltou atrás para perguntar “Porque lhe chamavam gafanhoto maroto?”

 

O avô respondeu sorrindo “Porque fazia tudo, mesmo o muito sério, com um sorriso de gozo!”

 

Rogério Pereira

_______

Este conto é a resposta a um desafio proposto pela Teresa (Ematejoca) e conta com o apoio da Lídia Borges (revisão do texto) e a bela arte da Sílvia Mota Lopes

 

18 setembro, 2022

A VISITA INESPERADA DA NINFA


 Estava eu naquele descanso, só activo no juízo, quando pousa no meu antebraço, junto ao cotovelo, um pequeno insecto. Atrevido, o bichinho, percorre-me o membro e a mão e chega-me  à ponta do dedo.

"Eu sou a ninfa mais nova, filha do casal que referes na sinopse do teu conto, e tenho toda a comunidade de insectos, que meu pai uniu, à espera da tua história. Quando estiver pronto, dás três pancadas fortes naquela árvore e todas as ninfas, gafanhotos, joaninhas e abelhas, virão aqui ouvir o conto de tu mesmo terás que contar"

Deixei promessa de o fazer...

_______

A foto acima foi-me enviada pela Psicóloga Drª Marta Camilo, a quem prometi o meu livro. O conto em breve será publicado.

11 setembro, 2022

"A LUA DE MEL DE UM GAFANHOTO" - sinopse antecipada

"Tu que sabes escrever contos infantis como ninguém, Rogério, escreves “A lua de mel de um gafanhoto”. Em contra partida, eu traduzo o teu livro“CONTOS PARA SEREM CONTADOS” para a língua da menina que detesta livros 📚"

Tendo aceite o desafio da Teresa  Palmira Hoffbauer, antecipo a sinopse. A imagem acima é provisória. Quando o conto vier a ser publicado, seguirá arte final com a qualidade habitual com que os meus contos são ilustrados.

SINOPSE 

historia conta o que se passou com uma pequena comunidade de gafanhotos, deixada depois de uma imensa praga ter invadido uma quinta minha muito querida. Entra em detalhes sobre o comportamento de um gafanhoto maroto e do seu namoro com uma gafanhota bonitona, da sua relação com a libelinha, com o louva-a-deus, com a joaninha e com a borboleta, perante gula contida de um camaleão tolerante e com apetite contido perante tanto insecto apetitoso.

Falará do casamento, da curta lua de mel e da filharada deixada e do desfecho, onde alinho uma moral resignada com os ditames da mãe natureza, que assim reza: "Dure a vida o tempo que durar o que é importante é espalhar o bem e saber amar"

O conto segue dentro de momentos... 


22 novembro, 2021

A "FLAUTA" EM VERSÃO DIGITAL! QUE TAL?

Trago, mais uma vez, este conto meu, dos primeiros a serem contados (2012). Está mais que repetido e publicado, um tanto por todo o lado.

Porque é que eu o repito? Primeiro, pela actualidade:

 «...pois essa cidade foi invadida por ratos pequenos mas que se transformaram, com o tempo, em ratos cada vez maiores. Ratos enormes e gordos. Enormes e maus, que tudo roíam e destruíam, espalhando o terror e pondo os habitantes da pacata cidade fechados em casa, sem saírem dela. Os ratos tomaram conta da cidade e só faziam e espalhavam maldade.  O governo e os senhores que faziam leis e tomavam conta da ordem na cidade, deixaram de o poder fazer.»

Segundo, porque ontem passou despercebido.

Depois, porque nunca foi ouvido, assim dito:

06 junho, 2021

Um conto ao Domingo - XXV (A atenção que me devota a Gaivota-Mais-Nova)


Era um fim de tarde, ameno, suave. Um restolhar de asas, bem agitado a procurar equilíbrio no estreito parapeito da janela, deu para perceber que era ela. Nem precisou de grasnar para fazer chamamento. Dirigi-me a ela, puxei um banco e sentei-me junto da janela, certo que haveria prolongada conversa.

"Como estás?" inquiriu com aquele tom de voz que usam as gaivotas quando alguma coisa as preocupa na relação com os humanos. Respondi-lhe que ia andando e que me lembrado dos seus conselhos os tinha seguido e até superado.

"Ora conta lá!" pediu a Gaivota-Mais-Nova. E eu lá fui contando:

«Tal como aconselhaste, logo, logo, não parei tudo e já retomei o que largara. Das responsabilidades tidas, deleguei algumas e  recentemente assumi mais. Das causas, dei  aviso que mantinha a chama acesa e não só fiz que tal parecesse como fiz prova, abraçando novas causas e lutas. Comecei por fazer uma ou outra reunião, agora não falto a nenhuma. Passei a frequentar os lugares que frequentava mas passei a fazê-lo com maior regularidade. Quanto aos amigos, não lhes dei tempo para sentir estranheza pela minha ausência. Ah, e nunca apregoei o tanto que me dói a alma a sua partida, pois eu sei (e to o lembraste) o que é inspirar pena e dó!»

A gaivota fez um silêncio prolongado e depois, partindo, deixou-me este dito:

«Vou me juntar ao bando. Preciso dizer-lhes que há pelo menos um homem que, como nós, sabe voar»

09 agosto, 2020

Um conto ao Domingo - XXIV (Os conselhos da Gaivota-Mais-Nova)

 

Nem foi preciso receber um "olá" grasnado, naquele tom já familiar a que me tinha habituado. Bastou-lhe um bater de asas, bem agitado, como se fosse chamamento. Dirigi-me à janela e ia a perguntar o porquê da visita quando ela, com um grasnar sussurrado, me pediu que ficasse em silêncio e que escutasse o que ela tinha para dizer. E foi assim dizendo:

«Eu e minha mãe-gaivota sabemos de tudo. Sabemos da imposta ausência, sabemos de tua ansiedade, sabemos de como te afastaste  de todos as responsabilidades, de todas as causas em que te empenhavas, de todas as reuniões que lideravas, de todos os sítios aonde ias. Sabemos que deixaste de, neste espaço, ir comentar o que tantos dos teus amigos iam escrevendo...»

Parou um pouco, como para retomar o fôlego, e continuou:

«Não pares tudo. Das responsabilidades tidas, delega algumas. Das causas, dá aviso que mantens a chama acesa e faz parecer que  tal pareça. Faz uma ou outra reunião e frequenta os lugares que frequentavas. Quanto aos amigos, pensa a estranheza que lhes provoca tão prolongada ausência. Não precisas apregoar o que te magoa a alma, pois eu sei o que é inspirar pena e dó! »

Depois elevando o grasnar, em tom bem alto, deixou conselho, citando alguém bem conhecido.

«O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário» 

E assim sentenciando partiu, voando... 

_________

Claro que isto não aconteceu. 

Quanto aos conselhos, esses sim, foi a minha mai-nova quem mos deu

26 julho, 2020

Um conto ao Domingo - XXIII (A Machadinha)

Ele não era agrário proprietário, apenas rendeiro. A herdade, tendo de tudo um pouco, tinha na boa qualidade da vinha o provento do qual pagava a renda e do qual lhe sobrava algum dinheiro. Vinho de talha era raro e a qualidade produzida era afamada. 

Face à notícia do noivado da filha promoveu o rendeiro a um evento para festejar tão feliz acontecimento. A reduzida família tinha, assim, já assegurada a descendência e resolveu partilhar a felicidade,  com toda a gente convidando meio-mundo para um bem regado banquete. 

A mesa queria-se grande, e os talheres quase não chegavam para tanta gente. O lugar escolhido, pois que aquele Julho ia bem quente, foi a adega onde a frescura associada ao leve odor a mosto, afigurou-se o lugar certo.

Enquanto a mulher ia pondo a mesa e cuidando do assado ele procurou o jarro e foi enche-lo na talha onde guardava a melhor safra. Abriu a torneira com cuidado e, em pequeno caudal para não agitar o pé do fundo, deixou o vinho correndo em pequeno esguicho. 
Pegou num pequeno púcaro de barro e tirou um pouco para dar um trago. Ao soltar um estalo, olhou o tecto e deu por uma coisa de que nunca antes se dera conta: pendurada, uma velha machadinha já bem enferrujada e de cabo carunchoso baloiçava levemente, quando lhe dava o vento. 

Ele olhava e ia pensando na filha que ia casar, que iria ter uma criança e no perigo que seria a criança escolher aquele lugar para ir para ali brincar, pois mais dia menos dia a machadinha cairia e se a machadinha caísse nesse dia, seria um desfecho trágico, a morte, certamente. Enquanto tinha tal pensamento, o vinho ia correndo.
Chegado ao pé um convidado e ele contava o perigo que tinha adivinhado. Contava, apontava a machadinha, e o vinho corria.
Um e outro, após outro e outro, se achegavam e era já meia-aldeia comentando o risco descoberto, e o vinho ia correndo.
Até que alguém terá gritado, mas já a talha jazia vazia...

No mês seguinte o agrário deu ordem de despejo ao rendeiro por incumprimento do contrato de arrendamento, pois fora-se toda a safra e com ela o meio de pagamento!
Meu pai contava vezes sem conta este conto que hoje recordo. Eu aprendi a lição mas, apesar de conto antigo, há muitos que ainda não

27 outubro, 2019

A Gaivota, do conto contado à realidade...


"Olá!", grasnou ela, naquele grasnar que já se tornara familiar fazendo-o bem alto, lá de cima do telhado.

"Olá! por aqui?", respondi admirado porque a supunha num outro lado, a sul, onde a liberdade é objecto de luta avançada.

"Estou em trânsito e só espero o bando para a ele me juntar... venho dizer-te que a boa-nova que te trouxe há tempo está prestes a ser consumada. Lembras-te dela?"

 Percebendo a importância que as Gaivotas dão à memória, repeti a notícia de então, com todas as palavras que a Gaivota então usara, mudando apenas o discurso. "Lembro-me sim! Disseste que que não tens parado. Que cruzaste mares, sobrevoaste  desertos, pousaste em mil um beirais. Que viste muito, por esse mundo, guerras, desmandos e, que apesar de tudo são cada vez mais os homens que, como eu, te alimentam o voo e se batem pelo sonho da igualdade, combatem cercos de autoridade, de injustiça mascarada, de prepotência e de rituais de guerra."

A Gaivota, pareceu emocionada, tanto quanto ficara então. "Tens boa memória. Guarda-a bem, agora tenho que partir e pairar sobre os povos que nos alimentam os voos. Rumo ao sul, onde tudo o que pode acontecer* talvez aconteça"

E grasnando voou na direcção para onde lhe parecia poder ir juntar-se ao bando, já sem tempo para ouvir a mensagem que lhe queria enviar àquela outra gaivota que em Abril me visitara...

*Na Bolívia já aconteceu, agora falta saber o que se espera acontecer 

23 dezembro, 2018

Um conto ao Domingo - XXII ("NATAL 1972")


Há contos que são contados
e nascem da imaginação
colocada por cima 
da realidade vivida 
Outros são uma autêntica crónica
e devem permanecer na nossa memória
Este, foi retirado de um livro não editado
"Dignidade e Ignomínia" do Fernando Ribeiro
que também escreve na "Matéria do Tempo
NATAL 1972

Estávamos em finais de novembro ou princípios de dezembro de 1972, quando fomos encarregados de realizar uma operação que tinha por finalidade a destruição de lavras que existiam na área do Catoca, na zona de ação da companhia do Mucondo, e que pertenciam à população civil (considerada) afeta à UPA/FNLA. (...) O comandante da operação iria ser o Arrifana.

A execução da destruição das lavras iria estar a cargo de dois grupos de bailundos, que se encontravam às ordens do Exército em Santa Eulália e no Mucondo. A tropa de Zemba levaria consigo os bailundos de Santa Eulália e a tropa do Mucondo levaria os do próprio Mucondo. A nossa função, como militares, iria ser enquadrar e garantir a segurança aos bailundos, enquanto estes destruiriam as culturas agrícolas, munidos de catanas.

Habitualmente, antes da partida para uma qualquer operação, os oficiais que nela participassem costumavam reunir-se para acertar os pormenores sobre a sua execução. Neste caso, os três alferes destacados, Arrifana, Osman e eu, também fizemos uma reunião no Mucondo antes de partirmos para a operação. Logo a abrir, disse o Arrifana:
— Nós não vamos destruir lavras nenhumas. É um crime e eu não quero ser criminoso. Há crianças, há doentes, há mulheres, há muitas pessoas inocentes que não têm culpa de viver numa região em guerra. Nós não temos o direito de causar sofrimento a essas pessoas, obrigando-as a passar fome. Isto é coisa que repugna à minha consciência. Já basta o que sofrem com a própria guerra.
O Osman e eu manifestamos imediatamente o nosso total acordo. Uma coisa era combater homens armados, outra coisa muito diferente era fazer mal de propósito a civis indefesos. Discutimos então o que é que iríamos fazer, em vez de destruir as lavras.

16 dezembro, 2018

Contos de Natal - V ("mãe, ó mãe!")


Vivemos tempos perigosos. Desse perigo surgem diariamente notícias, cada uma mais terrível que a outra. Não será, então, estranho que me ocorram "memórias de tempos de  raivas, angústias e medos" e, assim, relembre este conto de Natal. Conto contido nas páginas do meu livro...
«54 – O capitão Só Alma. – Reparo que mal falei de oficiais e praticamente nenhuma palavra sobre o capitão. Este era miliciano, pois os de carreira não chegavam para satisfazer todas as necessidades da guerra. Chamava-se Só Alma pois não consta que o seu «eu» fosse como os demais e o «seu contrário» rara-mente o aconselhava a fazer coisas de reconhecido valor. Por dever, todos lhe obedeciam. O capitão Só Alma até podia ter uma boa alma, mas ninguém tinha essa certeza, pois as suas decisões eram quase sempre contrárias às necessidades percepcionadas. Ali, no meio do mato e cercados por capim e arame farpado, mantinha formaturas por tudo e por nada, o içar da bandeira tinha as honras desproporcionadas naquelas paragens, exigia aprumo no fardar e chegou até a dar reprimendas por não ser militarmente saudado por um distraído soldado. A alma do capitão estava ao serviço da Nação e toda ela assumia esse estar até limites ridículos de comportamento. Até se poderia justificar algum zelo para manter o estado de alerta e a defesa daquela posição desperta para eventuais impensáveis. Na verdade, está-vamos ali por causa da guerra. Mas também era verdade que o medo fazia parte desse ali estar e mostrava-se suficiente para a necessária vigilância. O medo sempre foi o maior aliado de qualquer soldado. Naquele dia, véspera do primeiro Natal em terras de Angola, o capitão Só Alma surpreendeu. Não compareceu a todas as formaturas, nem ao içar da bandeira, nem almoçou na messe de oficiais com os demais. Foi o cabo cantineiro, a mando do oficial de dia, saber o que se passava e veio com o recado:
«O nosso capitão está bem e disse que já cá vem.» E veio.
Trazia na mão uma carta, pediu para que todos se reunissem na parada e assim aconteceu. Firme, sentido, eram a voz de comando seguida de calcanhares batendo. O capitão Só Alma aproximou a carta à altura de ser lida. Esteve longos segundos com a carta nessa posição. Depois deixou lentamente o braço descair e desistiu de a ler, se é que tinha intenção de o fazer. Com uma voz que ninguém lhe ouvira antes, disse:
«Hoje, por ser a noite da consoada, temos rancho melhorado, vinho à descrição e mais uma refeição à meia-noite. Há bacalhau e couves e a luz só se desliga depois do menino nascer.» De seguida deu ordem de destroçar.
Minha Alma até poderia ter comentado mas seguiu o estar do Meu Contrário que ficou calado. Assim também ficaram todos e foi em silêncio que dispersaram, sem achar excessiva ou despropositada a cena. Talvez porque todos tínhamos recebido uma carta e sentido ganas de a ler em voz alta…

55 – «…mãe, ó mãe…» – A ceia foi como o capitão Só Alma disse que iria ser, e foi prolongada com os mimos que quase todos receberam de casa, no último correio chegado de Maquela: Broas; duros bolos-reis; passas e até alguns sonhos e rabanadas, retardadas por alguns dias de viagem. Tudo era partilhado. O vinho não chegou em quantidade e não chegaria nunca para a avidez de todos. As securas de alma não se amenizam assim, de pé para a mão. As conversas animaram-se até tarde. Já passava muito da
meia-noite e a luz se apagara, quando voz aflita veio interromper o meu uísque com bala dentro, travestida de gelo (hábito que entretanto regressou). Veio dizer-me que o soldado Alma do Oriente estava mal e sem acordo de si. O Alma do Oriente era um soldado de ascendência goesa, magro, baixo e de olhos muito negros e humildes como os seus gestos e trato. A sua religião não lhe permitia o álcool e ninguém o tratava por «monhé», tal o respeito que lhe tinham. Estava de lado, deitado, de camisa e calças desapertadas. Hirto, sem arfar, parecia em coma. Pedi que arranjassem amoníaco para lhe dar a inalar, mas apenas consegui aguarrás. Demos a beber café bem adoçado e por ali fiquei a seu lado. Passadas horas, duas talvez, ouviu-se-lhe um som de lamúria ininteligível. Segundos depois um «ó mãe» e nova pausa para depois outro «mãe» e «ó mãe». Não sei quantos «ó mães» ouvi mais, tantos foram esses ais. Todos suspirámos de alívio. Minha Alma, sorri¬dente dizia com a já conhecida ironia:
«Rogério, esse é Jesus renascido e meu nome é Maria.»

Rogério Pereira, in "Almas Que Não Foram Fardadas
Edição EMACO, Dezembro de 2011

12 agosto, 2018

Um conto ao Domingo - XXI ("UMA NOVA HUMANIDADE")



 O primeiro sintoma – Levantou-se mais cedo de que era seu costume e sentiu-se como há muito não se sentia, sem contudo se dar bem conta de como de facto era o seu sentir. 
Lavou-se, barbeou-se e, como sempre, encaminhou-se para a cozinha onde preparou o frugal pequeno-almoço. Bebeu a caneca de leite olhando através da janela. Deu um primeiro olhar em volta e depois um outro, detendo-se em todos os pormenores do que se avistava dela: a praceta, os logradouros, o carro do vizinho da frente que saía, a rua transversal onde o trânsito ainda era raro. 
Fixou-se nos pombos que sempre por ali esvoaçavam e depois no Tejo, ao fundo. Encheu os pulmões do ar fresco da manhã. Ia estar um maravilhoso dia de fins de Junho, pensou. Bebeu o resto do leite e foi-se vestir. 
A mãe, que se cruzou com ele no corredor, deu-lhe o sorriso matinal, “tão cedo?”, comentou como quem cumprimenta. Respondeu com uma piada a que ele próprio achou graça e sorriu, por dois motivos, pela própria graça dita e como resposta ao cumprimento. Poucos minutos depois saía. 
No caminho cruzou-se com o vizinho, que vivia no terceiro andar do prédio ao lado do seu. Cumprimentou-o sorridente com “bom dia, passou bem” que nunca antes acontecera, em tantos anos de vizinhança indiferente. Mal pronunciou um “Bom dia, tudo bem?” e continuou o caminho com destino à esplanada, onde contava ler o jornal e planear como preencher o dia. 
Ao passar junto ao logradouro, o da palmeira grande, no canteiro que lhe desenhava o limite com o empedrado, deu-se conta daquilo que, se antes existia, lhe passara totalmente despercebido. As plantas, não muitas, mas todas as que havia e que rodeavam os agapantos roxos e brancos, apresentavam hastes novas e viçosas. Hastes novas, viçosas e de cores diferenciadas das hastes velhas ou se não velhas, das que já existiam antes destas e que pareciam ser rebentos novos. Novos e estranhamente mais belos. Pareciam enxertos a partir dos quais a planta primitiva deixaria ser o que até ali tinha sido. Calhando a natureza era assim que procedia sempre que qualquer planta crescia. Ele é que estaria diferente e hoje, por qualquer inexplicável razão, é que de tal se dera conta. Curvou-se e estendendo a mão, partiu uma das hastes novas. A seiva projetou-se como se dentro dela uma força inusitada a expelisse em jorro. Estranhou, sem ter a certeza de ter razão em estranhar.
Tirou um cigarro e prosseguiu, esquecendo aquele pequeno reparo mas culpando-se de nunca reparar nas coisas belas e de nem sempre saber desfrutar delas. Ia a meio do seu primeiro cigarro e sentiu-se ligeiramente agoniado como se o seu organismo pela primeira vez, em já muitos anos de vício, invertesse o sentido do apelo, quase exigência, de tão longa dependência. Deitou fora o meio cigarro, pensado que lhe saberia melhor o que fumaria depois de bebido o café. 
Entrou no centro comercial e comprou o jornal. Desceu ao piso de baixo, onde ficava a cafetaria e no balcão, fez o cumprimento habitual e o habitual pedido: “Pago dois e levo um”. A empregada, mil vezes o ouvira pedir assim o seu primeiro café, antecipando o pagamento de outro que beberia cerca de uma hora depois, mas comentava sempre aquilo que considerava ser um pedido com espírito engraçado. Saiu com a chávena na mão. A saída naquele piso dava acesso a uma pequena esplanada. Pousou o café e o jornal e sentou-se no seu canto. Antes mesmo de passar os olhos pelos títulos do dia, tomou a decisão de passar à procura mais ativa de emprego. Desacreditara que o envio do curriculum poderia dar qualquer resultado prático. Nem bebeu o costumado segundo café, que ficara pago, fez-se à vida. Tudo indicava que aquele dia ia ser diferente, e foi com essa certeza que dali partiu

Mais sintomas – Contrariamente ao sentimento que nela se tinha instalado, de medo e insegurança, naquela manhã sentia-se diferente. Não, não era o retorno da confiança nem o instalar de qualquer ideia nova quanto ao futuro. Não sabia explicar. Não havia razões para ter outro sentimento do que aquele que há mais de um mês a tomara. Da sede já tinham chegado ordens para antecipar o fecho dos projetos de investigação em curso, e os dois estagiários tinham sido já dispensados e cortadas as bolsas para financiar mais ocupações de recém-licenciados.
Tinha falado com o namorado há minutos e ambos tinham comentado esse bem-estar inexplicável. “Vem da alma”, disse ele e ambos riram. Tinham em comum a certeza de que compete às almas tarefas menores na procura da sobrevivência do corpo, entregue às vicissitudes de um tempo pouco favorável ao que todos designam por futuro. Combinaram encontrarem-se ao fim da tarde e desligaram com a brincadeira do costume: “Desliga tu”, “Não, tu primeiro”, para de seguida desligarem ambos ao mesmo tempo.  
De momento estava a redigir o parecer da instituição sobre o último relatório referindo alterações quanto às previsões do aumento de mais uns centímetros do nível da água do mar. Fazia-o com o desagrado de quem pratica uma rotina que nada tem a ver com trabalho científico. Até os jornais do dia já referiam, em antecipação, a notícia sobre aquilo a que pomposamente chamavam parecer. Importante seria, isso sim, dar continuidade aos estudos de impacto sobre os ecossistemas marítimos e sobre a fauna costeira, quer do aumento desse nível, quer em consequência do aquecimento dos mares.
A Marília, funcionária administrativa, veio interromper-lhe os pensamentos e o trabalho. “Doutora, o professor pede, para quando puder, passar lá no gabinete”. Não tinha mais dúvidas, era chegada a temida mas esperada altura. Por educação e espírito metódico tinha aprendido e desenvolvido a espontaneidade de associar às observações sistemáticas de uma tendência os efeitos inevitáveis sobre a forma de consequência: o professor iria anunciar-lhe que o seu trabalho ali tinha terminado. Que iria deixar de ter verba para poder ser continuado. 
Alisou o cabelo com ambas as mãos. Tinha o consolo daquele inexplicável bem-estar interior e quis colocar na apresentação alguns retoques para que o seu parecer estivesse ao nível do seu sentir. Ensaiou algumas palavras de circunstância e que seriam de manifestar compreensão. Rejeitou liminarmente a ideia, que chegou a passar-lhe pela mente, de se insurgir contra a atual situação. De resto não saberia exatamente que palavras usar nesse cenário de reação.
“Posso?”, perguntou ao entrar no amplo gabinete do professor. “Senta-te aí, e espera só um pouco.” Sentou-se e esperou, procurando não pensar em nada. Não pensado não corria o risco de se afastar do discurso de resignação que tinha preparado. Enquanto esperava olhou em redor para perceber a possível origem daquele odor ligeiramente florado, embora ténue, que sentira até mesmo antes de entrar. O professor não usava flores no gabinete e nem tinha por hábito usar qualquer perfume. Suspendeu a procura percebendo que o professor a olhava fixamente.
O ar dele era carregado, a testa ligeiramente franzida e enquanto reconduzia os óculos à posição certa, num tique comum a todos os que usam óculos, iniciou a conversa com uma voz pouco condizente com o seu ar sério, pois era como se estivesse na sala de aula, a transmitir em tom didático uma teoria. “Doutora, temos aqui matéria de elevada preocupação”. Pareceram-lhe aquelas palavras um tanto deslocadas para iniciar o discurso esperado, mas admitia que o professor estaria a passar, tal como ela, por uma experiência nova e que, para ele também dolorosa, carecia de rodeios. 
“Desde ontem que estão a chegar, por via diplomática e com classificação de reservado, relatórios que têm origem em vários centros da comunidade científica.” 
Estendeu-lhe uma pasta “Tem tudo aí, leia e prepare-se para uma reunião que está a ser coordenada pelo Porto, mas que se vai realizar aqui com gente de todo o lado. A ministra da tutela já está inteirada e virá assistir ao final da reunião para participar nas conclusões. Os diretores das diferentes instituições e centros estão já a trabalhar sobre esta mesma informação” à medida que o professor ia falando as feições iam-se descontraindo como se aquela simples transmissão lhe aliviasse a tensão provocada pelo segredo que estava a ser partilhado. 
O mesmo se passava com ela que, à medida que o ia ouvindo, se iam dissipando os receios para no lugar deles se instalar a curiosidade e a perceção de estar perante questão de grande gravidade: “E de que se trata, professor?”, “Todos esses documentos, oriundos das mais diversas partes do mundo, referem baixas impressionantes na salinidade da água do mar. Há dados, como os do golfo de Omã, onde a água é praticamente a de um rio… e nem uma única espécie marinha a ser atingida a ponto de essa alteração lhe causar a morte. Há no meio dessa papelada relatórios de especialistas de biologia genética e biologistas moleculares que dão conta de mudanças inexplicáveis em todas as espécies analisadas. Por enquanto apenas foram detetadas modificações morfológicas visíveis em dois pontos muito distantes, um no Chile outro na África do Sul… a comunidade piscatória desses países ainda não reagiu e a imprensa até há duas horas atrás não sabia de nada.” 
Interrompeu e olhou o relógio para depois propor “Vá doutora, já passa um pouco das 11, se achar bem mandamos vir alguma coisa para comer e ficamos por aqui. Acha que 2 horas lhe bastam para ler tudo isso e falarmos de seguida? “ A resposta foi um sorriso, ambos sabiam bem quanto gostavam, uma e outro, trabalhar sob pressão…

Como se fosse a primeira noite – Ele e ela encontraram-se à nova hora aprazada, depois de ela lhe ter ligado a dizer que iria chegar só à hora do jantar e que jantariam no mesmo restaurante onde dois anos antes o fizeram juntos pela primeira vez. Durante a espera do que escolheram para comer e durante o tempo em que comiam não falaram de outra coisa para além do que tinha mudado as suas vidas. Ela falou, vagamente, do projeto e da reunião convocada de emergência. Ele falou, sem detalhes, do conteúdo do seu novo trabalho. Falaram deles e dos planos de vida que imaginaram passar a poder ter. Saíram da cidade. 
Para onde foram prolongaram a noite, trocando gestos de afetos, alongando beijos e caricias até os corpos se darem uma e outra vez, sob o olhar conivente das flores cujas pétalas se ruborizavam contrastando com as cores daquele leito de erva refrescada pela brisa da noite e pelo humos de uma terra que se agitava, ela também, sob a volúpia dos amantes. Amaram-se como se fosse a sua primeira noite.  

Três meses depois – A médica ia dando pequenas instruções e olhava atentamente o monitor por onde ia seguindo os pequenos movimentos do feto, sempre que premia a barriga. Parecia não estar tudo bem mas como não conseguia interpretar o que via, para além do que considerava normal, comentou “está aqui um rapagão” e ia pensando se iria recomendar ou não a antecipação da próxima ecografia.
Ele olhava embevecido ora o rosto dela ora o monitor, onde se percebia que a médica ia fazendo pequenas operações e registos. Depois fez uma impressão cuidada e guardou o máximo de imagens em arquivo, muito para além do recomendado pela direção clínica.
Passou receita de exames ao sangue, sem explicar o motivo, nem ser questionada por isso e despediu-se entregando as receitas, papeis e a cópia da ecografia. “Daqui a um mês, quero voltar a vê-la.” O casal olhava com o olhar com que olham os casais que tomam a consciência de irem ser pais. As mãos entrelaçaram-se e saíram conversando, felizes e se questionando sobre o nome a dar ao menino. Fechada a porta, a médica mandou avisar que não estava em condições de ver as duas grávidas que aguardavam a consulta, alegando razões da sua própria saúde. Passados curtos minutos entrou no gabinete a diretora clínica, que entretanto chamara. “Então, que se passa?”, “Veja isto, é de uma parturiente com 11 semanas e meia e que acaba de sair…” Passaram as duas a ver, repetida e demoradamente a sequência de imagens sem chegar a qualquer conclusão. “Parece normal e nesta primeira “eco” nem sempre, para todos os casos, é possível ter a mesma nitidez”. A doutora apenas questionava: “Mas os olhos? Os olhos?” A resposta obtida manteve-se inconclusiva.

Quatro meses depois – As notícias sucediam-se vertiginosamente. A cada novo alarme ou simples referência a mais um fenómeno inexplicável, correspondiam quase sempre notícias credíveis e tranquilizadoras asseguradas por instituições competentes e oficiais que sustentavam não estar em risco a saúde pública, nem os equilíbrios ecológicos e outros. Nem sequer havia a registar que a extinção de elementos considerados fundamentais não tivessem sido substituídos por outros, alternativos, para a sustentabilidade dos sistemas necessários à vida. Foi assim com a mudança radical ocorrida nos mares, em que se contavam apenas alguns raros locais onde subsistia a água salgada. A maior parte de todos os oceanos passara a ser constituída por água doce sem que as espécies marinhas, peixes, crustáceos, bivalves, algas e corais não se tivessem adaptado com a mesma rapidez com que a mutação evoluía.
Em todo o mundo a comunidade científica mantinha-se em atividade, 24 horas por dia, e em ligação permanente, com milhares de fóruns ocorrendo em simultâneo, na sua maior parte com recurso à vídeo-conferência. Se dias antes o mundo científico tinha sido abalado pela confirmação de estarem a aparecer diariamente mais elementos químicos antes não conhecidos e em risco de conflituar com a lógica da tabela de Mendeleev, vinha agora a União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) dar conta de se estar a encontrar uma nova harmonia para todos os elementos da natureza. Sobre o que se passava com a cadeia alimentar tinha a Organização Mundial de Saúde dado extensa lista de alimentos que podiam ser consumidos apesar de se verificar a existência, em todos eles, de mudanças em consequência da deteção de novos ingredientes na sua composição organológica.
Em anexo, informava estarem em curso investigações aturadas sobre a composição da estranha erva rasteira, semelhante a beldroegas, e que começara há cerca de dois meses a aparecer em certas zonas de diferentes desertos, dos existentes em todos os continentes. Os primeiros testes, uns conduzidos por cientistas, outros resultantes da observação posterior às consequências de comportamentos incontrolados de animais e populações locais que ingeriam aquela estranha erva, apontavam para a quase certa possibilidade de, sem qualquer risco, poder ser comestível sem qualquer efeito de toxicidade ou outro, adverso. Parecia, e cada nova descoberta confirmava o que parecia, que um ser sobrenatural corrigia a natureza. Dando-lhe um odor, um dispor e novos equilíbrios no mundo. Em poucos meses a água deixou de ser um bem escasso, o ar passou a revitalizar os organismos e a alimentar sem reservas todos os seres vivos, passou a haver sustento onde a mingua há muito se instalara.
Tudo isto, ele ia pensando, passando ao lado da notícia do dia: “As reservas de petróleo na Arábia Saudita foram consideradas ineptas para todo e qualquer uso. O rei saudita, contudo, resiste em autorizar a paragem dos trabalhos de extração, esperando que um milagre altere esta nova realidade. Entretanto os países da OPEP reuniram de emergência, para analisar a situação. ”

Sete meses depois – Ela ainda não tinha chegado. Solicitada a todo o momento e porque a gravidez evoluía sem quase se dar conta que portava no ventre um novo ser, ela aceitava todas as pequenas e grandes tarefas, desde as de laboratório às de discussão ou divulgação dos processos de investigação dos projetos que liderava. Ele, para encurtar a espera, ligou a televisão num canal de cabo, para as últimas notícias. Parte das que iam dando não lhes ligava e o pensamento ia-se dispersando por outras coisas. Não lhe saía do sentido a consulta de semanas atrás nem a imagem a três dimensões da última ecografia do filho, dos comentários e recomendações da equipa clinica e dos relatórios que lhe tinham apresentado…
Para desviar a atenção desses pensamentos esforçou-se por recordar os impactos dos últimos acontecimentos e a desordem que ia pelo mundo: o colapso do sistema financeiro, a suspensão de toda a atividade bolsista em todas as praças e as primeiras reações dos governos dos países ricos, céleres a imputar a responsabilidade de alterações tão profundas a nível planetário associando-as a atos terroristas e ao pretenso uso de armas químicas. Lembrou como tais explicações se voltaram contra os países que as deram, pois o mundo assim se encaminhava para ser perfeito.
Suspendeu os pensamentos para fixar a atenção numa reportagem: grandes nomes de reputados políticos, grandes empresários, banqueiros e titulares de grandes fortunas, mais de cem personalidades conhecidas por pertencerem ao Clube Bilderberg, permaneciam reunidos pelo quinto dia consecutivo. Os donos do mundo não sabiam que fazer dele.

Nove meses depois - Entraram no hospital sob escolta e elevado número de agentes afastavam a multidão de repórteres de agências internacionais, jornais e cadeias de televisão de todo o mundo. Lisboa tinha atraído mais de dois milhões de pessoas não sabendo elas próprias ao que iam.
Estava acordado com todas as autoridades, que nada passaria para o exterior. Até a conferência de imprensa da equipa médica não estava confirmada. Dentro do hospital universitário, na ala que tinha sido a escolhida para o esperado parto, tudo parecia seguir um guião pré-estabelecido dada a certeza e calma com que os preparativos decorriam. Não fossem as quatro câmaras de filmar e os múltiplos cabos espalhados e tudo estaria como costumava estar uma sala de partos. Nos dois anfiteatros, situados no piso inferior, repletos de médicos e outros especialistas, conversava-se em várias línguas, como se sussurrassem orações a um deus que todos consideravam ter reconhecido que se enganara ao ter produzido o primitivo universo. Outros, poucos, davam-lhe o protagonismo dos milagres ocorridos, depois de terem inicialmente apontado que o que estava a acontecer ao mundo era obra do diabo. Sustentaram essa ideia até se perceber que as profundas e radicais mutações vinham em auxílio da humanidade e de novos equilíbrios no mundo.
Ela, que sempre fora bela, tinha, na serenidade do rosto, confirmada essa beleza que a gravidez acentuara. Ele segurava-lhe a mão com o carinho de sempre. O chefe da equipa clínica veio avisá-los que tinham mais uns minutos e depois teria início o parto, a que ele não podia assistir. Quase em simultâneo, os altifalantes dos dois anfiteatros faziam o mesmo aviso. Assim, poucos minutos decorridos, era-lhe aplicada a epidural e uma ténue sedação. O protocolo dos procedimentos cirúrgicos da cesariana foi seguido meticulosamente pela equipa experiente. O que ia acontecer era, de todos, conhecido. Naquele momento, para aquela equipa não se tratava de enfrentar surpresas mas de usufruírem o privilégio de serem os primeiros a contactar com um novo ser. Um ser diferente de toda a gente. O primeiro de uma geração que deixaria para trás a forma conhecida até então como normal.
O bebé chorou, mas os olhitos pequenos pestanudos e bem desenhados permaneciam fechados. Pela primeira vez aconteceria que quando eles se abrissem para o mundo, o mundo se espantaria por estar a ver assim: Dois olhos iguais aos demais e, dentro de cada um, duas pupilas brilhantes e pequeninas, para alcançarem mais do que se lhe quisesse mostrar.

Um ano depois - Dos mais de 17 milhões de nascimentos registados, nem um só registava os olhos como os tinham os pais dos novos nascidos. Estudo realizado dava a evidência científica, podendo-se ler no relatório distribuído à imprensa: «Das duas pupilas dos novos seres, a mais pequenina, apresenta uma espécie de nervo óptico que liga o olho ao coração. Assim, é provável que estejamos em presença de uma nova humanidade, e esta possa estar mais apetrechada para lidar com adversidade ou até a anular. Só nos resta esperar».
Ele e ela sorriram orgulhosos, tinham sido os primeiros pais de um Novo Mundo

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Nota final - Na versão original publicada o conto não termina exactamente assim, alterei depois de ter lido isto

05 agosto, 2018

Um conto ao Domingo - XX ("Construíndo a visão")

Se Brecht fosse vivo
faria deste conto um teatrinho


Parte I (15.Jan.2013)

- Que está a pensar com esse olhar tão fixo?
- Espero que a abelha saia dali e me liberte o material para eu poder pensar no que está a acontecer...
- Não percebo!, diga-me isso de outra maneira para que eu possa perceber!
- Estou à espera de poder usar o arame e reconstruir este momento que estamos vivendo...
- Com o arame constrói o pensamento para poder ter a visão do momento?... Olhe, a abelha já voou... Não se importa de eu ficar a ver como constrói a realidade trabalhando o arame?
- Fique. Veja só: pega-se assim, firmemente. Depois vai-se fazendo um pequeno arco, lentamente... mas com força. Repete-se o procedimento e surge aqui à frente outro arco quase igual. Repete-se, e assim sucessivamente, vamos desenvolvendo ciclos e ciclos com o arame...
- Faz muita força de dedos nessa manipulação?
- Neste ponto, já não... e é isso mesmo o que queria perceber... ao principio, para fazer cada ciclo, foi preciso, agora o próprio arame vai-se pondo a jeito... parece estar viciado e isso favorece a forma que lhe vou dando...
- Percebo! A partir de um dado momento os ciclos desenvolvem-se com o vício da forma inicial que foi dando...
- Isso mesmo! O arame, depois de bem manipulado, quase que automaticamente assume a forma pretendida... é uma espiral... parece uma mola, só que não impulsiona nada. Fica como a vê aqui, parada.
- Olhe, está-se a acabar o arame!...
- Vou passar a fazer círculos de diâmetro mais reduzido. Acho que chegámos ao ponto em que estamos agora...
- Mas... está a voltar atrás?
- Passámos os ciclos viciosos e, à falta de arame... digamos que temos que voltar atrás e reduzir os ciclos que tinham sido maiores. Passo a fazer ciclos recessivos... e, à frente, a fazer ciclos mais reduzidos...
- ...que vão parar?
- Quando não houver mais arame!
- O fim está à vista... foi excelente este exercício! Mas como é que saímos disto?
- Neste momento vamos a tempo... É sair destes ciclos e endireitar o arame... mas com o vício...
- Com o vício?... 
- Só à martelada!
- Acho que é uma boa solução. Procuremos o martelo, então.
(saíram os dois, procurando o martelo)

Parte II (17.Jan.2013)

- Olhe ela voltou!, mas pousou neste outro lado... vai esperar que ela vá embora e voltar a trabalhar no arame?
- Trabalhar no arame naquele momento foi uma decisão errada. Uma metáfora para resultar tem que ser bem trabalhada e usar-se nela o material adequado...
- Escolher o arame foi uma opção errada?
- Não!, errado foi ter metido lá o martelo... em vez de se ter entendido que ele era usado para desfazer os círculos viciosos, todos leram que o que era preciso era desatar à martelada...
-  Os sinais dos tempos sobrepõem-se às intenções edificantes... então e agora?... noto que está a olhar para o belo insecto com o mesmo olhar fixo...
- Estou a tentar discernir se o insecto é abelha ou vespa... Há uma grande confusão à vista desarmada... o que mais se parece com uma vespa é uma abelha, o que mais se parece com uma abelha é uma vespa...
- Tem razão, eu próprio as confundo. Dizem das abelhas que são trabalhadoras e calmas e que as vespas são carnívoras e bravas...
- As abelhas têm uma organização social invejável mas vulnerável... as vespas atacam as abelhas, invadem-lhes os favos e devoram-lhes as larvas. As vespas maiores, mais vorazes, até as comem... 
- Não sabia... agora reconheço a importância de ficar aqui a olhar... mas... como vamos perceber a diferença?
- Primeiro olhamos para reter a imagem, a forma das patas, o abdómen, o tórax... Depois aproximamo-nos. Se nos atacarem, são vespas..
- Aproximemo-nos então!... Olhe, voou e pousou naquela flor...
- Era abelha!
- Era abelha! Podemos recapitular o observado ainda agora?
- Não consigo, tenho um problema de memória...
- E eu de observação... estamos então condenados à confusão... a só perceber quando nos vierem morder...
- Nem mais! O nosso drama é continuarmos sem memória!
- E de observação! Há um vespeiro reunido e muitos ainda julgam tratar-se de uma colmeia!!!
(Saem como se tivessem receio de estarem a ser escutados)

 Parte III (18.Jan.2013)

Os Zzzz´s próprios dos vespeiros eram inteiros e os olhares dos vespas se perdiam pela ornamentação dourada da bela sala, olhando as abóbadas do tecto, como que a inquirir a resposta: "e como fazer, sem que as abelhas acordem e se revoltem?Do lado direito, da fila primeira, logo da primeira cadeira, se levantou um vespa. Levava na mão uma pen que inseriu para mostrar um vídeo para ilustrar a palestra. Elevando a voz para que fosse ouvido de modo entendido, disse antes das imagens passarem: 
"Evitemos esta imagem voraz. Evitemos mostrar o que não deve ser mostrado, como hoje soubemos não deixar escutar o que foi dito. Alimente-mo-nos das abelhas de forma menos evasiva, mais...persuasiva. Não esqueçam que temos a vantagem de sermos confundidos e tomados por salvadores e amigos... de estar a cumprir um desígnio...  de este sacrifício ser um imperativo e desse imperativo ter um único sentido: o do extermínio!"
 (findo o vídeo, o orador foi muito aplaudido e depois disso os vespas foram saindo)

Parte IV (22.Jan.2013)


- Ferreira Fernandes, internacionalizou-te a metáfora depois de te ler até aqui. Escreveu que para a Europa não há vespas más...
- Não acredito que ele o tenha escrito...
- Escreveu, escreveu, e acho que até espreitou o teu vídeo, e falou na voracidade consentida... e com a mordacidade que lhe é conhecida, titulou a sua crónica assim "Não há vespas más"...
- E não disse mais nada? Não falou nos enganos dos eleitores que votam nas vespas que se fazem passar por abelhas?
- Não, disso ele não falou! O que ele descreveu foi a técnica dos japões em defender as colmeias do ataque das vespas... e da displicência dos cientistas franceses...
- Tens a certeza que o Ferreira Fernandes não escreveu mesmo nada?, nem sequer coisa insinuada?
- Nada, internacionalizou-te a metáfora e com algum sentido! Acho até que lhe devias estar agradecido...
- Agradecido?, se ao menos ele denunciasse a metamorfose que por aí tem andado e que agora requer ainda maior cuidado... 
- Metamorfose? Estás a falar de quê?
- Das "abelhespas", abelhas que deixaram de o ser sem que sejam vespas. Falam como se fossem abelhas mas procedem como as vespas!
- E são vorazes?
- Sim, também, mas disfarçam bem... 
- Ah!
(saem do palco, conversando, sem que se oiça o que dizem)
Parte V (16.Fev.2018)

O favo era amplo, largo. No centro uma mesa igual a tantas existentes no ninho-colmeia, que também pode ser considerado vespeiro. Pousados frente a frente dois abelhespas sorriam-se reciprocamente perante o ar neutro de um outro indistinto insecto. Pareciam ambos pacíficos até deixarem de o ser e a cada um o sorriso desaparecer. Sobre os golpes desferidos não importa a descrição sendo certo e sabido que um vai ser comido.
Começou a voragem dos abelhespas por eles próprios.
Cá fora, ouvem-se comentários das abelhas: "Que se devorem uns aos outros. Será a salvação da colmeia."

CAI O PANO

29 julho, 2018

Um conto ao Domingo - XIX ("Boa Malha!")


«"Boa malha", alguém gritava. Era o chinquilho,
e eu ficava tempos sem fim a olhar aquilo...»
num qualquer passado domingo, corria o ano de 1955 

Era do outro lado da estrada, à porta da velha taberna, num terreiro onde parava a rara camioneta de carreira que ligava o Montijo ao Barreiro. Da quintinha até lá eram cem passos apressados e mal contados. Era ali que aos domingos se juntavam os homens. Miúdos não havia, era só eu. 

Minha avó deixava-me ir, contrafeita "não te quero ali, aquela gente não tem tino na língua e só sabem dizer destarelos". 

Mas eu insistia e ia. Era mágico o silêncio dos homens, a concentração no apontar. Ia e ficava por lá até que a última rodada fosse paga por quem não tivesse ouvido uma única vez o grito de "boa malha". 

Tino na língua, não tinham. Quanto a dizerem "destarelos", não sabia se os diziam, mas não parecia que os dissessem. Falavam das duras condições de trabalho lá na fábrica de adubos do Barreiro, em confronto com as condições, mais amenas, que havia na Mundet a corticeira ali perto, à saída da Moita. Falavam do salário magro. Falavam do pão que fazia parte da semanada. Falavam de coisas do Estado e da volta que se esperava que este levasse. Falavam de Nehru, de vozes que chegavam da Índia de onde alguém dizia que, chegada a Damão, ter sentido o morrer de um povo e da muito provável invasão de Goa*. Fiquei surpreendido, na escola tinha "dado" a Índia hà pouco e o professor não tinha mostrado nenhum indício disso.

E entre um assunto e outro, se ia ouvindo "boa malha". Acho que aqueles homens não reuniam ali para jogar. Nem para beber. Acho que eles ficavam por ali para se sentirem irmanados naquilo que os irmanava, para falar do que então se silenciava. 

O jogo era mero pretexto e de cada vez que lhes ouvia coisa acertada, gritava para dentro de mim mesmo, como se falasse com A Minha Alma, sem que ouvissem nada: "boa malha!" 

* Na versão deste texto, publicada em 2013, referia a invasão de Goa. Estava errado. Eu nessa tarde de domingo, assistindo ao chinquilho, teria para aí... sei lá... 10, 11 anos? Goa caiu em 1961 e nessa data eu já era adolescente...  recupero esta versão, primeiro, porque me ficou na memória de ter ouvido pela primeira vez coisas de que ninguém falava, segundo, porque quero respeitar o rigor que se deve à história.

22 julho, 2018

Um conto ao Domingo - XVIII ("A Pipoca-2")

Passou o outro domingo como tinha passado o sábado. Não comeu, nem bebeu, nem miou. Não se ouviu um único ron-ron. De quando em quando, roçava as pernas da Teresa, como que a dizer-lhe que não era por culpa dela tal comportamento.
"Deixa, ela acaba por se habituar", disse, pouco convicto disso.

Na segunda-feira seguinte repetiu-se  tudo como nos dois dias anteriores com uma diferença, lançava-me a mim um olhar recriminatório, como a dizer que não podia morar dentro do meu olhar.

Tomámos então a decisão de devolver a Pipoca ao seu espaço. Aí voltou ao normal.

Passada a semana, hoje a Teresa confirmou que, se é verdade que ela não pode morar no meu olhar, não é menos verdade "Que não se pode morar nos olhos de um gato":
Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Alexande O'Neill
EPÍLOGO
A Teresa liga aliviada à minha-mais-nova a dar notícia: "Já ontem tomou os dois comprimidos, só o da noite é que deixou um bocado, mas hoje foi tudo. Talvez o comprimido da noite tenha um sabor muito activo... Ela gosta mais de frango do que de atum. E nem queiras saber a festa que me fez à chegada. Não me largava..."