13 julho, 2024
QUE GRANDE 31! TENHO MESMO QUE REGRESSAR À ESCRITA!
24 setembro, 2023
UM CONTO AO DOMINGO - I ( o meu Vale Escuro)
Nasci no Vale Escuro
Brinquei entre latas
Pulei o alão
Andei à pedrada
Escorreguei no muro
Caí no jará
Ganhei no pião.
A jogar à bola
Perdi a sacola
Mais o que trazia
A fugir ao guarda
Que nos perseguia.
Mas que bem sabia
Faltarmos à escola!
17 setembro, 2023
UM CONTO AO DOMINGO - XXV (A Gata)
A Gata, estava assim, repousando deitada à minha porta de entrada, certa que acordaria à minha chegada. Embevecido com aquele quase-carinho perguntei-lhe, como era domingo, se queria que lhe contasse um continho. O miau dado pareceu-me ser um estar de acordo e, assim, passei ao conto:
"Era uma vez um gato. O gato chamava-se Gato, não por falta de imaginação ou falta de madrinhas (o Gato foi, além do "dono da casa", o primeiro macho da família). O gato chamava-se Gato porque alguém, ninguém se lembra quem, o chamara "anda cá, gato" e o Gato, de pronto, respondeu com um "miau" ternurento ao chamamento.
Lembram-se do Gato não pelas cortinas caídas, reposteiros arranhados, ou jarras partidas em resultado daquele seu exercício de se passear, lento e dengoso, sobre as prateleiras do móvel da sala onde se expunha (e até hoje continua exposto) um autêntico acervo da memória que o "dono da casa" fazia (e faz) questão em olhar diariamente. Lembram-se do Gato porque ele era a referência da sua própria humanidade: "Se a inteligência tivesse escala, bem podíamos ser mais humanos..." Lembram-se do Gato, pela sua habilidade em lidar com aquilo que julgava (sim ele tinha esse juízo) ser o temperamento daquela família e de cada um, isoladamente. Com a diplomacia, doçura e afectividade à medida.Entre o "dono da casa" e o Gato havia um pacto: ele sancionava a liberdade ao Gato de ocupar todos os espaços, o Gato retribuía-lhe não ocupando o espaço que entendia ser cativo do "dono da casa". A liberdade usava-a repartindo todos os regaços e colos, mas na hora do sono ia ter com a dona para aos seus pés dormir, na hora do comer era à dona que ia pedir. Ás vezes miava, mas a comunicação preferida era a de uma agitação contida.O Gato era um exibicionista, um verdadeiro artista. Bastava que a família estivesse reunida e sem lhe prestar atenção, ele não perdoava a distração e lá vinha aquela correria doida e o salto felino, trepando a parede ao fundo. Ele não se inibia de públicos gestos obscenos com a inesperada namorada, um peluche já com bastante uso, animal indistinto que todos jurariam ser um urso e que o "dono da casa" trouxera de Hannover, como prenda em retribuição de uma ausência...Um dia, na janela soalheira que escolhera para seu pouso de todas as manhãs, aconteceu. Um pombo atrevido sobrevoou-lhe o sono e o Gato, num gesto mal reflectido de resposta à provocação, quis ripostar e lá foi... pelo ar. A queda, todos a supunham mortal. O "dono da casa" desceu a escada, três lances em corrida, degraus saltados a quatro e quatro na ânsia de acudir ao Gato. Já na rua, agarrou-o a custo pois o Gato declarava o susto com as garras e com o desespero. O "dono", mesmo arranhado, ia conferindo se estavam todas as sete vidas. Estavam.Nessa noite, o Gato dormitou um pouco no colo do seu salvador, até adormecer, como costumava fazer, ao colo da Maria João. Da segunda vez que caiu daquele terceiro andar, nada há que contar: a experiência fez com que tudo parecesse normal.EpílogoPerto de um ano depois da João ter saído de casa para ocupar o pequeno apartamento da Cruz Quebrada, ligou chorosa. O Gato desaparecera. O Gato desaparecera sem deixar rasto em todos os lugares onde o procurara, em todas as portas em que batera. O "dono da casa" esboçou um sorriso triste e pensou "A densa mata do Vale do Jamor é um apelo a qualquer felino, que se danem os ratos e que se satisfaça o Gato com verdadeiras fêmeas, mais atraentes que um usado peluche..."Mesmo na incerteza desse destino, dava-lhe descanso pensar que fora esse o que tinha tido..."
25 setembro, 2022
A LUA DE MEL DO GAFANHOTO MAROTO
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| Imagem criada por Sílvia Mota Lopes |
“A LUA DE MEL DO GAFANHOTO MAROTO”
Estava o avô do menino, fazendo o que tantas vezes fazia, contando, desta vez não um conto, mas sim um acontecimento há muito, muito tempo, ocorrido e que o deixara muito, muito aflito. A ele e a milhares de agricultores desde o Algarve até à cidade à beira Tejo, que se chama Barreiro.
Contou, que uma praga imensa de gafanhotos, devastou muitas plantações, sobretudo searas de trigo, centeio e milho. Os insetos de todas as cores e tamanhos, não o faziam por maldade, mas por uma fome medonha. Não tinha sido uma presença demorada. Numa só manhã, “enquanto o diabo esfrega o olho” quase toda a sementeira foradevorada. Foi preciso muito esforço e tempo para repor tudo como agora estava.
“Avô, só vi gafanhotos em livro, nunca vi nenhum vivo... anda ainda algum por aí?
“Sim, um ou outro... ali para os lados do pomar até deixei um canteiro com comidinha escolhida para seu alimento... e acontece uma coisa engraçada um gafanhoto, muito maroto e traquina namora uma “gafanhota” que, ao que parece é bonitinha. Para onde um salta, salta o outro. Para onde o gafanhoto voa, voa a “gafanhota” atrás...
“Será que se eu for lá, os vou encontrar”?
O avô alimentou-lhe a esperança de ir ver quem nunca tinha visto ao vivo. O menino lá foi andando e pulando, pulando e andando em direção ao pomar, entrando pelo lado do laranjal. Mal tinha dado dois passos, pimba, um objeto bateu-lhe no rosto e ficou-lhe colado à face. Tentou tirá-lo e conseguiu isso sem grande custo, mas doeu-lhe um pouco. Olhando a mão, percebeu que era o gafanhoto que tinha acabado de agarrar e que a bochecha lhe ficara a sangrar. Zangado, mas sem pensar em fazer-lhe mal, ouviu o gafanhoto, com voz trapalhona pedir-lhe desculpa, que fora sem querer, um erro de salto mal avaliado, que elenão fazia mal nem a uma mosca...
Logo de seguida, ouviu-se a voz da joaninha: é verdade, ele até me salvou quando fiquei presa numa teia de aranha. E o louva-a-deus, dizendo que ele ajuda toda a comunidade. De seguida deu testemunho a borboleta contando que, quando um acidente lhe tinha quebrado umaasa, o gafanhoto a transportava levando-a até onde precisasse ir até a asa se curar. A abelha, que ia ouvindo tudo, lembrou como ele mobilizou a colmeia para fazer fugir um camaleão. A libelinha que ia passando, deu conta de como o gafanhoto a convenceu a regressar ao lago e deixar de comer os insetos daquela comunidade.
O menino, ouvindo tudo isto, largou o gafanhoto que de pronto se foi juntar à sua namorada que assistindo à cena, ficou ainda mais apaixonada e lhe disse baixinho para que nenhum inseto ouvisse: vamos fazer uma lua de mel e depois acasalar?
O gafanhoto deu o braço à namorada e saíram dali, cantando uma canção muito querida mas só pelos dois ouvida...
Depois de tudo isto, cada um dos outros ficou onde estava e o menino regressou a casa onde contou tudo ao avô, depois da avó lhe tratar da cara que ficara levemente arranhada.
O avô, pediu para que ele se sentasse ali, junto a ele. Começou por dizer que ele assistira a um belo momento, depois fez um prolongado silêncio como que a tomar coragem para o que ia dizer a seguir. Começou com uma breve pergunta: “sabes quanto de vida têm esses simpáticos insetos?” e depois, sem esperar pela resposta, assegura, “No máximo 16 semanas, vê lá...”
Com a resposta na ponta da língua, comentou o menino “Quem determina isso é o destino. Se tiveram vida curta, de uma coisa me fica sem dúvida: foram respeitados e felizes”
O avô sorriu e abraçando-o foi dizendo:
"Dure a vida o tempo que durar o que é importante é espalhar o bem e saber amar".
Quando ia a sair, voltou atrás para perguntar “Porque lhe chamavam gafanhoto maroto?”
O avô respondeu sorrindo “Porque fazia tudo, mesmo o muito sério, com um sorriso de gozo!”
Rogério Pereira
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Este conto é a resposta a um desafio proposto pela Teresa (Ematejoca) e conta com o apoio da Lídia Borges (revisão do texto) e a bela arte da Sílvia Mota Lopes
18 setembro, 2022
A VISITA INESPERADA DA NINFA
Estava eu naquele descanso, só activo no juízo, quando pousa no meu antebraço, junto ao cotovelo, um pequeno insecto. Atrevido, o bichinho, percorre-me o membro e a mão e chega-me à ponta do dedo.
"Eu sou a ninfa mais nova, filha do casal que referes na sinopse do teu conto, e tenho toda a comunidade de insectos, que meu pai uniu, à espera da tua história. Quando estiver pronto, dás três pancadas fortes naquela árvore e todas as ninfas, gafanhotos, joaninhas e abelhas, virão aqui ouvir o conto de tu mesmo terás que contar"
Deixei promessa de o fazer...
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A foto acima foi-me enviada pela Psicóloga Drª Marta Camilo, a quem prometi o meu livro. O conto em breve será publicado.
11 setembro, 2022
"A LUA DE MEL DE UM GAFANHOTO" - sinopse antecipada
"Tu que sabes escrever contos infantis como ninguém, Rogério, escreves “A lua de mel de um gafanhoto”. Em contra partida, eu traduzo o teu livro“CONTOS PARA SEREM CONTADOS” para a língua da menina que detesta livros 📚"
Tendo aceite o desafio da Teresa Palmira Hoffbauer, antecipo a sinopse. A imagem acima é provisória. Quando o conto vier a ser publicado, seguirá arte final com a qualidade habitual com que os meus contos são ilustrados.
SINOPSE
A historia conta o que se passou com uma pequena comunidade de gafanhotos, deixada depois de uma imensa praga ter invadido uma quinta minha muito querida. Entra em detalhes sobre o comportamento de um gafanhoto maroto e do seu namoro com uma gafanhota bonitona, da sua relação com a libelinha, com o louva-a-deus, com a joaninha e com a borboleta, perante gula contida de um camaleão tolerante e com apetite contido perante tanto insecto apetitoso.
Falará do casamento, da curta lua de mel e da filharada deixada e do desfecho, onde alinho uma moral resignada com os ditames da mãe natureza, que assim reza: "Dure a vida o tempo que durar o que é importante é espalhar o bem e saber amar"
O conto segue dentro de momentos...
22 novembro, 2021
A "FLAUTA" EM VERSÃO DIGITAL! QUE TAL?
Trago, mais uma vez, este conto meu, dos primeiros a serem contados (2012). Está mais que repetido e publicado, um tanto por todo o lado.
Porque é que eu o repito? Primeiro, pela actualidade:
«...pois essa cidade foi invadida por ratos pequenos mas que se transformaram, com o tempo, em ratos cada vez maiores. Ratos enormes e gordos. Enormes e maus, que tudo roíam e destruíam, espalhando o terror e pondo os habitantes da pacata cidade fechados em casa, sem saírem dela. Os ratos tomaram conta da cidade e só faziam e espalhavam maldade. O governo e os senhores que faziam leis e tomavam conta da ordem na cidade, deixaram de o poder fazer.»
Segundo, porque ontem passou despercebido.
Depois, porque nunca foi ouvido, assim dito:
06 junho, 2021
Um conto ao Domingo - XXV (A atenção que me devota a Gaivota-Mais-Nova)
Era um fim de tarde, ameno, suave. Um restolhar de asas, bem agitado a procurar equilíbrio no estreito parapeito da janela, deu para perceber que era ela. Nem precisou de grasnar para fazer chamamento. Dirigi-me a ela, puxei um banco e sentei-me junto da janela, certo que haveria prolongada conversa.
"Como estás?" inquiriu com aquele tom de voz que usam as gaivotas quando alguma coisa as preocupa na relação com os humanos. Respondi-lhe que ia andando e que me lembrado dos seus conselhos os tinha seguido e até superado.
"Ora conta lá!" pediu a Gaivota-Mais-Nova. E eu lá fui contando:
«Tal como aconselhaste, logo, logo, não parei tudo e já retomei o que largara. Das responsabilidades tidas, deleguei algumas e recentemente assumi mais. Das causas, dei aviso que mantinha a chama acesa e não só fiz que tal parecesse como fiz prova, abraçando novas causas e lutas. Comecei por fazer uma ou outra reunião, agora não falto a nenhuma. Passei a frequentar os lugares que frequentava mas passei a fazê-lo com maior regularidade. Quanto aos amigos, não lhes dei tempo para sentir estranheza pela minha ausência. Ah, e nunca apregoei o tanto que me dói a alma a sua partida, pois eu sei (e to o lembraste) o que é inspirar pena e dó!»
A gaivota fez um silêncio prolongado e depois, partindo, deixou-me este dito:
«Vou me juntar ao bando. Preciso dizer-lhes que há pelo menos um homem que, como nós, sabe voar»
09 agosto, 2020
Um conto ao Domingo - XXIV (Os conselhos da Gaivota-Mais-Nova)
Nem foi preciso receber um "olá" grasnado, naquele tom já familiar a que me tinha habituado. Bastou-lhe um bater de asas, bem agitado, como se fosse chamamento. Dirigi-me à janela e ia a perguntar o porquê da visita quando ela, com um grasnar sussurrado, me pediu que ficasse em silêncio e que escutasse o que ela tinha para dizer. E foi assim dizendo:
«Eu e minha mãe-gaivota sabemos de tudo. Sabemos da imposta ausência, sabemos de tua ansiedade, sabemos de como te afastaste de todos as responsabilidades, de todas as causas em que te empenhavas, de todas as reuniões que lideravas, de todos os sítios aonde ias. Sabemos que deixaste de, neste espaço, ir comentar o que tantos dos teus amigos iam escrevendo...»
Parou um pouco, como para retomar o fôlego, e continuou:
«Não pares tudo. Das responsabilidades tidas, delega algumas. Das causas, dá aviso que mantens a chama acesa e faz parecer que tal pareça. Faz uma ou outra reunião e frequenta os lugares que frequentavas. Quanto aos amigos, pensa a estranheza que lhes provoca tão prolongada ausência. Não precisas apregoar o que te magoa a alma, pois eu sei o que é inspirar pena e dó! »
Depois elevando o grasnar, em tom bem alto, deixou conselho, citando alguém bem conhecido.
«O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário»
E assim sentenciando partiu, voando...
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Claro que isto não aconteceu.
Quanto aos conselhos, esses sim, foi a minha mai-nova quem mos deu
26 julho, 2020
Um conto ao Domingo - XXIII (A Machadinha)
Ele não era agrário proprietário, apenas rendeiro. A herdade, tendo de tudo um pouco, tinha na boa qualidade da vinha o provento do qual pagava a renda e do qual lhe sobrava algum dinheiro. Vinho de talha era raro e a qualidade produzida era afamada.Face à notícia do noivado da filha promoveu o rendeiro a um evento para festejar tão feliz acontecimento. A reduzida família tinha, assim, já assegurada a descendência e resolveu partilhar a felicidade, com toda a gente convidando meio-mundo para um bem regado banquete.A mesa queria-se grande, e os talheres quase não chegavam para tanta gente. O lugar escolhido, pois que aquele Julho ia bem quente, foi a adega onde a frescura associada ao leve odor a mosto, afigurou-se o lugar certo.Enquanto a mulher ia pondo a mesa e cuidando do assado ele procurou o jarro e foi enche-lo na talha onde guardava a melhor safra. Abriu a torneira com cuidado e, em pequeno caudal para não agitar o pé do fundo, deixou o vinho correndo em pequeno esguicho.Pegou num pequeno púcaro de barro e tirou um pouco para dar um trago. Ao soltar um estalo, olhou o tecto e deu por uma coisa de que nunca antes se dera conta: pendurada, uma velha machadinha já bem enferrujada e de cabo carunchoso baloiçava levemente, quando lhe dava o vento.Ele olhava e ia pensando na filha que ia casar, que iria ter uma criança e no perigo que seria a criança escolher aquele lugar para ir para ali brincar, pois mais dia menos dia a machadinha cairia e se a machadinha caísse nesse dia, seria um desfecho trágico, a morte, certamente. Enquanto tinha tal pensamento, o vinho ia correndo.Chegado ao pé um convidado e ele contava o perigo que tinha adivinhado. Contava, apontava a machadinha, e o vinho corria.Um e outro, após outro e outro, se achegavam e era já meia-aldeia comentando o risco descoberto, e o vinho ia correndo.Até que alguém terá gritado, mas já a talha jazia vazia...No mês seguinte o agrário deu ordem de despejo ao rendeiro por incumprimento do contrato de arrendamento, pois fora-se toda a safra e com ela o meio de pagamento!
27 outubro, 2019
A Gaivota, do conto contado à realidade...
*Na Bolívia já aconteceu, agora falta saber o que se espera acontecer
23 dezembro, 2018
Um conto ao Domingo - XXII ("NATAL 1972")
NATAL 1972Estávamos em finais de novembro ou princípios de dezembro de 1972, quando fomos encarregados de realizar uma operação que tinha por finalidade a destruição de lavras que existiam na área do Catoca, na zona de ação da companhia do Mucondo, e que pertenciam à população civil (considerada) afeta à UPA/FNLA. (...) O comandante da operação iria ser o Arrifana.A execução da destruição das lavras iria estar a cargo de dois grupos de bailundos, que se encontravam às ordens do Exército em Santa Eulália e no Mucondo. A tropa de Zemba levaria consigo os bailundos de Santa Eulália e a tropa do Mucondo levaria os do próprio Mucondo. A nossa função, como militares, iria ser enquadrar e garantir a segurança aos bailundos, enquanto estes destruiriam as culturas agrícolas, munidos de catanas.Habitualmente, antes da partida para uma qualquer operação, os oficiais que nela participassem costumavam reunir-se para acertar os pormenores sobre a sua execução. Neste caso, os três alferes destacados, Arrifana, Osman e eu, também fizemos uma reunião no Mucondo antes de partirmos para a operação. Logo a abrir, disse o Arrifana:— Nós não vamos destruir lavras nenhumas. É um crime e eu não quero ser criminoso. Há crianças, há doentes, há mulheres, há muitas pessoas inocentes que não têm culpa de viver numa região em guerra. Nós não temos o direito de causar sofrimento a essas pessoas, obrigando-as a passar fome. Isto é coisa que repugna à minha consciência. Já basta o que sofrem com a própria guerra.O Osman e eu manifestamos imediatamente o nosso total acordo. Uma coisa era combater homens armados, outra coisa muito diferente era fazer mal de propósito a civis indefesos. Discutimos então o que é que iríamos fazer, em vez de destruir as lavras.
16 dezembro, 2018
Contos de Natal - V ("mãe, ó mãe!")
«54 – O capitão Só Alma. – Reparo que mal falei de oficiais e praticamente nenhuma palavra sobre o capitão. Este era miliciano, pois os de carreira não chegavam para satisfazer todas as necessidades da guerra. Chamava-se Só Alma pois não consta que o seu «eu» fosse como os demais e o «seu contrário» rara-mente o aconselhava a fazer coisas de reconhecido valor. Por dever, todos lhe obedeciam. O capitão Só Alma até podia ter uma boa alma, mas ninguém tinha essa certeza, pois as suas decisões eram quase sempre contrárias às necessidades percepcionadas. Ali, no meio do mato e cercados por capim e arame farpado, mantinha formaturas por tudo e por nada, o içar da bandeira tinha as honras desproporcionadas naquelas paragens, exigia aprumo no fardar e chegou até a dar reprimendas por não ser militarmente saudado por um distraído soldado. A alma do capitão estava ao serviço da Nação e toda ela assumia esse estar até limites ridículos de comportamento. Até se poderia justificar algum zelo para manter o estado de alerta e a defesa daquela posição desperta para eventuais impensáveis. Na verdade, está-vamos ali por causa da guerra. Mas também era verdade que o medo fazia parte desse ali estar e mostrava-se suficiente para a necessária vigilância. O medo sempre foi o maior aliado de qualquer soldado. Naquele dia, véspera do primeiro Natal em terras de Angola, o capitão Só Alma surpreendeu. Não compareceu a todas as formaturas, nem ao içar da bandeira, nem almoçou na messe de oficiais com os demais. Foi o cabo cantineiro, a mando do oficial de dia, saber o que se passava e veio com o recado:«O nosso capitão está bem e disse que já cá vem.» E veio.Trazia na mão uma carta, pediu para que todos se reunissem na parada e assim aconteceu. Firme, sentido, eram a voz de comando seguida de calcanhares batendo. O capitão Só Alma aproximou a carta à altura de ser lida. Esteve longos segundos com a carta nessa posição. Depois deixou lentamente o braço descair e desistiu de a ler, se é que tinha intenção de o fazer. Com uma voz que ninguém lhe ouvira antes, disse:«Hoje, por ser a noite da consoada, temos rancho melhorado, vinho à descrição e mais uma refeição à meia-noite. Há bacalhau e couves e a luz só se desliga depois do menino nascer.» De seguida deu ordem de destroçar.Minha Alma até poderia ter comentado mas seguiu o estar do Meu Contrário que ficou calado. Assim também ficaram todos e foi em silêncio que dispersaram, sem achar excessiva ou despropositada a cena. Talvez porque todos tínhamos recebido uma carta e sentido ganas de a ler em voz alta…55 – «…mãe, ó mãe…» – A ceia foi como o capitão Só Alma disse que iria ser, e foi prolongada com os mimos que quase todos receberam de casa, no último correio chegado de Maquela: Broas; duros bolos-reis; passas e até alguns sonhos e rabanadas, retardadas por alguns dias de viagem. Tudo era partilhado. O vinho não chegou em quantidade e não chegaria nunca para a avidez de todos. As securas de alma não se amenizam assim, de pé para a mão. As conversas animaram-se até tarde. Já passava muito da
meia-noite e a luz se apagara, quando voz aflita veio interromper o meu uísque com bala dentro, travestida de gelo (hábito que entretanto regressou). Veio dizer-me que o soldado Alma do Oriente estava mal e sem acordo de si. O Alma do Oriente era um soldado de ascendência goesa, magro, baixo e de olhos muito negros e humildes como os seus gestos e trato. A sua religião não lhe permitia o álcool e ninguém o tratava por «monhé», tal o respeito que lhe tinham. Estava de lado, deitado, de camisa e calças desapertadas. Hirto, sem arfar, parecia em coma. Pedi que arranjassem amoníaco para lhe dar a inalar, mas apenas consegui aguarrás. Demos a beber café bem adoçado e por ali fiquei a seu lado. Passadas horas, duas talvez, ouviu-se-lhe um som de lamúria ininteligível. Segundos depois um «ó mãe» e nova pausa para depois outro «mãe» e «ó mãe». Não sei quantos «ó mães» ouvi mais, tantos foram esses ais. Todos suspirámos de alívio. Minha Alma, sorri¬dente dizia com a já conhecida ironia:«Rogério, esse é Jesus renascido e meu nome é Maria.»
Rogério Pereira, in "Almas Que Não Foram Fardadas"Edição EMACO, Dezembro de 2011
12 agosto, 2018
Um conto ao Domingo - XXI ("UMA NOVA HUMANIDADE")
Lavou-se, barbeou-se e, como sempre, encaminhou-se para a cozinha onde preparou o frugal pequeno-almoço. Bebeu a caneca de leite olhando através da janela. Deu um primeiro olhar em volta e depois um outro, detendo-se em todos os pormenores do que se avistava dela: a praceta, os logradouros, o carro do vizinho da frente que saía, a rua transversal onde o trânsito ainda era raro.
Fixou-se nos pombos que sempre por ali esvoaçavam e depois no Tejo, ao fundo. Encheu os pulmões do ar fresco da manhã. Ia estar um maravilhoso dia de fins de Junho, pensou. Bebeu o resto do leite e foi-se vestir.
A mãe, que se cruzou com ele no corredor, deu-lhe o sorriso matinal, “tão cedo?”, comentou como quem cumprimenta. Respondeu com uma piada a que ele próprio achou graça e sorriu, por dois motivos, pela própria graça dita e como resposta ao cumprimento. Poucos minutos depois saía.
No caminho cruzou-se com o vizinho, que vivia no terceiro andar do prédio ao lado do seu. Cumprimentou-o sorridente com “bom dia, passou bem” que nunca antes acontecera, em tantos anos de vizinhança indiferente. Mal pronunciou um “Bom dia, tudo bem?” e continuou o caminho com destino à esplanada, onde contava ler o jornal e planear como preencher o dia.
Ao passar junto ao logradouro, o da palmeira grande, no canteiro que lhe desenhava o limite com o empedrado, deu-se conta daquilo que, se antes existia, lhe passara totalmente despercebido. As plantas, não muitas, mas todas as que havia e que rodeavam os agapantos roxos e brancos, apresentavam hastes novas e viçosas. Hastes novas, viçosas e de cores diferenciadas das hastes velhas ou se não velhas, das que já existiam antes destas e que pareciam ser rebentos novos. Novos e estranhamente mais belos. Pareciam enxertos a partir dos quais a planta primitiva deixaria ser o que até ali tinha sido. Calhando a natureza era assim que procedia sempre que qualquer planta crescia. Ele é que estaria diferente e hoje, por qualquer inexplicável razão, é que de tal se dera conta. Curvou-se e estendendo a mão, partiu uma das hastes novas. A seiva projetou-se como se dentro dela uma força inusitada a expelisse em jorro. Estranhou, sem ter a certeza de ter razão em estranhar.
Entrou no centro comercial e comprou o jornal. Desceu ao piso de baixo, onde ficava a cafetaria e no balcão, fez o cumprimento habitual e o habitual pedido: “Pago dois e levo um”. A empregada, mil vezes o ouvira pedir assim o seu primeiro café, antecipando o pagamento de outro que beberia cerca de uma hora depois, mas comentava sempre aquilo que considerava ser um pedido com espírito engraçado. Saiu com a chávena na mão. A saída naquele piso dava acesso a uma pequena esplanada. Pousou o café e o jornal e sentou-se no seu canto. Antes mesmo de passar os olhos pelos títulos do dia, tomou a decisão de passar à procura mais ativa de emprego. Desacreditara que o envio do curriculum poderia dar qualquer resultado prático. Nem bebeu o costumado segundo café, que ficara pago, fez-se à vida. Tudo indicava que aquele dia ia ser diferente, e foi com essa certeza que dali partiu
Alisou o cabelo com ambas as mãos. Tinha o consolo daquele inexplicável bem-estar interior e quis colocar na apresentação alguns retoques para que o seu parecer estivesse ao nível do seu sentir. Ensaiou algumas palavras de circunstância e que seriam de manifestar compreensão. Rejeitou liminarmente a ideia, que chegou a passar-lhe pela mente, de se insurgir contra a atual situação. De resto não saberia exatamente que palavras usar nesse cenário de reação.
“Desde ontem que estão a chegar, por via diplomática e com classificação de reservado, relatórios que têm origem em vários centros da comunidade científica.”
Estendeu-lhe uma pasta “Tem tudo aí, leia e prepare-se para uma reunião que está a ser coordenada pelo Porto, mas que se vai realizar aqui com gente de todo o lado. A ministra da tutela já está inteirada e virá assistir ao final da reunião para participar nas conclusões. Os diretores das diferentes instituições e centros estão já a trabalhar sobre esta mesma informação” à medida que o professor ia falando as feições iam-se descontraindo como se aquela simples transmissão lhe aliviasse a tensão provocada pelo segredo que estava a ser partilhado.
O mesmo se passava com ela que, à medida que o ia ouvindo, se iam dissipando os receios para no lugar deles se instalar a curiosidade e a perceção de estar perante questão de grande gravidade: “E de que se trata, professor?”, “Todos esses documentos, oriundos das mais diversas partes do mundo, referem baixas impressionantes na salinidade da água do mar. Há dados, como os do golfo de Omã, onde a água é praticamente a de um rio… e nem uma única espécie marinha a ser atingida a ponto de essa alteração lhe causar a morte. Há no meio dessa papelada relatórios de especialistas de biologia genética e biologistas moleculares que dão conta de mudanças inexplicáveis em todas as espécies analisadas. Por enquanto apenas foram detetadas modificações morfológicas visíveis em dois pontos muito distantes, um no Chile outro na África do Sul… a comunidade piscatória desses países ainda não reagiu e a imprensa até há duas horas atrás não sabia de nada.”
Interrompeu e olhou o relógio para depois propor “Vá doutora, já passa um pouco das 11, se achar bem mandamos vir alguma coisa para comer e ficamos por aqui. Acha que 2 horas lhe bastam para ler tudo isso e falarmos de seguida? “ A resposta foi um sorriso, ambos sabiam bem quanto gostavam, uma e outro, trabalhar sob pressão…
Para onde foram prolongaram a noite, trocando gestos de afetos, alongando beijos e caricias até os corpos se darem uma e outra vez, sob o olhar conivente das flores cujas pétalas se ruborizavam contrastando com as cores daquele leito de erva refrescada pela brisa da noite e pelo humos de uma terra que se agitava, ela também, sob a volúpia dos amantes. Amaram-se como se fosse a sua primeira noite.
Em anexo, informava estarem em curso investigações aturadas sobre a composição da estranha erva rasteira, semelhante a beldroegas, e que começara há cerca de dois meses a aparecer em certas zonas de diferentes desertos, dos existentes em todos os continentes. Os primeiros testes, uns conduzidos por cientistas, outros resultantes da observação posterior às consequências de comportamentos incontrolados de animais e populações locais que ingeriam aquela estranha erva, apontavam para a quase certa possibilidade de, sem qualquer risco, poder ser comestível sem qualquer efeito de toxicidade ou outro, adverso. Parecia, e cada nova descoberta confirmava o que parecia, que um ser sobrenatural corrigia a natureza. Dando-lhe um odor, um dispor e novos equilíbrios no mundo. Em poucos meses a água deixou de ser um bem escasso, o ar passou a revitalizar os organismos e a alimentar sem reservas todos os seres vivos, passou a haver sustento onde a mingua há muito se instalara.
Para desviar a atenção desses pensamentos esforçou-se por recordar os impactos dos últimos acontecimentos e a desordem que ia pelo mundo: o colapso do sistema financeiro, a suspensão de toda a atividade bolsista em todas as praças e as primeiras reações dos governos dos países ricos, céleres a imputar a responsabilidade de alterações tão profundas a nível planetário associando-as a atos terroristas e ao pretenso uso de armas químicas. Lembrou como tais explicações se voltaram contra os países que as deram, pois o mundo assim se encaminhava para ser perfeito.
Suspendeu os pensamentos para fixar a atenção numa reportagem: grandes nomes de reputados políticos, grandes empresários, banqueiros e titulares de grandes fortunas, mais de cem personalidades conhecidas por pertencerem ao Clube Bilderberg, permaneciam reunidos pelo quinto dia consecutivo. Os donos do mundo não sabiam que fazer dele.
Estava acordado com todas as autoridades, que nada passaria para o exterior. Até a conferência de imprensa da equipa médica não estava confirmada. Dentro do hospital universitário, na ala que tinha sido a escolhida para o esperado parto, tudo parecia seguir um guião pré-estabelecido dada a certeza e calma com que os preparativos decorriam. Não fossem as quatro câmaras de filmar e os múltiplos cabos espalhados e tudo estaria como costumava estar uma sala de partos. Nos dois anfiteatros, situados no piso inferior, repletos de médicos e outros especialistas, conversava-se em várias línguas, como se sussurrassem orações a um deus que todos consideravam ter reconhecido que se enganara ao ter produzido o primitivo universo. Outros, poucos, davam-lhe o protagonismo dos milagres ocorridos, depois de terem inicialmente apontado que o que estava a acontecer ao mundo era obra do diabo. Sustentaram essa ideia até se perceber que as profundas e radicais mutações vinham em auxílio da humanidade e de novos equilíbrios no mundo.
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05 agosto, 2018
Um conto ao Domingo - XX ("Construíndo a visão")
- Olhe ela voltou!, mas pousou neste outro lado... vai esperar que ela vá embora e voltar a trabalhar no arame?
- E de observação! Há um vespeiro reunido e muitos ainda julgam tratar-se de uma colmeia!!!
Parte III (18.Jan.2013)
Os Zzzz´s próprios dos vespeiros eram inteiros e os olhares dos vespas
se perdiam pela ornamentação dourada da bela sala, olhando as abóbadas
do tecto, como que a inquirir a resposta: "e como fazer, sem que as abelhas acordem e se revoltem?" Do lado direito, da fila primeira, logo da primeira cadeira, se levantou um vespa. Levava na mão uma pen que
inseriu para mostrar um vídeo para ilustrar a palestra. Elevando a voz
para que fosse ouvido de modo entendido, disse antes das imagens
passarem: "Evitemos esta imagem voraz. Evitemos mostrar o que não deve ser mostrado, como hoje soubemos não deixar escutar o que foi dito. Alimente-mo-nos das abelhas de forma menos evasiva, mais...persuasiva. Não esqueçam que temos a vantagem de sermos confundidos e tomados por salvadores e amigos... de estar a cumprir um desígnio... de este sacrifício ser um imperativo e desse imperativo ter um único sentido: o do extermínio!"
Começou a voragem dos abelhespas por eles próprios.
Cá fora, ouvem-se comentários das abelhas: "Que se devorem uns aos outros. Será a salvação da colmeia."
29 julho, 2018
Um conto ao Domingo - XIX ("Boa Malha!")
num qualquer passado domingo, corria o ano de 1955
22 julho, 2018
Um conto ao Domingo - XVIII ("A Pipoca-2")
Passada a semana, hoje a Teresa confirmou que, se é verdade que ela não pode morar no meu olhar, não é menos verdade "Que não se pode morar nos olhos de um gato":
Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato
Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato
Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato
Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato
Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato
Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato
Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato
Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato
Alexande O'Neill
A Teresa liga aliviada à minha-mais-nova a dar notícia: "Já ontem tomou os dois comprimidos, só o da noite é que deixou um bocado, mas hoje foi tudo. Talvez o comprimido da noite tenha um sabor muito activo... Ela gosta mais de frango do que de atum. E nem queiras saber a festa que me fez à chegada. Não me largava..."
















