12 abril, 2017

A Gaivota - um conto acidental

"Estamos nós, gaivotas, a olhar para o fim da liberdade no nosso mundo?"

"Olá" - grasnou ela, do lado de fora da janela.
"Olá" - respondi-lhe dirigindo-me a ela, nem me ocorrendo que pudesse fugir à minha aproximação. Não fugiu. Abri devagar a vidraça que estava mais afastada, e ela acompanhou o gesto sem se mover. Parecia até que o esperava. Sem saber o que fazer não fiz nada, olhava-a. Ela nada fazia e olhava-me também. Foram longos segundos, até que me lembrando que ela me tinha falado, falei-lhe.
"Que fazes aqui?"
"Espero! Espero que me dês alguma coisa de comer... qualquer coisa!"
Não me ocorrendo o que de melhor lhe dar dei-lhe o que estava mais à mão, uma peça de fruta, que fui dentando e bocado a bocado lhe ia dando à medida que ela, picada a picada a ia comendo. Acabada a peça a gaivota voou naquele vou elegante e ágil que tanto encantam os poetas.

No dia seguinte e no outro e no outro a cena foi-se repetindo, apenas o que lhe dava a comer ia mudando. 

Hoje, antes de pousar no meu beiral pousou num candeeiro em frente e fitou-me, de lado, longamente. 
Fiquei ali esperando o que ela iria fazer de seguida, até que voou ao meu encontro e disse:
"Sabes?, vou partir!"
"Quando?
"Agora! o bando me espera! Vim, não para comer mas te deixar o meu obrigada! Não são muitos os homens que alimentam a liberdade, agora que é hora em que ela mais periga!"

E grasnando ao bando que naquele momento ia passando, voou ao seu encontro e lá foram em direcção ao mar...

Rogério Pereira 

8 comentários:

Anónimo disse...

Bela alegoria!

Abraço,

Maria João

Graça Sampaio disse...

Gosto muito de gaivotas, mesmo da que não mostram gratidão...

Janita disse...

Que bonira história
de como se pode alimentar
com comida e mimo,
todos os seres
que têm por destino
a liberdade de poder voar, voar...

De um acidental pouso de gaivota, nasceu um belo sonho de dar voz ao sonho de liberdade...Muito lindo.

© Piedade Araújo Sol disse...

que história deliciosa de ler e além de estar bem escrita está documentada o que deu mais ênfase à mesma.
gostei tanto..
aproveito para desejar um boa Páscoa para ti e a tua família.
beijinhos
:)

Rogerio G. V. Pereira disse...

Sabia que ias gostar

Rogerio G. V. Pereira disse...

Dizem os poetas
que todas as gaivotas são gratas

Rogerio G. V. Pereira disse...

Ela hoje voltou
Ia-lhe perguntar se tinha lido
não tive tempo. Voou

Rogerio G. V. Pereira disse...

Gostaste?
Lê-a a uma criança
Se sorrir
é porque é realmente deliciosa